"Todos os meus versos são um apaixonado desejo de ver claro mesmo nos labirintos da noite."
Eugénio de Andrade

terça-feira, 17 de maio de 2011

O "Coin"



Sempre fui tremendamente distraída e despistada desde que me conheço.
Quando era mais nova, nas situações embaraçosas que a minha distracção me criava, pensava que um dia, com a idade, com a experiência, eu seria uma senhora, o que para mim significava, naquela altura, que eu ficaria curada desses despistes e distracções.
Mas, infelizmente, hoje reconheço que esses males não têm cura. A doença é crónica e irreversível, e até se tem vindo a agudizar com o decorrer dos anos. A única diferença é que agora eu consigo falar das tais situações, rir-me delas, contá-las às minhas amigas…Mas em relação aos meus filhos adolescentes, nem pensar…esses continuarão na ignorância destas minhas aventuras…Bem basta quando elas ocorrem debaixo dos seus olhos, e eu tenho que me sujeitar aos seus comentários implacáveis…
É que ninguém gosta de ter uma mãe ou pai tão totós, que param, por exemplo num cruzamento, a perguntar a um condutor: “ Vou bem para tal sítio? “ e, depois de terem ficado a saber que se enganaram, verem, chapadinha à sua frente, a placa a indicar a direcção que tinham acabado de perguntar.
Realmente é profundamente ridículo, e os adolescentes não perdoam aos progenitores situações destas.
Estou a lembrar-me de uma dessa situações em que os meus filhos não estavam presentes e eu fiz uma triste figura, — mas, felizmente, esta até foi bem disfarçada — e, claro, em casa, eu remeti-me a uma omissão pura e simples.
O “Fórum” abriu na minha cidade e eu resolvi ir até lá para dar uma vista de olhos, ver as lojas…
Como tinha aberto também o estacionamento subterrâneo, conduzi o meu carro até lá.
Nos estacionamentos subterrâneos pagos que costumo utilizar, há uma máquina que emite um cartão quando entramos no estacionamento, o qual, depois de efectuado o pagamento, se introduz noutra máquina que nos levantará a barra que nos permite o acesso à saída. Aqui, em vez do cartão, retira-se uma moeda verde, de plástico. Mais moderno, portanto.
Entrei no estacionamento e tive o cuidado de guardar a moeda numa das bolsas laterais da minha carteira, para depois não perder tempo à procura dela. Ao cabo de cerca de duas horas, fiz o pagamento. Recebi troco e um bilhete que estranhei não ser rígido, mas maleável. Peguei no automóvel e, depois de andar às voltas e não encontrar a saída, perguntei a um segurança que andava por ali numa moto 4,e ele respondeu-me:
— Okay, siga-me, por favor! Tem a sua “coin” ?
— “Coin”?! Não! Só tenho este bilhetinho que comprova o pagamento.
— Mas devia ter consigo uma moedinha verde. Não tem?
— Não! Certamente ficou na máquina!
— Em que máquina pagou?
— Naquela!
— Vamos lá ver!
Nada de “coin“!
— Bem, então… terá de se deslocar ao primeiro piso, ao “guichet” central e expor a situação.
Voltei a estacionar a minha viatura, e lá fui ao tal”guichet”central, onde estava uma menina no computador e outro indivíduo.
A menina explicou-me que, a ser assim, eu ia ter que pagar as horas do estacionamento desde as oito da manhã até àquele momento (seriam 18 horas ), mais cinco euros , que era o valor do “coin”.
Eu comecei a rir-me, de tão nervosa, e disse:
— Desculpe lá, mas isso é que eu não pago! Então se eu tenho aqui o talão que atesta as horas a que eu entrei, o tempo que cá estive, e que o pagamento está efectuado, hei-de pagar o estacionamento desde as oito da manhã até agora? Não pago!
Bem, a menina foi falar com o outro “fulano”, que veio, muito calmamente, explicar-me que eram normas da empresa, que eles eram funcionários, e que eu não tinha outro recurso, senão pagar.
— Então nesse caso o meu carro fica aqui e eu vou telefonar já ao meu advogado (faz muito bem ver muitos filmes), e ele dir-me-á o que hei-de fazer – disse eu, nervosíssima, completamente fora de mim, mas a tentar mostrar uma calma que estava muito longe de sentir. — E já lhe digo, é a primeira vez que aqui venho, e a última. Pelo menos estacionar aqui é que nunca mais.
— Faça o favor de me acompanhar, que eu vou falar com o meu chefe!
E lá vou eu, seguindo o homem, completamente ansiosa, nervosa, enfim...
Lá fomos ao piso não sei quantos, e o homem entrou lá num gabinete, e eu fiquei num “hall”, à espera da decisão suprema.
Pouco depois voltou com a decisão: só teria que pagar o “coin” (eu já estava a ficar irritada com o “coin”! Porque lhe não chamavam pura e simplesmente moeda, ou ficha, e tinham que ser tão parolos, com o “coin” para trás e para a frente, tendo nós em bom português, o seu correspondente?), que era cinco euros. Eu respondi que sim senhor, e o homem foi comigo junto da máquina para eu poder sair do estacionamento...
Antes disso o cavalheiro passou-me um recibo e disse-me que, caso o “coin” aparecesse, que poderia reaver o dinheiro, bastando, para isso, apresentar aquele impresso.
Passados dois dias, quando despejava o porta – moedas à procura de 50 cêntimos para o carrinho do supermercado, o que é que eu encontrei? Isso mesmo, o malfadado “coin”, misturado com as outras moedas. Sou ou não sou maluca?
Tinha guardado a moeda automaticamente, juntamente com o troco, e era capaz de jurar pela minha vida que nunca tinha retirado nenhum “coin” da máquina de pagamento!
É claro que me calei, e nada de vir fazer tristes figuras, entregando o “coin” a troco de uns miseráveis cinco euros sobretudo depois de ter “pintado a manta”, e de me ter sentido vítima de uma profunda injustiça!



quinta-feira, 28 de abril de 2011

Cabelo e alma vermelhos



Hoje pintei o cabelo. De vermelho. Púrpura. Não, não ficou tão agressivo como a cor púrpura poderia deixar adivinhar. Sou morena, o meu cabelo é castanho-escuro, por isso ficou assim um tom castanho com reflexos vermelhos bastante pronunciados.Cor de vinho escuro. Ao princípio pareceu-me que não ficaria nada de jeito. Mas agora gosto, e muito. Mas acho que não é para manter durante muito tempo. Ando à procura de um tom que me convença, e não consigo encontrar. O que tinha anteriormente era cor-de-laranja, mas no meu cabelo ficava assim um tom loiro escuro com reflexos laranja. Mas também não é este tom que me agrada. Quero um laranja avermelhado, assim um tom de fogo. Por isso, vou continuar a procurar. Só que desta vez, fiz uma tenda incrível na casa de banho. Ficou tudo sujo de vermelho: roupão, toalhas, pijama…Das outras vezes que tingi o cabelo, não fui tão desastrada, ou melhor: eu tive tanto cuidado como das outras vezes, o resultado é que foi diferente. Quando o Alfredo chegou de S., estava eu ainda com o cabelo todo empastado de vermelho. Já tinha a carne e as batatas a assar no forno, mas estava durante o tempo de espera, até que a tinta actuasse. O Alfredo assustou-se com o vermelho à volta das orelhas, no pescoço, na testa. Quando abri a água para sair a primeira camada de pintura, antes de usar o champô, ofereceu-se para me ajudar. Do cabelo saiu imensa tinta vermelha, parecia que alguém estava a sangrar. Brincou com a situação, mas não consegui libertar-me do vermelho que me tingia a pele.
Desceu para a cozinha e, passado um bocado o nosso filho subia, com um ar malandro, para “gozar”, dizia ele, com a minha cor vermelha. Felizmente a tinta (pelo menos a maior parte), já tinha saído, e ele mostrou-se desiludido por não encontrar motivo para gozar. Enquanto o Alfredo orientava o almoço, eu fui para o terraço e sequei o cabelo à luz do sol. Aí é que eu fui vendo a cor final do cabelo, que se foi revelando à medida que ia secando. E eu ia olhando para o reflexo do vidro da janela, a gostar do que via.
A minha filhota chegou e perguntou-me porque escolhera eu aquela cor horrorosa para pintar o cabelo. O Afonso também se mostrou pouco agradado. O Alfredo não comentou, mas quando o confrontei, disse que gostava. É uma qualidade dele, gostar das coisas diferentes que eu escolho para usar, seja roupa ou cabelo. Tem um espírito mais aberto do que os filhos, principalmente a Sara, que é bastante conservadora. Se ele também não gostasse, paciência. Mas eu gosto, até ver. As minhas unhas e a pele dos dedos têm vestígios da melindrosa operação a que me entreguei. Qualquer investigador dos CSI tiraria conclusões, quiçá precipitadas, do tom avermelhado dos meus dedos e unhas. Isto porque não vi logo as luvas que costumam acompanhar a embalagem de tinta. Até pensei que já não trouxesse luvas. Mas estavam muito bem aconchegadas no panfleto informativo que acompanha a tinta e, como eram transparentes e já vejo mal ao perto, não as reconheci. Por isso misturei as tintas sem as luvas, e só depois fui procurar umas (tenho sempre em casa material de limpeza). Quando já não precisava delas, é que descobri as que vinham na caixa.
Bom, mas isto tudo para dizer que me sinto bem com a minha cabeleira, apesar de não ter sido aprovada pelos meus filhos. Aliás, da parte deles já sei que não posso contar com palavras de encorajamento, seja para o que for, pois a onda deles é sempre do contra. Apesar de serem praticamente adultos, continuam a comportar-se como estando em plena adolescência. Qualquer atitude da minha parte, que seja discordante de algo que eles fazem, ou pensam, é o rastilho para uma enorme discussão ou mal-estar. Mais um pequeno episódio que o comprova, decorreu hoje, durante o almoço.
O arroz estava ao lume, a acabar de cozer.
Estávamos sentados lá fora, aproveitando a temperatura maravilhosa. Tocaram à porta e o Alfredo foi atender. Desligou o fogão. O Afonso já estava a comer, e tinha pedido o arroz. Eu trouxe o arroz para a mesa e pareceu-me que ainda não estaria cozido. Aliás, estava ainda bastante húmido. Como os meus dois filhos estavam já sentados à mesa, servidos de carne e de batatas e aguardavam o arroz, eu tirei uma pontinha de arroz numa colher, e disse:
— Olha, Afonso, prova, vê se já está cozido.
Pareceu-me lógico que lhe desse a provar.
O que eu fui fazer! O meu filho zangou-se comigo, dizendo que não tinha nada que lhe colocar o arroz no prato, que provasse eu, etc., etc., etc.
Enfim! Isto foi o suficiente para me deixar irritada também, porque eu não compreendo como pode ele reagir de uma maneira tão agressiva, por uma situação menor. Resolvi deixar passar, embora a irritação fosse notória aos olhos do meu marido, que entretanto entrou na cozinha, vindo de atender a porta, e reparou no meu estado de espírito. Pouco depois, e já a levantar a mesa, lembrei-me de sugerir à Sara a mudança dos lençóis lá na casa do Porto à 5ª feira, pois podia pedir a uma das amigas que a ajudasse a fazer a cama, e depois seria ela a ajudar a amiga. Não gostou da sugestão e, rispidamente, como se eu a tivesse maltratado, respondeu-me que ela conseguia perfeitamente mudar os lençóis sozinha e que, se ainda o não fizera, foi porque não tivera tempo, e que era melhor que eu a deixasse em paz.
Em paz ando eu durante a semana, com eles fora. Apesar de os aguardar com saudades e gostar que eles venham, quando eles chegam a minha paz de espírito vai-se, o “stress” instala-se, e eu enervo-me profundamente.
Retomei a arrumação da cozinha, enquanto as lágrimas me corriam pela cara. Então, não pôde deixar de me ocorrer que não posso ligar a estes pormenores, porque, em contrapartida, eles são saudáveis, atinados, e eu tenho a família “unida” ao fim-de-semana, um emprego de que gosto, saúde, etc. Mas todos saíram e deixaram-me a arrumar a cozinha. Nenhum perguntou, sequer, se eu precisava de ajuda…
O Alfredo partiu para a aldeia, cortar as ervas lá na casa de campo. A Sara saiu com um velho amigo de infância, e o Afonso declarou que ia ter com o pai. No corredor, amontoava-se a roupa que os meus filhos trouxeram para lavar. Comecei a rezingar. O Afonso foi dizendo que eu estava sempre maldisposta, sempre a barafustar… Retorqui:
— Tens razão, filho, a partir de agora vou deixar de barafustar. Vou agir. Vocês já são crescidos, por isso, se querem a roupa lavada, lavem-na. O meu filho saiu. Eu saí a seguir depois de me arranjar, olhar-me ao espelho, achar que estava maravilhosa…E aqui estou, na esplanada da pastelaria do bairro onde vivo, escrevendo estas linhas.
Sinto-me bem, poderosa, animada. Está um lindo dia e pretendo gozá-lo. Não são os meninos mimados que eu não soube educar no respeito pela mãe, (no que tive a ajuda do pai), que vão estragar-me o dia.
O sol aqui já se está a afastar. Vou para casa, para o meu terraço, apanhar sol, com um bom livro por companhia.
Gracias à la vida!

sexta-feira, 22 de abril de 2011

A praia





A excitação dos preparativos acumulados durante dias a fio, presenteou-a com uma noite de vigília. Uma noite de lençóis amarrotados, pernas e braços atirados fora do colchão, murros no travesseiro, voltas e reviravoltas, suspiros de desespero.
O cansaço atirou-a finalmente para aquele estado de sonolência em que se esvai a noção do local onde nos encontramos. Um estado do qual se assoma mais cansado do que se partiu.
Acabou por sair da cama, meio trôpega, e, depois de atravessar a porta do quarto, viu acesas as luzes do corredor.
A mãe, com um ar cansado, andava de trás para diante, colocando roupa numa grande mala aberta em cima de duas cadeiras. No chão, outra mala, exactamente igual, abarrotava, aguardando, talvez, o jeito e a força do pai para a fechar.
A mãe olhou-a, e sussurrou:
— Vai dormir, ainda é cedo!
— E você, mãe? Já dormiu?
— Não te preocupes. Vá. Vai dormir. Ainda é muito cedo. O pai vai acordar-vos quando chegar a hora.
— Vou beber água.
— Mas depois tenta descansar. E não andes aí descalça!
Lurdes dirigiu os seus pés nus até à cozinha. Deu a volta à torneira da enorme talha de barro vermelho que estava assente num dos cantos da cozinha, e a água jorrou para uma caneca de esmalte, antes de a emborcar, límpida e fresca, pela goela abaixo.
Voltou para a cama. Fechou os olhos, mas o sono andava arredio. Do pensamento não lhe saíam todos os momentos dos preparativos, desde que souberam que iriam de férias, durante um mês, para a praia. Figueira da Foz. Ela nunca tinha visto o mar. Ao vivo, quer dizer. Já o conhecia dos calendários. Na véspera, estivera ela em casa da Aurora costureira, até bem tarde, enquanto ela lhe colocava a espiguilha no fato de banho vermelho que a mãe lhe mandara fazer. Era lindo, de popelina vermelha escura, todo cheio de franzidos. E, à volta dos ombros, um folho largo, descaído, orlado da espiguilha branca. Fora preciso recorrer à Aurora costureira, já que a D. Maria Fontes, que, durante quase um mês, trabalhara quase exclusivamente para a mãe, não conseguira dar conta deste seu tardio capricho. E D. Maria não teve mãos a medir. Calções e camisas para os seus irmãos, saias, vestidos, blusas e corsários para ela…Para a mãe, vestidos lindíssimos, lisos e estampados, um fato de saia e casaco cinzento, muito elegante, com as mangas do casaco a três quartos, e à frente, só um grande botão à volta do pescoço, de onde saía uma carreira de tecido desfiado. Duas blusas para o fato. Lurdes não se lembra de que o pai tenha feito qualquer preparativo especial…roupa, quer dizer…
A Chinha, nora de D. Maria Fontes, de férias em Portugal, vinda do Congo, assumira o papel de conselheira da mãe e era vê-las às duas a consultarem os figurinos, e a mãe, excitadíssima, a submeter-se às indicações de quem sabia. Sim, porque as fotografias não mentiam. A Chinha, sempre elegantíssima, num ambiente rodeado de palmeiras, e um belo carro descapotável. A Chinha a ser servida por vários criados negros. A Chinha, num safari, sabe-se lá onde…A Chinha…
E a mãe, a sua mãe, ignorada naquelas berças, a ter que alombar com todo o trabalho da casa, a cuidar dela e dos dois irmãos, e do pai, que se sentava à mesa a exigir ser servido e nunca sequer pusera a mesa, a sua mãe sem criados, sem vida que merecesse ser contada, a deixar-se encantar por aquela outra vida que parecia retirada de um conto de fadas.
E os filhos da Chinha, dois rapazes, o mais velho da sua idade, cada um dentro de seu carro, carros de brincar, como ela nunca imaginara que pudessem existir, iguaizinhos aos dos adultos, e que andavam mesmo, movidos a pedais…Os únicos carros que ela conhecia parecidos com aqueles, e no entanto tão diferentes, eram os que eram feitos com uma prancha de madeira dos caixotes de sabão, e rodas aproveitadas no lixo onde eram lançados os desperdícios da fábrica. Os garotos montavam em cima deles, que começavam a deslizar pela calçada, ganhavam balanço, e transformavam os rapazes em donos do mundo. Mas eram brincadeiras vedadas às raparigas.
E as fotografias que mostravam os dois irmãos muito direitos, começaram a aumentar, a aumentar, a aumentar, rodearam Lurdes e eles a chamarem-na para dentro dos carros, e ela entrava no carro do Nuno… Era um carro vermelho de madeira, que começou a andar aos tropeções, por uma enorme seara…Mas a seara transformou-se num enorme campo espelhado, de onde começavam a brotar girassóis vermelhos, que tinham olhos e bocas de peixe, e todos os girassóis, com as suas bocas de peixe, começavam a cantar, desafinadíssimas: “Bom barqueiro, bom barqueiro, deixa-me passar, tenho filhos pequeninos, não os posso deixar…” E o carro deslizava naquele chão espelhado, por entre os girassóis que não paravam de crescer, crescer, crescer e iam cantando a mesma cantilena…
— Vá, meninos! Está na hora!
A fotografia encolheu rapidamente. A voz do pai encheu o quarto. A voz do pai, sempre autoritária, tinha agora laivos de condescendência.
O irmão mais velho acordou logo, mas o outro continuou a dormir. O pai afastou o cobertor e deu-lhe uma leve palmada no rabo. Ele voltou-se, fitou o pai com aqueles olhos enormes e pestanudos, e, com uma voz meiga e infantilmente ciciada, perguntou:
— É agora, pai? Vamos ver o mar?
— Agora vamos tomar o café. O mar é só mais logo, depois da viagem.
**********

Acordaram quando o carro parou.
— Olhem, meninos, é o mar!
Lurdes sentiu um cheiro forte a entrar-lhe pelas narinas.
— A que cheira, pai?
— A maresia. Cheira a maresia. É o cheiro próprio do mar.
O céu parecia-lhe um reposteiro a conter aquela imensidão de água cintilante e doirada. Pássaros planavam ao longe. Sentiu uma emoção muito forte, inexplicável.
— Que lindas as andorinhas!
— São gaivotas, filha! Gaivotas!
— Podemos?
— Sim, vão lá!
Quando Lurdes pisou a areia fina e quente, ajoelhou-se, enterrou as mãos, riu-se das cócegas, rebolou, correu, saltou, gritou de felicidade. Depois correu para as ondas, seguida de perto pelos pais e irmãos. Assustou-se quando sentiu a água fria a rodear-lhe os pés.
— Que bom! Que lindo! Tanta água!
E havia lágrimas nos seus olhos.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Regresso



Nasci no sítio errado. Num vale perdido no meio da serra. Não obstante todas as suas belezas naturais, senti sempre que o meu lugar não era ali. Que era fruto de um tremendo equívoco. Em miúda, e durante muito tempo, pensei que era ali o fim do mundo, o lugar onde a terra acaba. E que, para lá dos montes, era o nada. Quem entrasse na aldeia, só podia sair pelo mesmo caminho, voltando para trás, recuar, retroceder. E quem retrocede, quem volta atrás, desfaz o caminho percorrido. Como quem se arrepende de ter escolhido aquele caminho. Ou como quem dá conta que se perdeu. E tem que voltar atrás, refazer o caminho. É isso. Como quem se perde. Então, eu, ao nascer, perdi-me, porque abri os olhos para a vida naqueles montes serranos, naquela aldeia sem futuro, como sem futuro prometiam ser as vidas ali concebidas e que ali abriam os olhos para uma vida sem promessas. Cresci com uma sensação claustrofóbica, que só muito mais tarde viria a identificar como tal. Olhava à minha volta, e só via montes a cercarem-me, montes ameaçadores que se fechavam sobre mim e me gritavam um destino confinado e sem asas, e me roubavam a respiração, os sonhos, as ilusões.
Mas havia, mesmo assim, alguma esperança. A água que escorria pela serra, escavando sulcos nas encostas dos montes, e que de dia e de noite rumorejava pelos regos da aldeia, era a voz imperiosa e imparável que dentro de mim se erguia, e me prometia esperança. E eu esperava. Quando a noite chegava, essa voz submergia-me, e brotava em todos os poros do meu corpo. E eu pressentia, sem me ter sido ensinado, que essa água corria para algum lado, encontrava o seu caminho, desaparecia da minha vista, mas encontrava o seu refúgio, não voltava para trás.
Os meus pesadelos eram povoados de figuras aterradoras que me perseguiam e das quais eu fugia, fugia, fugia…Mas eu sabia como as ludibriar. Entrava no rego, unia--me a essa água que corria sem entraves, dissolvia-me nela, lançada numa corrida vertiginosa em abrupto declive, os ouvidos ensurdecidos com o fragor brumoso da cascata e eu acordava, enfim, liberta das garras da ave de rapina que, do alto do seu império, me devolvia à terra. E sentia o embate no meu leito, o coração num sobressalto, batendo descompassadamente. E, na noite, os meus olhos abriam-se, e voltavam a fechar-se, com a certeza de que haveria algures, no mais remoto escaninho, esperança. E readormecia reconfortada.
Aos domingos os meus olhos e sentidos ficavam prisioneiros de encantamento na janela mágica que se abria no Café em frente da minha casa, que me prometia outros mundos, outros céus, outras paisagens, outras pessoas, outras vidas. E mais uma vez o pressentimento de que talvez houvesse mundo para lá daqueles montes intransponíveis debruçados sobre mim, vigilantes, a transformarem os meus sonhos em pesadelos. Sim, havia outros mundos. Havia esperança. Esperança.
O mundo que os livros me prometiam, era mentira.. Eu sabia disso, mas mergulhava neles e devorava aquelas páginas que me levavam para além dos montes, porque cedo aprendera que só através deles era possível sair dali. E viajava dentro deles, emboscava-me naquelas páginas douradas, que me permitiriam sobreviver sem cicatrizes na alma.
Quando, finalmente, fui chamada a voltar para trás, a recuar, a retroceder, para ir estudar para a cidade, compreendi que se pode recuar e estar a caminhar em frente, para um futuro com esperança. Soube então que estava salva.
Mas o maior encantamento foi quando descobri o mar, quando descobri espaços amplos sem montes, quando descobri que as grilhetas que eu receava que me amarrassem irremediavelmente àqueles montes, àquelas enormes fragas suspensas nas encostas, àqueles pinheiros sussurrantes, poderiam ser quebradas como cordas esfiapadas, pela vontade indómita do meu querer. E foi aqui, em frente ao mar, que eu senti a união, o regresso ao ventre materno, a paz e tranquilidade que procurei, a razão do meu ser. Só aqui encontro a fonte inesgotável que sacia a minha sede, só aqui a minha alma ganha asas, voa e se liberta, volteia junto às gaivotas que cruzam os céus hoje sem nuvens. Aqui solto os meus medos, que transporto comigo como cães de fila sempre à espreita de avançarem e me congelarem os meus íntimos anseios. Apaziguo-os e eles dão-me tréguas, enquanto caminho pela marginal ou voo confiante pelo areal, ao encontro das águas do mar. Aqui sinto que é possível reconstruir-me como se voltasse ao princípio, ao primeiro momento de vida, quando abri os olhos pela primeira vez naquele vale. Abro-os aqui, em frente ao mar, e sinto que nada me detém. Já não há montes a subjugarem-me, nesta vida renovada, em que a parte de mim que andou perdida, se une à outra que sempre aqui esteve, à espera, à espera que eu chegasse e a reconhecesse.
Voltei a casa.

Companheiras


Era uma vez uma felpuda ninhada de gatinhos cinzentos, tigrados, que apareceu, resguardada pelos arbustos, no quintal da tia Juliana...
De manhã cedo, antes de ir para o trabalho, a tia Juliana viera estender uma máquina de roupa que havia ficado a lavar durante a noite. E fora alertada por uns guinchos débeis, vindos por detrás do arbusto.
Cheia de precauções, não fosse o diabo tecê-las, a tia Juliana afastou os arbustos e...ficou encantada e comovida, ao reconhecer a gata vadia (à qual ela por vezes deitava uns restos de comida, ou umas sopas de leite), pacientemente esparramada, enquanto oito novelinhos, de focinho rosado, empoleirados uns em cima dos outros, lutavam para chegar às tetitas da gata exausta।
Perante aquele espectáculo, a tia Juliana não pôde conter uma exclamação espantada। E os olhinhos meigos que a gata lhe lançou, enterneceram o coração de Juliana, que não se conteve que não dissesse:
— Pobre bichana! Arranjaste-a bonita! Olha em que trabalhos te meteste, enquanto o malandro do pai dos teus filhos, anda por aí no laró!
A tia Juliana não pôde deixar de reconhecer naquela gata vadia, uma homónima da sua sorte। Já havia algum tempo que deixara de a ver, mas agora, ao surpreendê-la ali, naquela situação, sentiu-se irmanada com o pobre animal।
Também ela ficara sozinha, com os quatro filhos, quando o seu homem decidira dar às de “Vila Diogo”!E ela lá os criara, à custa de muito trabalho, comendo o pão que o diabo amassou. E não precisara dele para nada. Deus ouvira as suas preces, e, realmente pusera “a mão por baixo”aos seus meninos. Agora, cada um seguira o seu destino: o mais velho trabalhava na “Carris”, em Lisboa. O mais novo era professor primário no Alentejo, e as duas raparigas, ambas solteiras por opção, tinham uma sociedade de”catering,”ou lá o que é, em Vila Nova de Gaia. Estavam todos bem, graças a Deus। O único senão é que ela estava sozinha, depois de ter tido uma vida cheia e sem tréguas, enquanto os criara. É certo que a visitavam com alguma regularidade, sobretudo as raparigas. Mas sentia-se só. Por isso mesmo, nunca deixara de trabalhar, e o seu trabalho como empregada doméstica, trazia alguma animação e distracção aos seus dias. As duas casas onde ela trabalhava, tinham crianças, como ela exigia. Quando cresciam, e iam para a Universidade, ela despedia-se, e ia procurar outras casas, onde houvesse outras crianças a precisarem do seu carinho de avó, já que os seus únicos netos, dois rapazes do filho mais velho, estavam tão longe. Foi buscar à loja o cesto das cebolas, que despejou no chão de terra batida, e, com mil desvelos, forrou o cesto com um cobertor velho। Em seguida dirigiu-se ao quintal e começou a pegar nos gatinhos. Ao princípio a gata levantou a cabeça, vigiando as crias. Olhou para a tia Juliana, e, nesse olhar aquela mulher pôde ler uma súplica muda. As palavras que lhe saíram da boca foram ditadas pelo coração, de igual para igual:
—Vá, sossega!
A gata voltou a poisar a cabeça। Parecia muito fraca। Finalmente a tia Juliana pegou –lhe, e ela não ofereceu resistência। Uns gemidos fracos e cansados foram a sua única reacção। A anciã ajustou os gatinhos, de modo a que pudessem ir mamando।
Uma suspeita foi nascendo no espírito da Tia Juliana, que se dirigiu à gata:
— Ó mulher, tu não vais morrer, pois não? Olha que tens estes filhos todos para criar! E uma mãe nunca desiste, ouviste?
Foi à cozinha, esmigalhou o pão da véspera, ao qual acrescentou um pouco de leite। Aproximou-se da gata, que não mostrou o mínimo interesse pela oferta।
— Ai a nossa vida! Isto assim não pode ser! Tens que te alimentar! Como queres ter leite para esta filharada, não me dirás? Ah! Já sei! Estás enjoada, não é? Espera aí!
Voltou à cozinha e trouxe uma lata de sardinhas, que abriu mesmo à frente da gata.
—Olha-me só este cheirinho! Ora prova! Não queres?! Queres ver como é bom?
E, pegando num bocadinho, levou-o à boca, esperando, com o seu exemplo, convencer a gata a comer:
— Tão bom! Ora prova!
Perante a indiferença da gata, a tia Juliana levantou-se, e avisou:
— Bem, tenho que ir trabalhar। Vou-te deixar, mas volto! Ficam-te aqui as sopas e as sardinhas e vou-te pôr também uma taça de água। Quando voltar, quero ver que comeste alguma coisa। Até logo!
Durante a manhã não lhe saiu da cabeça a pobre bichana। Foi com algum esforço que fez o seu trabalho, enquanto aguardava que os meninos chegassem para almoçar। Então contou-lhes, com os olhos cheios de alegria, dos oito gatinhos que lhe tinham aparecido no quintal। Mas, ao falar-lhes da mãe, os seus olhos tingiram-se de negro, pelo receio que lhe ensopara a alma। O Bernardo lembrou –se logo:
__ O pai da Rita da minha turma é veterinário। Eu logo já falo com ela। Nós estamos a fazer um trabalho em “Área de Projecto” sobre os animais abandonados। Até podemos arranjar donos para os gatinhos!
— Não, menino! Donos, não! Eles têm dono, aliás, dona!
Naquele momento Juliana assumira aquilo que ainda nem sequer pela cabeça lhe passara: ficar ela a cuidar dos gatinhos। Mais tarde, acabaria por concluir não possuir condições para desempenhar aquela tarefa e, efectivamente, os gatos foram partindo, para casas onde seriam bem cuidados, mas sempre acompanhados por duas lágrimas da tia Juliana, e pela promessa de que os nomes com que ela os baptizara, haveriam de prevalecer। Só guardaria para si a Zélia, a mãe।
— Se o pai da menina Rita pudesse ver a gata!
E a excitação, doseada pela preocupação da tia Juliana, fora o rastilho que em breve incendiaria a turma do 6º ano da escola frequentada pelo Bernardo। Aquela “Área de Projecto” rapidamente tomou outros contornos। A Rita implicou o pai no tratamento da Zélia (então ainda sem nome), que necessitou de uma intervenção cirúrgica, sem a qual teria morrido।
Sem conhecimentos médicos, mas com grande sensibilidade, a tia Juliana apercebeu-se do estado da gatinha।
E é vê-las no quintal, logo pela manhã... A tia Juliana a estender a roupa, e a gata a seguir todos os passos da sua companheira, sim, porque a relação entre elas é de companheirismo, e não de dona / servo।
Enquanto estende a roupa, a tia Juliana vai falando com a Zélia, que lhe responde com miados, ronrons, gemidos, silêncios, arrebitamento de orelhas, acenos de cabeça, saltos mais ou menos calmos...E a tia Juliana aprendeu a reconhecer, nestes gestos de Zélia, o assentimento ou a discordância ao seu discurso, num diálogo perfeitamente animado e interactivo।
Quando chega a hora de dormir, Zélia dirige-se para o quarto comum, deitando-se na sua almofada, enquanto aguarda que Juliana faça a sua “toilette” e encoste, também ela, a cabeça na almofada que lhe pertence।
Nunca mais a tia Juliana sentiu o peso da solidão a marcar-lhe as horas, os dias, os meses... Encontrou uma companhia com a qual pode conversar, que a escuta e compreende melhor que ninguém। Disso ela não tem a menor dúvida।

sábado, 19 de março de 2011

Desentendidos


A minha linguagem
Não consegue tocar-te a alma.
Lês nas minhas palavras
Agressões que não transporto.

As minhas palavras
Não querem dizer
O que dizem as tuas palavras
Mas o que me não dizes,
Também me faz doer...

As palavras que te digo
Abrem feridas não saradas
Impotente, calo o meu dizer
Ficam a doer-me
As palavras caladas

Doem e queimam
As palavras não-ditas...
Malditas,
Ecoam...
Ressoam...
Fazem ricochete
Em subentendidos
Desapercebidos.

Desencontros



Marca-lhes os passos
Amarra ferrada na carne
Dos dias apagados amortecidos
Por inexistentes sobressaltos

Invisíveis fios inquebráveis
Amarras sem remédio
Vidas amarradas confinadas
Pelo tédio

Vidas sem caminho
caminhando
De costas voltadas
Em caminhos sem encontro

sexta-feira, 11 de março de 2011

Violência





Não era de ferro. Sabia que lhe competia guardar a casa, mas se via uma aberta, pirava-se. A sua natureza chamava por ela. Era um apelo demasiado forte para ser ignorado.
Olhou para ele. Alto, autoritário, pernas abertas, de chibata na mão direita. Batia com ela na mão esquerda, ritmicamente, experimentando o poder desse instrumento que costumava descarregar nela.
— Anda cá! Aqui! Já!
Avançou para ele, rastejando. Mal conseguia suster-se nas pernas. Um medo espesso começava a inundar-lhe os sentidos, paralisando-os.
O coração, descomandado, batia-lhe na boca, ameaçando sair disparado.
— Ah! malandra! Chega-te aqui! Já te vou ensinar a respeitar as ordens.
Aterrorizada, viu-lhe as botas cada vez mais próximas. Aninhou-se, à espera do castigo. À sua volta começa a alastrar uma poça de água tépida.
Fere-lhe os ouvidos o riso despropositado do dono. Um riso quase tímido, primeiro, depois desembestado. Um riso que adivinha cariado e negro, quente e pesado.
— Já não susténs as águas? Mijaste-te de miúfa, não foi?!
Só então se apercebe da natureza da água. Mais do que as chicotadas a que costuma submetê-la, dói-lhe aquele sorriso escarninho, que a sufoca em marés de continuado desprezo.
Levanta-se. Segura-se firmemente nas patas traseiras. Recua. Mede a distância. Dispara em galope, derruba o dono e crava-lhe os dentes na garganta.
Não era de ferro.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Castigo implacável




Já havia algum movimento no andar de cima, na casa da avó. Era preciso levantar-se, e ir para a escola… mas estava tanto frio…Já tinha tentado pôr o nariz de fora dos cobertores, e sentira-o a ficar gelado, gelado… Encolheu-se mais um pouco, colocou-se em posição fetal, juntou as mãos entre as pernas, e pensou que tinha que ser… Do lado de fora, a avó desceu as escaleiras de pedra e veio bater-lhe nos vidros da janela do seu quarto que dava para o quintal comum. Sem contemplações, a avó gritou que eram horas, que estava atrasada. Foi então o momento de deslizar para fora, deixando o irmão mais novo ainda na cama. Sentiu uma inveja profunda, por não poder ficar ali, ao pé dele, no quentinho. O frio do quarto penetrava-lhe a carne até aos ossos. Vestiu-se rapidamente, lavou as mãos, a cara, e chamou a mãe. Ela lá veio, ensonada e friorenta. Rapidamente aqueceu-lhe uma caneca de cevada com leite, e preparou-lhe um pão com manteiga…O nervosismo de Lurdes era agora cada vez maior. Ganhou finalmente consciência de que estava atrasada e de que iria enfrentar o mau génio e o castigo implacável da professora. Queixou-se à mãe e começou a choramingar… A mãe tentou acalmá-la, dizendo-lhe que ainda faltavam vinte minutos para as nove horas…Este argumento irritou ainda mais a garota.
— Pois é, mãe, mas sabe muito bem que a professora nos quer lá mais cedo, e, se lá não estivermos, ela bate-nos…
— Essa agora, não tem nada que te bater, o horário é às nove, não é às oito e meia…
— Mas ela bate-nos…ela bate-nos…
E as lágrimas caiam pelas faces de Maria de Lurdes, antevendo já o castigo que nunca deixava de vir.
A mãe, também já nervosa, acicatava a filha:
— Então anda lá, despacha-te!
E a pequena saiu, agarrando no pão que ia mordendo pelo caminho, misturado com lágrimas e angústias…
Num passo apressado, caminhou para a escola, edifício novo que ficava afastado da aldeia, a uma distância considerável que era preciso vencer…subiu a rua onde morava, passou pela igreja, pela farmácia, percorreu a praça da aldeia, atravessou a rua, com o nariz vermelho enfiado no cachecol, avançou pela rua da Amoreira, a sacola a pesar-lhe cada vez mais… entrou finalmente na Carreira. Aqui o frio era insuportável…Não havia casas …apenas o edifício do apeadeiro das carreiras que quebravam o isolamento da aldeia e a mantinham em ligação com outros mundos…filas de carvalhos perfilavam-se ao longo da avenida…De um e do outro lado da estrada, rugiam os ribeiros que da serra traziam as águas que alimentavam os campos e as casas.
O vento assobiava forte, impedindo a garota de progredir na sua caminhada…O seu corpo frágil e franzino avançava um passo, e o vento obrigava-a a recuar dois… O frio penetrava através da malha grossa do passa-montanhas tricotado pela mãe, arrepiava-lhe os cabelos, e o vento impedia-a de respirar…Os pés enfiados nuns botins de borracha, estavam gelados, apesar das meias grossas que apenas lhe chegavam aos joelhos. Esses nem os sentia... Depois de ultrapassar este obstáculo, Maria de Lurdes, protegida pelas casas, e pelas construções fabris, sentia o vento mais ameno. Começava agora outra etapa…era preciso subir os barrancos de terra batida, quase a pique…A respiração entrecortada denunciava-lhe o cansaço. Quando finalmente se encontrou em terra plana, e avistou a escola ao fundo, começou a sentir menos frio, mas a angústia aumentada. O coração batia-lhe descompassadamente…
Sabia que era tarde, pois não encontrara pelo caminho nenhuma colega da sua sala, nem da sala dos rapazes…
Entreabriu a porta, como um criminoso que volta sempre ao sítio do crime. A lengalenga da tabuada cantada ou da conjugação dos verbos, era a toada que saía pela porta entreaberta. Tentou passar despercebida e esgueirar-se para a carteira, como tantas vezes já vira fazer a algumas colegas…Mas não teve sorte... A professora ferrou-lhe os olhos em cima, e, com um gesto, chamou-a para junto de si. A régua estava já a postos na mão do carrasco. Lurdes estendeu a mão sem uma desculpa que sabia inútil, a professora pegou-lhe na ponta dos dedos, e as reguadas caíram-lhe nas mãos geladas. Quase as não sentia naquele momento. Mas já conhecia o processo…As mãos começavam a ferver, sentia um formigueiro e uma dor insuportável, como se as mão lhe estivessem a cair…O esforço para não chorar nunca resultava. Ia para o seu lugar, tentava controlar-se, mas as lágrimas quentes e salgadas desaguavam-lhe nos cantos da boca. Sem um queixume tentava tirar os cadernos da sacola com a mão que escapara do castigo, visto que a outra estava por momentos inútil. Pior que a dor física, era a dor da humilhação…Tanto que ela gostaria de enfrentar a professora enquanto a castigava, de olhos nos olhos, sem que nenhuma lágrima lhe denunciasse a fraqueza... Mas nunca o conseguira…era obrigada sempre a baixar a cabeça, numa tentativa de disfarçar…Felizmente que também nunca fizera a fita que fazia a Elsa quando era castigada…Chorava, soluçava alto e bom som, as lágrimas a deslizarem umas atrás das outras sem cessar…Como é que ela conseguia fabricar tanto líquido em tão pouco tempo, era para Lurdes uma incógnita. Depois, era preciso pôr rapidamente a funcionar a estratégia que lhe ensinaram para que a dor passasse mais depressa…quando a mão fervia, o melhor era colocar a palma virada para baixo sobre o tampo frio da carteira. Lentamente, começava a sentir-se um alívio… Mas, durante esse dia, era-lhe impossível olhar a professora nos olhos...

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Ao sabor dos pensamentos...




Que chuva horrível, logo hoje havia de estar um dia de Inverno, como é que logo havemos de ter a casa cheia, como tivemos ontem e anteontem, ontem ainda mais que na estreia, foi chato terem que mandar as pessoas embora, venham amanhã, já não há mais bilhetes, ah!, que viessem um quarto de hora mais cedo, já sabiam que as reservas só se guardam até um quarto de hora antes do espectáculo, não iam as pessoas ficar pespegadas à espera de entrar, ou mandá-las embora, porque havia bilhetes reservados que corriam o risco de não serem levantados porque os donos não apareciam, desculpa lá, deu-me uma dor de cabeça, apareceram visitas inesperadas à última da hora, isso é que era bom, agora já não caio nessa, já ninguém me toma por lorpa, mas chove, e continua a chover, e um arrepio… isto é psicológico, logo tinha que chover hoje, que precisávamos de ter gente a assistir ao espectáculo, não bastava o facto de ser domingo e amanhã dia de trabalho, o que desencoraja as pessoas a irem para a rua à noite, ainda tinha que vir esta chuva chata e deprimente a aborrecer…e a roupa que não seca, e a miúda precisa da roupa seca para levar, a farda, sobretudo a farda, como é que há-de ser, se aparece sem farda, a orientadora mói-lhe o juízo, parece que é perita a moer o juízo das estagiárias, ela devia era tratar-se, tem que se acender a lareira, vai a cheirar a fumo, mas paciência, a outra não se pode queixar do fumo, se a quer de farda, vai tê-la de farda a cheirar a fumo, isto não deve ser motivo para penalizar a cachopa na avaliação, não deve haver nenhum parâmetro sobre os cheiros das fardas, cheira a fumo, a sabão Alecrim, a amaciador do Lidl ou do Mini-Preço, ou a Chanel nº 5, isso é que era bom, mas pelo sim pelo não, o melhor é a pequena disfarçar o cheiro a fumo com o perfume das amoras de que ela gosta tanto, Mûre Sauvage, como diz o frasco, aliás, esse é o perfume que é a marca dela, da minha menina linda, às vezes, durante a semana vou ao quarto dela, abro o roupeiro e ponho-me a aspirar o perfume das amoras que está entranhado na roupa, e é tão bom, fecho os olhos e parece que ela está outra vez em casa, a inundar o silêncio com o seu perfume, mas é melhor acender a lareira, vou dizer ao meu homem, olha, parece que adivinhou os meus pensamentos, nem foi preciso eu falar, já está a acendê-la, para secar a roupa da menina, que vozinha tão melada põe ele para dizer menina , é bom quando o nosso homem nos adivinha os pensamentos, poupa-nos o latim, e se antecipa, em vez de estar a pensar, como eu, que há-de fazer, já está a fazer, os miúdos adoram o pai, que bom, adoro que adorem o pai, já que em miúda não tive grandes motivos para adorar o meu, antes pelo contrário, tinha pavor quando ele estava por perto, felizmente que não era muitas vezes, às vezes julgo que ainda estou traumatizada, mas já não me mete medo, tenho muita pena por ele não ter sido um paizão, agora já sou adulta, já era tempo de me deixar de traumatismos e de ganhar juízo, quando era miúda achava que quando crescesse seria uma mulher muito ajuizada e sem dúvidas nenhumas sobre nada, agora cada vez tenho mais dúvidas sobre quase tudo, e cada vez sei menos, e juízo ainda me falta algum, não sei se vou alguma vez adquirir todo aquele que devia pertencer a uma mulher adulta, quase sexagenária, por falar nisso, tenho é que ir fazer o almoço, o meu pessoal está aí a chegar para almoçar, e eu estou para aqui pasmada, a pensar na morte da bezerra, como é meu costume. Já chega.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Loucura


As mãos magras e compridas como garras, aconchegavam-lhe debaixo do pescoço o felpudo xaile de lã, que lhe descobria a fronte, e deixava escapar repas cinzentas, frágeis e sem brilho. O olhar transviado e breve varria tudo à sua volta. Daí o desejo de me tornar pequena, invisível aos seus olhos. E era. Mas eu não sabia. E o desconforto e o terror que esta visão me suscitava, cresciam dentro de mim, juntamente com a esperança de a não encontrar sempre que era obrigada a passar naquele bairro da minha aldeia. Seguiam-lhe os passos os cães que se iam juntando, e, calmos e silenciosos, a acompanhavam neste vaivém. Nenhum gesto nela denunciava ter dado pela presença deles, que não arredavam pé. Se alguém, desagradado pelo ajuntamento dos animais os enxotava, eles desapareciam momentaneamente, para voltarem a juntar-se pouco depois.
A mulher era alta (pelo menos assim se apresentava ao meu olhar infantil), e magra, quase cadavérica. A boca, onde escasseavam os dentes, lembrava-me uma caverna. A lengalenga que a acompanhava nas suas deambulações, era invariável, repetitiva e dolente.
— P´ra onde foi ela? P’ra onde foi ela? P´ra onde foi ela? P’ra onde foi ela?
Aquela pobre mulher metia-me medo. Não era só medo. Era uma mescla desse sentimento paralisante, com doses profundas de uma dolorosa e angustiante compaixão, sempre que a via andar de um lado para o outro, com um ar desamparado, repetindo continuamente as mesmas palavras, calcorreando a rua a todo o comprimento.
“Ela” era a filha, ocupada em serviços de limpeza, na casa de alguma cliente. Costumava ser contratada para fazer os trabalhos mais pesados. Esfregar os balcões e os chãos de granito, roçar os soalhos de tábuas de madeira corridas, retirar os restos de cera antiga, colocar nova, puxar o lustro, lavar as vidraças e janelas, arear os alumínios, ou as pratas e estanhos em casa dos ricos.
Mas a mãe, não tendo a filha debaixo do seu olhar demente, ficava num tal estado de excitação, que só se aplacava quando a rapariga, depois do serviço terminado, se lhe juntava. Seguia então a filha, como um autómato, descansando da busca e da cantilena. E, só nessa altura, quando a filha surgia no umbral da porta da cliente onde trabalhara naquele dia, os animais dispersavam também.
À mulher, nunca lhe ouvi outras palavras que não fossem as da lengalenga que ela recitava constantemente. Nem sei se ela mantinha com a filha o diálogo imposto pelas necessidades do quotidiano.

Após o distanciamento da infância indispensável à confissão dos medos que então nos tolheram, soube que a pobre mulher era inofensiva. O seu estado de demência fora provocado pelas mortes do marido e do filho, aquele na batalha de La Lys, este, ainda um rapazinho, atingido pelos estilhaços da explosão da mina da Panasqueira onde trabalhava.
Apesar disso, aquela figura continua a povoar as minhas reminiscências…






sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Preconceito




O bando de miúdos chega. Alguns com a ansiedade a morar-lhes nos olhos, outros com um ar de desafio, ou até uma falsa passividade arvorada. Fazem-se as apresentações, tomam-se mutuamente os pulsos. Meninos na sua maioria com altas expectativas relativamente à escola, delas ou dos pais. Difícil saber-se de que lado pesa mais a ansiedade. Grande percentagem de progenitores com formação académica acima da média: licenciados, mestres, doutorados…Crianças com sentido crítico desenvolvido, habituadas a manifestarem a sua opinião livremente, sem a regulação das regras de comunicação essenciais ao bom entendimento, clima e desenvolvimento de actividades. Começa a estabelecer-se a correspondência escola/ família, dando conta do ambiente na aula. As respostas canalizam a explicação para o desvario na criança que na turma se salienta pela diferenciação do nível social. As tentativas de descriminação da criança começam a ganhar corpo nos recados preocupados dos progenitores que, dando ouvidos às suas crias, se convencem ser aquela o elemento desestabilizador na sala. Vêm então pretextos baseados em odores reais ou imaginários, que só elas pressentem, abusivas distracções, atitudes desviantes, que só se manifestam ocasionalmente, e espoletadas pela necessidade de carinho e aceitação que os seus pares lhe negam. As hostilidades surgem da parte de quem, mais bafejado pela sorte, se sente com direito a fazer escolhas arbitrárias confortáveis e egoístas, mesmo que fazendo sangue à passagem, num local que se pretende ser palco privilegiado para facilitar e propiciar uma interactividade democrática sem clivagens sociais. O preconceito está na calha, prontinho para fazer vítimas. Não! Estão enganados! Os vossos meninos é que são os desestabilizadores! Como?!
Não fora a intervenção atenta e oportuna de quem é para isso mandatado, e teríamos mais uma criança perdida, revoltada, rebelde…

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Fantasias





Sentia-se atraída pelo universo fantástico povoado por príncipes e princesas, fadas e bruxas, madrastas e enteadas más vingadas pelos bons. Adorava sonhar com esse mundo de luxo, com vestidos majestosos de brocados, sedas, cetins e veludos, que estava tão perto nos livros que devorava… Interrogava-se sobre a razão por que tinha nascido ali, naquele tempo e naquele lugar, e não no tempo dos castelos, cortes e cortesãos, bailes e princesas a arrebatarem o amor do seu príncipe.
Fantasiava a sua vida. Vestia-se com um vestido que ela mesma alinhavara de um lençol velho, ao qual pegara o corpo de uma bata que a mãe tinha talhado havia algum tempo e que aguardava vez para lhe dar corpo. Depois, à volta do decote, pregara um bocado de tecido de pelo que estava destinado a servir de gola num casaco da mãe. Desenhara e recortara numa cartolina um cone que fazia de chapéu de bico, de onde saía um bocado de tule, mais um achado nas tralhas que a mãe guardava na arca, à espera de alguma vez poderem ser utilizadas.
Nessas alturas passeava-se com um ar circunspecto, assumindo a sua alta hierarquia de princesa. Adaptava a linguagem, dirigindo-se à mãe num tom altivo, estendendo-lhe a mão para que fosse beijada, e pedindo aos criados imaginários que fossem à cavalariça selar o seu cavalo para poder passear pelas matas do palácio. A mãe primeiro barafustava quando descobria que ela andara a remexer nos baús e deixara tudo virado de pernas para o ar. Mas depois ria-se, e aparava-lhe o jogo, respondendo--lhe muitas vezes no mesmo tom:
— Sim, vossa majestade! Ou: “Os criados foram despedidos.”
Aos domingos à tarde, ia sentar-se debaixo da mesa da sala de jantar, com a roupa de faz-de-conta, o queixo bem levantado, enquanto espreitava o programa infantil, que passava na televisão, no único canal que existia. Nessa altura o irmão mais velho, o qual naquela altura sentia mais adequado às suas brincadeiras, podendo fazer de príncipe (já que o mais novo seria demasiado pequeno para fazer esse papel), estava fora de casa, num colégio interno. E só vinha a casa por altura das férias. Lurdes sentiu-se ao princípio amputada do seu companheiro de brincadeiras. Mas a admiração que sentia pelo irmão mais velho foi-se acentuando, e aquelas longas esperas tornaram-no ainda mais desejado, venerado e querido. Era com verdadeira ansiedade que se aliava aos pais na espera, quando se aproximavam as férias, e reivindicava sempre um lugar no carro quando o iam buscar à estação do comboio em Nelas.
Dessa vez Lurdes sentiu-se triste e desiludida, quando o irmão, assumindo a sua posição de rapaz mais velho, pouco lhe ligou, mostrando abertamente que não alinhava em brincadeiras de miúdas. Mas Lurdes acabou por cativá-lo e a sua natureza ainda infantil não pôde resistir ao apelo das brincadeiras da irmã.
Durante o almoço houve comentários brincalhões, devido ao facto de o rapaz estar a estranhar a alimentação, o que se manifestara na expulsão de gases intrometidos. O irmão mais novo, então, fazia grandes fitas, colocando ostensivamente a mão no nariz, e abanando o ar com a mão, o que deixava António um pouco envergonhado.
Os garotos gostavam de se reunir na cozinha, à volta da mãe. E, enquanto ela ia lavando a loiça, António ia contando as peripécias vividas durante o tempo em que estivera fora de casa. Lurdes estava particularmente satisfeita com a presença do irmão. Desapareceu por instantes e voltou com a sua roupa e ares de princesa.
— Vá, eu agora sou uma princesa, e vou escolher o meu par para ir ao baile. Ponham-se os dois aqui.
E, enquanto falava, Lurdes alinhava os irmãos, que se deixavam conduzir, mas sem grande entusiasmo nem vontade de participarem em brincadeiras de meninas.
Com grande pose, Lurdes passava em frente deles, fingindo-se indecisa. Depois avança, ,pára em frente do irmão mais velho, que passou a ser na sua imaginação o seu príncipe, estende-lhe a mão, para que pegue nela e a conduza para a pista de dança imaginária, e diz:
— Que gentileza!...
Exactamente no mesmo tom usado pela princesa, o príncipe rejeitado, remata:
— Que “peidoco!...”
As gargalhadas divertidas da mãe contagiam os miúdos, que desatam também a rir gostosamente. Mas Lurdes não pôde deixar de se sentir levemente ressentida, por os seus irmãos lhe terem estragado o baile e a brincadeira que ela levava tão a sério…








quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

O pão




A massa branca e leitosa era afagada e torneada pelas suas mãos, até lhe dar o formato pretendido, até ficar bem redonda, como o ventre de uma mãe prestes a dar à luz.
Os meus olhos seguiam-lhe todos os movimentos. O seu olhar emanava um contentamento cansado, presente também nos gestos. Um último esforço, para se desprender dos bocados de massa branca que lhe cobriam as mãos e os braços quase até aos cotovelos, e ajeitar a bola redonda e perfeita, que ia surgindo. Vira-a peneirar a farinha, deitá-la na masseira, aconchegá-la em monte e abrir uma cova no meio, misturar a água fumegante aos poucos e poucos, que se escapava formando pequenos regos que ela ia buscar com as sua mãos sábias, para a reconduzir àquela amálgama que se ia formando. As suas mãos penetravam na farinha, em movimentos ritmados, e ela atirara-se com ardor à tarefa de amassar aquela mistura, para cá e para lá, depois o sal, e o fermento, e mais água, e as mãos que não paravam…depois retirou um pouco de massa, que colocou numa malga à parte. A sua respiração era ofegante, mas eu sentia-a satisfeita. Com os dedos polegar e indicador da mão direita, a fazer de pinça, agarrou num bocadinho de massa, marcando-a. Era este o sinal que lhe iria permitir reconhecer o seu pão no meio de todos os outros, quando fosse a altura de o resgatar do forno comunitário. Finalmente, o último retoque, com ambas as mãos rodeando a bola. Soergueu-se. Foi traçando uma cruz com a mão direita em riste sobre aquela barriga, ao mesmo tempo que dos seus lábios saía a oração ritual:
— Deus te acrescente e te livre de má gente. Nossa Senhora da Conceição te faça um formoso pão.
Depois seguiu-se a lavagem das mãos, e a masseira foi coberta com um panal de linho. Por cima, um cobertor de lã, para que se mantivesse quente e levedasse. Agora era preciso aguardar que, sob o panal, a oração se consumasse no crescimento do pão. Era preciso que o pão levedasse, o que iria levar cerca de duas horas, mas, até poder ser saboreado, ainda tinha que atravessar um longo processo: a forneira de um dos fornos comunitários viria buscar a masseira, e levá-la-ia à cabeça, assente numa rodilha, até ao forno, onde cozeria durante uma hora. Entretanto, já a minha mãe teria chegado, para talhar a massa em boroas, que iriam ser bailadas nas tigelas pelas bailadeiras, conferindo-lhes o aspecto arredondado. Num forno havia três a quatro bailadeiras, que eram pagas por cada freguesa (chegavam a ser vinte de cada vez), com um pedaço de massa, assistindo-lhes também o direito de rapar e lavar as masseiras, cuja lavagem se destinava a alimentar os porcos.
O forno estava agora pronto. As brasas iam sendo distribuídas pelas braseiras de zinco, trazidas pelas mulheres, que aguardavam pelo conforto que aquelas brasas trariam às suas casas. No interior daquela bocarra escancarada sumiam-se uma por uma as bolas brancas, depositadas com o auxílio de uma grande pá pela forneira, e que sairiam transformadas em deliciosas boroas. Aos meus olhos de menina atenta, nada disto passava despercebido, e eu tudo registava.
Algumas mulheres por ali ficavam, aguardando a cozedura do forno. Outras regressavam a casa, voltando uma hora depois para identificar o seu pão. Algumas horas atrás, andara a forneira pelas ruas da aldeia, apregoando, em altos brados:
— Ó Ermeliiiiiinda! Huuuuuu! É pr´á amassar!
E os seus gritos ouviam-se por toda a aldeia. E, àquela ordem, cada uma das mulheres assim invectivadas, se recolhia ao seu lar cumprindo o papel que lhe competia na tarefa sagrada de conceber o pão que iria alimentar a família.
Enquanto no forno as bailadeiras bailavam as boroas das suas freguesas, em casa outras mulheres estariam a acabar de aprontar a massa para a fornada seguinte.
O calor do forno, o momento de reunião, de espera descontraída, eram propícios à partilha de ditos e mexericos, desnudava-se a alma, desvendavam-se segredos, que aproximavam ou afastavam as comadres… Era digna de se ver a entrega do pão.
— Belisco e buraco! — gritava a forneira!
— É meu! — respondia a dona.
— Belisco, belisco!
— É meu!
— Ferro!
— Esse é o meu!
E, assim sucessivamente, o pão quente ia sendo entregue e desaparecendo debaixo do panal branco que cobria as masseiras de cada dona de casa.
— Ó Maria do Carmo! Empresta-me uma boroa, que eu já só cozo para a semana!
Quando a masseira regressasse, com boroas quentes, castanhas, cheirosas, redondas, de côdea consistente, era altura de proceder à sua distribuição pelas vizinhas que as haviam emprestado, ou de emprestar a quem já não tivesse. Desta maneira, através de uma relação de boa vizinhança e de hábil gestão, se garantia o consumo do pão relativamente fresco. Quando estava a acabar, havia sempre quem emprestasse, ou pagasse, uma boroa proveniente de uma fornada mais recente.


domingo, 26 de dezembro de 2010

A ti...


Mal acordei, senti um apelo interior e uma vontade enorme de regressar à velha casa outrora tão animada e agora abandonada às suas memórias.
O percurso que me separa da tua casa, cerca de sessenta quilómetros, foi feito com o pensamento em ti e uma grande paz interior a apossar-se gradualmente de mim, à medida que me ia aproximando da povoação.
Mal cheguei, distribuí dois beijos pelas faces da minha mãe e fui direita ao assunto.
— Mãe, dá-me as chaves da casa da avó, Quero lá ir.
Os olhos da minha mãe não puderam esconder a surpresa que aquele inesperado pedido lhe causou.
— Queres?! Espera aí, que eu vou contigo.
Olhei-a demoradamente, nos olhos, e disse:
— Não, mãe, quero ir sozinha. Dá-me as chaves.
Quando as chaves me passaram para a mão apertei-as e lá fui.
É quase com uma certa religiosidade que abro a porta exterior, ultrapasso o patamar de granito do rés-do-chão agora criminosamente coberto por cimento pintado de vermelho. Quando nos mudámos da casa da praça com tantas escadas e sem elevador, para o andar de baixo do casarão, concluiu-se que a tarefa de o esfregar uma vez por semana para o manter apresentável, era demasiado árdua para a minha mãe, a convalescer de uma pleurisia, que a atirara para um hospital durante quase um mês, e já sobrecarregada com a casa, os cuidados exigidos por três filhos pequenos…Dou a volta à chave que abre a porta que dá acesso à tua casa.
À minha frente ergue-se a velha escadaria de madeira, onde todos os meus irmãos e primos tiveram o seu baptismo caindo por ela abaixo em bebés, com excepção do Cassiano, o filho mais novo da tia Laurinda, sempre tão prudente e cuidadoso.
Então olho para cima e consigo ver-te, ao cimo das escadas, aguardando-me a tua figura simples, curvada pelo peso dos anos, mas com uma majestade e um brilho a espreitar-te nos olhos, ainda que parcialmente toldados pelas cataratas.
Apesar de conseguires identificar-nos pela voz, não resistias, e as tuas mãos percorriam-nos a cara, os braços, as mãos, tudo isto acompanhado por um sorriso nos lábios e no olhar, ao mesmo tempo que soltavas interjeições de prazer pela visita:
— Bom bem! Bom bem!
Agarro-me ao corrimão preto de ferro, que sempre conheci a querer soltar-se da parede, mas que foi resistindo, e ainda hoje lá permanece, na mesma, enfrentando a passagem dos anos e gerações. Vou contando um a um os degraus, agora adormecidos, votados ao esquecimento por aquelas mãos que durante anos e anos, ciclicamente, na altura das festas, as torturavam com o esfregão de arame, retirando-lhes o resto da antiga cera e as afagavam depois, com a cera nova, e as faziam ressurgir brilhantes, luminosas, após a passagem do lustro, afanosamente puxado até à exaustão.
No cimo do patamar, abro a porta à direita, e a sala-vestíbulo de soalho de longas tábuas carcomidas, estende-se à minha frente. É desta sala que guardo gratas recordações da minha infância. É uma sala luminosa, onde a luz jorra livremente pelas largas janelas de guilhotina, e pelas bandeiras da porta que se abre para um balcão de granito, que dá acesso ao jardim.
Ao fundo, a porta que acede ao teu quarto, e, à direita, mais duas portas: uma para a dispensa, outra para a sala de jantar, que comunica com o quartito onde eu dormi tantas noites, e com o outro quarto, mais amplo, que acolheu os meus pais quando se casaram, e onde nasci eu e os meus dois irmãos. Nesta sala passeiam os vultos que outrora a preencheram. Consigo ver-te, sentada naquela tua cadeira, a porta do quintal aberta, deixando passar uma larga faixa de luz que se desenha no chão. E tu, de preto vestida, penteias os teus longos cabelos, que depois entranças e enrolas num carrapito.
Os sons ecoam aos meus ouvidos. A minha mãe está sentada à máquina de costura, por baixo da janela, o tecido corre guiado pelas suas mãos hábeis e o rumorejar da máquina é para mim apaziguador.
Chegam-me os ruídos longínquos das conversas entre os vizinhos, cujas paredes traseiras das casas delimitam o jardim, o cacarejar das galinhas, e o arrulhar das pombas no pombal que o meu pai construiu. No balcão de granito, grandes manchas coloridas de sardinheiras…Ouvem-se cantares…
Deitada de barriga para baixo no chão da sala, de saia curta, camisola vermelha, ambas confeccionadas pela minha mãe, faço a cópia que, no dia seguinte, apresentarei à aprovação de uma professora exigente, autoritária e de humores imprevisíveis.
A felicidade que naquele momento me enche a alma é inexplicável…
Esses dias claros que então entravam pela tua casa, e se estendiam, intermináveis, perdidos nas melopeias por ti ciciadas enquanto entrançavas os teus longos cabelos mareados de branco, e na música entrecortada da máquina de costura habilmente comandada pela minha mãe, não mais os encontrei tão belos, tão claros, tão intermináveis…
Posso agora reconhecer, o quanto fui feliz na tua casa, querida avó!

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Natal chique



NATAL CHIQUE
Percorro o dia, que esmorece
Nas ruas cheias de rumor;
Minha alma vã desaparece
Na muita pressa e pouco amor.
Hoje é Natal. Comprei um anjo,
Dos que anunciam no jornal;
Mas houve um etéreo desarranjo
E o efeito em casa saiu mal.
Valeu-me um príncipe esfarrapado
A quem dão coroas no meio disto,
Um moço doente, desanimado…
Só esse pobre me pareceu Cristo.

Vitorino Nemésio

sábado, 27 de novembro de 2010

Desilusões...


A vontade de ir para a escola era maior, muito maior que o seu reduzido tamanho.
Continuamente interrogava a mãe sobre a altura em que chegaria esse dia. A mãe ia refreando aquele entusiasmo, como podia. De facto, não estava certa de que Lurdes pudesse frequentar a escola no mês de Outubro que se avizinhava. A sua inscrição havia sido condicional, como já fora a de António. Lurdes já tinha seis anos, mas, para poder entrar nesse ano, devia fazer os sete anos até Dezembro, o que não acontecia.
A mãe de Lurdes sentia a filha suficientemente madura e motivada para iniciar o seu percurso escolar. De há uns tempos a esta parte, não falava noutra coisa. É claro que a essa ansiedade não terá sido alheio o facto de o irmão mais velho já frequentar a escola. Mas António, apesar de ter nascido em Janeiro, tivera a seu favor o reduzido número de rapazes em idade escolar, nesse ano, que não ocuparam as vagas existentes, e pôde, assim, ser matriculado com seis anos, apesar de fazer os sete no ano seguinte, gozando da excepção inserida na lei “desde que houvesse vaga”. Havia muitas raparigas em idade escolar naquele ano. Eram oito salas, quatro destinadas aos rapazes, e quatro destinadas às raparigas. Só no mês de Outubro é que se saberia se a matrícula seria efectivada. Lurdes andava num desassossego!
Ao ser informada de que Lurdes ficaria de fora, e perante o inconformismo da rapariga, que vira cair por terra o seu sonho, alimentado durante um ano lectivo pelo irmão, e que o extravasava entregando-se a um caudaloso, líquido e ruidoso desgosto, a mãe recorreu às sobrinhas, ambas professoras, numa tentativa de poder contornar a lei. Sim, a rapariga poderia entrar, desde que fosse matriculada numa escola exterior, e frequentasse essa escola durante algumas semanas, após o que pediria a transferência, não podendo, neste caso, ser-lhe recusado o acesso. E a esperança renasceu na mãe e na filha. Lurdes deu em colar os ouvidos nas conversas telefónicas mantidas entre a mãe e as professoras. Poderia entrar, sim! Bastava que fosse acompanhada de um cartão da directora da escola da zona de residência onde Lurdes pertencia. Mas a mãe de Lurdes não queria que a directora, que era também professora, soubesse do que se tramava nas suas costas, além de que acolhia no seu seio receios de futuras represálias sobra a criancinha .
Conclusão: Lurdes largou as momentâneas tréguas a que se entregara, e abriu o dique, agora com muito mais força. Quando se cansou, virou-se para outro lado: cercava o irmão, quando este regressava da escola, e crivava-o de perguntas, às quais ele ia respondendo com alguma paciência.
Perante os olhos da irmã ele sentia-se um herói e ia fazendo render esse estado de graça. Desde cedo, Lurdes manifestou maior interesse pelo livro de leitura. Pegava no que fora o do irmão, e ia-o questionado sobre as imagens do livro. Só que António recriava e fantasiava aquelas imagens inventando histórias mais adequadas à sede do imaginário dos dois.
Só mais tarde, quando Lurdes aprendeu a ler, é que percebeu o logro em que caíra, ao verificar que, afinal, aquelas maravilhosas histórias urdidas pelo irmão, em nada se pareciam com as frases simples, sem qualquer enredo, repetitivas e irreais, que ela era obrigada a cantarolar incessantemente. Este foi o primeiro choque que arrefeceu o seu entusiasmo pela escola . Outros se lhe seguiriam.



Cumplicidades


O irmão mais velho era o seu companheiro das brincadeiras. O outro, mais novo, ainda não largara as saias da mãe, o que lhes dava alguma liberdade, para cultivarem cumplicidades que às vezes redundavam em asneiras fortemente castigadas pelo pai, que era bastante severo. A mãe, embora soubesse que ali na aldeia toda a gente se conhecia, não gostava que os garotos andassem na rua, sem que ela soubesse exactamente onde estavam. Às vezes pediam para irem ter com o pai à loja, e, como era pertinho, lá os deixava ir, sempre bem arranjadinhos, como fazia questão. Outras vezes, era ela própria que os mandava irem chamar o pai para almoçar, tarefa de que eles se saíam bem, estimulando-lhes a autonomia e a auto-estima. Gostava de os responsabilizar dando-lhes pequenas tarefas que sabia que eles conseguiam realizar, com um objectivo bem definido, mas não de os deixar ir brincar para a rua.
Um dia saíram os dois, dizendo que iam ter com o pai. A mãe, às voltas com o almoço e com os cuidados ao irmão mais novo, descurou um pouco as recomendações habituais. Como não levavam nenhum recado específico para o pai, quando chegaram perto da loja, António continuou o caminho, seguindo para a parte mais alta da aldeia.
— Onde vamos? — perguntou Lurdes.
— A casa dos avós do alto. Queres?
— Quero!
António era o irmão mais velho de Lurdes. O pai estava sempre a dizer-lhe que ele, como mais velho, tinha que tomar conta da irmã. E era isso que ele fazia, sugerindo as brincadeiras, e decidindo, sem dar hipótese à irmã de as recusar ou sugerir outras, o que, aliás, era inútil, pois Lurdes gostava muito do irmão e o que ele fizesse, estava bem feito.
Bateram à porta dos avós, mas, claro que, àquela hora, eles não estavam. O avô trabalhava na fábrica de lanifícios, saía de manhã, e, quando estava bom tempo, ia até à propriedade que possuía na encosta da serra, onde tinha algum gado e courelas.. A avó, na altura das sementeiras ou colheitas, passava lá também o dia e regressavam ambos ao sol- posto. Por vezes até por lá dormiam. Mas os garotos eram ainda muito pequenos para se aperceberem dos mecanismos que comandam a vida dos adultos. Ficaram por momentos a olhar um para o outro. Tinham que aproveitar aquela liberdade que lhes caía do céu.
— Vamos brincar!
— Vamos!
Ajoelharam-se no chão da Carvalha, e, com as mãos, começaram a cavar buracos no chão. A terra ali era fofa e mole. Por isso, a empresa que se propuseram levar a cabo não foi de molde a desmotivá-los dos seus propósitos. Não tardou muito e veio juntar-se-lhes um menino que eles conheciam. Vivia em Lisboa, mas estava de férias com os pais, que eram amigos dos avós de Lurdes e António.
— Olá! Que estão a fazer?
— Uma garagem para a camioneta! — respondeu o António
— Ah! E onde está a camioneta? — perguntou o Luizinho
— Está em casa.
— Eu vou buscar a minha, está bem?
— Está!
Os dois irmãos continuaram as suas escavações, a Lurdes mais espectadora do que operária.
Passado um bom bocado chegou o Luizinho.
— Demoraste! — observou o António.
— A minha mãe disse que só podia vir depois de comer.
— Ah!
Lurdes pensou que eles ainda não tinham comido, mas não tinha fome. Aliás, Lurdes nunca tinha fome. Comer, para ela era um verdadeiro suplício. Por isso era tão magrinha, e tinha um ar tão amarelo. Mas era saudável, e isso é que era importante. A mãe já a tinha levado ao médico por ela comer tão mal, mas o médico dissera que aquilo havia de passar…
Luís chegou com um camião de madeira, como eles nunca tinham visto!... era enorme, vermelho e azul, e a parte de trás virava-se, para deitar a terra fora. Ficaram ali, deliciados, esquecidos do mundo…Fizeram estradas para a camioneta passar, e montes de terra para ela subir e descer.
Mas a brincadeira acabou interrompida de uma maneira brusca…De repente cada um dos dois irmãos sentiu-se fortemente agarrado por um braço. À frente deles, o pai espumava de raiva.
— Onde se meteram, seus vadios? Sabem que horas são?
Nos olhos dos dois irmãos lia-se o terror. Não deram resposta, nem era para dar. Mas o ar do pai não deixava margem para dúvidas sobre a natureza do castigo que ele estava a engendrar. Sacudindo-os rispidamente, com modos bruscos e agressivos, agarrou-lhes os pulsos, o que fez com que o António soltasse um gemido de dor. A resposta foi duas valentes palmadas no rabo que o puseram a chorar. Em seguida, tirou uma corda de algodão do bolso e prendeu os dois irmãos um ao outro, como se de dois criminosos se tratasse. A outra ponta da corda enrolou-a à volta da sua mão direita.
— Vamos lá! Se é preciso prender-vos para saber por onde andam, é isso que vão ter.
Lurdes tinha escapado às palmadas, mas não à humilhação. Sem uma palavra, desceram a rua, e foram conduzidos a casa. A mãe estava aflita, e zangada.
— Pensei que vos tinha acontecido alguma coisa! É tardíssimo! Saíram daqui há mais de três horas! Não tendes fome?
Os garotos não responderam. Receavam que, se falassem, enfurecessem ainda mais o pai.
— Dá-lhes de comer que eu já os venho buscar! — ordena o pai
— Mas …e as cordas? Para que são as cordas?
— Deixa estar as cordas, que eles vão aprender uma lição que nunca mais na vida vão esquecer!
O pai saiu. Então os miúdos lá se abriram com a mãe.
— Mas nem mesmo quando o Luizinho disse que tinha estado a comer se lembraram que era tarde?
Que não, nem derem conta do tempo a passar, e o camião do Luizinho era tão lindo!
O António, só naquela altura se apercebeu de que estava esfomeado. A Lurdes nem tanto. Mas a sopa de couve ripada soube-lhe bem, contrariamente ao habitual.
O pai não tardou a regressar. Agarrou nas cordas e ordenou-lhes que o seguissem. Quando a mãe o questionou sobre as suas intenções, respondeu-lhe que ia fazer deles uns adultos. É possível que nesse momento ele lhes tenha roubado alguma dose de inocência. Os garotos saíram de casa, preocupados em acompanhar os passos do pai, para que ninguém notasse que iam presos. Chegados à loja, a primeira reacção de ambos foi dirigirem-se para a parte interior do balcão, para que os clientes que entrassem os não pudessem ver. Mas não era essa a intenção do pai. Sempre que algum cliente entrava na loja, obrigava os garotos a mostrarem-se, e exibia-os, como se tratasse de animais amestrados de um circo. A todos repetia a história, e vangloriava-se da lição exemplar que estava a dar aos filhos. Houve quem o felicitasse, quem o censurasse.
Quem pudesse ler no olhar de Maria de Lurdes o que lhe ia na alma, poderia sentir a tristeza e a vergonha que a consumiam, não por ela, mas por causa da piedade que ela lia nos olhos das outras pessoa…Como fora o pai capaz de os sujeitar e sujeitar-se àquela humilhação?

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Transparências



Às profundezas
Do teu olhar
Assomei
Banhadas outrora
De luminosa transparência
De cristal…

Golpeada
Por negras e violentas
Enxurradas
Deixei-me arrastar
Na floresta submersa
Pela tempestade
E no rasto da tua alma
Me perdi…

O teu olhar
Agora procuro
Naufragado
Em todos os olhares
Que olho.
Para te conduzir
A porto seguro.

sábado, 30 de outubro de 2010

Avó e neta




A casa da avó era como a maior parte das casas da aldeia: embora tivesse electricidade, não possuía água canalizada nem esgoto.
Era preciso ir à fonte acartar a água que corria livremente e encher os baldes e os cântaros de folha-de-flandres tantas vezes quantas as necessárias. A higiene pessoal limitava-se à lavagem diária da cara, mãos e pescoço, com a água fria que ficava de reserva nos jarros dos lavatórios de esmalte. Aos domingos, a água a ferver nos depósitos dos fogões a lenha, vertia-se nas enormes bacias de zinco onde se tomavam os banhos. As necessidades faziam-se nos bacios, que eram esvaziados para os baldes que todos os dias de manhã era necessário ir despejar à ribeira. A roupa era também lavada na ribeira, e constituía para a maior parte das raparigas da aldeia uma ocasião para porem a conversa em dia, falarem dos seus conversados, efectivos ou sonhados. As mulheres casadas, quando o tempo o permitia, levavam as crianças, que se entretinham na brincadeira umas com as outras, com a água até aos joelhos, chapinhando, ou na caça de bordalas e rãs.
A mãe de Lurdes lavava a roupa em casa, num tanque de cimento, acompanhando os tempos modernos…Mas quem geralmente ia despejar os baldes à ribeira, era a avó. Lurdes sentia o apelo da rua, para onde adorava esgueirar-se … Mas a mãe vigiava-a. Por isso, sempre que a avó punha a rodilha à cabeça e ajeitava o balde para se dirigir à ribeira, vinha o pedido insistente:
— Também quero ir! Deixe-me ir consigo, avó!
— Deus te livre! Podes por lá cair!
E os pedidos de Lurdes caíam em saco roto. Mas ela não desistia, e, sempre que dava conta daquele ritual, lá estava ela, fazendo marcação cerrada à avó.
— Deixe-me ir, avó! Eu não caio! Eu porto-me bem! Eu não saio de ao pé de si. Eu já sou uma mulher, avó, pois não sou?
Lurdes sentiu uma ligeira hesitação na avó.
De facto a avó, dorida pelo muito trabalho que a filha ainda tão nova e já com três filhos levava, tentava incutir alguma responsabilidade naquela neta, dizendo-lhe que já era uma mulher, e que tinha que ajudar a mãe.
Lurdes insistiu:
— Já sou uma mulher, não sou, avó?
— Pois és, já és uma mulherzinha, és ! — confirmou a avó com um largo sorriso.
O sorriso largo que viu na avó deu-lhe a certeza de que tinha vencido aquela batalha. — Então está bem. Mas não sais de ao pé de mim! Vai lá dizer à tua mãe que vais comigo.
E Lurdes lá foi, escapando-lhe a alegria nos saltos, nos gritos, que nem as recomendações insistentes da mãe conseguiram esmorecer.
A avó desceu cuidadosamente as escadas com o balde à cabeça, seguida pela neta. Uma vez na rua, exigiu agarrar a mão da miúda. A rua era íngreme, em calçada romana, e a pressa não era nenhuma. A garota falava pelos cotovelos, de tudo e de nada. A avó divertia-se com as saídas de neta, mas o carrego que transportava, obrigava-a a manter o pescoço bem erguido, e alguma concentração. Ao fundo da rua viraram à direita, depois à esquerda, encaminhando-se para a ribeira do Regato, cujas águas serviam de força motriz à fábrica de malhas. O caminho não era longo, mas o piso era irregular. Algumas pedras da calçada estavam polidas pelo desgaste dos pés que as calcorreavam e pela erosão, como se carinhosamente afagadas por mãos desveladas. Outras, mais resistentes aos agentes erosivos, apresentavam-se aqui e ali mais bicudas e rugosas.
Lurdes não cabia em si de contente. E a avó ia pensando que, afinal, a companhia da neta amenizava o cumprimento de uma obrigação tão pouco agradável.
Nenhuma das duas conseguiu explicar, mais tarde, o que se passara.
Aconteceu muito rápido. Num ápice, Lurdes viu a avó caída por terra, e viu-se a gritar, como se não fosse ela, nem a voz lhe pertencesse. A avó gemia, apenas, baixinho, como se receasse acordar alguém. O balde de esmalte azul, rebolara pelo chão, a tampa rolava rua abaixo, a afastar-se daquela cena grotesca. A cara da avó, a roupa, as pernas os braços, estavam cobertos por um líquido castanho misturado com substâncias de consistência mole e esponjosa, de cheiro nauseabundo. De repente, vindas de vários cantos, juntaram-se algumas mulheres, solícitas e caridosas.
— A minha neta…levem-na a casa! Avisem a minha filha!
Lurdes sentiu-se agarrada. Alguém lhe pegou ao colo. Quando mais tarde tentou reconstituir o que se passara, foi incapaz de se lembrar de quem lhe pegou, quem a levou a casa, a reacção da mãe…
Decorrido algum tempo, entrou devagarinho no quarto da avó, às escuras depois da visita do médico que lhe tratara as escoriações, diagnosticara um braço partido, e recomendara repouso. Subiu para a cama, cobriu a cara da avó de beijos, que a rodeou com o braço são. Estendeu-se ao seu lado. Nenhuma das duas disse uma palavra. Foi aí que a mãe a foi encontrar mais tarde, agarrada à avó, a dormir. E foi aí que Lurdes acordou na manhã seguinte.

domingo, 24 de outubro de 2010

E ela sonhava...




Cresceu protegida pelo olhar super atento da mãe. Até à idade de entrar para a escola, não lidou com outros miúdos que não fossem os irmãos. A primeira infância passou-a ela com os familiares que viviam debaixo do mesmo tecto, entre as brincadeiras dos irmãos, o carinho da mãe, da avó materna, da tia-avó, e dos primos, tios e avós paternos, que constantemente se visitavam.
Os garotos da sua idade passavam a vida na rua, brincado uns com os outros, mergulhando os pés descalços na água que corria livremente pelos regos… A vida ao ar livre lia-se nas manchas que o sol lhes marcava na pele, nos cabelos crespos, revoltos, indomáveis, incompatibilizados com o pente, nas calças arregaçadas, maiores que a cintura que as transportava, ajustadas com baraços de sisal ou de algodão, ou tiras de farrapos cruzadas no peito, a fazerem de suspensórios… Crescia-lhes a liberdade nos olhos, nos gestos, nos risos…
Os seus domínios eram a rua e neles reinavam, desde o nascer ao pôr-do-sol. Era então que eles iam desaparecendo, um por um, sem deixar rasto, ao som de gritos que, como o vento, esquadrinhavam os escaninhos das vielas, e até eles chegavam. Gritos que eles reconheciam com poder, gritos que cada um identificava e reconhecia como sendo dirigidos a cada um, gritos que os reconduziam a casa, gritos carregados de ameaças, castigos, pobreza, sofrimento, suor…
E cada nome gritado tinha o condão de reduzir cada pequeno rei das ruas à plebeia condição de filho, neto, sobrinho, irmão…
Ela não tinha autorização para ficar na rua. Por vezes atravessava a praça em direcção à srª Elvira, com os dois tostões bem apertados na mão com que comprava uma romã, mais pelo fascínio daquela fruta misteriosa do que pelo prazer de a comer. E ficava ali a vê-los, desejosa de se juntar a eles, perdida no tempo… A cantiga da água a correr, e o desejo de nela mergulhar os pés, caminhando descalça pelos regos, era como a melodia encantatória das sereias a tentar Ulisses e os seus companheiros…Quando por fim a procuravam, já ela estava descalça, tentando a aproximação ao grupo. E, sem palavras, apontava para os meninos. A resposta era invariavelmente a mesma “ os meninos andam descalços porque não têm sapatos, os meninos andam na rua porque não têm dono”…
E ela sonhava que um dia, também não teria dono…

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Uma menina de garra


A sua menina nasceu no dia de Nossa Senhora de Lurdes. Recebeu por isso, o nome da sua padroeira. Ainda tentou escolher para ela outro nome mais de acordo com os tempos modernos…Porém, as vozes escandalizadas da sogra, da mãe, da tia, levaram-na a submeter-se à tradição…
“Assim devia ser, se não queria fazer cair sobre a cabeça da menina, a vingança de Nossa Senhora…”
Os argumentos de que Nossa Senhora não era vingativa, acabou por os guardar bem no fundo de si…e se atraísse para a sua menina alguma espécie de má sorte? Sempre que, ao longo da vida ela seguisse um determinado caminho, ficaria sempre a dúvida…se optasse por aqueloutro, seria mais bem sucedida? Queria ser moderna, cortar com velhas superstições, implementar novas formas de pensar, de enfrentar o quotidiano…mas esse era um fardo demasiado pesado que não queria nem tinha arcaboiço para carregar toda a vida...Era jovem, e conquistara já para si o direito de enfrentar a vida de cabeça descoberta, na verdadeira acepção da palavra, de deixar o xaile de lado, como usavam todas as raparigas do povo e da sua geração… a pouco e pouco, como dirigente feminina do movimento operário católico do núcleo da sua aldeia, conseguiria que quase todas as jovens largassem o lenço e o xaile…
Mas, no que tocava àquele ser tão indefeso, que saíra de dentro de si, e que ela amava tanto, o pensamento de que poderia empenhar-lhe o futuro, só por ter escolhido para ela o nome errado, era insuportável. Foi melhor claudicar e submeter-se à tradição...Além do mais, Lurdes parecia ser já uma menina cheia de garra…Nascera rapidamente, sem grandes demoras…Enquanto o marido se apressava a chamar a parteira, elas as duas, mãe e filha, resolveram o assunto. A senhora Palmira, que ajudava a nascer todas as crianças daquela terra, só tivera o trabalho de cortar o cordão da criança, que já a esperava cá fora…
É certo que ela transportava os seus genes… Não era dada a pieguices e o que tinha que ser, assim seria. Tanta gente neste mundo, e toda a nascer da mesma maneira. Por isso, quando as dores se lhe ferraram nas cruzes, seriam quase duas da madrugada, ela levantou-se, atiçou o lume no fogão de lenha que ainda se não tinha extinguido, aqueceu o ferro e engomou os panos bordados pelas suas próprias mãos. Colocou-os nas floreiras, encostou-se e esperou. Quando entendeu que o parto estava próximo, acordou o seu homem, e mandou-o buscar a parteira. Ferrou os dentes numa fralda, que não se podia dar ao luxo de gritar, não fosse acordar o pequeno mais velho, o qual, com dois anos feitos no mês anterior, dormia no berço, nessa altura colocado no recanto do quarto mais afastado da cama do casal.
A sua menina ia ser uma mulher de garra, como já era um bebé de garra… Iria ter uma vida muito melhor do que a sua, sim…Ela tudo faria para que isso fosse possível…




sábado, 16 de outubro de 2010

E de novo



E de novo a armadilha dos abraços.
E de novo o enredo das delícias.
O rouco da garganta, os pés descalços
a pele alucinada de carícias.
As preces, os segredos, as risadas
no altar esplendoroso das ofertas.
De novo beijo a beijo as madrugadas
de novo seio a seio as descobertas.
Alcandorada no teu corpo imenso
teço um colar de gritos e silêncios
a ecoar no som dos precipícios.
E tudo o que me dás eu te devolvo.
E fazemos de novo, sempre novo
o amor total dos deuses e dos bichos.

Rosa Lobato de Faria

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

O cheiro da chuva




Acordo com a chuva a cair pelos beirados ruidosos, e os teus passos que, pelo soalho, se movem cautelosos. É puramente retórica a pergunta que te faço, velada ainda pelas nebulosas brumas de Morfeu. Chove, sim! Reconheço-a ruidosa e imparável, sobrepondo-se a qualquer outro som. É domingo. Aperto o edredão à volta do meu corpo e volto-me para o outro lado. Vou dormir mais um pouco, embalada pelo trepidar da chuva no aconchego da cama…
Começa a instalar-se uma dorzinha sub-reptícia bem lá no fundo… Agora é já impossível ignorá-la. Num gesto brusco, afasto a roupa e salto da cama.
Chego à janela, e os meus olhos seguem os volteios caprichosos e inusitados das gotas de água em acrobacias atrevidas pela vidraça fria. A luz, a alegria, o mar, a praia, as caminhadas, o calor, o aconchego, ficam para além da cortina prisioneira e ininterrupta, que me cerceia a liberdade... É com uma sensação de dor física e mental, de abandono, que recebo a chuva...É um sentimento que não consigo evitar, que me acompanha desde criança…
A garota franzina luta para atravessar a avenida desguarnecida de casas, ladeada de árvores e por duas ribeiras que, correndo do alto da serra, lançam as suas águas com estrepitoso fragor, saltando por cima das rochas que lhes barram o caminho. A garota vai a caminho da escola, que fica na encosta da aldeia. Tem que atravessar a povoação, a avenida, e, depois de longa caminhada, deixar para trás as casas e começar, finalmente, a subir a encosta, onde, lá no alto, se vislumbra a escola. Chove desapiedadamente. Ela traz uns botins pretos de borracha, uma gabardina de plástico e um guarda-chuva azuis. A avenida é o local mais temido para galgar, desabrigado, onde o vento sem quartel assobia assustadoramente. A água e o vento parecem ter encontrado na cachopita frágil, motivo de entretenimento. O vento rouba- lhe o guarda-chuva, e brinca com ele a seu bel-prazer, deixando-a completamente desprotegida, com o seu coraçãozinho assustado batendo descompassadamente. A chuva escorre pela gabardina de plástico, procurando-lhe fragilidades. Entra pelas costuras, penetra pelo colarinho, encontra o pescoço da menina, e as gotas geladas desenham-lhe caminhos na pele, entranham-se-lhe nos ossos. Junto aos joelhos, também as gotas de água caem pela orla da gabardina, invadindo o interior dos seus botins de borracha, deixando-lhe os pés ensopados. Os cabelos colam-se-lhe ao rosto, tapam-lhe a visão, e as lágrimas misturam-se com a chuva. Finalmente consegue agarrar o guarda-chuva, torto e imprestável. Aperta-o bem, com as suas mãozitas pequenas e geladas. A saca com os livros, já encharcada, marca-lhe de vergões vermelhos as mãos, com o esforço para a não largar. O temor de ter que mostrar a lousa ilegível acicata-lhe o mal-estar. Sente-se pequenina e abandonada. A lembrança da mãe provoca-lhe um acesso de choro quase incontrolável.
Num gesto decidido, afasto aquelas memórias.
Não! Nunca fui capaz de apreciar a chuva. E as chuvas das trovoadas acendem-me medos secretos e inconfessáveis…
Aprecio o cheiro a terra molhada, quando os agricultores abrem os sulcos na terra grávida, que, receptiva e apaixonada, se deixa penetrar pela água, numa união sagrada. Aprecio o cheiro a terra molhada, quando começa a transpirar e o vapor se evola dela, vestígio da passagem da chuva e da sua partida, mesmo que temporária, e o sol beija e fecunda a terra.
Mas a chuva que cai em cordas, fria e ininterruptamente, melando as árvores e as flores do meu quintal, encharcando a terra até à exaustão, gela-me a alma, pesa-me no coração.