"Todos os meus versos são um apaixonado desejo de ver claro mesmo nos labirintos da noite."
Eugénio de Andrade

quinta-feira, 21 de junho de 2018

Sonhos perfeitos

Sonhos perfeitos

Na penumbra branda
Permanece solene o pranto
De prata paramentado
Presto, prendo os sonhos
À pérgula que no meu peito plantaste
Prestes a perderem-se de tão perfeitos
Retorna o canto que precede
A transmutação dos prados pardos
Pressinto o seu pulsar primordial
Subterrâneo e secreto
Meus passos ora entrelaçados
Perdem-se entre os pés das prímulas
E penetram a terra tenra e terna
Rompem dos pulsos ramos aéreos
Repouso sereno da conversa dos pássaros
Desprendem-se as pálpebras pesadas.
Do sonho privada, parto para o pesadelo
Assim é o preço dos sonhos perfeitos.



segunda-feira, 7 de maio de 2018

O percurso do restaurante até casa foi doloroso e pareceu-lhe interminável. Esforçou-se até ao limite para conter as lágrimas. Uma raiva surda envenenava-a, e, quanto mais remoía, mais os insultos lhe cresciam no íntimo. Insultos gritados no interior de si, e injetados nas suas veias, inundando-lhe todas as fibras daquele veneno. “Cabra, cabra, cabra, grande vaca, grande vaca, “gritava no seu interior.
Alfredo estacionou o carro à frente da garagem, ela abandonou o carro precipitadamente, subiu a correr os degraus de granito que a conduziam até à entrada, abriu a porta com nervosismo, e, mal se viu a salvo, um profundo grito libertou-se das entranhas. Subiu as escadas em direção ao quarto, lançou a carteira para longe, atirou-se para a cama, e chorou, chorou, chorou, batendo com os pulsos na almofada. Logo atrás, o marido, perturbado, veio no seu encalço.
__ Mas o que é que tu tens? Não te entendo! Francamente, essas mudanças de humor…
__Desculpa, desculpa, não tem a ver contigo! Preciso de desabafar! __ foi dizendo por entre as lágrimas.
__Não percebo por que estás assim! Não vi nada que justifique esse teu estado!
__Mas eu vi. Vi e ouvi. Deixa-me estar, por favor! Se estou assim, é porque lá no restaurante, tive que me conter para não me saírem certas palavras da boca.
__Mas o que aconteceu no restaurante?
__A tua mãe…a tua mãe é má, má, má, má…
__ Olha se eu me puser a dizer o mesmo da tua, gostavas?
__Eu conheço os defeitos da minha mãe, e tenho abertura para lhe dizer o que penso, e, às vezes, no calor da discussão, elevar a voz, e fica tudo bem… Mas à tua, não lhe posso dizer o que sinto…Por isso estou assim. Deixa-me com as minhas coisas, por favor!
__Mas esses alterações de humor…
__Por favor, já não posso chegar à minha casa, ao meu porto de abrigo, e desabafar? Se não o posso fazer aqui, para onde vou? Sinto-me como uma panela de pressão à qual é preciso tirar o vapor, para acalmar…
__Está bem, pronto, mas isso não me parece muito normal, não entendo…
__ Não espero que entendas, são conflitos de mulheres, de noras e sogras, pronto, é isso, coisas de noras e sogras…
Ele saiu do quarto, enquanto ela desabava e se desfazia num mar salgado.
Passados uns minutos ele voltou. Circunspecto, e algo amuado, disse:
__Vou dar uma volta de mota.
Íris não respondeu. Também lhe apetecia. Fazia-lhe bem. Espairecia, e aquela raiva sumia-se. Não! Ia ficar.
Ele trocou de roupa e saiu.
Começou, então, a passar em revista os acontecimentos no restaurante. Tinha tudo corrido normalmente. Até as habituais trocas de palavras pouco cordiais entre ela e o filho.
O Miguel pediu água gelada, quando era habitual pedirem água à temperatura ambiente. Ela olhou para ele, bem nos olhos.
__A avó gosta de água gelada. Ela só bebe água gelada. Em casa também.
Íris não disse nada. Rodeou com as mãos o copo de água, na tentativa de o tornar menos frio. Há já algum tempo que não bebia água gelada, desde que lera sobre os benefícios da água morna,  ou à temperatura ambiente. E sentia-se bem com isso.
Pouco depois, também o marido observou.
__Detesto água gelada. Só gosto de água quente.
__Sais à tua tia Silvaninha _observou D. Ilda com um sorriso.
E o almoço foi correndo e a conversa fluindo. O Miguel muito solícito com a avó, como sempre, servindo-a e mimando-a. A determinada altura falou-se num primo que estava de férias na aldeia, aproveitando também para fazer férias dos pais, que tinham ficado na cidade. Ìris   observou que o rapaz tinha feito algumas cadeiras do curso que retomara após alguns anos, que não sabia se já tinha acabado, e que as férias seriam merecidas.
__Com curso ou sem curso, com aquela idade, muito dificilmente arranjará trabalho, no momento atual!  __comentou o marido
__ Não interessa! Mas aproveita o tempo para fazer alguma coisa proveitosa, e que acho que lhe faz bem à autoestima. __contrapôs ela.
Falou-se que o rapaz andava a fazer limpezas na casa da aldeia, para receber as filhas, enquanto a ex-mulher ia de férias.
Mais uma vez, ela concordou. Era natural o rapaz querer agradar as filhas.
Mas D. Ilda empunhou o seu aguilhão, fez um dos seus trejeitos recorrentes, a boca num arco com os cantos descaídos, desdenhosos:
__Coitado! A mãe não o soube educar, e ele também não sabe educar as filhas!
__Certamente que ela o educou pensando que fazia o melhor. Os pais amam os filhos incondicionalmente, e fazem sempre o que julgam ser o melhor para eles_ ripostou Íris
Foi então que a grande educadora, atirou, dirigindo-se à nora:
__ Então porque é que a menina e o seu filho estão sempre a discutir ?
A cabra não podia ter atingido ponto mais sensível. Essa era uma grande mágoa que ela transportava, agora já sem doer tanto, mas que aquela mulher má o dissesse como se fosse por inépcia sua relativamente à educação do filho, isso não lho admitia, isso não!
Respondeu-lhe que isso era verdade, sim, mas que nunca admitiria que alguém o ofendesse na sua frente, porque o amava incondicionalmente, e era uma leoa a defendê-lo.
Mas não foi além disso. Dona Ilda não iria entender. Era uma ignorante emocional. A conversa prosseguiu, sem a sua participação. Sentiu uma onda de calor subir-lhe ao rosto. Pressentiu que se ia desfazer em lágrimas. Respirou fundo, apertou o nariz, e a sensação passou.
 Ainda bem que lhe não respondeu. Não valia a pena responder a esta mulherzinha má, sacana, cabra, cabra, cabra, que educou os filhos debaixo da pedagogia do terror, humilhação e chicote, que partia para férias deixando-os entregues a si próprios, que foi sempre fria e incapaz de lhes dar carinho.
Gostava de lhe ter dito duas verdades. Mas não disse. Gostava de lhe ter dito que ela, a sogra,  tinha uns filhos de ouro que não mereceu, que, se eles eram extraordinariamente respeitosos para com ela_ coisa que ela não era com eles, a quem estava sempre a desvalorizar, __ era porque eles, felizmente, tinham o bom feitio do bom do seu marido, que nunca lhes tocara e os enchera de mimos. Que ele, o marido e pai dos seus filhos, era também o pai invejado por todos os miúdos do bairro, e ela era uma megera que ninguém gostaria de ter por mãe. Que agora, depois de velha e eles adultos, chantageava os filhos para continuarem a gravitar à volta dela, que acorriam a sua casa mal ela se lamuriava. Que isso acontecia também porque eles tinham mulheres compreensivas, que os deixavam à vontade para continuarem a mimá-la, como sempre fora.
Que ela e o filho discutiam, sim. Que muitas vezes, depois de terem discutido, ela sentia um misto de mágoa e orgulho; mágoa pela incapacidade de ambos manterem uma conversa sem se exaltarem, orgulho por ele ser detentor de uma capacidade de argumentação que ela não tivera a oportunidade de aprender nem desenvolver.
Que ela e o filho discutiam, sim, por vezes demasiado energicamente para o seu gosto, mas porque o educara no sentido de ser uma pessoa sem medo, que podia expressar livremente o que quisesse, e que o podia fazer com ela, sempre, sem que deixasse de o amar por isso, ao contrário da megera, que os educou hipocritamente para não dizerem o que pensam, numa moral do parece mal, regida por princípios caducos em que os mais velhos, principalmente os pais, têm sempre razão, e não se podem defrontar.
Mas que a ela, a dona Ilda, os filhos lhe não respondiam porque os argumentos dela eram falsos, desonestos, e não valia a pena desperdiçar energias encetando uma conversa que nunca seria saudável, batalhando os  argumentos dela com os  apresentados por eles…
Por isso, ainda hoje, são incapazes de a confrontar e calam-se, muito embora não concordem com aquilo que ela diz, nem com aquela moral decrépita Calam-se, para a pouparem à humilhação de terem que desmontar as suas desculpas, os seus argumentos desonestos, falsos, incoerentes, facilmente desarmáveis, e a verem reduzida a uma mentirosa manipuladora. Calam-se, porque, apesar de terem sido educados por ela, a amam, e são intrinsecamente bons, pois foram herdar o carácter ao pai (graças a Deus).
Mas isto nunca lhe dirá. Porque ela, a sogra, nunca o compreenderia. E porque ela, a nora, é muito melhor do que ela.
E porque depois deste desabafo, a raiva já se foi. 

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Nem olhaste para trás...

Esperas-me à entrada da nossa casa
A casa que ambos construímos com alma
A alma da nossa casa habitada em nós
Os nós com que prendemos os sonhos
Que esvoaçavam iluminados pela lua
A mesma lua que desenha as tuas coxas altas
Na camisa de noite transparente
Transparentes os teus olhos
Enquanto no coração se atropelam
Espessos e profundos presságios
Fitas a noite incendiada de desejos
Desejos flamejantes em tropel
Na noite solitária.
Ainda virás à porta da nossa casa
Sete noites a fio
Uma noite a seguir a outra noite
Sondando a escuridão
Os teus pés descalços caminham
Sobre um tapete de vidros
Mas tu nem notaste
Fizeste a mala e partiste nessa noite
A nossa casa ruiu atrás de ti

Nem olhaste para trás.

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Aqui houve faísca

Aqui houve faísca

      Perto das dez da noite partimos, em direção aos bares e restaurantes da zona histórica que haviam sido selecionados. Íamos cheios de entusiasmo, com a adrenalina a injetar-nos a energia de que todos precisávamos, depois de um dia de trabalho intenso. A baixa de última hora da mentora deste projeto, posto que lamentássemos o que a motivou, não logrou refrear-nos o entusiasmo, já que foi compensada por um amigo e companheiro amante do teatro, tal como todos nós. Seguimos, subindo a rua, o ardina lançando o seu pregão, o instrumento musical acariciado pelos lábios da L., que acorda em mim reminiscências da minha infância: o homem dos sete ofícios a trazer com ele as chuvas de outono, ao mesmo tempo que calcorreava as ruas da terra onde nasci, e o som da música a fazer surgir das portas mulheres com os seus guarda-chuvas a precisarem de um fecho ou uma vareta, facas, tesouras, foices e gadanhas a suplicarem por um novo fio, pratos e travessas partidos a aguardarem o abraço que as voltaria a integrar ao uso, farrapos vendidos ao quilo, panelas e tachos a pedirem um pingo de solda que as devolvesse às tarefas para que haviam sido concebidas…
      Logo de seguida, a canção do “ Amor de Perdição”, colhida ao vivo da boca da minha mãe,  ainda  de boa memória, a cortar a noite calma e fria, nas nossas vozes não muito afinadas. Transeuntes ocasionais mimavam-nos com sorrisos, olhares curiosos e divertidos. Ostentávamos orgulhosamente os bonecos que nós próprias confecionáramos, e assumimos as personagens de saltimbancos e titereiros.
     Entrámos no primeiro bar. Receção calorosa, atenta. Correspondemos.
     O 2º local que nos haviam proposto, estava, àquela hora, deserto. Foi-nos sugerida a visita a um outro. Bem sabíamos ser este um restaurante não acessível a todas as bolsas. Enfim…talvez numa ocasião especial. Mas íamos ali para fazer o nosso trabalho.
Instalámo-nos nas nossas posições e demos início à função. Apenas três mesas ocupadas, uma das quais central, grande, redonda. As conversas que detinham, ficaram, por momentos, suspensas. Mas também os seus ocupantes pareceram terem ficado, também, suspensos de viver, sentir, ouvir, rir, olhar. De facto, os ocupantes da mesa que estavam de costas, de costas ficaram, sem se virarem para os atores que tomavam como suas as peripécias das personagens do “ Amor de Perdição”. Saímos, algo desiludidos com a frieza e indiferença. Quando se põe amor, entusiasmo, energia naquilo que se faz, espera-se, ao menos, um olhar.
      Esta indiferença consolidou em nós aquilo que já várias vezes havíamos experienciado: as pérolas são mal empregadas é naqueles que consideram que o seu estatuto lhes permite olhar os outros com sobranceria, nos que passam pela vida ostentando a máscara que nunca abandonam, que se não permitem sonhar, rir, talvez receando dar razão ao aforismo “ muito riso pouco siso”, sem se darem conta de que o rei vai nu…
      Mas foi-nos pedido que voltássemos no dia seguinte, a uma hora em que apanharíamos os clientes a jantar. Voltámos. Desta vez, sala cheia. Em algumas mesas a conversa continuou, como se nada estivesse a acontecer, o que obrigou os atores a um esforço suplementar para se fazerem ouvir.
      Porém, nessa chuvosa e nebulosa ilha de indiferentes, brilhou um arco-íris: uma mesa onde uma criança acompanhada pelos avós carinhosos nos seguia atenta e embevecida e cujo avô nos acompanhou à porta no final, querendo saber mais sobre nós.
Seguimos para os outros dois espaços: ambos cheios como um ovo, com clientes de diversos níveis etários. E aconteceu a partilha: nós atuámos com a nossa entrega e energia e o público correspondeu com a sua escuta ativa, o seu calor, canto, riso, participação, palmas. Aqui houve faísca.

                     

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Meu amor

Sabe, menina, a mim o meu homem nunca me chamou “meu amor”! Não era dado a essas coisas. Ia direito ao assunto, e… pronto!
Ao princípio ainda me queixei…à minha mãe, e ela apressou-se a dizer que ele estava no seu direito, as mulheres tinham que aguentar e sofrer, que era assim desde o princípio do mundo e assim havia de ser …
Ele era um pouco bruto, tinha que ser quando e como ele queria, não sei se me entende, e depois virava-se para o outro lado, e roncava…Eu ficava ali, no escuro, a tentar perceber como é que as raparigas tanto sonhavam com o casamento, no meu tempo sonhavam, menina, acredite, e depois era aquela coisa tão horrível!...
Mas o mudo, sim! Ai, menina, o mudo! Se não fosse ele, nunca eu tinha percebido como “aquilo” afinal podia ser tão bom…Não, não me arrependo!...quer dizer, em tempos, assim uns remorsos, por causa do mudo…Morreu tão cedo…Pobre homem! Tão terno, tão carinhoso…tão…ai! Aquele olhar dele, manso e sereno como as searas, a chamar-me de “ meu amor”!...Dava-me um estremecimento cá por dentro…
Foi por isso que o meu homem…Ficou cego, quando soube. Já andava desconfiado…e eu não tinha como negar…Ele tinha-me por inteiro…O meu homem tinha o meu corpo, tinha direito a ele, mas o meu coração…ai, esse pertencia ao mudo…
Ainda lhe procurei porque me não tinha matado a mim…O mudo não fazia mal a uma mosca…Sabe o que me respondeu? Que eu era precisa para cuidar dos filhos e das terras…
A quem, ao meu homem? Não, menina, nunca o odiei por isso…Ao princípio sentia assim umas ondas de raiva, mas depois passou-me!...E ele não era mau de todo! Era trabalhador, meu amigo e dos filhos, mas não tinha jeito para meiguices, pronto, era tudo à bruta! E eu até lhe queria bem…Não foi só ele que se castigou lá na prisão, olhe que eu também sofri! E tive que criar os filhos sozinha, a minha São ainda não tinha três anos…
Mas o meu mais velho, uma vez, entrou-me em casa, devia ter aí…uns catorze anos, se tanto… olhou para mim cheio de ódio e gritou-me: “ Afinal o pai está na choldra porque vossemecê lhe pôs os chavelhos! “ Oh! Menina, agarrei no cavalo-marinho, e malhei, malhei, malhei, até o diabo dizer “ bonda!”Atão aquele manganão estava a viver debaixo das minhas telhas, e assim me faltava ao respeito? Aquilo era entre mim e o pai dele! E o pai estava na choldra, porque tinha assassinado um homem, pronto! Mas olhe, quer saber? Deu-me uma coisa, atirei com o cavalo-marinho, e desatei a correr pelo campo fora, que nem uma doida! Só parei quando já não tinha forças para dar nem mais um passo…Senti as lágrimas a caírem-me pelos queixos. Depois começou a chover, e fiquei ali a receber aquela água toda, como se precisasse de lavar a alma. E tomei uma resolução: entrei na ribeira, e fui caminhando pelo açude adentro. Já tinha a água pelo pescoço, quando parece que levei uma sacudidela, olhe, há momentos do diabo, mas a gente também os vence…
A menina vai lá botar isto tudo? Mas não prante lá o meu nome, não? Envergonho-me! Atão está bem.
Quando o meu homem saiu da prisão, veio para casa, pois atão! A casa era dele e minha, e eu não sabia o que ele queria fazer. Era o que ele quisesse. Era o meu homem, o pai dos meus filhos, recebi-o na igreja, para o bem e para o mal, até morrer.
Ora, menina, atão, aquilo com o mudo aconteceu, pronto! A gente não pensamos nestas coisas, são tentações, e quando se vai a ver, já está feito! Ai! Mas fui tão feliz com ele! Tinha umas mãos! Ai, ele sabia, ele sabia como se fazem as coisas! Sabe, eu acho que tudo acontece porque tem que acontecer. Não há volta a dar-lhe! Ao princípio revoltei-me muito, mas depois aceitei. Tive tempo para pensar, para pensar muito! O mudo ensinou-me a amar de uma maneira diferente…e vê, depois do meu homem sair da prisão, ainda nasceu o meu Henrique…O meu homem mudou …tornou-se mais atencioso comigo, na cama, quero dizer…Não, nunca me chamou “ meu amor”, mas pronto, tinha um jeito diferente, mais preocupado com o meu sentir, mais desejoso de me fazer a vontade, para eu…enfim…sabe o que eu quero dizer, não sabe?
      A minha mãe, coitada, nunca soube como é uma mulher gozar com um homem! Eu fui feliz com dois…Com o meu homem, só depois de ele sair da prisão…Atão foi assim: quando veio, foi dormir num divã que tínhamos no sótão. Nem nunca falámos do mudo…Eu punha-lhe o comer à frente, tratava da casa, e ele lá ia prás terras, como se nada tivesse acontecido. Não falávamos muito, ele nunca foi de grandes conversas… Andámos nisto à volta de meio ano…Uma tarde, estava eu a pilar umas favas na cozinha, e sinto um olhar em cima de mim. Levantei a cabeça, e lá estava ele na soleira da porta, a olhar para mim muito sério. Eu olhei também para ele, e ficámos a olhar um para o outro uma eternidade. Não dissemos uma palavra! Olhe, não sei como aquilo foi, quando dei por mim, estávamos os dois a rebolar no chão …É como lhe digo! Ai que risada! A partir daí veio prá nossa cama, e olhe, foi até morrer… Nunca me chamou “ meu amor”, mas apanhou-lhe o jeito!

 O mudo entrou na minha vida para eu ser feliz! Nunca o esqueci, nem nunca vou esquecer! Olhe que já lá vão mais de 60 anos! Ai! O que é a vida! Tenho saudades dos dois por igual! E nunca me arrependi de nada! Ó menina, não ponha o meu nome no livro, pelas alminhas! Não quero cá agora problemas com os meus filhos, ainda era o que me havia de faltar! 

domingo, 8 de janeiro de 2017

Com a respiração...

Com a respiração
Entrecortada
De silenciosos temores
Abro-te uma brecha
Na alma parda da noite.
Nunca é demais
Correres ao sabor do vento
Sentes
Dormentes e tensos
Os afagos secretos
Impregnados
De líquidos acenos
Rabiscados no fragor das ondas
Também os violinos me crescem nas mãos
Como saber quando parar
Agora que já nem o sonho
Me espanta nas manhãs

Sonolentas que te remeto. 

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

O Gato



Há algum tempo que me debato entre a vontade de ter um gato, e o medo de, por qualquer motivo, vir a sentir que abri portas a um empecilho de que não me apetece cuidar. Sempre que aparece algum artigo que fala de gatos, leio, com curiosidade, vou-me apercebendo da grande espiritualidade que lhes é atribuída, e vou-me deixando conquistar pela personalidade destes bichanos.  
Mas a decisão tarda a vir. De vez em quando, aparece uma ou outra amiga a oferecer-me um bichano. Tenho respondido que gosto deles pretos. Desta vez, a oferta era irrecusável: um gatinho preto, de olhos verdes, manso (por enquanto), estava pronto a ser por mim adotado.
Cortei-me. Consultei o meu filho, que se mostrou favorável ao acolhimento de um novo membro na família. Consultei a minha filha, que mostrou uma grande abertura, confessando como também ela gostaria de ter um, mas como o marido é alérgico, está fora de questão. Mas também me alertou para o caráter imprevisível de alguns deles, dando-me referências de bichanos que pertenciam a algumas das suas amigas. Uns meigos, outros completamente malucos e agressivos... É preciso certificar-me da índole do animal. Fora isso, são muito independentes, não dão trabalho, ficam sozinhos por períodos curtos…
Mas, pensei: e se adoece? E se se revelar deficiente, com o de uma das suas amigas? Se tiver um gato, tenho que ser responsável por ele, pensar que, nos próximos …vá lá…15 anos, estou de vida atada a um gato…Não quero ter de devolver o bicho…Se tomar essa responsabilidade, tem que ser para o melhor e para o pior, até que a morte nos separe, a dele, ou a minha. Pois…bem sei que estas promessas se podem violar… Mas não quero ter que me divorciar de um gato, pronto! Perguntei ao meu marido. Ficou ligeiramente alterado, enquanto me dizia que, se eu tomasse essa decisão, o gato era exclusivamente meu, não queria saber da existência do animal, eu é que dava comida, cuidava, levava ao veterinário… Sabia muito bem como eram as coisas, o que tinha acontecido com a cadela, que era minha, mas depois ele é que teve de cuidar…
Respondi-lhe que a cadela tinha vindo para casa a conselho do pediatra, por questões terapêuticas…Era benéfico para um desenvolvimento saudável dos miúdos, partilhar a responsabilidade de um animal. A cadela não era minha, era deles. Mas, de facto, quem tratava, era eu. Até ficar farta de estar constantemente a limpar a trampa que ela fazia, pois nunca a consegui educar a fazer as necessidades num sítio certo.
Bom. Decidi, então, que não ia haver gato. A nossa filha quis saber porquê. Eu comecei a explicação: porque o pai…
O meu marido innão gostou.
__Alto lá! Não é porque eu…Se quiseres assumir, assumes, mas o gato, para mim, não existe.
__Então, e nós somos o quê? Eu vivo contigo, ou vivo com o vizinho? Não somos uma família? Eu só traria um gato para casa, se tu aceitasses…
__Pois, com a cadela…
__Mas a cadela foi diferente…Tu não querias, mas eu achei que era importante para os nossos filhos…E tu acabaste por aceitar e gostar dela…
A conversa ficou por aqui, para se não azedar.
Hoje fazemos anos de casados.
O meu marido apareceu em casa com um ar comprometido. Trazia uma caixa com ele. Pousou-a em cima da mesa, e disse-me:
__Nem sabes o que aconteceu! A Dona Ermelinda, aquela minha cliente que mora na aldeia, e nos costuma mandar ovos…
__Sim!...__ respondi com um grande sorriso, adivinhando o que vinha na caixa, enquanto o meu olhar ufano e surpreendido passava da caixa para ele, e dele para a caixa.
__Deu-te um gato!...__ rematei
Ele limitou-se a assentir com a cabeça, lentamente…
Dirigi-me à caixa, levantei a tampa, ansiosamente, e… lá estava um gato: um gato bem lustroso, não preto, como eu sonhara, mas castanho. Castanho dourado. Jazia no fundo da caixa, inerte, sereno, placidamente. Sem uma palavra, tirei o gato da caixa. O gato era de louça.