"Todos os meus versos são um apaixonado desejo de ver claro mesmo nos labirintos da noite."
Eugénio de Andrade

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Meu amor

Sabe, menina, a mim o meu homem nunca me chamou “meu amor”! Não era dado a essas coisas. Ia direito ao assunto, e… pronto!
Ao princípio ainda me queixei…à minha mãe, e ela apressou-se a dizer que ele estava no seu direito, as mulheres tinham que aguentar e sofrer, que era assim desde o princípio do mundo e assim havia de ser …
Ele era um pouco bruto, tinha que ser quando e como ele queria, não sei se me entende, e depois virava-se para o outro lado, e roncava…Eu ficava ali, no escuro, a tentar perceber como é que as raparigas tanto sonhavam com o casamento, no meu tempo sonhavam, menina, acredite, e depois era aquela coisa tão horrível!...
Mas o mudo, sim! Ai, menina, o mudo! Se não fosse ele, nunca eu tinha percebido como “aquilo” afinal podia ser tão bom…Não, não me arrependo!...quer dizer, em tempos, assim uns remorsos, por causa do mudo…Morreu tão cedo…Pobre homem! Tão terno, tão carinhoso…tão…ai! Aquele olhar dele, manso e sereno como as searas, a chamar-me de “ meu amor”!...Dava-me um estremecimento cá por dentro…
Foi por isso que o meu homem…Ficou cego, quando soube. Já andava desconfiado…e eu não tinha como negar…Ele tinha-me por inteiro…O meu homem tinha o meu corpo, tinha direito a ele, mas o meu coração…ai, esse pertencia ao mudo…
Ainda lhe procurei porque me não tinha matado a mim…O mudo não fazia mal a uma mosca…Sabe o que me respondeu? Que eu era precisa para cuidar dos filhos e das terras…
A quem, ao meu homem? Não, menina, nunca o odiei por isso…Ao princípio sentia assim umas ondas de raiva, mas depois passou-me!...E ele não era mau de todo! Era trabalhador, meu amigo e dos filhos, mas não tinha jeito para meiguices, pronto, era tudo à bruta! E eu até lhe queria bem…Não foi só ele que se castigou lá na prisão, olhe que eu também sofri! E tive que criar os filhos sozinha, a minha São ainda não tinha três anos…
Mas o meu mais velho, uma vez, entrou-me em casa, devia ter aí…uns catorze anos, se tanto… olhou para mim cheio de ódio e gritou-me: “ Afinal o pai está na choldra porque vossemecê lhe pôs os chavelhos! “ Oh! Menina, agarrei no cavalo-marinho, e malhei, malhei, malhei, até o diabo dizer “ bonda!”Atão aquele manganão estava a viver debaixo das minhas telhas, e assim me faltava ao respeito? Aquilo era entre mim e o pai dele! E o pai estava na choldra, porque tinha assassinado um homem, pronto! Mas olhe, quer saber? Deu-me uma coisa, atirei com o cavalo-marinho, e desatei a correr pelo campo fora, que nem uma doida! Só parei quando já não tinha forças para dar nem mais um passo…Senti as lágrimas a caírem-me pelos queixos. Depois começou a chover, e fiquei ali a receber aquela água toda, como se precisasse de lavar a alma. E tomei uma resolução: entrei na ribeira, e fui caminhando pelo açude adentro. Já tinha a água pelo pescoço, quando parece que levei uma sacudidela, olhe, há momentos do diabo, mas a gente também os vence…
A menina vai lá botar isto tudo? Mas não prante lá o meu nome, não? Envergonho-me! Atão está bem.
Quando o meu homem saiu da prisão, veio para casa, pois atão! A casa era dele e minha, e eu não sabia o que ele queria fazer. Era o que ele quisesse. Era o meu homem, o pai dos meus filhos, recebi-o na igreja, para o bem e para o mal, até morrer.
Ora, menina, atão, aquilo com o mudo aconteceu, pronto! A gente não pensamos nestas coisas, são tentações, e quando se vai a ver, já está feito! Ai! Mas fui tão feliz com ele! Tinha umas mãos! Ai, ele sabia, ele sabia como se fazem as coisas! Sabe, eu acho que tudo acontece porque tem que acontecer. Não há volta a dar-lhe! Ao princípio revoltei-me muito, mas depois aceitei. Tive tempo para pensar, para pensar muito! O mudo ensinou-me a amar de uma maneira diferente…e vê, depois do meu homem sair da prisão, ainda nasceu o meu Henrique…O meu homem mudou …tornou-se mais atencioso comigo, na cama, quero dizer…Não, nunca me chamou “ meu amor”, mas pronto, tinha um jeito diferente, mais preocupado com o meu sentir, mais desejoso de me fazer a vontade, para eu…enfim…sabe o que eu quero dizer, não sabe?
      A minha mãe, coitada, nunca soube como é uma mulher gozar com um homem! Eu fui feliz com dois…Com o meu homem, só depois de ele sair da prisão…Atão foi assim: quando veio, foi dormir num divã que tínhamos no sótão. Nem nunca falámos do mudo…Eu punha-lhe o comer à frente, tratava da casa, e ele lá ia prás terras, como se nada tivesse acontecido. Não falávamos muito, ele nunca foi de grandes conversas… Andámos nisto à volta de meio ano…Uma tarde, estava eu a pilar umas favas na cozinha, e sinto um olhar em cima de mim. Levantei a cabeça, e lá estava ele na soleira da porta, a olhar para mim muito sério. Eu olhei também para ele, e ficámos a olhar um para o outro uma eternidade. Não dissemos uma palavra! Olhe, não sei como aquilo foi, quando dei por mim, estávamos os dois a rebolar no chão …É como lhe digo! Ai que risada! A partir daí veio prá nossa cama, e olhe, foi até morrer… Nunca me chamou “ meu amor”, mas apanhou-lhe o jeito!

 O mudo entrou na minha vida para eu ser feliz! Nunca o esqueci, nem nunca vou esquecer! Olhe que já lá vão mais de 60 anos! Ai! O que é a vida! Tenho saudades dos dois por igual! E nunca me arrependi de nada! Ó menina, não ponha o meu nome no livro, pelas alminhas! Não quero cá agora problemas com os meus filhos, ainda era o que me havia de faltar! 

domingo, 8 de janeiro de 2017

Com a respiração...

Com a respiração
Entrecortada
De silenciosos temores
Abro-te uma brecha
Na alma parda da noite.
Nunca é demais
Correres ao sabor do vento
Sentes
Dormentes e tensos
Os afagos secretos
Impregnados
De líquidos acenos
Rabiscados no fragor das ondas
Também os violinos me crescem nas mãos
Como saber quando parar
Agora que já nem o sonho
Me espanta nas manhãs

Sonolentas que te remeto.