"Todos os meus versos são um apaixonado desejo de ver claro mesmo nos labirintos da noite."
Eugénio de Andrade

Mostrar mensagens com a etiqueta ( imagem da net). Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta ( imagem da net). Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Vozes ancestrais


Ouço as suas vozes que saturaram o ar de gemidos, gritos, e rezas. E de desespero. E de esperança, de risos, de gargalhadas, de cânticos e louvores… Que festejaram a vida, e, por vezes, a morte quando ela era libertação. Identifico-lhes os rostos sulcados por uma vida difícil, as mãos rudes que semearam e plantaram e colheram e distribuíram e alimentaram, amaram e perdoaram e amortalharam. E limparam poucas vezes as suas lágrimas, suores e fezes, e muitas as lágrimas, suores e fezes dos outros.
E se deitaram em colchões de folhelho e de palha que eles próprios semearam e plantaram e regaram, colheram e secaram, envoltos por linho que suas mãos teceram. Colchões onde descansaram, e amaram, onde fizeram os seus filhos, os deram à luz, e por vezes os amortalharam… 
É quando caminho por espaços abertos, debaixo do céu que me cobre, rodeada por árvores, a maioria já aqui estava quando nasci, que essas vozes se sobrepõem aos ruídos longínquos da cidade, ao levantar da folhagem seca por uma brisa que viaja, ao ladrar dos cães nos quintais, aos motores elétricos da regas ou dos cortadores da relva, ao pipilar dos pássaros.
Furam as fragilidades dos muros que a vida quotidiana à minha volta ergue, e que eu mesma alimento. E é esse húmus que me corre nas veias tumultuosas, e essas as vozes que ouço quando me calo, para que jamais me esqueça que sou herdeira desses homens e mulheres onde essas vozes habitaram    

E sei então de onde venho, natureza de homens e mulheres ligados à terra que no segredo do seu coração foram elaborando o milagre do renascer. Homens e mulheres que sofreram injustiças e agravos, que caíram e se levantaram, que nos escombros das suas fraquezas construíram os alicerces de uma fortaleza que os preparou para as intempéries da vida.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Metamorfose


Sentia a cabeça pesada, os membros entorpecidos, uma sonolência maior que o seu próprio tamanho, o qual, diga-se em abono da verdade, havia aumentado só nos últimos tempos, mais, muito mais que o dobro. É certo que o seu apetite era voraz…Agora, só de pensar nisso, sentia-se invadir por um enjoo que se estendia a todo o seu corpo…Fechou os olhos. Estavam tão pesados!…Voltou a abri-los, e a fechá-los, num movimento intermitente e lento. Sentiu saudades das irmãs, quando serpenteavam pelo prado e tudo à sua volta lhe parecia promissor… E, quando ela dizia que o que queria era dançar, voar, riam-se dela… E pensar que chegou a ter inveja delas, quando as viu serem transportadas pelos ares no bico de um pássaro, e uma gritou:
— Estou a voar! Estou a voar!
As irmãs acabaram no estômago de uns pássaros glutões…é claro que isto só o veio a saber muito mais tarde, quando a sua amiga Brisa da Tarde lhe contou como esta breve ilusão se transformara em pesadelo, no momento em que as suas irmãs se viram a ser sugadas para as goelas de passaritos ávidos, todos de bicos bem abertos. E quando ela se mostrou horrorizada com a triste sorte das irmãs, a Brisa da Tarde explicou-lhe que este era o destino de muitas das lagartas da sua condição…Mas ela, a lagarta Tixa, não se conformava…Não queria acabar como elas…A sua amiga também lhe explicou que o seu destino, se ela fosse cuidadosa, podia ser outro…um destino igual ao da sua mãe.
 Conheceste a minha mãe?! — perguntara, entre sobressaltada e curiosa.
— Claro que conheci a tua mãe! Era a mais bela e graciosa dançarina que borboleteava sobre as flores deste jardim!
— Dançarina…a minha mãe…bela…mas eu…eu sou tão feia!…
— Que ideia, menina! Tu tens a beleza própria das lagartas da tua condição!
— Não! Todos me acham feia! E os meninos da casa grande chamaram-me nojenta, repugnante, horrorosa!…sacudiram-me da roupa, e correram a lavar as mãos aos gritos…
— Ora, esses são meninos da cidade! …Têm muito que aprender sobre a natureza, se quiserem instalar-se no campo…
— Por pouco não me pisaram aos pés…
— E o que fizeste?
— Corri a esconder-me debaixo de uma folha de couve…Mas, por favor! Conta-me mais coisas sobre a minha mãe! Como era ela?
E a Brisa da tarde, com um sorriso nostálgico, foi contando.
— Era sonhadora, como tu. E acreditava firmemente que o seu destino se iria cumprir até ao fim…Nunca se deixou vencer pelas contrariedades…
— Não?!
— Não! Era invulgarmente esperta e cuidadosa… Por isso chegou a borboleta.
— Mas, então, se ela era borboleta, e tão bonita, por que razão eu sou uma lagarta tão feia?
A Brisa da tarde sorriu.
— És tão curiosa! Sabes, a maior parte das lagartas nunca chegam a borboletas. Nunca sequer sonham com isso, nem se interrogam acerca do seu futuro. Mas tu és diferente…
— Mas que mistério! Não chegam a borboletas, porquê?
— Pensa no que aconteceu às tuas irmãs! E não são só os pássaros que são perigosos! As abelhas, as moscas, as formigas, as doenças, as chuvas…
— Sim, sim, eu estou sempre alerta! Não quero ser comida, não quero morrer! Eu quero voar, voar, beijar as flores, receber o abraço do sol, correr mundo!...Achas…achas…que  posso?
— Claro que podes!
— Mas como? — perguntei, algo impaciente.
— As borboletas não nasceram borboletas, nem sempre foram tão belas como as vês.
— Não?!
A tua mãe, tal com tu, saiu de um ovo, e começou por ser uma belíssima lagarta.
— Ooooooooh!.......
— É verdade! Usou sempre de todos os cuidados para escapar aos predadores, esses bichinhos que se alimentam de lagartas, e para não adoecer. E conseguiu transformar-se numa linda borboleta, com uma combinação de cores que era um deleite para os olhos! E pensou em ti e nas tuas irmãs com muito carinho, escolhendo, para pôr os ovos, um sítio abrigado, com muita comidinha para vocês comerem logo que nascessem!
— Querida mamã! Mas diz-me, então, como é que eu faço?
— Não sejas impaciente! A vida deixaria de ser aliciante se soubéssemos tudo o que nos vai acontecer! Basta que deixes a Natureza fazer o seu trabalho. E deixa-te levar pelo teu instinto. Mas tem cuidado! Continua a proteger-te dos perigos como até aqui. E alimenta-te muito bem, pois vais precisar de todas essas reservas. Agora tenho que ir. Mas não te preocupes! Estarei vigilante e atenta! Até um dia!
Agora estava sozinha, sem mais ninguém no mundo…Amigos…não eram verdadeiros todos os que a humilhavam, chamando-lhe feia, nojenta…Só a Brisa da Tarde…só ela é que era mesmo sua amiga…mas também a deixara sozinha, com uma conversa de mistério, que só ela é que tinha que descobrir…tretas, certamente, só para ela não ficar triste…Ah! Mas a última conversa encheu-lhe o coração de esperança…O melhor, por agora, era dormir…escolhera um sítio muito escondidinho, e protegera-se bem, dentro de seu casulo...dor…mir…Aaaaaaaaaaaaah!...
No dia em que a Brisa Tarde tivera aquela conversa com Tixa, partira, enternecida com aquela menina tão sonhadora! Então foi passando com o seu manto subtil e transmitiu aos pássaros, às abelhas, às formigas, ao Vento Norte, às nuvens, que a lagarta Tixa que habitava a horta da casa grande era sua protegida. Que se não atrevessem a colocar a sua vida em perigo, pois aquela jovem desejava cumprir o seu destino, e tinha todas as condições para isso. Em breve todos se deleitariam ao vê-la cirandar pelo jardim, transformada numa bela borboleta, tal como o fora a sua mãe, a sua avó, a sua trisavó, até ao perder dos tempos.
Os dias foram passando. E os meses. Protegida pela ramagem de uma laranjeira, Tixa continuava dentro de seu casulo, calma e sossegada.
Um dia sentiu-se despertar, com se uma música interior e desconhecida lhe fizesse vibrar todo o seu corpo. Abriu os olhos. Estava tudo às escuras, tudo muito aconchegado dentro da sua casinha quentinha. Sentia-se muito bem, porém esfomeada e com vontade de enfrentar a luz do sol. Apetecia-lhe espreguiçar-se. Fez um movimento, mas a reação que esperava obter foi deveras estranha. Ela havia-se enovelado sobre si mesma, mas agora sentia o corpo mais comprido, mais leve…mexeu as patas da frente…meu Deus, que patas tão compridas!…sacudiu-se…e sentiu algo exterior a si própria, sobre o seu dorso, a querer levantar-se…Queria mexer-se, esticar-se, mas não conseguia…Em pânico, sem perceber o que lhe está a acontecer, reúne todas as suas energias. Sacode-se. Faz força nas patas, e atira com elas. Espaneja-se com quantas forças tem… Sente algo a quebrar-se, e a casa que ela construíra, a descolar-se do seu corpo. O sol quente envolve-a num abraço…Um último esforço, e ela vê, então, entre atónita e louca de felicidade, umas lindas asas coloridas, a erguerem-se, presas ao seu dorso…Experimenta-lhes a força, planando com elas no ar, batendo-as uma e outra vez. Inicia então uma dança gloriosa sobre o jardim, uma dança de louvor ao sol e à natureza, com as asas levantadas e palpitantes. A Brisa da Tarde chega, suave e leve, e segreda-lhe:
— Seja bem-vinda a este jardim, a borboleta mais bela!

sábado, 6 de agosto de 2011

Fugir





Vejo-as passar à minha frente, sacudindo as ancas, numa provocação que me enche de raiva. Eles também passam, para cima e para baixo, para baixo e para cima, num vaivém de figuras de carrossel. E eu aqui fechada, espreitando através das grades do portão. Não me apetece dizer-lhes nada, não vou mesmo dar-lhes conversa. Isso é o que eles querem, que eu reaja, mas estão muito enganados. Não vou dar-lhes esse prazer, iriam pensar que os invejo, que invejo aquela vida de liberdade e de aventura, é claro que os invejo, mas, no que depender de mim, jamais o saberão.
Já lá vai o tempo em que também eu podia caminhar, galgar a distância que me separa do outro lado do caminho, e embebedar-me nessa sensação maravilhosa do vento a envolver-me como um véu enquanto corria como louca pelos campos…Sentir que tudo quanto está à nossa frente nos pertence…as flores, as borboletas, os pássaros, as lagartixas, a erva tenra debaixo dos nossos pés, os cheiros… os cheiros, sim, os cheiros não são iguais aqui, nesta prisão onde me obrigam a permanecer… Insensíveis! …Eu sei…lá fora…ai lá fora…os cheiros são outros, são os cheiros da terra…do mundo…
A culpa foi minha, eu sei…devia ter tido mais cuidado…abusei…em vez de me contentar com o que tinha e respeitar as regras, quis mais, muito mais… e o gozo que me dava pisar o risco…Mal apanhava uma aberta, escapulia-me, a absorver tudo o que pudesse naquele momento. E voltava, depois de muitas horas, consolada...Mas Eles, é que não queriam saber do meu consolo… Recebiam-me histéricos, por onde é que eu andara, já me tinham procurado por todo o lado, imaginado mil malefícios que me poderiam ter feito ou acontecido…já iam falar com a polícia, os bombeiros….Tanta confusão por uma coisinha tão simples…Foi nessas escapadelas que eu conheci a vida, a verdadeira vida…Sim, não é em casa, fechada a sete chaves, que a vida vem ter connosco…que se aprende a viver…Fecharam-me! A culpa é minha, e só minha!... Mas sou assim…de extremos. Quero aproveitar ao máximo, aquilo que tenho no momento, beber de um só trago, com sofreguidão. Nunca penso no futuro…o meu futuro é aqui, agora, neste momento …Que digo eu? Não é este o futuro que quero, não, eu quero sair por aí, vaguear sem destino, explorar os cantinhos mais estreitos, conhecer o que há para conhecer, viver tudo o que há para viver… Bem sei que, se eu não tivesse aparecido grávida, Eles certamente me dariam mais liberdade…Mas nessa altura eu sabia lá o que era a vida…apenas me deixei ir, obedeci àquilo que o corpo me pedia…Fiquei tão espantada quanto Eles… Depois de casa roubada, trancas à porta, dizem. Estou farta deles…O que eu queria era poder sair daqui, partir ao encontro desse mundo…bem sei que lhes devo muito…Acolheram-me, trataram-me sempre muito bem, a mim e aos meus filhos, é certo…Mas eu sempre correspondi, com a minha dedicação, lealdade…Então os meninos…meus anjinhos…como eu os adoro…Mas agora partiram, foram à vida deles…e eu? Que faço eu agora aqui? Ela fala-me sempre rispidamente, não esquece as asneiras que eu fiz, os desgostos que lhe causei…não acredito que não goste de mim, mas é incapaz de o mostrar. Por isso, ai! Se eu encontrar o portão aberto, nem olho para trás…vou-me embora. Tenho a certeza que não fará o mínimo gesto para me encontrar…digo eu…nem sei…Da outra vez que fugi, bem vi a alegria nos olhos dela quando me trouxeram a casa. Abraçou-me, e como foi meiga comigo! …Só ternura, só amor, eu era uma marota, que mal me tinham feito, estavam numa preocupação….mas depressa lhe passou este ataque de ternurite…
Nem sei porque fecham o portão à chave! Nem sequer há já o risco de eu voltar a engravidar! Trataram logo de me mandar operar! Privar-me daquilo que é tão caro a todas as fêmeas! Essa nunca lhe perdoei! Como foi capaz de me tratar como a um vulgar animal? Retirar-me a minha feminilidade! Bem a ouvi dizer aos meninos que, se voltasse a aparecer grávida em casa, me punha na rua. Nessa altura, só a ameaça encheu-me de pavor! Já lá vão uns bons anos! E Ela? Como se sentiria se lhe roubassem a capacidade de ser mãe, se a proibissem de sair, se só pudesse ver o mundo através das grades? Ela, que não pára em casa, sempre com o carro para trás e para a frente, e volta carregadinha de compras, e eu para aqui o dia inteiro, sozinha, a sonhar com os campos por onde correr, com o rio, com… Bem podia levar-me com ela, mas não! Deve ter vergonha de mim. Não sou de alta estirpe! Mas ainda não perdi a esperança! Preciso é de encontrar uma falha na vigilância! Ando cá a arquitectar um plano! Hoje à noite vou tentar de novo a minha sorte. Antigamente eu conseguia saltar o muro, e os portões, mas agora é impossível! Subiram-nos, e colocaram-lhes arame farpado e vidros cortantes…Estou farta de que me imponham regras, com a um animal de circo. Quero experimentar essa sensação de não pertencer a ninguém, nem a lugar nenhum, partir sem eira nem beira, viver a vida vadia daqueles que têm como tecto as estrelas e como paredes, o infinito…Sim, o céu e o infinito pertencem-me, são de todos, e eu pertenço-lhes. Aqui já não reconheço o meu lugar. A minha natureza chama por mim… Às vezes adormeço a chorar e, quando acordo, ainda estou a gemer. Isto quando não estou ocupada com a ideia de fugir. Ultimamente é só no que penso...Fugir….fugir….fugir….O homem da lenha vem descarregar e o portão vai ser aberto. Salto para cima da camioneta e aninho-me debaixo do oleado. Quando derem pela minha falta, já eu vou longe. Gosto do homem da lenha. Sinto-lhe no corpo e na roupa o mesmo cheiro que tinha o pai dos meus filhos… e ele também gosta de mim...pressinto-o quando me afaga, e eu lhe lambo as mãos rudes e ásperas, e ele diz com a sua voz cheia e rude:
— Ah! Canita bonita!