"Todos os meus versos são um apaixonado desejo de ver claro mesmo nos labirintos da noite."
Eugénio de Andrade

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quarta-feira, 17 de junho de 2015

O carrocel

Já há algum tempo que eu estava naquele antiquário morrendo de tédio.
Num domingo à tarde, um casal entrou na loja, e foi percorrendo com o olhar as diversas antiguidades, velharias e quinquilharias.
A mulher deteve-se em frente da prateleira onde eu estava exposto. Olhou-me demoradamente, e eu senti um frémito de prazer percorrendo-me o corpo. A atração foi mútua, pensei eu. Mas depressa os seus olhos se desligaram de mim e passearam por outros objetos da loja. Senti-me desiludido.
Algum tempo depois, a mulher voltou. O dono acudiu:
__É uma caixinha de música, sabia?
__ A sério?!
__Sim. Quer ouvir?
O dono pegou-me, e rodou o círculo onde os quatro cavalinhos de madeira estavam implantados. Dentro de mim soltou-se a música de embalar, enchendo o espaço de estrelas e encantamento.
__É isto mesmo que eu quero! Rui, olha, para o Afonso!
__ Mas para quê?
__ Para ele adormecer… para se acalmar, quando…percebes?
Aquelas palavras eivadas de mistério e ansiedade aguçaram a minha curiosidade. Antes de dar ordem para me embrulhar, as mãos da mulher afagaram gentilmente o meu corpo, desde o pináculo, os rebordos, passando pelos cavalinhos, pelo círculo branco que girava e comandava a música, até à base de madeira pintada de vermelho.
Não tardei a perceber. Mal chegaram a casa, a mulher correu a colocar-me num quartinho infantil, numa estante de onde convergiam duas caminhas dispostas em L. Nessa noite eu assisti ao ritual. Duas crianças em pijama entraram no quarto, riram, brincaram, saltaram sobre os colchões. A mãe, a mulher que me comprara, veio, contou-lhes uma história, aconchegou-os. Rodou o manípulo, os cavalos giraram, e a música desprendeu-se. A menina adormeceu quase instantaneamente.
O rapazinho soergueu a cabeça, e disse:
__Que lindo, mamã!
__Vá, dorme! __ cochichou a mãe, assentando um último beijo na testa do menino.
Apagou a luz, e deixou a porta do quarto entreaberta, permitindo que, do corredor, uma ténue faixa de claridade se projetasse no tapete do quarto.
Mas o rapazinho não adormecia. Constantemente chamava a mãe. A mãe chegava, rodava o meu manípulo, e a música soltava-se. O menino acalmava-se durante alguns instantes, a mãe saía, e tudo voltava ao mesmo. Finalmente adormeceu. Tudo ficou em silêncio. Eu também adormeci.
Fui acordado por uns gritos lancinantes a romperem a noite.
O rapaz gritava, aterrorizado, clamando pela mãe. Ela irrompeu pelo quarto, pegou no filho ao colo.
A criança tinha os olhos abertos, mas fixos, parecendo não ver. A mãe abraçava-o, proferindo palavras de conforto que não logravam romper o muro que os separava.
__ Acalma-te, meu filho, acalma-te! A mamã está aqui! A mamã está aqui!
Mas a criança continuava a berrar, encerrado no seu terror, percorrendo, solitário, a escuridão. A mãe chorava, impotente e em pânico.
Logo a seguir entrou no quarto o homem. Envolveu no seu abraço a mulher e o filho, sussurrando:
__Sssssshhhhh! Sssssssshhhhh!
De repente o homem saltou em direção à estante, pegou-me, fez girar o meu mecanismo, e a música fez-se ouvir. Pouco a pouco a criança foi-se acalmando, e acabou por adormecer. Eu ouvia o choro silencioso da mãe e pressentia a sua angústia e desespero. O homem saiu do quarto e a mãe ficou, culpabilizando-se, talvez, por não conseguir que a sua voz chegasse ao interior do seu menino. Quando a música parou, a mulher fê-la voltar ao início. Esta foi a primeira noite em casa desta família. Foi, talvez, a mais dura de todas. Aquela que me fez perceber a esperança que aquela mulher depositou em mim, quando me viu, pela primeira vez, no antiquário. Muitas outras noites se seguiram. Todas as noites eu trabalhava. De vez em quando repetiam-se estes episódios de terror. No dia a seguir a estas ocorrências, o menino acordava cansado, mas não se lembrava de nada. Eu fui percebendo a importância da minha música para aquela criança, mas, sobretudo, para a mãe. O Afonso cresceu. Os terrores noturnos foram reduzindo de frequência e intensidade, até acabarem definitivamente. E eu fui atirado, pelas mãos do rapaz, para o fundo de um caixote, na companhia de alguns peluches, spiderman´s , e tartarugas Ninja.
Durante alguns anos estive adormecido no sótão. Até que…
Um dia a tampa da caixa onde estava guardado levantou-se, e uma réstia de luz acordou-me. Ouvi uma exclamação de espanto. Era ela. Pegou-me com carinho, fez girar o meu manípulo, e a minha música ecoou naquele exíguo espaço.
Desde esse dia, tenho tido lugar de destaque entre as coisas de que ela mais gosta: os seus livros, e outros objetos de estimação. Até já fui estrela numa peça de teatro em que ela entrou, onde fui ovacionado de pé por uma casa cheia. Voltei a sentir-me importante. Todos os dias sou acariciado pelo seu olhar. E continuo, até hoje, a acalmá-la com a minha música, e, às vezes até, a inspirá-la.

Sinto-me amado.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

A aldeia dos sonhos perdidos

Naquela aldeia encaixada nas montanhas, só viviam pessoas idosas, viradas para si mesmas, dentro das suas casas tristes, onde, muitas vezes, nem a luz do sol deixavam entrar. Viviam entregues às saudades da juventude, e, pouco a pouco, foram deixando murchar os sonhos que em tempos moraram dentro delas. Até já se tinham esquecido de quando as varandas estavam repletas de flores, e as melodias que lhes nasciam na alma, irrompiam pelas gargantas e enchiam os campos de sons harmoniosos que ficavam a pairar no ar.
Nesse tempo, quando uma cantiga se escapava por uma porta ou uma janela, logo outra respondia do outro lado da aldeia. E outra do outro canto, e do outro, e do outro…
E quando andavam na labuta nos campos, era a mesma coisa. A atmosfera ficava prenhe da música dos pássaros e das cantigas que os camponeses cantavam ao desafio.
Havia jovens e crianças na aldeia, nesse tempo. Depois da escola as crianças corriam para a ribeira, para pescarem e nadarem. Os mais velhos tomavam conta dos mais novos, e ensinavam-nos a nadar, a escolher o melhor isco para as trutas, as bogas, os achigãs…
Nas longas tardes de verão, sentados ao sereno, sob a luz das estrelas e do luar, ouviam-se histórias acompanhadas com música, que os mais novos escutavam com atenção e religiosidade. No inverno, era ao calor da lareira que os pequeninos adormeciam, embalados pelas histórias dos avós. Assim aprendiam a interpretar os ciclos da vida, a escutar o palpitar da Natureza, a amarem-na, a respeitarem-na. Era uma aldeia feliz…
Mas as crianças cresceram e partiram, levando os seus sonhos na bagagem. A escola fechou, as ervas tomaram conta dos recreios e invadiram as salas de aula. Os campos ficaram ao abandono. Sem alma, muitas casas ameaçavam ruir de solidão e esquecimento. Os pais dessas crianças eram agora os idosos da aldeia. Passavam o dia inteiro lamuriando-se. Já não queriam saber de nada. Viviam dentro das casas, trancados nos seus problemas. Nem mesmo os que ainda podiam caminhar, se atreviam a ir à rua. Arrastavam-se de ombros descaídos, olhos postos no chão. Não ouviam os pássaros,  nem o silêncio da noite, e tinham esquecido o gesto de levantar a cabeça para olhar as estrelas…Muitos tinham emudecido, à força de não usarem as palavras para se expressarem… Estavam a deixar-se morrer. Tinham perdido os sonhos.
Um dia um jovem chegou à aldeia. Trazia estrelas nos olhos e sonhos na voz. E uma concertina. Chegou ao adro da igreja, sentou-se no meio do chão, com as pernas cruzadas e começou a tocar, com alma e entusiasmo. Tocou, tocou, tocou, tocou… Nas janelas, algumas cortinas curiosas levantaram-se cautelosamente, mas ninguém apareceu no adro. Ao fim de uma hora, o jovem partiu, e no ar ficou o eco das músicas que os idosos identificaram, depois de procurarem nos escaninhos da memória.
Naquela noite, muitos adormeceram com uma grande nostalgia no coração. A nostalgia da felicidade.
Eram quase três horas da tarde quando, no dia seguinte, a acalmia foi interrompida pela concertina do jovem. Ele tinha voltado. Agora caminhava por todas as ruas e vielas, tocando a sua concertina. Com um reportório renovado. E, ao fim de uma hora, partiu. Em todas as casas se gerou agora um sobressalto: que fazia ali aquele rapaz? Que queria ele? Tocava tão bem!
Muitos recordavam os dotes musicais que tinham deixado cair no esquecimento. Houve quem tivesse ido procurar os instrumentos que havia tocado em jovem, e experimentado a firmeza dos dedos agora rígidos, ou tivesse levado à boca os instrumentos de sopro…Houve quem tivesse começado a trautear timidamente as cantigas que entoara em tempos…Houve quem pensasse que não estava para cantigas…Houve que sentisse um estremecimento na alma…Houve quem chorasse de emoção…Mas as portas continuaram fechadas.
Porém, em todas elas, a expetativa ia tomando conta dos habitantes: voltaria o jovem no dia seguinte?
Naquela noite, houve quem não conseguisse dormir…
 Perto das 3 horas da tarde, adejavam cortinas impacientes por detrás das janelas das casas que circundavam o adro. Nas outras, colocavam-se os ouvidos de atalaia, e descerravam-se as janelas… Já passavam 10 minutos das 15 horas quando a música da concertina do jovem o fez anunciar, antes da sua figura desembocar no adro. Um suspiro de alívio de que só os próprios se aperceberam, soltou-se em uníssono dos peitos expectantes. De repente, uma porta abriu-se, soltando um dolente queixume. E os passos trémulos do ti Albano encaminharam-se para o meio do terreiro, onde estava o jovem. O ti Albano encostou o violino ao pescoço, rapou do arco, e começou a acompanhar a música que o jovem tocava. Os olhos do bom do velho estavam húmidos. Não foram precisas palavras para os dois se entenderem. Já tocavam há meia hora, quando a velha professora se aproximou timidamente com o seu cavaquinho. E as duas irmãs que moravam no fundo da aldeia, vieram com as suas vozes trémulas, mas ainda bonitas, acompanhar os músicos. E, já mesmo quase na altura do jovem partir, também os velhos da casa amarela se juntaram ao coro. Passou uma hora e o jovem partiu, sem uma palavra, deixando os idosos que se aventuraram a furar a solidão forçada, cheios de perguntas. Envergonhados, regressaram aos seus refúgios.
Naquela aldeia, algo estava a acontecer. Houve janelas que se abriram e deixaram o sol penetrar pelas casas. Houve quem viesse sentar-se na soleira da porta, à noite.
No dia seguinte, quase todas as janelas se abriram, e houve vizinhos que se saudaram. Havia sonhos a irromperem nas almas abandonadas.
À hora habitual todos estavam preparados para receberem a música nos seus corações. Mas o jovem não veio. Nem no outro dia, nem no outro, nem no seguinte. Houve quem chorasse de raiva, de desilusão. Houve quem caísse à cama, sem coragem para se levantar. Houve quem dissesse que já sabia que aquilo ia acontecer. Os aldeões sentiam-se traídos, sem saberem explicar a si mesmos porquê, já que nada lhes fora prometido. Estavam agora mais sós do que nunca.
Mas quando já o desespero  corroía a esperança, eis que soa a música da concertina. Desta vez, como se obedecendo a um sinal combinado, as portas abriram-se, e as pessoas saíram alegres para a rua. Poucas foram as que ficaram em casa. Só mesmo as que não puderam arrastar-se.

Hoje, passados que são dois anos sobre o aparecimento do Xico na aldeia, custa a acreditar que aquela banda de rock da terceira idade que toda a gente conhece, e que já ganhou alguns prémios, seja formada pelos habitantes daquela aldeia que só estavam à espera de morrer. Os milagres acontecem, se não perdermos a capacidade de sonhar. 

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Equívocos

 Ajeitou o colar em frente ao espelho. Acomodou o cabelo com a mão direita, beliscou as faces, mordeu os lábios. Lembrou-se de um bâton que havia comprado ainda a mãezinha era viva. Não se atrevera a usá-lo à frente dela, que criticava aquelas garridices, mas às vezes, no seu quarto, experimentava-o, e imaginava-se a sair com os lábios rosados, e os olhares que atrairia. Foi procurá-lo numa caixa que estava dentro de uma gaveta da cómoda, passou-o pelos lábios, e sorriu para o espelho. Num impulso, abriu ligeiramente a boca, e colou-a ao espelho. Afastou-se um pouco, e contemplou o contorno dos seus lábios. De repente, pegou num bocado de papel higiénico e começou a esfregar a mancha no espelho, com gestos que denunciavam irritação.
Pegou nos óculos e, no momento em que os ia colocar, hesitou. Abriu a caixinha que estava em cima do armário da casa de banho, e guardou-os cuidadosamente. Não ia precisar dos óculos para ir ao café. Era míope, mas conseguia ver muito bem ao perto. Os óculos deformavam-lhe os olhos, que até eram bonitos. Ficava com um olho muito maior do que o outro, com um ar completamente patético. Ia tomar um cafezinho, talvez no café do rés-do-chão do prédio. Ou talvez se aventurasse até mais longe. Logo se veria. Desde que a mãezinha morrera, há três meses, que só saía ao domingo para ir à missa. O Sr. Leonel da frutaria trazia-lhe a casa o que ela encomendava pelo telefone. De resto, fora gastando o que havia na arca e na despensa. Mas agora, outro galo lhe cantaria. Era tempo de começar a viver a sua vida. “ Hoje era o primeiro dia do resto da sua vida”, como dizia a canção. Quem sabe, se ainda estaria em tempo de…não era de se deitar fora...Nunca lhe faltaram pretendentes, isso não…Mas a mãezinha…nenhum era suficientemente bom…e ela fora murchando…Ai o António carteiro!…tão bonito, tão bom rapaz, a bichanar-lhe palavrinhas aos ouvidos quando vinha entregar a renda do quintalito que a mãezinha lhe entregara para cuidar. Uma vez apanhou-os, ele encostadinho ao seu ouvido a murmurar-lhe doçuras, ela derretida de gozo, foi um caso dos trabalhos…Nunca mais o António carteiro foi entregar as rendas…Passou a depositá-las no banco. Nessa altura ainda a mãezinha vendia saúde…
Em vez de tomar o elevador, desceu as escadas a pé. Desde que ficaram encurraladas no elevador, devido à falta de eletricidade, ela e a mãezinha, nunca mais desceu de elevador. Chegou ao fundo das escadas com o coração a palpitar, não sabe se do cansaço, se da ansiedade…
Aproveitou para ver o correio. Como quase sempre, só publicidade. Não! Havia um envelope! Azul claro, mais pequeno que os envelopes convencionais. Ercília virou-o de um e outro lado. Estranho! Não estava endereçado, nem tinha remetente. Abriu-o. Dentro, estava um bilhetinho, da mesma cor do envelope. Estava escrito ao computador, em letra que imitava a manual.
Minha querida:
Tenho esperado por si toda a minha vida! Continuo aguardando um sinal seu para me aproximar.  
Não seja má! Não me despreze! Ainda podemos ser muito felizes! Espero-a na pastelaria “Bom Sucesso”.
Sempre seu,
A assinatura era um rabisco ilegível.
Ercília sentiu um calor atingir-lhe as faces e o corpo todo. Olhou em volta, mas não havia ninguém. Antes assim. Então ela era a querida de alguém sem saber? Alguém esperara por ela toda a vida… “ Ainda podemos ser felizes”
A pastelaria “ Bom sucesso” ficava a dois quarteirões…Pois bem: não era tarde nem era cedo. Resolutamente meteu pés ao caminho.
Porém, sentia-se estranha. Nem sabia caminhar direito na rua, sem o apoio da mãezinha, o seu braço enfiado no dela…
Uma lagrimazinha apareceu-lhe no canto do olho…Não era altura para dramatismos. Já chorara tudo o que havia para chorar. Agora era preciso voltar à vida. À sua vida. Até ali vivera a vida que a mãezinha lhe impusera.
Ergueu a cabeça, endireitou o corpo, e avançou, decidida. Pouco depois estava em frente da pastelaria “ Bom sucesso”. Entrou, sentou-se numa mesa perto da entrada, respirou fundo, e só depois o seu olhar varreu os clientes. A maioria pessoas de meia-idade, como ela, e um grupo de quatro raparigas numa mesa.
Havia dois homens sozinhos. Um já bastante velho, que não tirava os olhos do jornal. O outro, olhava para a porta, disfarçadamente. Era certamente o homem do bilhetinho. O tal que esperara por ela toda a vida. 
O coração de Ercília bateu descontroladamente. Era elegante, e parecia educado. Usava um blazer de bombazina castanho, e umas calças claras de sarja. Ercília desviou o olhar. O empregado aproximou-se e ela pediu um café. Atreveu-se a levantar os olhos, e continuou a sua observação, tentando ser discreta. O homem tinha um bigodinho grisalho com umas pontas bem aparadas. Quase completamente calvo, mas uma calvície que lhe assentava bem. Agradava-lhe o que via. Percebia-se bem que estava nervoso, como ela. Faria de contas que não tinha lido o bilhetinho. Ele que viesse falar com ela. Bebeu o seu café, aparentando uma calma que estava muito longe de sentir. Em seguida, pediu um copo de água, e foi bebendo calmamente. Mas ele, nada. Era tímido, certamente, ou gostaria de fazer as coisas à antiga. Ai, como a mãezinha o teria apreciado! Ele deitava os olhos na sua direção. Parecia-lhe que sorria. Sorriu-lhe, também. E baixou os olhos. Quando os levantou, ele dirigia-se para a sua mesa. Ercília sentiu-se desfalecer. Quando estava perto dela, soltou um profundo suspiro, mas não parou. Saiu.
Ercília ali ficou, a respiração ofegante, como alguém que acabasse de fazer uma longa corrida. Esperou, acalmou-se, pagou, e saiu. Nessa noite, não dormiu. Pela cabeça passaram-lhe as imagens de tudo o que se passara. Certamente que ele não tivera coragem de a abordar. Mas ela não tinha pressa. Ele prometia-lhe a felicidade. Quem já tanto esperara, não se importava de esperar um pouco mais para ser feliz. “ Saber esperar é uma virtude”, era um dos lemas da mãezinha. Levantou-se muito cedo, e começou a tirar medidas às janelas. Iria colocar cortinados novos na sala e no quarto. Era muito importante renovar o quarto, comprar móveis novos, sim, sobretudo uma cómoda nova, para as roupas dele, e…claro, uma cama de casal. Estava fora de questão utilizarem a cama que pertencera aos paizinhos.
A manhã passou-a a fazer limpezas profundas, a colocar no lixo trastes de que nunca tivera a coragem de se desfazer.
Almoçou num alvoroço, mal conseguindo esperar pela hora do café na Pastelaria " Bom Sucesso”. Quando entrou, já ele estava lá ao fundo, na mesma mesa onde se sentara no dia anterior. Ercília sentou-se à entrada, mesmo virada para ele. Desta vez, sentiu-se mais arrojada, foi olhando para ele sem desviar o olhar. Como no dia anterior, ele sorriu-lhe discretamente. Ela sorriu-lhe abertamente. Questionava-se se seria desta vez que ele teria coragem para lhe falar. Mas agradava-lhe este namoro discreto, esta troca de olhares, como uma preparação para cavalgadas mais arriscadas. De repente ele levanta-se, e ela pensa: é agora.
Mas não. Partiu, deixando-a como a uma criança a quem tiraram um brinquedo. Estaria a pô-la à prova?
Nessa noite, Ercília sonhou, sonhou e sonhou. Sonhou com o seu amor, com uma vida venturosa de profundos arrebatamentos amorosos, e acordou feliz, alagada em suor. E tomou uma decisão: se ele não viesse falar com ela, tomaria a iniciativa.
Entrou na pastelaria, olhou em volta, e viu-o sentado ao fundo da sala, numa mesa protegida pela penumbra. Ercília não queria acreditar nos seus olhos: na mesa do seu noivo, a sua vizinha do 2º andar, uma lambisgoia divorciada, de costumes duvidosos, olhava-o como se o quisesse engolir. E ele, com um ar perfeitamente idiota, não tirava os olhos dela, as mãos dele sobre a mesa, encaixadas nas dela.
Sem se poder conter, Ercília avançou para eles, levantou a carteira, e malhou, malhou, malhou em cima dele.
Felizmente para Ercília, o caso resolveu-se sem recurso aos tribunais. Teve que apresentar um pedido público de desculpas, escudando-se no estado de choque pela morte recente da mãe, e pagar uma indemnização ao queixoso.
Nunca mais saiu de casa. E quem olha para aquele terceiro andar, pode ver, pendurados nas janelas,  uns farrapos velhos comidos pelo sol, que outrora já foram cortinas.

domingo, 13 de abril de 2014

Mais leve

Já só me faltava receber a encarregada de educação da Raquel, uma adolescente problemática, amiga de chamar a atenção, quezilenta e arrogante. Desaproveitava as grandes capacidades que possuía, para ser a líder dos alunos malcomportados. Inteligentíssima, era perita na arte da argumentação, entrando em duelos verbais com os professores dos quais frequentemente saía vencedora, o que reforçava a sua posição entre os seus colegas. Apesar disso, o seu aproveitamento escolar nunca estivera em risco.
Quando levantei o olhar da papelada, não vi a mãe da Raquel, mas um homem.
Apressou-se a estender-me a mão, apresentou-se como sendo o pai da Raquel, explicando que a mãe, a encarregada de educação, tinha ido de visita aos pais nos Açores, levando consigo a filha mais nova, enquanto ele ficara com a mais velha.
Arrepiei-me quando o vi. Se ainda tivesse dúvidas, elas desapareceram à medida que ele ia falando. Todavia, não detetei qualquer indício de me ter reconhecido. Falava do assunto da Raquel com a preocupação natural de quem tem uma filha adolescente problemática a tentar concentrar sobre si todas as atenções. Ouvira a leitura das participações dos professores, que eu lhe lera com voz trémula, e prometeu que iria conversar com ela. Recebeu fleumaticamente, pareceu-me, as notas da filha, assinou todas as fichas e demais papelada que eu lhe apresentei, dobrou ao meio a folha da avaliação com um vinco, e guardou-a no bolso interior do casaco. Era mais velho do que eu oito anos. Porém, estava bastante envelhecido, e a diferença de idades parecia muito maior. Continuava magro, com sempre fora, mas parecia arrastar consigo todo o peso do mundo. A mesma voz rouca e sensual que tanto me perturbara, deixava-me agora indiferente.
Em tempos as nossas vidas tocaram-se profundamente, numa roda de violência, paixão, perdão, gritos, choros, equimoses no corpo e na alma.
Eu fora obrigada a fugir, deixando para trás o meu emprego, e acabara por aceitar um lugar de professora no Algarve. Soube que me procurara junto dos meus pais, que o avisaram que me deixasse em paz se não queria estragar a vida dele e a deles.
A última vez que me chegaram notícias, através da amiga comum que nos apresentara, já eu estava casada com um amigo de infância, os meus três filhos já tinham nascido e eu tinha regressado ao Norte. E era feliz.
Ele preparava-se para casar com a mãe das duas filhas, numa altura em que a maior parte dos amigos da sua geração estavam a começar a ser avós. Dissera à nossa amiga “ que já era tempo de assentar.” Só depois do nascimento da filha mais nova lhe parecera oportuno assentar. Recordo o sentimento de piedade que então me invadiu quando soube daquela notícia. Piedade pela mulher, pois segundo vários tratados que então lera sobre violência doméstica no lar e no namoro, um agressor dificilmente deixará de o ser, pois qualquer situação que desequilibre o seu quotidiano, poderá despertar a fera adormecida.
E agora ela ali estava, na minha frente, ainda com o poder de me deixar nervosa e receosa. Ganhei alento, afirmando para mim própria, com a convicção possível, que aquele farrapo não poderia voltar a fazer-me mal. Tinha chegado o momento de resolver aquele assunto pendente na minha vida, para que os pesadelos deixassem, de uma vez por todas, de me atormentar. Necessitava de largar aquele fardo para prosseguir a minha caminhada com mais leveza.
— E por agora é tudo! — concluí, estendendo-lhe a mão.
Nesse momento olhei-o bem de frente, e arrisquei, tentando demonstrar uma segurança que estava muito longe de sentir.
 — Já esqueci tudo e já perdoei. Siga a sua vida em paz.
Ele correspondeu ao aperto de mão, suportando o meu olhar sem pestanejar. Nada disse. Acompanhei-o à porta da sala. Fiquei a vê-lo afastar-se, as costas curvadas, um ligeiro arrastar da perna direita.
Quando chegou ao cimo das escadas que o conduziriam ao piso inferior, voltou-se. Nos seus olhos pareceu-me ver a humidade brilhante deixada pelo assalto de alguma lágrima. A sua boca mexeu-se, sem que qualquer som dela saísse. Mas eu pude ler o que ela dizia:
 — Obrigado!
Voltou-se e lentamente foi-se apagando do meu campo de visão, à medida que ia sendo engolido pelas escadas.
A Raquel já não acabou o terceiro período na escola. Foi transferida para os Açores.   

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

O sapo e a cotovia

Na minha mente cruzam-se excertos de narrativas de infância que se enredam e enovelam umas nas outras, e me assaltam constantemente, tantas vezes às horas e nas situações mais indiscretas. Vou adiando o confronto, por uma tendência inata para a procrastinação, uma preguiça que se vai instalando, e à qual não tenho forças para resistir. Quando finalmente cedo ao apelo e me sento para escrever, é porque uma dessas vozes se sobrepôs, e sei que me basta puxar o fio desse novelinho para a narrativa se ir desensarilhando… A voz que agora sobrevém das brumas da memória é a da minha tia-avó materna, que vivia connosco, terna figura indissociável da minha infância, que disseminou o meu mundo e o dos meus irmãos, de narrativas e de sonhos… Ouço a sua voz, contando a fábula da cotovia e do sapo. Nunca encontrei esta fábula em nenhum livro, e nunca a ouvi contar a ninguém. Nem sei se a reconheceria escrita, ou até narrada por outrem, de tal maneira a voz da minha tia, imitando e mimando as personagens se tornou parte integrante do corpo da história, sem a qual ela estará, para mim, mutilada.
Ó tia, conte lá a do sapo e da cotovia! pedíamos
Era uma vez um gato-montês…Queres que te conte outra vez?
Oh! Não! A do sapo e da cotovia! Vá lá!
Era uma vez um sapo e uma cotovia. Eram casados, e um dia foram fazer um passeio. Mas foram apanhados por uma tempestade, que durou três dias e tiveram que ficar abrigados numa árvore. (A voz dramática da tia, os seus gestos, os seus olhares, criavam o ambiente indispensável à visualização da história) Finalmente a tempestade parou e eles resolveram voltar para casa. Tinha chovido muito, os campos estavam alagados, as ribeiras e os riachos levavam muita água. E lá vão os dois, o sapo ( e aqui a voz da minha tia, ao pronunciar a palavra “sapo” faz a voz grossa, enche as bochechas de ar, e sopra as sílabas “ sa-po”, ao mesmo tempo que baloiça o corpo com a sílaba “sa-” para a esquerda, e com a “-po “ para a direita. Afasta os braços, e faz com eles uma roda larga à volta do seu corpo. Sem mais explicações, a personagem estava instalada à nossa frente, que víamos um sapo gordo, pesado, bonacheirão…) e a cotovia ( neste  ponto afina a voz como uma flauta, e dá pulinhos na cadeira. É uma cotovia leve e saltitante que os nossos olhos veem. E estes gestos irão acompanhar toda a narrativa, alternando-os à media que intervêm uma ou outra personagem.) Chegam à beira do riacho que têm que atravessar, porque a casa deles é do outro lado. Mas o riacho, que quando passaram para cá tinha pouca água, agora vai cheio. A cotovia, sempre a saltitar, a saltitar, levanta voo, e, num instante, está do outro lado. Mas o sapo… olha para a água, olha para lá do riacho, e não se decide a passar. A cotovia, do lado de lá, começa a encorajar o homem dela.
— Passa, sapo, passa! E a voz aflautada da minha tia que imita a cotovia, com os gestos respetivos, e os pulinhos na cadeira, recriam a narrativa.
 — Num posso! Num posso! — responde o sapo.
A cotovia começa a voar em redor do sapo, ora voando para lá, ora vindo colocar-se ao lado do seu companheiro.
— Passa, sapo, passa!
Bem, estão nisto algum tempo, passa, passa, num posso, num posso, até que o sapo, com todas as cautelas, lá se decide. Mas com tanto azar, que quando mete a pata, ela lhe escorrega, e ele vira-se, ficando de patas para o ar a estrebuchar no meio da água. E a corrente arrasta-o pelo riacho abaixo. A cotovia, ao ver aquilo, desabafa, aflita e chorosa:
— Ai sapo, que fico viúva!
Resposta do sapo:
— E dum belo rapaz, tocador de viola!

Ao ouvirmos esta história não conseguíamos conter as gargalhadas, e a pena que a sorte do pobre sapo nos pudesse despertar, era desviada pela imagem patética que conseguíamos visualizar, do sapo gordo de patas no ar, a responder ao choro da cotovia, com a voz soprada, grossa e compassada, que a tia lhe emprestava. 

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Estávamos à tua espera...

Depois das aulas, encaminharam-se para a margem do rio. Iam todos a dizer os disparates do costume, só ele ia calado, a pensar na vida.
Mais uma vez, sentia uma enorme dor no meio do peito. Uma dor que não era como quando lhe doíam os dentes, ou a barriga, mas que era ainda mais forte, misturada com uma grande tristeza. Não! Não era como as outras dores…era muito, muito pior…fazia-o desejar estar sempre a dormir. E era isso que faria, se não fossem os sonhos… Os sonhos! Eram mais pesadelos…Mas nem sempre tinha pesadelos…às vezes conseguia dormir mesmo, como uma pedra…e nesses momentos esquecia…Não sabia como encontrar solução. Naquele momento, parecia-lhe que não havia, para o seu problema. Sentia-se um fraco. Apetecia-lhe nunca mais voltar a pôr os pés na escola. Mas depois vinha a guarda buscá-lo a casa, ele sabia…e o subsídio que ajudava a manter a família, ia à vida… Só se fugisse…para muito longe, onde ninguém o encontrasse…
Se não fossem a Sónia, a Gina e o Augusto… e o Leonardo, claro, o seu irmão gémeo…Às vezes ele armava em parvo, mas eram amigos…
À saída da escola, antes de voltar para casa, gostava de passar por ali. Gostava de atirar pedras ao rio, ver o quão longe elas podiam chegar…ou de ficar a apreciar os remoinhos que as pedras produziam, e a luz que entrava pelas águas adentro…as nuances das cores…verde-claro, verde-escuro, cinzento, azul-escuro, quase preto. Perdia-se a olhar para os reflexos distorcidos das árvores nas águas, que caminhavam barulhentas e imparáveis para o mar… Ao ouvir aquele cantar estrepitoso, esquecia parte dos seus problemas, serenava...
A Sónia… gostava dela. Ainda não namoravam, mas estava quase… o dia de hoje era decisivo…Por isso estavam todos, para disfarçar…De outra maneira não conseguia apanhá-la ali. Ela não largava a Gina! Mas o António ia também tentar a sua sorte. Toda a gente sabia que ele gostava da Gina…até a setôra de Português tinha dado conta!…
Boa vida era aquela, entregarem-se à brincadeira sem ninguém a chatear…não queria pensar no que o afligia, agora queria era embriagar-se de brincadeira, e…talvez…abraçar a Sónia, abraçá-la, beijá-la, apertá-la, como sonhara fazer tantas e tantas vezes, quando, à noite, debaixo dos cobertores, a imagem dela se vinha misturar com o choro que rebentava sem querer, depois de perseguido por memórias de episódios atulhados de humilhações e ameaças de colegas, de funcionários a gritarem pelos corredores, de professores autoritários e cegos ou tão permissivos que não ousavam estabelecer a ordem, receosos, também eles, de vinganças descarregadas nas pinturas dos carros. E alcançava alguma paz quando, assim abraçado à Sónia, acabava por adormecer, exausto, percorrido por um frémito quente e libertador.
Ia mostrar-lhe os recantos da mata, e, se tudo corresse bem, selariam o namoro à beira do rio.

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Chico foi tirando a roupa lentamente: primeiro a tee-shirt, depois os ténis, as meias. Enrolou-as e colocou-as vagarosamente dentro dos ténis. Arrumou-os um ao lado do outro.
Os companheiros riram-se.
Aquilo era tudo estudado. O Chico apelava a um momento, por mais breve que fosse, de protagonismo. Gostava de se sentir o herói, admirado, já que não era capaz de resolver as situações na escola que tanto o preocupavam e humilhavam. Mas aqueles quatro amigos eram fixes!
Depois tirou as calças, e, sem pressas, com arrepios de frio, foi entrando nas águas revoltas do rio.
— Mas que estás tu a fazer? Pára!
— Ainda ficas doente! Depois eu é que as pago! — avisou o Leonardo.
Leonardo era três minutos mais velho que o irmão, e, à conta disso, fora muitas vezes chamado à vara por não ter impedido algumas travessuras do Chico.
Naquele momento o riso foi morrendo em tempos desencontrados no rosto dos companheiros. Já completamente apagado nos lábios dos três miúdos, ainda a Sónia mantinha um resquício de sorriso, antes de um grito que irrompeu da sua garganta.
— Não sejas parvo, Chico! Pára! Volta!
O pânico que explodiu nas palavras da Sónia contagiou os outros miúdos. Os gritos tumultuosos e indisciplinados romperam o ar, atravessaram as folhas dos choupos, os ninhos abandonados, e perderam-se para lá das nuvens.
Chico deu duas braçadas, mas rapidamente se apercebeu de que o lodo do rio não lhe deixava espaço para nadar. E a corrente era ali muito forte. Os seus movimentos começam a ser cada vez mais desordenados e desesperados, as braçadas descoordenadas. Tenta manter a cabeça fora das águas, mas começa a cansar-se. Os garotos vêem o seu corpo desaparecer no interior do rio, enquanto gritam o seu nome.
As lágrimas, os soluços, a incredulidade submergem-nos, ao mesmo tempo que assistem, impotentes, ao desaparecimento do amigo. Leonardo, o irmão gémeo do Chico, começa nervosamente a largar os ténis. Os três garotos adivinham-lhe as intenções e agarram-se a ele, manietando-o. O corpo do Chico vem ainda à superfície mais duas vezes, em sítios diferentes do rio, arrastado pelas águas. Deixam de o ver. Sónia já não tem voz para continuar a gritar.
Chico sente o seu coraçãozinho bater, num pânico desenfreado. Não era isto que ele desejava. Pretendia apenas assustar os companheiros…para eles saberem que não era nenhum cobarde… Mas agora sente o arrependimento a possuí-lo. Não tem forças para lutar com as águas. Os membros entorpecidos parecem já não lhe pertencer. Imagens da mãe, do pai, dos irmãos, dos colegas da escola, da cadelita rabina, que o recebe sempre que chega da escola, e o persegue até à porta da cozinha…perpassam-lhe à frente. Sabe agora que nunca mais vai voltar a ser maltratado, ninguém mais lhe vai fazer mal. Relembra o beijo roubado à Sónia, na mata, quando ficaram os dois para trás…Sente-se empurrado cada vez mais para o fundo. A oração que a avó lhe ensinara começa a surgir dentro de si: “Santo Anjo do Senhor, meu zeloso guardador…” Já não sente medo…Entrega-se. Abre a boca e deixa entrar a água que rapidamente lhe inunda os pulmões. Começa a sentir uma paz infinita… o último esbracejar…Flutua…Lá de longe uma música suave e inebriante vai-se aproximando.
Uma luz azul, forte e brilhante, rasga as águas e o lodo…À sua frente a luz sugere uma figura radiosa, onde sobressai um sorriso infinitamente doce.
Não fala, mas Chico ouve-lhe as palavras no lugar do coração.
— Chamaste-me? Aqui estou. Vem. Estávamos à tua espera.
A figura levanta-o nos braços. Chico sente-se a pairar, leve, como se o seu corpo se tivesse esfumado.
A luz que emana daquela figura que Chico pressente ser o anjo que invocara, começa a alastrar e a inclui-lo dentro dela, ficando ambos envolvidos num gigantesco ovo feito de luz. Ao mesmo tempo, uma onda de plena felicidade, de um amor infinito, vai tomando conta dele.
Porém, fora daquela bolha enorme de luz, de amor e de felicidade, Chico pode observar-se enredado no lodo, como se se tivesse desdobrado e estivesse a ver-se num ecrã. Tremulamente mexe os lábios para fazer uma pergunta, mas as palavras não lhe saem. Ficam apenas no seu pensamento.
— Não te preocupes. É apenas uma carapaça, para que os que te choram possam fazer o luto.
E outra pergunta atravessa-lhe o pensamento.
— Estou morto?
E ouve a resposta no seu coração, da mesma maneira que já tinha ouvido as outras.
— Não!... Acabaste de nascer.