"Todos os meus versos são um apaixonado desejo de ver claro mesmo nos labirintos da noite."
Eugénio de Andrade

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Uma menina de garra


A sua menina nasceu no dia de Nossa Senhora de Lurdes. Recebeu por isso, o nome da sua padroeira. Ainda tentou escolher para ela outro nome mais de acordo com os tempos modernos…Porém, as vozes escandalizadas da sogra, da mãe, da tia, levaram-na a submeter-se à tradição…
“Assim devia ser, se não queria fazer cair sobre a cabeça da menina, a vingança de Nossa Senhora…”
Os argumentos de que Nossa Senhora não era vingativa, acabou por os guardar bem no fundo de si…e se atraísse para a sua menina alguma espécie de má sorte? Sempre que, ao longo da vida ela seguisse um determinado caminho, ficaria sempre a dúvida…se optasse por aqueloutro, seria mais bem sucedida? Queria ser moderna, cortar com velhas superstições, implementar novas formas de pensar, de enfrentar o quotidiano…mas esse era um fardo demasiado pesado que não queria nem tinha arcaboiço para carregar toda a vida...Era jovem, e conquistara já para si o direito de enfrentar a vida de cabeça descoberta, na verdadeira acepção da palavra, de deixar o xaile de lado, como usavam todas as raparigas do povo e da sua geração… a pouco e pouco, como dirigente feminina do movimento operário católico do núcleo da sua aldeia, conseguiria que quase todas as jovens largassem o lenço e o xaile…
Mas, no que tocava àquele ser tão indefeso, que saíra de dentro de si, e que ela amava tanto, o pensamento de que poderia empenhar-lhe o futuro, só por ter escolhido para ela o nome errado, era insuportável. Foi melhor claudicar e submeter-se à tradição...Além do mais, Lurdes parecia ser já uma menina cheia de garra…Nascera rapidamente, sem grandes demoras…Enquanto o marido se apressava a chamar a parteira, elas as duas, mãe e filha, resolveram o assunto. A senhora Palmira, que ajudava a nascer todas as crianças daquela terra, só tivera o trabalho de cortar o cordão da criança, que já a esperava cá fora…
É certo que ela transportava os seus genes… Não era dada a pieguices e o que tinha que ser, assim seria. Tanta gente neste mundo, e toda a nascer da mesma maneira. Por isso, quando as dores se lhe ferraram nas cruzes, seriam quase duas da madrugada, ela levantou-se, atiçou o lume no fogão de lenha que ainda se não tinha extinguido, aqueceu o ferro e engomou os panos bordados pelas suas próprias mãos. Colocou-os nas floreiras, encostou-se e esperou. Quando entendeu que o parto estava próximo, acordou o seu homem, e mandou-o buscar a parteira. Ferrou os dentes numa fralda, que não se podia dar ao luxo de gritar, não fosse acordar o pequeno mais velho, o qual, com dois anos feitos no mês anterior, dormia no berço, nessa altura colocado no recanto do quarto mais afastado da cama do casal.
A sua menina ia ser uma mulher de garra, como já era um bebé de garra… Iria ter uma vida muito melhor do que a sua, sim…Ela tudo faria para que isso fosse possível…




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