"Todos os meus versos são um apaixonado desejo de ver claro mesmo nos labirintos da noite."
Eugénio de Andrade

domingo, 8 de janeiro de 2017

Com a respiração...

Com a respiração
Entrecortada
De silenciosos temores
Abro-te uma brecha
Na alma parda da noite.
Nunca é demais
Correres ao sabor do vento
Sentes
Dormentes e tensos
Os afagos secretos
Impregnados
De líquidos acenos
Rabiscados no fragor das ondas
Também os violinos me crescem nas mãos
Como saber quando parar
Agora que já nem o sonho
Me espanta nas manhãs

Sonolentas que te remeto. 

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

O Gato



Há algum tempo que me debato entre a vontade de ter um gato, e o medo de, por qualquer motivo, vir a sentir que abri portas a um empecilho de que não me apetece cuidar. Sempre que aparece algum artigo que fala de gatos, leio, com curiosidade, vou-me apercebendo da grande espiritualidade que lhes é atribuída, e vou-me deixando conquistar pela personalidade destes bichanos.  
Mas a decisão tarda a vir. De vez em quando, aparece uma ou outra amiga a oferecer-me um bichano. Tenho respondido que gosto deles pretos. Desta vez, a oferta era irrecusável: um gatinho preto, de olhos verdes, manso (por enquanto), estava pronto a ser por mim adotado.
Cortei-me. Consultei o meu filho, que se mostrou favorável ao acolhimento de um novo membro na família. Consultei a minha filha, que mostrou uma grande abertura, confessando como também ela gostaria de ter um, mas como o marido é alérgico, está fora de questão. Mas também me alertou para o caráter imprevisível de alguns deles, dando-me referências de bichanos que pertenciam a algumas das suas amigas. Uns meigos, outros completamente malucos e agressivos... É preciso certificar-me da índole do animal. Fora isso, são muito independentes, não dão trabalho, ficam sozinhos por períodos curtos…
Mas, pensei: e se adoece? E se se revelar deficiente, com o de uma das suas amigas? Se tiver um gato, tenho que ser responsável por ele, pensar que, nos próximos …vá lá…15 anos, estou de vida atada a um gato…Não quero ter de devolver o bicho…Se tomar essa responsabilidade, tem que ser para o melhor e para o pior, até que a morte nos separe, a dele, ou a minha. Pois…bem sei que estas promessas se podem violar… Mas não quero ter que me divorciar de um gato, pronto! Perguntei ao meu marido. Ficou ligeiramente alterado, enquanto me dizia que, se eu tomasse essa decisão, o gato era exclusivamente meu, não queria saber da existência do animal, eu é que dava comida, cuidava, levava ao veterinário… Sabia muito bem como eram as coisas, o que tinha acontecido com a cadela, que era minha, mas depois ele é que teve de cuidar…
Respondi-lhe que a cadela tinha vindo para casa a conselho do pediatra, por questões terapêuticas…Era benéfico para um desenvolvimento saudável dos miúdos, partilhar a responsabilidade de um animal. A cadela não era minha, era deles. Mas, de facto, quem tratava, era eu. Até ficar farta de estar constantemente a limpar a trampa que ela fazia, pois nunca a consegui educar a fazer as necessidades num sítio certo.
Bom. Decidi, então, que não ia haver gato. A nossa filha quis saber porquê. Eu comecei a explicação: porque o pai…
O meu marido innão gostou.
__Alto lá! Não é porque eu…Se quiseres assumir, assumes, mas o gato, para mim, não existe.
__Então, e nós somos o quê? Eu vivo contigo, ou vivo com o vizinho? Não somos uma família? Eu só traria um gato para casa, se tu aceitasses…
__Pois, com a cadela…
__Mas a cadela foi diferente…Tu não querias, mas eu achei que era importante para os nossos filhos…E tu acabaste por aceitar e gostar dela…
A conversa ficou por aqui, para se não azedar.
Hoje fazemos anos de casados.
O meu marido apareceu em casa com um ar comprometido. Trazia uma caixa com ele. Pousou-a em cima da mesa, e disse-me:
__Nem sabes o que aconteceu! A Dona Ermelinda, aquela minha cliente que mora na aldeia, e nos costuma mandar ovos…
__Sim!...__ respondi com um grande sorriso, adivinhando o que vinha na caixa, enquanto o meu olhar ufano e surpreendido passava da caixa para ele, e dele para a caixa.
__Deu-te um gato!...__ rematei
Ele limitou-se a assentir com a cabeça, lentamente…
Dirigi-me à caixa, levantei a tampa, ansiosamente, e… lá estava um gato: um gato bem lustroso, não preto, como eu sonhara, mas castanho. Castanho dourado. Jazia no fundo da caixa, inerte, sereno, placidamente. Sem uma palavra, tirei o gato da caixa. O gato era de louça.

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

A vingança serve-se fria

Sabia bem o quanto era o alvo da chacota deles todos. Gozavam com a sua fala arrastada, com aquele som que lhe saía como se tivesse o nariz entupido, com as palavras que se lhe enrolavam na língua e que ele não conseguia pronunciar como os outros. Gozavam com a sua falta de jeito, com a lentidão com que fazia as coisas, com os pensamentos que se lhe atropelavam e que não conseguia explicar. Sabia muito bem que quando o convidavam para um copo e uma sardinha na taberna do Ti Zé das merendas, era só para se rirem dele. Deixá-lo! Fazia-se teso, como se aquelas gargalhadas de escárnio se lhe não entranhassem na pele, nos ouvidos, no cérebro, e não lhe ficassem a martelar na cabeça, impedindo-o de dormir logo, como gostava.
Um dia…um dia…havia de se vingar…bem, ele lá se ia vingando à sua maneira, rindo-se com eles das suas próprias incapacidades. Mas, pelo menos, não se deitava com a barriga vazia. Dava-lhes o que eles queriam. E recebia o que lhe fazia falta. Mas eles é que perdiam, sem se aperceberem que até exagerava nas palermices, inventava coisas que não fazia, armava-se num trapalhão ainda maior do que era. E ao arrancar-lhes tantas gargalhadas, que alguns até diziam que se mijavam a rir, tinha a certeza de que o garrafão se ia inclinando generosamente para lhe encher o copo sempre que estava vazio, que podia surripiar à vontade as lascas de bacalhau, as iscas de presunto. E exagerava nos olhos arregalados, na cara de parvo com que Deus o castigara, arrancando gargalhadas daqueles alarves. No fundo, era a sua maneira de sobreviver, tal como fazem os palhaços, no circo, ou os atores no palco.
Ouvia-lhes os comentários nas costas, pensando talvez que os não ouvia, ou não percebia o alcance do que diziam:
__O Tó Tonto é cá um personagem!
Pois bem! Que pagassem pelo tanto que se divertiam.
Um dia convidaram-no para uma jantarada. Tinham caçado um javali. Convidaram-no para ser o bobo que ia diverti-los a todos. Já sabia o que lhe iam perguntar: como tinha morrido o avô.
Ai o avô fazia-lhe tanta falta! Agora já não tinha ninguém! Tinha morrido a única pessoa que o amava, que o conhecia por dentro e por fora, a única pessoa com a qual não precisava se fingir, de se fazer mais tolo do que era. Era tão carinhoso para ele! Mas às vezes, também um tanto impaciente. Dormiam juntos, na mesma cama. No inverno, debaixo dos cobertores puídos, confortavam-se com o calor do corpo um do outro. Durante o último mês, andara a arrastar-se pelos cantos, chorava com uma criança, sem vontade de rir, de comer, de dormir. E eles divertiam-se, quando lhe perguntavam como tinha morrido o avô e ele se perdia em pormenores, contando tintim por tintim a agonia do avô, trazendo até à praça a sua intimidade. Bem via como todos se riam, embora se fingissem muito pesarosos, mas ele não conseguia deixar de falar nos últimos dias da existência daquela alma que tanto o amara…Chamavam-no para ao pé deles, e riam-se nas suas costas com o seu relato. Não sabe como se aguentou. Só bebia, e, ao outro dia, quando acordava, todo vomitado, nem sequer sabia como fora parar à cama.
E agora convidavam-no para se divertirem à sua custa e do avô. Se pensavam que iam levar a melhor, estavam enganados. Esperavam que ele chorasse baba e ranho, que ficasse muito dolorido, enquanto eles enfardavam do javali.
Ouvia-os cochicharem. Houve quem perguntasse que fazia ele ali. Que já eram bocas de mais, que davam bem conta do recado sem aquela boca glutona a roubar-lhes os bocados mais apetitosos. Que não se amofinasse, responderam, que ele ia desatar a choramingar e não ia comer nada. Fingiu-se de tolo, como convinha, papel, aliás, que ia muito bem com ele.
Quando se atirou a um bom naco de javali, bem viu pelo canto do olho as cotoveladas que alguns trocaram, numa chamada de atenção para o porem na ordem. Veio então a pregunta que ele já esperava.
__Então, Tó, conta lá, como é que morreu o teu avô?
E a resposta veio rápida e concisa, tão rápida quanto a sua deficiência na fala lhe permitia:
__ De repente!
E ponto. E, enquanto os seus anfitriões se refaziam da estupefação, enterrou os dentes no javali, e foi emborcando os copos de tinto. E, naquela noite, ninguém mais lhe arrancou uma palavra, enquanto se não sentiu completamente saciado.
Foi a sua vingança.

quinta-feira, 5 de maio de 2016

A mãe...

A mãe tem a dor da tua ausência
A morar com ela…
Tem o eco dos teus passos
A ressoarem nas escadas
Aquele bater da porta
Quando por ela entravas,
O eco da tua voz a chamar por ela.

Tem a dor da tua ausência
Presente em cada gesto,
 Em cada um dos segundos
Da sua vida
Subitamente desabitada de ti…

Na casa instalou-se o vazio.
Eras tu o seu esteio, a sua força,
O seu porto seguro…
Mesmo nos teus gestos mais ríspidos,
Nas tuas palavras mais impacientes,
Estavas tu, inteiro e material.

Acudia ao teu apelo,
Tocava-te, e estavas ali.
Custava-lhe a acreditar
Que o seu homem tão forte
Fosse feito de fraquezas.
E quando te abraçava
Sentia os teus ossos a furarem a pele,
A confusão a turvar-te o discurso sempre fluido,
A bengala mais pesada e titubeante…
Mas ignorava os sinais…

Partiste, e o vazio instalou-se.

Os gestos que ora inaugura
São tímidos, inseguros,
Perdidos do caminho
Que sempre para ela traçaste…

E eu sinto-a frágil, inquieta,
A soerguer-se do pesadelo da tua partida,
Os passos inseguros, o olhar ainda incrédulo…

Mas enquanto profundos suspiros
Lhe sobem do peito,
E a sua alma desliza nas lágrimas
Silenciosas que lhe correm pela face,
Vai lentamente tecendo
Forças nas suas fragilidades
E eu sinto-me submersa de ternura…

Dói-lhe caminhar sem ti.
Dói-me sabê-la sem ti.
Dói-me…dói-me…dói-me.



segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

O EGO


Há pessoas com o ego tão empolado, que acreditam que o mudo gira à volta delas e do seu umbigo.
 Há pessoas que fazem o que podem para sabotar o trabalho dos outros.
Há pessoas que se julgam imprescindíveis para que as coisas rolem. E se as coisas rolam, apesar da sua demissão, hasteiam o discurso de preteridas, porque as suas opiniões iriam estorvar as decisões dos outros.
Há pessoas que esquecem que democracia não é os outros fazerem o que elas desejam.
Há pessoas que às vezes precisam de largar a carga inútil para poderem avançar.

Há pessoas e pessoas.

sábado, 26 de setembro de 2015

O Coelhinho da menina

Era uma vez uma menina que adorava bebés. Quando alguém lhe perguntava:
__  De que é que tu gostas, minha menina?
Ela respondia:
__ De bebés.
Ou:
__ O que é que tu queres?
 __ Ela respondia:
__ Um bebé.
Se lhe perguntavam em que estava a pensar, respondia:
__ Num bebé. Eu queria um bebé!...
Os adultos passavam a vida a fazer-lhe sempre as mesmas perguntas, só para ouvirem as mesmas respostas de sempre. E achavam muita graça à menina e riam-se com as suas tiradas. Mas a menina não percebia onde estava a graça.
Um dia a família foi visitar uns tios da menina, que viviam muito looooonge, lá para os lados da capital. Esse lugar chamava-se Lugar de Murches. A casa dos tios tinha um enorme quintal com uma horta. Nos fins-de semana e depois do trabalho, o tio cultivava tomates, abóboras, uvas, cebolas e outras coisas. Lá havia uma capoeira, um pombal, e até…vejam lá! Coelhos. Em casa da avó da menina também havia capoeira com galinhas, mas a avó da menina não gostava que  brincasse com elas, pois dizia que lhe podiam furar os olhos. E também havia um pombal grande, que o pai tinha construído, com muitos pombos. Coelhos é que a menina nunca tinha visto. E ficou ali, muito espantada, a olhar para eles. O tio percebeu a admiração da menina, e, como gostava muito desta sobrinha, filha da sua irmã mais nova, tirou da coelheira um coelhinho branco que mais parecia uma bola de algodão, e colocou-o no colo da menina. A menina estremeceu de contente. Começou a fazer-lhe festinhas, com toda a delicadeza, a dar-lhe beijinhos, a falar com ele com toda a ternura. O bichinho aninhou-se no colo da menina.
O tio da menina enterneceu-se, e disse:
__ Olha, olha, o coelho gostou de ti.
A menina não respondeu: abraçou-se ao coelho, esfregou o rosto no pelo do animal,  e só o deixou voltar para a coelheira, quando o tio lhe explicou que o bichinho já devia estar com saudades da mãe.
Nos oito dias que ali passaram, a menina só queria estar junto daquele coelhinho, e o tio satisfez-lhe a vontade.
O grande problema foi na hora de voltar para casa. A menina agarrou-se ao bicho, e chorava, chorava, chorava.
__ Eu gosto muito dele! E ele também gosta de mim! Eu não quero ir embora sem o meu Coelhinho!
O tio não conseguiu resistir à tristeza da sobrinha, e declarou:
__Bom, isto foi um caso de amor à primeira vista. Pois o coelho é teu, minha joia!  
Quando a menina ouviu estas palavras, o seu contentamento não teve limites. Abraçou o tio com um bracinho, enquanto com o outro segurava o seu tesouro contra o peito.
O tio arranjou uma caixa de cartão, e fez-lhe uns furos para o coelhinho poder  respirar. A pequena bem queria fazer a viagem com ele ao colo, mas o pai disse que não, que ele ia sujar o carro todo. E quando o pai dizia que não, era mesmo não. E a caixa viajou no porta-bagagens da carrinha. A pequena estava constantemente empoleirada no banco, sem tirar os olhos da caixa, com medo de que ela pudesse desaparecer. Naquele tempo ainda ninguém tinha inventado as cadeiras nem os cintos de segurança nos carros. A viagem era estafante, e ela acabou por adormecer.
Quando chegaram a casa, onde decidiram colocar o coelho? No pombal. A menina ainda sugeriu que o queria a dormir na sua cama, mas o pai disse, meio sério, meio a rir:
__ Tu não sabes o que dizes!
O pombal, além das casinhas para cada casal de pombos, tinha um espaço muito grande, com rede a toda a volta, para eles poderem voar, e, por isso, o coelhinho, ocupou uma das casinhas do rés-do-chão que estava vaga. E ali ficou, em são convívio com os pombos. E a garotinha nunca mais falou em bebés.
Certo dia, a menina ouviu uma conversa que a deixou intrigada. O caseiro dizia ao pai que devia dar milho e água ao coelho, para crescer mais depressa e ficar muito saboroso.
O tio tinha-lhe ensinado que os coelhos gostavam de cenouras, alface, couves, e o Zé da Volta queria dar-lhe milho? Ela sabia muito bem o que queria dizer saboroso, porque o pai, às vezes, quando estava a comer, dizia:
__Ó mulher, isto está muito saboroso!
Mulher era como o pai chamava a mãe. E fazia uma cara de contentamento, por isso, saboroso é uma coisa boa, uma coisa de que se gosta.
A menina achava que o seu Coelhinho já era bastante saboroso, pois ela gostava muito dele, mas, se ainda ia ficar mais saboroso, melhor. Por isso não se espantou, quando o seu Coelhinho começou a ser alimentado com milho e água. Ao princípio, o coelho parecia não gostar muito desta dieta.
__ Olha, Coelhinho, é muito importante! Tens que comer, para cresceres, e ficares muito saborooooso, sim?__ explicava a menina com muita meiguice. E acompanhava as explicações fingindo levar o milho à boca e mastigar.
__Tão saboroso! __dizia.
Parece que ele percebeu, pois acabou por comer e nunca mais recusou este alimento.
Ela continuava a pegar-lhe ao colo, a fazer-lhe festinhas, a dar-lhe miminhos e a conversar com ele. Mas cada vez era lhe era mais difícil pegar nele.  Estava tão pesado!
Um dia a menina foi dar com o irmão a correr atrás do seu Coelhinho, fora do pombal. E disse-lhe:
__Não faças isso! O Coelhinho não gosta! Fica muito cansado!
__Ora! Quando for para a panela, o cansaço passa-lhe.
__Para a panela?! Ele não vai a lado nenhum sem mim!__ respondeu, ainda sem perceber o alcance das palavras do irmão. Mas as gargalhadas que ele soltou  feriram-lhe o coração.
__Também queres ir para a panela?! Em arroz de cabidela?!
 A menina ficou parada, de boca aberta, olhos escancarados, a olhar o irmão. De súbito desatou numa gritaria tão grande, tão grande, que a mãe acudiu.
__O que fizeste à tua irmã?
__Eu? Nada! Só lhe disse a verdade!
A pequena soluçava, sem conseguir falar. A mãe pegou-lhe ao colo, a tentar confortá-la
__Ele diiiiii….sse…que…o coooo…eeeeee…lhinho vai prá paneeeeee…laaaa…não vai, pois, não, mamã?
A mãe lançou um olhar furibundo ao filho mais velho.
E, enquanto lhe afagava os cabelos, dizia-lhe:
__Sabes, filhinha, os coelhos são para comer, como as galinhas…!
__Mas o meu Coelhinho não, pois não, mamã?
__Mas arranjamos outro, sim, meu amor?
__NÃOOOOOOOOOOOOOO! O meu Coelhinho não!
E a menina continuava a soluçar.
__ Pronto, está bem, eu vou falar com o papá, sim?
__Siiiiiiiiim ! O meu Coelhinho não, o meu Coelhinho não.O coelho da menina ficou em paz durante algum tempo. Certa manhã, a garota chegou ao pombal para brincar com o Coelhinho, e ele não estava lá. A mãe então contou-lhe que o Coelhinho adoecera e morrera durante a noite e que o caseiro o levara, para enterrar na quinta. Ela já vira alguns pombos-bebés mortos, e já sabia que a morte apaga a dor das pessoas e dos animais. Por isso chorou, com saudades do Coelhinho. E enquanto as lágrimas iam correndo pela carinha dela, ela dizia para a mãe:  
  __Olha, mamã....eu quero... um bebé, sim...?

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Pensão de luxo

À Marimília foram sempre poupados os duros trabalhos do campo, demasiado pesados para a sua humilde compleição. Mas desde novinha que se mostrou hábil a preparar as refeições, a apurar os guisados, os assados, a escolher as ervas e os temperos capazes de transformarem uma simples refeição em algo delicioso e diferente, numa explosão de sabores irresistível e deliciosa. Das suas mãos saiam os pratos mais apetitosos, aptos a satisfazerem os paladares mais exigentes e apaziguarem os estômagos mais carentes.
Fez-se cozinheira. Era requisitada para festas, casamentos, batizados… Mas era preciso comer todos os dias, não só nos dias de festa. Especializou-se na confeção de enchidos. Dos arredores, e até mesmo de Lisboa, onde os conterrâneos apregoavam os seus dotes, chegavam encomendas das suas maravilhosas chouriças, morcelas, alheiras e farinheiras, que não tinham igual. Em breve era ela a única fonte de rendimento, o homem da casa, já que o seu não conseguia granjear o sustento, sempre doente, com aquela tosse cavernosa a encher as noites de arranques e roncos aflitivos. Marimília cedo percebeu que a única filha, a pequena Alice, nunca herdaria a sua profissão. Por mais que tentasse introduzi-la nos segredos da cozinha, a pequena não mostrava gosto nem jeito. Enjoavam-na os odores dos temperos, deixava esturricar os refogados, os estufados resultavam enxaguados e sensaborões, as sopas ora salgadas ora insonsas…
Nunca conseguiria sustentar-se, se ela não lhe encaminhasse os passos. Que a pequena era bonita, disso não havia qualquer dúvida. E tinha qualquer coisa, que nem ela saberia dizer bem o quê, talvez o olhar ingénuo, num corpo que desabrochava bem provido de atrativos…Se as duas fossem espertas, esses atributos poderiam conquistar-lhe um marido rico e uma boa vida…
Alice foi crescendo. A mãe ia-lhe alimentando a vaidade, e os luxos. A rapariga até se julgaria rica, não fosse a imposição da mãe para ir trabalhar na fábrica de lanifícios da aldeia, pois já tinha bom corpo para isso. Fez o pedido ao sr. Antoninho, o  dono da fábrica. A rapariga aprendia bem, tinha uma letra bonita, e foi contratada para ajudante do guarda-livros. O seu bom feitio, aliado a dois palmos de cara atraentes, depressa conquistaram a atenção do patrão.
Quando o sr. Antoninho enviuvou, Marimília entendeu que o destino estava a jogar a seu favor, e começou a conceber o plano. Foi sondando a sua Alice, enchendo-lhe a cabeça de sonhos, e dando-lhe instruções precisas de atuação. A rapariga insinuava-se cada vez mais, mas o patrão continuava mergulhado na sua mágoa.
__ Tens que ser mais esperta, Alice! __dizia-lhe a mãe __Olha que não hão de faltar por aí lambisgoias prontinhas para lhe deitar a mão!
__ Oh! Minha mãe! O pobre não tem olhos para ninguém, anda tristinho como a noite!
__Pois sim, mas a tristeza não vai durar sempre, e quando acabar, tens que estar lá, e ele perceber que te preocupas …
E Marimília fechava-se nos seus pensamentos, endrominando planos …
Até que um dia…
__Olha, pergunta lá ao teu patrão se gosta de chouriças…
A resposta veio, célere.
__ Adora, minha mãe!
__Pois então, quando vier o tal dia do mês, avisa-me!
__ O tal dia do mês?!
__ Sim, minha parva, as regras!...
Marimília acreditava que o caminho certo para chegar ao coração de um homem era através do estômago, e, se ele se mostrasse renitente, havia sempre outros truques para ajudar. Bastava uma gotinha da “história” de Alice, nem de mais, nem de menos…apenas na conta certa. Resultava sempre.
Num sábado à tarde, Alice apresentou-se no escritório da fábrica, onde tinha a certeza que iria encontrar o patrão. Uma cestinha forrada com um paninho de linho bordado, onde não faltava uma boroa, uma garrafinha de vinho tinto, outra de aguardente para assar a chouriça na pequena assadeira de barro. O decote mais aberto que habitualmente, como que sem dar por isso, a deixar entrever carnaduras virginais…
__ Para o patrão, um miminho só para o ver sorrir outra vez.
Antoninho comoveu-se, e quis partilhar com Alice a iguaria…Mas a rapariga apenas aceitou um cantinho de boroa, para não fazer desfeita, já que comia tantas chouriças, que, por vezes as enjoava…
Ao chegar a casa, a mãe esperava-a como o caçador espreita a sua presa…Alice trazia no rosto um rubor prazenteiro, e um sorriso largo…
__ Então, ele comeu a chouriça?
__ Comeu, minha mãe, até chupou o baraço…
__Está no papo, filha!...O homem é teu, é teu…
E foi. Antoninho teve de vencer a resistência da mãe, da sogra, que com ele cortou relações e exigiu que lhe fossem entregues os três netos.
Do casamento nasceram duas meninas. Mas, apesar da vida desafogada, das  criadas que lhe poupavam o trabalho da casa, Alice, agora Dona Alicinha, não foi feliz. Antoninho adoeceu, com uma doença estranha, incurável, que lhe tomou conta do espírito e lhe chupou o corpo, uma doença que o tornou instável, louco de ciúme, violento. Dona Alicinha ficou viúva. Após uma querela interminável pela posse dos bens, pouco mais lhe restou que a casa onde vivia, e onde Antoninho já vivera com a primeira mulher. Era uma casa enorme, recheada com móveis luxuosos, tapetes orientais, porcelanas, salvas e faqueiros de prata, bragal de linho bordado, colchas de rendas, sedas e cetins. Dona Alicinha viu-se a braços com um casarão que não sabia como manter. Valeu-lhe o espírito empreendedor da mãe, que, mais uma vez, veio em seu auxílio. Instalou-se no casarão, ou melhor dizendo, na cozinha. Em poucos dias a decisão estava tomada, e, após um mês para reorganização dos espaços, a casa da Dona Alicinha abriu-se ao público para receber hóspedes.

Não tardou que a fama das ótimas instalações e comida primorosa da casa da Dona Alicinha chegasse longe. Para isso contribuiu, certamente, a calorosa anfitriã. Nunca ali faltavam os que procuravam repouso, consolo, ou refrigério no colo e nos braços sempre generosos da Dona Alicinha, que a nenhum hóspede negava os seus talentos. 

segunda-feira, 22 de junho de 2015

O Elevador

Um suor frio perlava-lhe a fronte.
Ficara novamente encurralada no elevador. A repetição desta situação provocava-lhe náuseas de revolta. A administradora do condomínio andava a brincar com os moradores! Pois!...Morava no rés-do-chão...
Furiosa, carregava no alarme ininterruptamente. Eis senão quando…
Espanto!...A porta do elevador abriu-se!...
O vizinho do sétimo, um calmeirão gorduroso, barba por fazer, entra no elevador e sussurra:
__Sua marota! Outra vez a avariar o elevador?!
E carrega no botão para a cave.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

O carrocel

Já há algum tempo que eu estava naquele antiquário morrendo de tédio.
Num domingo à tarde, um casal entrou na loja, e foi percorrendo com o olhar as diversas antiguidades, velharias e quinquilharias.
A mulher deteve-se em frente da prateleira onde eu estava exposto. Olhou-me demoradamente, e eu senti um frémito de prazer percorrendo-me o corpo. A atração foi mútua, pensei eu. Mas depressa os seus olhos se desligaram de mim e passearam por outros objetos da loja. Senti-me desiludido.
Algum tempo depois, a mulher voltou. O dono acudiu:
__É uma caixinha de música, sabia?
__ A sério?!
__Sim. Quer ouvir?
O dono pegou-me, e rodou o círculo onde os quatro cavalinhos de madeira estavam implantados. Dentro de mim soltou-se a música de embalar, enchendo o espaço de estrelas e encantamento.
__É isto mesmo que eu quero! Rui, olha, para o Afonso!
__ Mas para quê?
__ Para ele adormecer… para se acalmar, quando…percebes?
Aquelas palavras eivadas de mistério e ansiedade aguçaram a minha curiosidade. Antes de dar ordem para me embrulhar, as mãos da mulher afagaram gentilmente o meu corpo, desde o pináculo, os rebordos, passando pelos cavalinhos, pelo círculo branco que girava e comandava a música, até à base de madeira pintada de vermelho.
Não tardei a perceber. Mal chegaram a casa, a mulher correu a colocar-me num quartinho infantil, numa estante de onde convergiam duas caminhas dispostas em L. Nessa noite eu assisti ao ritual. Duas crianças em pijama entraram no quarto, riram, brincaram, saltaram sobre os colchões. A mãe, a mulher que me comprara, veio, contou-lhes uma história, aconchegou-os. Rodou o manípulo, os cavalos giraram, e a música desprendeu-se. A menina adormeceu quase instantaneamente.
O rapazinho soergueu a cabeça, e disse:
__Que lindo, mamã!
__Vá, dorme! __ cochichou a mãe, assentando um último beijo na testa do menino.
Apagou a luz, e deixou a porta do quarto entreaberta, permitindo que, do corredor, uma ténue faixa de claridade se projetasse no tapete do quarto.
Mas o rapazinho não adormecia. Constantemente chamava a mãe. A mãe chegava, rodava o meu manípulo, e a música soltava-se. O menino acalmava-se durante alguns instantes, a mãe saía, e tudo voltava ao mesmo. Finalmente adormeceu. Tudo ficou em silêncio. Eu também adormeci.
Fui acordado por uns gritos lancinantes a romperem a noite.
O rapaz gritava, aterrorizado, clamando pela mãe. Ela irrompeu pelo quarto, pegou no filho ao colo.
A criança tinha os olhos abertos, mas fixos, parecendo não ver. A mãe abraçava-o, proferindo palavras de conforto que não logravam romper o muro que os separava.
__ Acalma-te, meu filho, acalma-te! A mamã está aqui! A mamã está aqui!
Mas a criança continuava a berrar, encerrado no seu terror, percorrendo, solitário, a escuridão. A mãe chorava, impotente e em pânico.
Logo a seguir entrou no quarto o homem. Envolveu no seu abraço a mulher e o filho, sussurrando:
__Sssssshhhhh! Sssssssshhhhh!
De repente o homem saltou em direção à estante, pegou-me, fez girar o meu mecanismo, e a música fez-se ouvir. Pouco a pouco a criança foi-se acalmando, e acabou por adormecer. Eu ouvia o choro silencioso da mãe e pressentia a sua angústia e desespero. O homem saiu do quarto e a mãe ficou, culpabilizando-se, talvez, por não conseguir que a sua voz chegasse ao interior do seu menino. Quando a música parou, a mulher fê-la voltar ao início. Esta foi a primeira noite em casa desta família. Foi, talvez, a mais dura de todas. Aquela que me fez perceber a esperança que aquela mulher depositou em mim, quando me viu, pela primeira vez, no antiquário. Muitas outras noites se seguiram. Todas as noites eu trabalhava. De vez em quando repetiam-se estes episódios de terror. No dia a seguir a estas ocorrências, o menino acordava cansado, mas não se lembrava de nada. Eu fui percebendo a importância da minha música para aquela criança, mas, sobretudo, para a mãe. O Afonso cresceu. Os terrores noturnos foram reduzindo de frequência e intensidade, até acabarem definitivamente. E eu fui atirado, pelas mãos do rapaz, para o fundo de um caixote, na companhia de alguns peluches, spiderman´s , e tartarugas Ninja.
Durante alguns anos estive adormecido no sótão. Até que…
Um dia a tampa da caixa onde estava guardado levantou-se, e uma réstia de luz acordou-me. Ouvi uma exclamação de espanto. Era ela. Pegou-me com carinho, fez girar o meu manípulo, e a minha música ecoou naquele exíguo espaço.
Desde esse dia, tenho tido lugar de destaque entre as coisas de que ela mais gosta: os seus livros, e outros objetos de estimação. Até já fui estrela numa peça de teatro em que ela entrou, onde fui ovacionado de pé por uma casa cheia. Voltei a sentir-me importante. Todos os dias sou acariciado pelo seu olhar. E continuo, até hoje, a acalmá-la com a minha música, e, às vezes até, a inspirá-la.

Sinto-me amado.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

A aldeia dos sonhos perdidos

Naquela aldeia encaixada nas montanhas, só viviam pessoas idosas, viradas para si mesmas, dentro das suas casas tristes, onde, muitas vezes, nem a luz do sol deixavam entrar. Viviam entregues às saudades da juventude, e, pouco a pouco, foram deixando murchar os sonhos que em tempos moraram dentro delas. Até já se tinham esquecido de quando as varandas estavam repletas de flores, e as melodias que lhes nasciam na alma, irrompiam pelas gargantas e enchiam os campos de sons harmoniosos que ficavam a pairar no ar.
Nesse tempo, quando uma cantiga se escapava por uma porta ou uma janela, logo outra respondia do outro lado da aldeia. E outra do outro canto, e do outro, e do outro…
E quando andavam na labuta nos campos, era a mesma coisa. A atmosfera ficava prenhe da música dos pássaros e das cantigas que os camponeses cantavam ao desafio.
Havia jovens e crianças na aldeia, nesse tempo. Depois da escola as crianças corriam para a ribeira, para pescarem e nadarem. Os mais velhos tomavam conta dos mais novos, e ensinavam-nos a nadar, a escolher o melhor isco para as trutas, as bogas, os achigãs…
Nas longas tardes de verão, sentados ao sereno, sob a luz das estrelas e do luar, ouviam-se histórias acompanhadas com música, que os mais novos escutavam com atenção e religiosidade. No inverno, era ao calor da lareira que os pequeninos adormeciam, embalados pelas histórias dos avós. Assim aprendiam a interpretar os ciclos da vida, a escutar o palpitar da Natureza, a amarem-na, a respeitarem-na. Era uma aldeia feliz…
Mas as crianças cresceram e partiram, levando os seus sonhos na bagagem. A escola fechou, as ervas tomaram conta dos recreios e invadiram as salas de aula. Os campos ficaram ao abandono. Sem alma, muitas casas ameaçavam ruir de solidão e esquecimento. Os pais dessas crianças eram agora os idosos da aldeia. Passavam o dia inteiro lamuriando-se. Já não queriam saber de nada. Viviam dentro das casas, trancados nos seus problemas. Nem mesmo os que ainda podiam caminhar, se atreviam a ir à rua. Arrastavam-se de ombros descaídos, olhos postos no chão. Não ouviam os pássaros,  nem o silêncio da noite, e tinham esquecido o gesto de levantar a cabeça para olhar as estrelas…Muitos tinham emudecido, à força de não usarem as palavras para se expressarem… Estavam a deixar-se morrer. Tinham perdido os sonhos.
Um dia um jovem chegou à aldeia. Trazia estrelas nos olhos e sonhos na voz. E uma concertina. Chegou ao adro da igreja, sentou-se no meio do chão, com as pernas cruzadas e começou a tocar, com alma e entusiasmo. Tocou, tocou, tocou, tocou… Nas janelas, algumas cortinas curiosas levantaram-se cautelosamente, mas ninguém apareceu no adro. Ao fim de uma hora, o jovem partiu, e no ar ficou o eco das músicas que os idosos identificaram, depois de procurarem nos escaninhos da memória.
Naquela noite, muitos adormeceram com uma grande nostalgia no coração. A nostalgia da felicidade.
Eram quase três horas da tarde quando, no dia seguinte, a acalmia foi interrompida pela concertina do jovem. Ele tinha voltado. Agora caminhava por todas as ruas e vielas, tocando a sua concertina. Com um reportório renovado. E, ao fim de uma hora, partiu. Em todas as casas se gerou agora um sobressalto: que fazia ali aquele rapaz? Que queria ele? Tocava tão bem!
Muitos recordavam os dotes musicais que tinham deixado cair no esquecimento. Houve quem tivesse ido procurar os instrumentos que havia tocado em jovem, e experimentado a firmeza dos dedos agora rígidos, ou tivesse levado à boca os instrumentos de sopro…Houve quem tivesse começado a trautear timidamente as cantigas que entoara em tempos…Houve quem pensasse que não estava para cantigas…Houve que sentisse um estremecimento na alma…Houve quem chorasse de emoção…Mas as portas continuaram fechadas.
Porém, em todas elas, a expetativa ia tomando conta dos habitantes: voltaria o jovem no dia seguinte?
Naquela noite, houve quem não conseguisse dormir…
 Perto das 3 horas da tarde, adejavam cortinas impacientes por detrás das janelas das casas que circundavam o adro. Nas outras, colocavam-se os ouvidos de atalaia, e descerravam-se as janelas… Já passavam 10 minutos das 15 horas quando a música da concertina do jovem o fez anunciar, antes da sua figura desembocar no adro. Um suspiro de alívio de que só os próprios se aperceberam, soltou-se em uníssono dos peitos expectantes. De repente, uma porta abriu-se, soltando um dolente queixume. E os passos trémulos do ti Albano encaminharam-se para o meio do terreiro, onde estava o jovem. O ti Albano encostou o violino ao pescoço, rapou do arco, e começou a acompanhar a música que o jovem tocava. Os olhos do bom do velho estavam húmidos. Não foram precisas palavras para os dois se entenderem. Já tocavam há meia hora, quando a velha professora se aproximou timidamente com o seu cavaquinho. E as duas irmãs que moravam no fundo da aldeia, vieram com as suas vozes trémulas, mas ainda bonitas, acompanhar os músicos. E, já mesmo quase na altura do jovem partir, também os velhos da casa amarela se juntaram ao coro. Passou uma hora e o jovem partiu, sem uma palavra, deixando os idosos que se aventuraram a furar a solidão forçada, cheios de perguntas. Envergonhados, regressaram aos seus refúgios.
Naquela aldeia, algo estava a acontecer. Houve janelas que se abriram e deixaram o sol penetrar pelas casas. Houve quem viesse sentar-se na soleira da porta, à noite.
No dia seguinte, quase todas as janelas se abriram, e houve vizinhos que se saudaram. Havia sonhos a irromperem nas almas abandonadas.
À hora habitual todos estavam preparados para receberem a música nos seus corações. Mas o jovem não veio. Nem no outro dia, nem no outro, nem no seguinte. Houve quem chorasse de raiva, de desilusão. Houve quem caísse à cama, sem coragem para se levantar. Houve quem dissesse que já sabia que aquilo ia acontecer. Os aldeões sentiam-se traídos, sem saberem explicar a si mesmos porquê, já que nada lhes fora prometido. Estavam agora mais sós do que nunca.
Mas quando já o desespero  corroía a esperança, eis que soa a música da concertina. Desta vez, como se obedecendo a um sinal combinado, as portas abriram-se, e as pessoas saíram alegres para a rua. Poucas foram as que ficaram em casa. Só mesmo as que não puderam arrastar-se.

Hoje, passados que são dois anos sobre o aparecimento do Xico na aldeia, custa a acreditar que aquela banda de rock da terceira idade que toda a gente conhece, e que já ganhou alguns prémios, seja formada pelos habitantes daquela aldeia que só estavam à espera de morrer. Os milagres acontecem, se não perdermos a capacidade de sonhar. 

sexta-feira, 1 de maio de 2015

A minha estante

Manifesto anti cultura? Credo! Eu cá não concordo com nada disso! Eu acho que a cultura e os livros são muito importantes.
            Por acaso, aqui há coisa de um mês, enquanto o meu Quim lia o jornal, eu estava no sofá, à espera de dar “ A Casa Segredos”, e de repente lembrei-me:
           _Ó Quim, já sei o que vamos pôr naquela parede! Há tanto tempo que andamos a pensar! Vamos comprar uma estante, e depois enchêmo-la de livros!...
         __Hem? P´ra quê?
         __Então, alguma coisa temos de lá pôr! E tu gostas tanto de ler!
         Sabem, o meu Quim está sempre a ler, a ler, a ler, sempre agarrado ao jornal. Eu cá também gosto de ler, mas não é assim tanto como ele! Não passo horas a fio com a cabeça enfiada na leitura, nem assino nenhuma revista, para quê? Sempre que vou ao supermercado, pego nas revistas, leio os artigos que me apetecem, e até tomo nota dos horários dos programas da televisão que quero ver!
               Bom, mas isto para dizer : Lá o convenci a comprar a estante, e, agora, é um regalo olhar para aquela parede, os livros todos encarreiradinhos, alinhadinhos…Na primeira prateleira estão os de pele castanha com letras douradas, na segunda os vermelhos e depois os azuis…Está mesmo linda de se ver…Claro que não ia lá pôr aqueles livrecos que andam por aí, cada um na sua cor, uns grandes, outros pequenos, não!...Isso é horrível!...Eu gosto de os ver assim, todos do mesmo tamanho! A nossa sala ficou um espanto! Ah! A última prateleira ainda não tem livros, porque a coleção de livros pretos com letras douradas, disse-nos o homem que os vende, ainda vai tardar a chegar…
              Já prometi a mim própria que, um dia destes, até pego num, e vou começar a ler…E até sou capaz de convencer o meu Quim, a começar, também ele, a ler um livrinho, e desistir das assinaturas d´A Bola, do Record, do Mundo Desportivo

           Então, já que cá estão, e estão pagos, sempre se poupa o dinheiro das assinaturas dos jornais…

terça-feira, 31 de março de 2015

Calou-se a voz

Calou-se a voz
A voz que do seio da terra
Irrompia
Em golfadas transbordantes
 De silêncios

Calou-se a voz
A voz ora branda, ora brava,
Inquietante e lúcida
Nas noites brancas
Nas madrugadas insones
e translúcidas

Calou-se a voz
A voz que ressoava pelas brenhas
Escusas e obscuras
Onde só o eco a agarimava
No seu seio oblíquo e denso.

Calou-se a voz
A voz que mantinha
Meus saltos suspensos
Sobre os medos

Calou-se a voz
A voz de mãos doces
Que me sustinha
Nos sobressaltos da morte. 

segunda-feira, 30 de março de 2015

Débil coração

Caminha
Na manhã cálida e clara
Pela alameda
Sob a pérgula de lilases.

Vagueiam-lhe
Pelas costas
Os negros cabelos

Brincam-lhe no rosto
Sob a brisa branda
Bailarinas farripas

Transparecem
Sob a camisa de bretanha
Que rasa o chão
E se abre em leque
Rodeando-lhe o compasso
Suas longas pernas

Caminha
Absorta na canção
Que lhe baila nos lábios
Desvela-lhe o sol
Suas doces transparências

Acompanham-lhe
A cadência dos passos suaves
Os seios soltos e ligeiros

Assentam
Sobre o tapete relvado
Alegres os pés
Breves e descalços

Rodeia-lhe
Um bracelete
De campainhas bravas
O pulso
Aconchega
De encontro ao peito
Um braçado silvestre de boninas

Oh! Meu débil coração!
Que por tão efémero
Prazer congeminas
Ser, num ai ligeiro,
Esse inseto
Que pousa prazenteiro

No branco braçado de boninas!

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Vozes ancestrais


Ouço as suas vozes que saturaram o ar de gemidos, gritos, e rezas. E de desespero. E de esperança, de risos, de gargalhadas, de cânticos e louvores… Que festejaram a vida, e, por vezes, a morte quando ela era libertação. Identifico-lhes os rostos sulcados por uma vida difícil, as mãos rudes que semearam e plantaram e colheram e distribuíram e alimentaram, amaram e perdoaram e amortalharam. E limparam poucas vezes as suas lágrimas, suores e fezes, e muitas as lágrimas, suores e fezes dos outros.
E se deitaram em colchões de folhelho e de palha que eles próprios semearam e plantaram e regaram, colheram e secaram, envoltos por linho que suas mãos teceram. Colchões onde descansaram, e amaram, onde fizeram os seus filhos, os deram à luz, e por vezes os amortalharam… 
É quando caminho por espaços abertos, debaixo do céu que me cobre, rodeada por árvores, a maioria já aqui estava quando nasci, que essas vozes se sobrepõem aos ruídos longínquos da cidade, ao levantar da folhagem seca por uma brisa que viaja, ao ladrar dos cães nos quintais, aos motores elétricos da regas ou dos cortadores da relva, ao pipilar dos pássaros.
Furam as fragilidades dos muros que a vida quotidiana à minha volta ergue, e que eu mesma alimento. E é esse húmus que me corre nas veias tumultuosas, e essas as vozes que ouço quando me calo, para que jamais me esqueça que sou herdeira desses homens e mulheres onde essas vozes habitaram    

E sei então de onde venho, natureza de homens e mulheres ligados à terra que no segredo do seu coração foram elaborando o milagre do renascer. Homens e mulheres que sofreram injustiças e agravos, que caíram e se levantaram, que nos escombros das suas fraquezas construíram os alicerces de uma fortaleza que os preparou para as intempéries da vida.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Um lobo desastrado

À beira da floresta, não muito longe do povoado, vivia na sua toca o Lobo Mau com a Dª Loba e os seus filhotes. Sim, sim, esse mesmo…O tal que não consegue tirar da cabeça os três porquinhos… Pois o que acontece é que o Lobo é agora pai de família, cheio de responsabilidades, e todos os dias tem que sair para procurar alimento para a mulher e os lobinhos. Mas a crise também chegou à floresta. A vida não está nada fácil, nada fácil, e agora que a neve cobriu os campos, a caça não aparece assim à mão de semear…Ainda por cima, o Lobo Mau está cada vez mais desastrado, e não consegue levar para casa nada de jeito…Uma vez, ainda não há muito tempo, até ficou preso numa armadilha…Se não fosse a Dora, a mãe dos três porquinhos, a estas horas já ele estaria transformado em picado, a Dª Loba viúva, e os seus filhotes órfãos.…Humilhara-se até mais não, para convencer a Dora a ajudá-lo a libertar-se… Fez um grande choradinho, prometeu que nunca mais iria perseguir os três porquinhos, que ele trazia debaixo de olho há tanto tempo, e que até os iria proteger do ataque dos outros lobos, a ela e aos filhos…O que um pobre lobo tem que fazer para defender a pele…
Os filhos da Dora eram agora uns porquinhos crescidos, rosadinhos, mas muito preguiçosos. Nunca mais se resolviam a ir tratar da vida…
Os seus filhos, os lobinhos, eram ainda muito pequeninos e precisavam de muitos cuidados….Lembrava-se muito bem das palavras da Dona Loba:
__Vê lá se, desta vez, trazes alguma coisa de jeito para comermos! Os pequenos estão esfomeados.
__ Está bem. Está bem!
Não podia falhar. Aproximou-se pé ante pé do galinheiro da quinta do sr. Leonardo. Mas o lavrador estava à sua espera e mandou-lhe uma chumbada. Pelos vistos, estava-se nas tintas para a lei protetora dos animais... O Lobo correu, correu, correu, e só parou lá longe, já fora do alcance da arma do homem. Apalpou-se, a certificar-se de que não lhe faltava nenhum bocado, e lá se acalmou.
Que iria fazer à sua vida? Ele bem via o Lobo Cinzento a rondar a Dona Loba, os olhares cobiçosos que lhe lançava. A tola não percebia que o Lobo Cinzento só sabia afiar as garras, que não lhe serviam para nada, e dizer umas larachas bonitas… Caçar não era com ele… Mas as mulheres, quando lhes dizem palavrinhas doces ao ouvido, perdem a cabeça…
Sentou-se a descansar da correria, quando ouviu:
__Quem tem medo do lobo mau, lobo mau, lobo mau…
Olá!...Escondeu-se atrás de uma moita. E viu passar, em fila indiana, a saltitarem despreocupadamente, três porquinhos. Bem, de porquinhos não tinham nada! Eram uns porcos bem matulões, crescidos, rosadinhos, apetitosos! Afinal a sorte estava do seu lado. Oh não! Oh não! Não! Não! Nãaaaaaaaaao! Eram os filhos da Dora! Não podia comê-los! Tinha prometido! Mas as palavras da dª Loba ecoavam-lhe aos ouvidos:
__Vê lá se, desta vez, trazes comida para casa!
E os lobinhos a gemer de fome, magrinhos, magrinhos…
E o Lobo Cinzento a afiar as unhas, e a cantar loas à Dona Loba…
No final de contas, ele podia sempre desculpar-se e dizer que não sabia que eram os filhos da Dora…estavam tão grandes, desde a última vez que os tinha visto…eles não traziam o bilhete de identidade estampado na testa, pois não?…E quem lhe mandara a ela, acreditar em palavra de lobo? Na cadeia alimentar, os lobos comem os porquinhos… Não se pode fugir à natureza.
Decidiu-se e avançou para eles, cautelosamente. Mas, no momento em que ia deitar as unhas a um deles, tropeçou e…CATRAPUM! aterrou no chão, o focinho enfiado na neve. Os três irmãos desataram a fugir, cada um para o seu canto, numa grande guincharia… O lobo levantou-se, sacudiu o pelo, olhou em volta, não fosse alguém ver a triste figura que acabara de fazer, e disse:
__ Não hão de perder pela demora…Amanhã não me escapam.
Foi então que percebeu onde tinha tropeçado: num caixote de couves que tinha caído da carroça dos produtos que o sr. Leonardo ia todos os dias vender ao mercado. Juntou as couves que estavam espalhadas para dentro do caixote, e disse:
__ Por hoje tenho que convencer a Dª Loba que a comida vegetariana é muito mais saudável!

E voltou para o covil, arrastando penosamente as couves que iriam ser a única coisa que os cinco iriam trincar.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

É hoje...

Vou fazer-lhe o bolinho de que ele gosta...é tão guloso…vai adorar a surpresa, ai vai, vai! Hum! Tenho que bater mais um bocadinho, para ficar bem fofinho… ele adora bolinho de laranja…com bastante raspa…assim, e assim…está quase no ponto…Ai!.. Há tantos anos que aquele homem anda perdido! Foi comprar as velas para o meu bolo de aniversário, e…nunca mais voltou! Ah! Faz hoje… 20 anos! Ai, já são horas, deve estar a chegar…He! He!He! He! Hoje disse o responso direitinho, sem me enganar! Tenho muita fé no meu Santo Antoninho! É hoje, que ele vai voltar!...É hoje!
A Marlene cabeleireira deu-me uns conselhos…Ai! Que vergonha! Mas ela lá sabe! De homens percebe ela! Percebe quase tanto de homens como de cabelos…ou mais ainda…eu até acho que ainda percebe mais de homens do que de cabelos…ela lá os traz atrás, mansos como cordeirinhos…pois ele hoje não me vai escapar…Com as lições da Marlene…Ai não vai, não! Já tenho tudo pronto…Eh! Eh! Eh! Camisinha de noite, um perfume, e mais umas surpresas…Eh! Eh! Eh! Eh! Eu não estava habituada a estas coisas, mas a Marlene é que sabe…ela garantiu-me que ele não vai resistir…nem sei se ainda sei como se faz...Vinte anos, é muito ano…Nunca mais nenhum me tocou…hoje vou tirar a barriguinha de misérias…Eh! Eh! Eh! Eh!
E depois de estar consolada… ZÁS! Nunca mais há de ter vontade de ir às gatas…

Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah!  

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Terrine de lapin

   Já não a podia ouvir…” Tenho tanta pena de partir e deixar cá os grandes companheiros da minha vida!”…
Ingratidão, é o que é…Eu já lá trabalho há mais de quarenta anos…ainda não tinha feito os dezasseis…E o que eu lhe tenho aturado! Mas os grandes companheiros da vida dela eram os gatos…os gatos é que ela tinha pena de cá deixar, quando fosse prestar contas a Deus…e que grandes contas é que ela tem que prestar, ai tem, tem, tantas crianças com fome por esse mundo fora, e ela :“ os meus amores, os meus filhinhos” para os gatos, claro…Credo, isso até é pecado!...
Bem, verdade seja dita, que eu pensava muitas vezes : “ a minha senhora tem razão! Se ela morre primeiro que os gatos…habituados a tudo do bom e do melhor…” Eu gatos, puffff! Ainda se fosse um canarinho…
Pois nem de propósito…andava eu fartinha de a ouvir, e a morder a língua, para não lhe dar uma daquelas respostas, quando…pumba! Li numa revista que trouxe a sobrinha da minha senhora…lá em África…ou seria na Ásia? Já nem sei…pois, eu li, que lá nesses lugares, quando os mortos morrem, não, quero dizer, quando os vivos morrem, eles…credo! Que selvagens!...comem-nos! Eles pensam que, assim, ficam com a mesma sabedoria, força e inteligência desses que comem…
Pois a minha senhora comeu uma terrina de lapã…não, não é assim, é terrine, diz a minha senhora, é um nome estrangeiro, que eu dessas coisas não sei, só fiz a 4ª classe…antiga, que vale mais do que agora essas universidades onde não aprendem nada…
Então fiz a terrine de lapã sem lapã, está bem de ver…tinha que ser qualquer coisa picada, que a carne era muito dura…
Coitadinha da minha senhora!...Já anda mais animadita… Os gatinhos sempre morreram antes dela, como ela queria…Claro, tive que lhe dizer que os encontrei mortos no quintal, e que os da Câmara os vieram buscar para os enterrar…ainda se aborreceu comigo, queria-os enterrados no jazigo da família…felizmente que a sobrinha lá lhe fez ver que aquilo era um disparate…
Ai o que ela chorou, Santa mãe do Céu! Ainda chora, de vez em quando, a olhar para as fotografias dos gatinhos…Mas o tempo tudo cura, não é verdade?

Bem… Deixa-me cá ir fazer o almocinho da minha senhora…Hoje vai ser bifinhos com cogumelos…O que ela gosta de carne…Ai, eu não! Enjoei, não sei porquê…carne, é coisa que me não atravessa os gorgomilos…

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Equívocos

 Ajeitou o colar em frente ao espelho. Acomodou o cabelo com a mão direita, beliscou as faces, mordeu os lábios. Lembrou-se de um bâton que havia comprado ainda a mãezinha era viva. Não se atrevera a usá-lo à frente dela, que criticava aquelas garridices, mas às vezes, no seu quarto, experimentava-o, e imaginava-se a sair com os lábios rosados, e os olhares que atrairia. Foi procurá-lo numa caixa que estava dentro de uma gaveta da cómoda, passou-o pelos lábios, e sorriu para o espelho. Num impulso, abriu ligeiramente a boca, e colou-a ao espelho. Afastou-se um pouco, e contemplou o contorno dos seus lábios. De repente, pegou num bocado de papel higiénico e começou a esfregar a mancha no espelho, com gestos que denunciavam irritação.
Pegou nos óculos e, no momento em que os ia colocar, hesitou. Abriu a caixinha que estava em cima do armário da casa de banho, e guardou-os cuidadosamente. Não ia precisar dos óculos para ir ao café. Era míope, mas conseguia ver muito bem ao perto. Os óculos deformavam-lhe os olhos, que até eram bonitos. Ficava com um olho muito maior do que o outro, com um ar completamente patético. Ia tomar um cafezinho, talvez no café do rés-do-chão do prédio. Ou talvez se aventurasse até mais longe. Logo se veria. Desde que a mãezinha morrera, há três meses, que só saía ao domingo para ir à missa. O Sr. Leonel da frutaria trazia-lhe a casa o que ela encomendava pelo telefone. De resto, fora gastando o que havia na arca e na despensa. Mas agora, outro galo lhe cantaria. Era tempo de começar a viver a sua vida. “ Hoje era o primeiro dia do resto da sua vida”, como dizia a canção. Quem sabe, se ainda estaria em tempo de…não era de se deitar fora...Nunca lhe faltaram pretendentes, isso não…Mas a mãezinha…nenhum era suficientemente bom…e ela fora murchando…Ai o António carteiro!…tão bonito, tão bom rapaz, a bichanar-lhe palavrinhas aos ouvidos quando vinha entregar a renda do quintalito que a mãezinha lhe entregara para cuidar. Uma vez apanhou-os, ele encostadinho ao seu ouvido a murmurar-lhe doçuras, ela derretida de gozo, foi um caso dos trabalhos…Nunca mais o António carteiro foi entregar as rendas…Passou a depositá-las no banco. Nessa altura ainda a mãezinha vendia saúde…
Em vez de tomar o elevador, desceu as escadas a pé. Desde que ficaram encurraladas no elevador, devido à falta de eletricidade, ela e a mãezinha, nunca mais desceu de elevador. Chegou ao fundo das escadas com o coração a palpitar, não sabe se do cansaço, se da ansiedade…
Aproveitou para ver o correio. Como quase sempre, só publicidade. Não! Havia um envelope! Azul claro, mais pequeno que os envelopes convencionais. Ercília virou-o de um e outro lado. Estranho! Não estava endereçado, nem tinha remetente. Abriu-o. Dentro, estava um bilhetinho, da mesma cor do envelope. Estava escrito ao computador, em letra que imitava a manual.
Minha querida:
Tenho esperado por si toda a minha vida! Continuo aguardando um sinal seu para me aproximar.  
Não seja má! Não me despreze! Ainda podemos ser muito felizes! Espero-a na pastelaria “Bom Sucesso”.
Sempre seu,
A assinatura era um rabisco ilegível.
Ercília sentiu um calor atingir-lhe as faces e o corpo todo. Olhou em volta, mas não havia ninguém. Antes assim. Então ela era a querida de alguém sem saber? Alguém esperara por ela toda a vida… “ Ainda podemos ser felizes”
A pastelaria “ Bom sucesso” ficava a dois quarteirões…Pois bem: não era tarde nem era cedo. Resolutamente meteu pés ao caminho.
Porém, sentia-se estranha. Nem sabia caminhar direito na rua, sem o apoio da mãezinha, o seu braço enfiado no dela…
Uma lagrimazinha apareceu-lhe no canto do olho…Não era altura para dramatismos. Já chorara tudo o que havia para chorar. Agora era preciso voltar à vida. À sua vida. Até ali vivera a vida que a mãezinha lhe impusera.
Ergueu a cabeça, endireitou o corpo, e avançou, decidida. Pouco depois estava em frente da pastelaria “ Bom sucesso”. Entrou, sentou-se numa mesa perto da entrada, respirou fundo, e só depois o seu olhar varreu os clientes. A maioria pessoas de meia-idade, como ela, e um grupo de quatro raparigas numa mesa.
Havia dois homens sozinhos. Um já bastante velho, que não tirava os olhos do jornal. O outro, olhava para a porta, disfarçadamente. Era certamente o homem do bilhetinho. O tal que esperara por ela toda a vida. 
O coração de Ercília bateu descontroladamente. Era elegante, e parecia educado. Usava um blazer de bombazina castanho, e umas calças claras de sarja. Ercília desviou o olhar. O empregado aproximou-se e ela pediu um café. Atreveu-se a levantar os olhos, e continuou a sua observação, tentando ser discreta. O homem tinha um bigodinho grisalho com umas pontas bem aparadas. Quase completamente calvo, mas uma calvície que lhe assentava bem. Agradava-lhe o que via. Percebia-se bem que estava nervoso, como ela. Faria de contas que não tinha lido o bilhetinho. Ele que viesse falar com ela. Bebeu o seu café, aparentando uma calma que estava muito longe de sentir. Em seguida, pediu um copo de água, e foi bebendo calmamente. Mas ele, nada. Era tímido, certamente, ou gostaria de fazer as coisas à antiga. Ai, como a mãezinha o teria apreciado! Ele deitava os olhos na sua direção. Parecia-lhe que sorria. Sorriu-lhe, também. E baixou os olhos. Quando os levantou, ele dirigia-se para a sua mesa. Ercília sentiu-se desfalecer. Quando estava perto dela, soltou um profundo suspiro, mas não parou. Saiu.
Ercília ali ficou, a respiração ofegante, como alguém que acabasse de fazer uma longa corrida. Esperou, acalmou-se, pagou, e saiu. Nessa noite, não dormiu. Pela cabeça passaram-lhe as imagens de tudo o que se passara. Certamente que ele não tivera coragem de a abordar. Mas ela não tinha pressa. Ele prometia-lhe a felicidade. Quem já tanto esperara, não se importava de esperar um pouco mais para ser feliz. “ Saber esperar é uma virtude”, era um dos lemas da mãezinha. Levantou-se muito cedo, e começou a tirar medidas às janelas. Iria colocar cortinados novos na sala e no quarto. Era muito importante renovar o quarto, comprar móveis novos, sim, sobretudo uma cómoda nova, para as roupas dele, e…claro, uma cama de casal. Estava fora de questão utilizarem a cama que pertencera aos paizinhos.
A manhã passou-a a fazer limpezas profundas, a colocar no lixo trastes de que nunca tivera a coragem de se desfazer.
Almoçou num alvoroço, mal conseguindo esperar pela hora do café na Pastelaria " Bom Sucesso”. Quando entrou, já ele estava lá ao fundo, na mesma mesa onde se sentara no dia anterior. Ercília sentou-se à entrada, mesmo virada para ele. Desta vez, sentiu-se mais arrojada, foi olhando para ele sem desviar o olhar. Como no dia anterior, ele sorriu-lhe discretamente. Ela sorriu-lhe abertamente. Questionava-se se seria desta vez que ele teria coragem para lhe falar. Mas agradava-lhe este namoro discreto, esta troca de olhares, como uma preparação para cavalgadas mais arriscadas. De repente ele levanta-se, e ela pensa: é agora.
Mas não. Partiu, deixando-a como a uma criança a quem tiraram um brinquedo. Estaria a pô-la à prova?
Nessa noite, Ercília sonhou, sonhou e sonhou. Sonhou com o seu amor, com uma vida venturosa de profundos arrebatamentos amorosos, e acordou feliz, alagada em suor. E tomou uma decisão: se ele não viesse falar com ela, tomaria a iniciativa.
Entrou na pastelaria, olhou em volta, e viu-o sentado ao fundo da sala, numa mesa protegida pela penumbra. Ercília não queria acreditar nos seus olhos: na mesa do seu noivo, a sua vizinha do 2º andar, uma lambisgoia divorciada, de costumes duvidosos, olhava-o como se o quisesse engolir. E ele, com um ar perfeitamente idiota, não tirava os olhos dela, as mãos dele sobre a mesa, encaixadas nas dela.
Sem se poder conter, Ercília avançou para eles, levantou a carteira, e malhou, malhou, malhou em cima dele.
Felizmente para Ercília, o caso resolveu-se sem recurso aos tribunais. Teve que apresentar um pedido público de desculpas, escudando-se no estado de choque pela morte recente da mãe, e pagar uma indemnização ao queixoso.
Nunca mais saiu de casa. E quem olha para aquele terceiro andar, pode ver, pendurados nas janelas,  uns farrapos velhos comidos pelo sol, que outrora já foram cortinas.