"Todos os meus versos são um apaixonado desejo de ver claro mesmo nos labirintos da noite."
Eugénio de Andrade

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Um lobo desastrado

À beira da floresta, não muito longe do povoado, vivia na sua toca o Lobo Mau com a Dª Loba e os seus filhotes. Sim, sim, esse mesmo…O tal que não consegue tirar da cabeça os três porquinhos… Pois o que acontece é que o Lobo é agora pai de família, cheio de responsabilidades, e todos os dias tem que sair para procurar alimento para a mulher e os lobinhos. Mas a crise também chegou à floresta. A vida não está nada fácil, nada fácil, e agora que a neve cobriu os campos, a caça não aparece assim à mão de semear…Ainda por cima, o Lobo Mau está cada vez mais desastrado, e não consegue levar para casa nada de jeito…Uma vez, ainda não há muito tempo, até ficou preso numa armadilha…Se não fosse a Dora, a mãe dos três porquinhos, a estas horas já ele estaria transformado em picado, a Dª Loba viúva, e os seus filhotes órfãos.…Humilhara-se até mais não, para convencer a Dora a ajudá-lo a libertar-se… Fez um grande choradinho, prometeu que nunca mais iria perseguir os três porquinhos, que ele trazia debaixo de olho há tanto tempo, e que até os iria proteger do ataque dos outros lobos, a ela e aos filhos…O que um pobre lobo tem que fazer para defender a pele…
Os filhos da Dora eram agora uns porquinhos crescidos, rosadinhos, mas muito preguiçosos. Nunca mais se resolviam a ir tratar da vida…
Os seus filhos, os lobinhos, eram ainda muito pequeninos e precisavam de muitos cuidados….Lembrava-se muito bem das palavras da Dona Loba:
__Vê lá se, desta vez, trazes alguma coisa de jeito para comermos! Os pequenos estão esfomeados.
__ Está bem. Está bem!
Não podia falhar. Aproximou-se pé ante pé do galinheiro da quinta do sr. Leonardo. Mas o lavrador estava à sua espera e mandou-lhe uma chumbada. Pelos vistos, estava-se nas tintas para a lei protetora dos animais... O Lobo correu, correu, correu, e só parou lá longe, já fora do alcance da arma do homem. Apalpou-se, a certificar-se de que não lhe faltava nenhum bocado, e lá se acalmou.
Que iria fazer à sua vida? Ele bem via o Lobo Cinzento a rondar a Dona Loba, os olhares cobiçosos que lhe lançava. A tola não percebia que o Lobo Cinzento só sabia afiar as garras, que não lhe serviam para nada, e dizer umas larachas bonitas… Caçar não era com ele… Mas as mulheres, quando lhes dizem palavrinhas doces ao ouvido, perdem a cabeça…
Sentou-se a descansar da correria, quando ouviu:
__Quem tem medo do lobo mau, lobo mau, lobo mau…
Olá!...Escondeu-se atrás de uma moita. E viu passar, em fila indiana, a saltitarem despreocupadamente, três porquinhos. Bem, de porquinhos não tinham nada! Eram uns porcos bem matulões, crescidos, rosadinhos, apetitosos! Afinal a sorte estava do seu lado. Oh não! Oh não! Não! Não! Nãaaaaaaaaao! Eram os filhos da Dora! Não podia comê-los! Tinha prometido! Mas as palavras da dª Loba ecoavam-lhe aos ouvidos:
__Vê lá se, desta vez, trazes comida para casa!
E os lobinhos a gemer de fome, magrinhos, magrinhos…
E o Lobo Cinzento a afiar as unhas, e a cantar loas à Dona Loba…
No final de contas, ele podia sempre desculpar-se e dizer que não sabia que eram os filhos da Dora…estavam tão grandes, desde a última vez que os tinha visto…eles não traziam o bilhete de identidade estampado na testa, pois não?…E quem lhe mandara a ela, acreditar em palavra de lobo? Na cadeia alimentar, os lobos comem os porquinhos… Não se pode fugir à natureza.
Decidiu-se e avançou para eles, cautelosamente. Mas, no momento em que ia deitar as unhas a um deles, tropeçou e…CATRAPUM! aterrou no chão, o focinho enfiado na neve. Os três irmãos desataram a fugir, cada um para o seu canto, numa grande guincharia… O lobo levantou-se, sacudiu o pelo, olhou em volta, não fosse alguém ver a triste figura que acabara de fazer, e disse:
__ Não hão de perder pela demora…Amanhã não me escapam.
Foi então que percebeu onde tinha tropeçado: num caixote de couves que tinha caído da carroça dos produtos que o sr. Leonardo ia todos os dias vender ao mercado. Juntou as couves que estavam espalhadas para dentro do caixote, e disse:
__ Por hoje tenho que convencer a Dª Loba que a comida vegetariana é muito mais saudável!

E voltou para o covil, arrastando penosamente as couves que iriam ser a única coisa que os cinco iriam trincar.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

É hoje...

Vou fazer-lhe o bolinho de que ele gosta...é tão guloso…vai adorar a surpresa, ai vai, vai! Hum! Tenho que bater mais um bocadinho, para ficar bem fofinho… ele adora bolinho de laranja…com bastante raspa…assim, e assim…está quase no ponto…Ai!.. Há tantos anos que aquele homem anda perdido! Foi comprar as velas para o meu bolo de aniversário, e…nunca mais voltou! Ah! Faz hoje… 20 anos! Ai, já são horas, deve estar a chegar…He! He!He! He! Hoje disse o responso direitinho, sem me enganar! Tenho muita fé no meu Santo Antoninho! É hoje, que ele vai voltar!...É hoje!
A Marlene cabeleireira deu-me uns conselhos…Ai! Que vergonha! Mas ela lá sabe! De homens percebe ela! Percebe quase tanto de homens como de cabelos…ou mais ainda…eu até acho que ainda percebe mais de homens do que de cabelos…ela lá os traz atrás, mansos como cordeirinhos…pois ele hoje não me vai escapar…Com as lições da Marlene…Ai não vai, não! Já tenho tudo pronto…Eh! Eh! Eh! Camisinha de noite, um perfume, e mais umas surpresas…Eh! Eh! Eh! Eh! Eu não estava habituada a estas coisas, mas a Marlene é que sabe…ela garantiu-me que ele não vai resistir…nem sei se ainda sei como se faz...Vinte anos, é muito ano…Nunca mais nenhum me tocou…hoje vou tirar a barriguinha de misérias…Eh! Eh! Eh! Eh!
E depois de estar consolada… ZÁS! Nunca mais há de ter vontade de ir às gatas…

Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah!  

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Terrine de lapin

   Já não a podia ouvir…” Tenho tanta pena de partir e deixar cá os grandes companheiros da minha vida!”…
Ingratidão, é o que é…Eu já lá trabalho há mais de quarenta anos…ainda não tinha feito os dezasseis…E o que eu lhe tenho aturado! Mas os grandes companheiros da vida dela eram os gatos…os gatos é que ela tinha pena de cá deixar, quando fosse prestar contas a Deus…e que grandes contas é que ela tem que prestar, ai tem, tem, tantas crianças com fome por esse mundo fora, e ela :“ os meus amores, os meus filhinhos” para os gatos, claro…Credo, isso até é pecado!...
Bem, verdade seja dita, que eu pensava muitas vezes : “ a minha senhora tem razão! Se ela morre primeiro que os gatos…habituados a tudo do bom e do melhor…” Eu gatos, puffff! Ainda se fosse um canarinho…
Pois nem de propósito…andava eu fartinha de a ouvir, e a morder a língua, para não lhe dar uma daquelas respostas, quando…pumba! Li numa revista que trouxe a sobrinha da minha senhora…lá em África…ou seria na Ásia? Já nem sei…pois, eu li, que lá nesses lugares, quando os mortos morrem, não, quero dizer, quando os vivos morrem, eles…credo! Que selvagens!...comem-nos! Eles pensam que, assim, ficam com a mesma sabedoria, força e inteligência desses que comem…
Pois a minha senhora comeu uma terrina de lapã…não, não é assim, é terrine, diz a minha senhora, é um nome estrangeiro, que eu dessas coisas não sei, só fiz a 4ª classe…antiga, que vale mais do que agora essas universidades onde não aprendem nada…
Então fiz a terrine de lapã sem lapã, está bem de ver…tinha que ser qualquer coisa picada, que a carne era muito dura…
Coitadinha da minha senhora!...Já anda mais animadita… Os gatinhos sempre morreram antes dela, como ela queria…Claro, tive que lhe dizer que os encontrei mortos no quintal, e que os da Câmara os vieram buscar para os enterrar…ainda se aborreceu comigo, queria-os enterrados no jazigo da família…felizmente que a sobrinha lá lhe fez ver que aquilo era um disparate…
Ai o que ela chorou, Santa mãe do Céu! Ainda chora, de vez em quando, a olhar para as fotografias dos gatinhos…Mas o tempo tudo cura, não é verdade?

Bem… Deixa-me cá ir fazer o almocinho da minha senhora…Hoje vai ser bifinhos com cogumelos…O que ela gosta de carne…Ai, eu não! Enjoei, não sei porquê…carne, é coisa que me não atravessa os gorgomilos…

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Equívocos

 Ajeitou o colar em frente ao espelho. Acomodou o cabelo com a mão direita, beliscou as faces, mordeu os lábios. Lembrou-se de um bâton que havia comprado ainda a mãezinha era viva. Não se atrevera a usá-lo à frente dela, que criticava aquelas garridices, mas às vezes, no seu quarto, experimentava-o, e imaginava-se a sair com os lábios rosados, e os olhares que atrairia. Foi procurá-lo numa caixa que estava dentro de uma gaveta da cómoda, passou-o pelos lábios, e sorriu para o espelho. Num impulso, abriu ligeiramente a boca, e colou-a ao espelho. Afastou-se um pouco, e contemplou o contorno dos seus lábios. De repente, pegou num bocado de papel higiénico e começou a esfregar a mancha no espelho, com gestos que denunciavam irritação.
Pegou nos óculos e, no momento em que os ia colocar, hesitou. Abriu a caixinha que estava em cima do armário da casa de banho, e guardou-os cuidadosamente. Não ia precisar dos óculos para ir ao café. Era míope, mas conseguia ver muito bem ao perto. Os óculos deformavam-lhe os olhos, que até eram bonitos. Ficava com um olho muito maior do que o outro, com um ar completamente patético. Ia tomar um cafezinho, talvez no café do rés-do-chão do prédio. Ou talvez se aventurasse até mais longe. Logo se veria. Desde que a mãezinha morrera, há três meses, que só saía ao domingo para ir à missa. O Sr. Leonel da frutaria trazia-lhe a casa o que ela encomendava pelo telefone. De resto, fora gastando o que havia na arca e na despensa. Mas agora, outro galo lhe cantaria. Era tempo de começar a viver a sua vida. “ Hoje era o primeiro dia do resto da sua vida”, como dizia a canção. Quem sabe, se ainda estaria em tempo de…não era de se deitar fora...Nunca lhe faltaram pretendentes, isso não…Mas a mãezinha…nenhum era suficientemente bom…e ela fora murchando…Ai o António carteiro!…tão bonito, tão bom rapaz, a bichanar-lhe palavrinhas aos ouvidos quando vinha entregar a renda do quintalito que a mãezinha lhe entregara para cuidar. Uma vez apanhou-os, ele encostadinho ao seu ouvido a murmurar-lhe doçuras, ela derretida de gozo, foi um caso dos trabalhos…Nunca mais o António carteiro foi entregar as rendas…Passou a depositá-las no banco. Nessa altura ainda a mãezinha vendia saúde…
Em vez de tomar o elevador, desceu as escadas a pé. Desde que ficaram encurraladas no elevador, devido à falta de eletricidade, ela e a mãezinha, nunca mais desceu de elevador. Chegou ao fundo das escadas com o coração a palpitar, não sabe se do cansaço, se da ansiedade…
Aproveitou para ver o correio. Como quase sempre, só publicidade. Não! Havia um envelope! Azul claro, mais pequeno que os envelopes convencionais. Ercília virou-o de um e outro lado. Estranho! Não estava endereçado, nem tinha remetente. Abriu-o. Dentro, estava um bilhetinho, da mesma cor do envelope. Estava escrito ao computador, em letra que imitava a manual.
Minha querida:
Tenho esperado por si toda a minha vida! Continuo aguardando um sinal seu para me aproximar.  
Não seja má! Não me despreze! Ainda podemos ser muito felizes! Espero-a na pastelaria “Bom Sucesso”.
Sempre seu,
A assinatura era um rabisco ilegível.
Ercília sentiu um calor atingir-lhe as faces e o corpo todo. Olhou em volta, mas não havia ninguém. Antes assim. Então ela era a querida de alguém sem saber? Alguém esperara por ela toda a vida… “ Ainda podemos ser felizes”
A pastelaria “ Bom sucesso” ficava a dois quarteirões…Pois bem: não era tarde nem era cedo. Resolutamente meteu pés ao caminho.
Porém, sentia-se estranha. Nem sabia caminhar direito na rua, sem o apoio da mãezinha, o seu braço enfiado no dela…
Uma lagrimazinha apareceu-lhe no canto do olho…Não era altura para dramatismos. Já chorara tudo o que havia para chorar. Agora era preciso voltar à vida. À sua vida. Até ali vivera a vida que a mãezinha lhe impusera.
Ergueu a cabeça, endireitou o corpo, e avançou, decidida. Pouco depois estava em frente da pastelaria “ Bom sucesso”. Entrou, sentou-se numa mesa perto da entrada, respirou fundo, e só depois o seu olhar varreu os clientes. A maioria pessoas de meia-idade, como ela, e um grupo de quatro raparigas numa mesa.
Havia dois homens sozinhos. Um já bastante velho, que não tirava os olhos do jornal. O outro, olhava para a porta, disfarçadamente. Era certamente o homem do bilhetinho. O tal que esperara por ela toda a vida. 
O coração de Ercília bateu descontroladamente. Era elegante, e parecia educado. Usava um blazer de bombazina castanho, e umas calças claras de sarja. Ercília desviou o olhar. O empregado aproximou-se e ela pediu um café. Atreveu-se a levantar os olhos, e continuou a sua observação, tentando ser discreta. O homem tinha um bigodinho grisalho com umas pontas bem aparadas. Quase completamente calvo, mas uma calvície que lhe assentava bem. Agradava-lhe o que via. Percebia-se bem que estava nervoso, como ela. Faria de contas que não tinha lido o bilhetinho. Ele que viesse falar com ela. Bebeu o seu café, aparentando uma calma que estava muito longe de sentir. Em seguida, pediu um copo de água, e foi bebendo calmamente. Mas ele, nada. Era tímido, certamente, ou gostaria de fazer as coisas à antiga. Ai, como a mãezinha o teria apreciado! Ele deitava os olhos na sua direção. Parecia-lhe que sorria. Sorriu-lhe, também. E baixou os olhos. Quando os levantou, ele dirigia-se para a sua mesa. Ercília sentiu-se desfalecer. Quando estava perto dela, soltou um profundo suspiro, mas não parou. Saiu.
Ercília ali ficou, a respiração ofegante, como alguém que acabasse de fazer uma longa corrida. Esperou, acalmou-se, pagou, e saiu. Nessa noite, não dormiu. Pela cabeça passaram-lhe as imagens de tudo o que se passara. Certamente que ele não tivera coragem de a abordar. Mas ela não tinha pressa. Ele prometia-lhe a felicidade. Quem já tanto esperara, não se importava de esperar um pouco mais para ser feliz. “ Saber esperar é uma virtude”, era um dos lemas da mãezinha. Levantou-se muito cedo, e começou a tirar medidas às janelas. Iria colocar cortinados novos na sala e no quarto. Era muito importante renovar o quarto, comprar móveis novos, sim, sobretudo uma cómoda nova, para as roupas dele, e…claro, uma cama de casal. Estava fora de questão utilizarem a cama que pertencera aos paizinhos.
A manhã passou-a a fazer limpezas profundas, a colocar no lixo trastes de que nunca tivera a coragem de se desfazer.
Almoçou num alvoroço, mal conseguindo esperar pela hora do café na Pastelaria " Bom Sucesso”. Quando entrou, já ele estava lá ao fundo, na mesma mesa onde se sentara no dia anterior. Ercília sentou-se à entrada, mesmo virada para ele. Desta vez, sentiu-se mais arrojada, foi olhando para ele sem desviar o olhar. Como no dia anterior, ele sorriu-lhe discretamente. Ela sorriu-lhe abertamente. Questionava-se se seria desta vez que ele teria coragem para lhe falar. Mas agradava-lhe este namoro discreto, esta troca de olhares, como uma preparação para cavalgadas mais arriscadas. De repente ele levanta-se, e ela pensa: é agora.
Mas não. Partiu, deixando-a como a uma criança a quem tiraram um brinquedo. Estaria a pô-la à prova?
Nessa noite, Ercília sonhou, sonhou e sonhou. Sonhou com o seu amor, com uma vida venturosa de profundos arrebatamentos amorosos, e acordou feliz, alagada em suor. E tomou uma decisão: se ele não viesse falar com ela, tomaria a iniciativa.
Entrou na pastelaria, olhou em volta, e viu-o sentado ao fundo da sala, numa mesa protegida pela penumbra. Ercília não queria acreditar nos seus olhos: na mesa do seu noivo, a sua vizinha do 2º andar, uma lambisgoia divorciada, de costumes duvidosos, olhava-o como se o quisesse engolir. E ele, com um ar perfeitamente idiota, não tirava os olhos dela, as mãos dele sobre a mesa, encaixadas nas dela.
Sem se poder conter, Ercília avançou para eles, levantou a carteira, e malhou, malhou, malhou em cima dele.
Felizmente para Ercília, o caso resolveu-se sem recurso aos tribunais. Teve que apresentar um pedido público de desculpas, escudando-se no estado de choque pela morte recente da mãe, e pagar uma indemnização ao queixoso.
Nunca mais saiu de casa. E quem olha para aquele terceiro andar, pode ver, pendurados nas janelas,  uns farrapos velhos comidos pelo sol, que outrora já foram cortinas.

sábado, 19 de abril de 2014

Um engano qualquer pessoa tem

S
 ou uma mulher de hábitos. He! He! He! He! Tenho um frasquito de vidro, onde vou metendo as moeditas pretas. Para as minhas gulodices, sabem! Todos os dias eu vou lá, e tiro as moeditas necessárias para o meu donutezito, aqui na pastelaria ao lado. Faço questão de pagar com as moeditas que vou juntando no frasquito.
Mas…sabem, contar as moedas, não é fácil…também a vista já não é o que era…às vezes, engano-me, e chego à pastelaria, e lá falta um centimozito. Ah! Mas a rapariga, dá-me sempre o meu donut. Sempre! Quer dizer: dava! Não é que hoje, me disse descaradamente, que não mo podia dar, que faltava um cêntimo? Eu disse-lhe: “ Mas, ó Lurdinhas, se me dás sempre o donut, porque é que hoje não mo hás-de dar? E ela disse-me, assim a frio, que eu já lhe devia um euro! Que tivesse paciência!
— Ó Lurdinhas, eu paciência, tenho, filha, mas dá-me lá o donut!”, insisti  eu.
“Que não, e que não e que não!” Isto compreende-se? De um dia para o outro, pronto! Já não há donut para mim! Eu sou uma pessoa de hábitos! Já tenho uma certa idade! Exijo respeitinho!
Bem, voltei-me, e fui à mesa, pedir à minha amiga um euro para a rapariga. E disse-lhe:
— Toma lá o euro, mulher!
E enfiei-lho pela goela abaixo. Ih! Que pandemónio! Até tiveram que chamar a ambulância. Parece que a rapariga tem digestões difíceis. Aqui para nós que ninguém nos ouve, deve ter pensado que a moeda era para comer! Bem! Um engano qualquer pessoa tem!
O que mais me preocupa é que, certamente, não vou conseguir recuperar a moeda, para a restituir à minha amiga.   


domingo, 13 de abril de 2014

Mais leve

Já só me faltava receber a encarregada de educação da Raquel, uma adolescente problemática, amiga de chamar a atenção, quezilenta e arrogante. Desaproveitava as grandes capacidades que possuía, para ser a líder dos alunos malcomportados. Inteligentíssima, era perita na arte da argumentação, entrando em duelos verbais com os professores dos quais frequentemente saía vencedora, o que reforçava a sua posição entre os seus colegas. Apesar disso, o seu aproveitamento escolar nunca estivera em risco.
Quando levantei o olhar da papelada, não vi a mãe da Raquel, mas um homem.
Apressou-se a estender-me a mão, apresentou-se como sendo o pai da Raquel, explicando que a mãe, a encarregada de educação, tinha ido de visita aos pais nos Açores, levando consigo a filha mais nova, enquanto ele ficara com a mais velha.
Arrepiei-me quando o vi. Se ainda tivesse dúvidas, elas desapareceram à medida que ele ia falando. Todavia, não detetei qualquer indício de me ter reconhecido. Falava do assunto da Raquel com a preocupação natural de quem tem uma filha adolescente problemática a tentar concentrar sobre si todas as atenções. Ouvira a leitura das participações dos professores, que eu lhe lera com voz trémula, e prometeu que iria conversar com ela. Recebeu fleumaticamente, pareceu-me, as notas da filha, assinou todas as fichas e demais papelada que eu lhe apresentei, dobrou ao meio a folha da avaliação com um vinco, e guardou-a no bolso interior do casaco. Era mais velho do que eu oito anos. Porém, estava bastante envelhecido, e a diferença de idades parecia muito maior. Continuava magro, com sempre fora, mas parecia arrastar consigo todo o peso do mundo. A mesma voz rouca e sensual que tanto me perturbara, deixava-me agora indiferente.
Em tempos as nossas vidas tocaram-se profundamente, numa roda de violência, paixão, perdão, gritos, choros, equimoses no corpo e na alma.
Eu fora obrigada a fugir, deixando para trás o meu emprego, e acabara por aceitar um lugar de professora no Algarve. Soube que me procurara junto dos meus pais, que o avisaram que me deixasse em paz se não queria estragar a vida dele e a deles.
A última vez que me chegaram notícias, através da amiga comum que nos apresentara, já eu estava casada com um amigo de infância, os meus três filhos já tinham nascido e eu tinha regressado ao Norte. E era feliz.
Ele preparava-se para casar com a mãe das duas filhas, numa altura em que a maior parte dos amigos da sua geração estavam a começar a ser avós. Dissera à nossa amiga “ que já era tempo de assentar.” Só depois do nascimento da filha mais nova lhe parecera oportuno assentar. Recordo o sentimento de piedade que então me invadiu quando soube daquela notícia. Piedade pela mulher, pois segundo vários tratados que então lera sobre violência doméstica no lar e no namoro, um agressor dificilmente deixará de o ser, pois qualquer situação que desequilibre o seu quotidiano, poderá despertar a fera adormecida.
E agora ela ali estava, na minha frente, ainda com o poder de me deixar nervosa e receosa. Ganhei alento, afirmando para mim própria, com a convicção possível, que aquele farrapo não poderia voltar a fazer-me mal. Tinha chegado o momento de resolver aquele assunto pendente na minha vida, para que os pesadelos deixassem, de uma vez por todas, de me atormentar. Necessitava de largar aquele fardo para prosseguir a minha caminhada com mais leveza.
— E por agora é tudo! — concluí, estendendo-lhe a mão.
Nesse momento olhei-o bem de frente, e arrisquei, tentando demonstrar uma segurança que estava muito longe de sentir.
 — Já esqueci tudo e já perdoei. Siga a sua vida em paz.
Ele correspondeu ao aperto de mão, suportando o meu olhar sem pestanejar. Nada disse. Acompanhei-o à porta da sala. Fiquei a vê-lo afastar-se, as costas curvadas, um ligeiro arrastar da perna direita.
Quando chegou ao cimo das escadas que o conduziriam ao piso inferior, voltou-se. Nos seus olhos pareceu-me ver a humidade brilhante deixada pelo assalto de alguma lágrima. A sua boca mexeu-se, sem que qualquer som dela saísse. Mas eu pude ler o que ela dizia:
 — Obrigado!
Voltou-se e lentamente foi-se apagando do meu campo de visão, à medida que ia sendo engolido pelas escadas.
A Raquel já não acabou o terceiro período na escola. Foi transferida para os Açores.   

terça-feira, 11 de março de 2014

Persiana assassina

J
á lhe tinha dito várias vezes que me não acordasse de manhã, que eu precisava de dormir. “ Porque não dormes de noite, como toda a gente?” Sabem como é, partilhar o quarto com uma miúda muito mais nova do que nós? Apesar de estar a passar férias na casa dela, dormir no quarto dela, respeitinho! Eu adorava aquela prima, a sério! Mas a adoração tem limites. E ela, às vezes, era chata, era mesmo muito chata. Agradavam-me as noitadas, discotecas até quase de manhã. Estava no meu tempo. Era jovem, precisava de me divertir. Mas ela dava-me cabo do juízo. Já não bastavam os meus velhos…
De manhã, quando eu ainda estava no primeiro sono, ouvia a persiana a subir, a subir…Ainda por cima, aquela persiana fazia um estrondo danado…Depois, a claridade irrompia a jorros pelo quarto adentro. Eu ficava irritadíssima, e, com gestos bruscos, para que ela percebesse, tapava a cara com os cobertores, e virava-me para o outro lado, sempre a resmungar. Pois sim! Nada a detinha! Enfiava o gasganete pela janela, e gritava, com a sua voz estrídula, a chamar os gatitos vadios que ela acolhera, e dormiam agora num caixote por cima da garagem:
__Bichinhos, bichinhos, bichinhos! Bichinhos, bichinhos, bichinhos!
E nunca mais se calava. Mas um dia, calou-se de vez. A persiana caiu-lhe de chofre em cima do pescoço, como uma guilhotina! Gostava tanto daquela prima!

Ainda hoje não consigo perceber como é que as fitas das persianas rebentam logo com um puxãozito.

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Reinventemos as palavras, meu amor...

Reinventemos as palavras, meu amor!

Que dos nossos lábios
Emerjam,
Despidas de gelo,
Quentes e confortantes
Que ateiem a chama
Tantas vezes pálida
Do nosso viver.

Reinventemos as palavras, meu amor!...

Que dos nossos gestos
Brote a ternura
Perdida algures
No mais fundo de nós...

Reinventemos as palavras, meu amor!...

Que dos nossos olhos
Chispe um fogo
Que nos envolva
E nos devolva
O calor da paixão!

Reinventemos as palavras, meu amor!...

Que as palavras que troquemos,
Sejam as palavras desejadas
As palavras adivinhadas
Por nossas almas alvoroçadas.

Restauremos, enfim,
O nosso amar...
Que reines eternamente
No meu coração.
E no teu, possa eu
Também reinar!


quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Paranoia

Aquela história que uma vez me impingiste, de quereres fugir comigo, nunca me convenceu…Mas agora…ser tua… Nunca quis outra coisa… Vem-me buscar! Aqui não é o meu lugar!...É tudo doido…Casaremos!...Quem sabe, teremos filhos…
— Dª Virinha, sempre a falar sozinha? Vá, são horas de mudar a fralda, e tomar o remédio!

— Deixa-me! Eu não estou louca, mulher!...O meu noivo vem-me buscar! Vamos festejar os setenta anos de noivado à luz das velas! 

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

O sonho de Gertrudes Matraca

Aquela galinha era gorda e grande…
Tão grande, tão gorda, que Gertrudes Matraca gabava-se que aquela galinha iria ganhar fantásticos prémios…
Gargalhadas sarcásticas rebentaram.
Gertrudes levou o galináceo à televisão. Gananciosa, sonhava em grande…
Cheia de genica, a galinha soltou-se, girou pelo estúdio, guindou-se a uma geringonça. Pânico geral. Gritos. Lamentos.
Sem glória, estrebuchava o galináceo, sob aquela geringonça assassina.
Gertrudes regressou, a galinha ensacada, gorados seus sonhos grandiosos.

Os gemidos abafou-os, partilhando genial guisado pela vizinhança.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

A paixão de Gebo Garrinchas

Gebo Garrinchas andava no gamanço.
A escangalhada garagem, poiso de Garrinchas, rebentava de garrafas de Whisky. Garrinchas surripiava-as à gatesga, para gáudio pessoal. Emborcava gamelas daquele néctar, gorgolejando ruidosamente.
Intervaladamente, gargalhava, descobrindo gengivites roxas. Entumecidas.
Gotejavam os dias. Garrinchas, subitamente, mudou. Gerberas, goivos e gardénias atravancavam a garagem.
Tremiam-lhe as gâmbias, o coração galopava-lhe no peito. Garrinchas amava!
Sonhador, gizava planos futuros.
Guarnecido de gerberas, goivos e gardénias brancos, sorria Gwyneth Poltrow  em  glamoroso calendário da Goodyear.


quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Amor impossível

Com gestos graciosos, Guilhermina pôs o gira-discos a tocar.
Gustavo aproximou-se, gingão.
Gostava de gostar assim, de Guilhermina, quando nela galopavam melódicas emoções. Gulosamente. Conhecia-lhe o génio. Mas não guardava ressentimentos.
Das garras de Gustavo, no rosto, Guilhermina ostentava um gilvaz profundo. Ah! Guerras antigas! Outrora, Gustavo atacava Guilhermina sem hesitações. Gabirus rondando, enervavam-no.
Gustavo deixara-se da gandaíce. Por amor. Guilhermina!
Saltou. Galante, espichou-se gentilmente no colo grandioso de Guilhermina, com genuína delicadeza.
— Sape, gato!
— Miaaaaaaau!... Miaaaaaau!...

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

A Fotografia

Esta fotografia salvou-me. Salvou-me, e assegurou ao Titó um lugar de destaque entre os fotógrafos nacionais, ao ganhar o concurso para que se candidatara. Lembro-me muito bem do dia em que foi tirada. Eu não teria mais de cinco anos, e foi o Titó, o filho da tia Marta, que a captou com uma caixa que colocou à frente da barriga, enquanto dizia: olha o passarinho! À caixa ele chamou Kodak. Com os dedos, penteou-me a franja de cabelos castanhos, sobranceira aos olhos negros e imensos onde cabiam todos os sonhos, todas as possibilidades, todas as incógnitas. É uma fotografia a preto e branco, mas sei que o meu casaco era vermelho. Pertencera à filha da patroa da minha tia, que não chegara a usá-lo, por ter aumentado de tamanho mais do que era esperado. A velha bateria onde está encaixado o varal para prender o cordão da roupa, fora resgatada pelo Zezito Tolo uns dias antes, de um camião enferrujado e abandonado na lixeira. Nesse dia o pátio estava liberto de roupa. As mulheres daquela ilha, tinham partido de manhã cedo para a ribeira com as suas trouxas e ainda não tinham voltado. Este era um bairro pobre dos subúrbios do Porto. A fotografia está gasta e amarrotada, tantas vezes olhei para ela, procurando o farol para resistir às vicissitudes da minha vida. Nunca me separei dela. Eu era uma miúda tímida, sonhadora, curiosa. Cresci entre os cordões de roupa que se cruzavam pelo pátio ladeado de casas velhas, degradadas, às quais todos os anos as chuvas arrancavam mais um bocado de reboco. Ano após ano, as manchas de humidade iam avançavam mais um pouco, desenhando nas paredes das casas um mapa irregular, mas de contornos caprichosos. Nem no verão o cheiro bolorento se descolava das paredes, da roupa, da pele. Alguns vidros das janelas iam sendo substituídos por pedaços de papelão grosseiramente recortados das caixas de cartão que pedinchávamos na mercearia. Os telhados eram remendados com chapas de zinco. Nos cordões, as roupas dos vizinhos, tal como as nossas vidas, entrelaçavam-se numa teia emaranhada.
Durante muito tempo, o meu mundo confinou-se ao espaço delimitado pelas casas, e eu sonhava com o dia em que poderia passar para além daquele pátio. De dia, ao olhar para o retalho do céu por onde voavam as andorinhas, desejava voar com elas para sair dali. De noite, olhava as estrelas e acreditava que elas eram habitadas por alguém que colhia os meus sonhos de liberdade. Não tinha com quem brincar, pois não havia crianças da minha idade. Os jovens que ali viviam, começavam a trabalhar mal acabavam a instrução primária, e alguns nem isso, e eu ficava sozinha. Os desenhos caprichosos que a humidade imprimia nas paredes daquelas casas, alimentavam o meu imaginário. Nessas manchas de humidade via eu rios, árvores, montanhas, animais, aves, crianças, homens e mulheres que se animavam nas histórias que eu construía. A minha tia, que me acolheu quando os meus pais morreram, e que me criou, pouca paciência tinha para os meus devaneios. Costumava dizer que eu lhe caíra nas mãos quando ela tinha idade para ser minha avó. Mas criou-me o melhor que soube, e sempre contou com a solidariedade dos vizinhos. Eram várias as famílias que ali viviam, com as desavenças, disputas e ciúmes normais, que não raras vezes ultrapassavam as paredes das casas de cada um e se estendiam pelo pátio comum, tornando de todos os conflitos, levando uns e outros a tomarem partido por quem lhes parecia. Havia zangas, ameaças, palavras azedas. Porém, se algum membro daquele agregado coletivo fosse de alguma maneira molestado por alguém exterior ao pátio, as causas passavam a ser defendidas com zelo e sangue, se preciso fosse, como se de uma única família se tratasse.
Olho a fotografia e parece-me impossível que sobre ela tenham decorrido cinquenta anos! Quantas mágoas…Quantas desilusões...Cantei e chorei, sofri e fiz sofrer, amei e fui amada, odiei e fui odiada. Vivi no luxo, viajei, fiz cruzeiros, atravessei o mundo, passaram pelos meus braços mais de mil homens, mas nenhum ficou. Nem eram para ficar. Não na vida que me escolheu e que eu decidi seguir. Não sei porque lhe chamam vida fácil. Fácil nunca foi. Cedo me apercebi que a instrução seria o passaporte que me remiria de uma vida de miséria, e aprendi a tirar partido do meu corpo, único bem que possuía. Começou pela necessidade de pagar os estudos na faculdade, e não mais parei. Nos momentos em que me sentia aviltada, desprezível, conspurcada, recorria a esta fotografia, fechava os olhos e sentia-me menina outra vez, pura e genuína, com todos os sonhos ainda por cumprir… Agora acabou. Retirei-me. Ganhei mais do que o suficiente para viver uma vida um pouco acima da média. Em caso de necessidade, posso sempre recorrer às minhas joias, às roupas de griffe…e aos direitos autorais do livro que contará a minha vida obscura e que será publicado em breve.

 De vários lugares no mundo, olhei as estrelas, o céu vasto, observei as andorinhas voando livremente, mas era sempre àquele hexágono de céu estreito e restrito da minha infância que eu voltava. Estranho paradoxo! Vendi-me para sair, e tanto desejei voltar! Mas jamais podemos voltar a banhar-nos nas mesmas águas do rio, não é assim? Aquele cantinho de casas degradadas que eu guardei no coração, já não existe. Deu lugar a um imponente imóvel de escritórios moderno, envidraçado. Resta-me a fotografia. 

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Convivas inesperados

Pois olhai, eu cá, tenho muito respeitinho por essas coisas…Deixá-los lá estar sossegadinhos…Ná…Eu bem sei o que aconteceu aqui há uns anos, ainda era eu um rapazola … qualquer um dos rapazes está aí, que não me deixam mentir…eu seja ceguinho destes dois…Quereis saber?
Uma ocasião, eu e mais uma malta combinámos ir fazer um magusto. Tinha que ser num domingo, pois embora fôssemos todos solteiros, já trabalhávamos, e no duro, desde que deixáramos a escola. Todos nos lanifícios, ou na metalúrgica. Só o Zé Garrincha trabalhava com o pai, na arte de alfaiate. Era o único que conservava as mãos limpas, todo pimpão, sem ter que usar o fato-macaco. Mas o pior era conseguirmos num domingo, dispensa do namoro, pois a maioria de nós também já catrapiscava a sua pequena, e, está claro, não era fácil que, exatamente no dia em que costumávamos namorar, falhássemos ao encontro só para estarmos uns com os outros. Mas era o que nós queríamos: um dia só de rapaziada. Fizemos planos durante bastante tempo, e cada um lá resolveu o problema à sua maneira. Só o Zé Teimas, coitado, é que não conseguiu livrar-se do controlo da sua velha mãe, que o trazia debaixo de olho como se ele fosse um catraio e o André da Moleira não arranjou quem quisesse trocar com ele o turno na metalúrgica.
E chegou o domingo tão esperado. A escolha do local recaiu no Gemuro, além onde se ergue a capela da nossa Senhora da Guia. A nossa esperança era que não houvesse por lá muita gente, nem na capela, nem no cemitério. Queríamos paz e sossego, longe dos olhares curiosos. Por isso, em vez de sairmos todos juntos do povo, fomos chegando, a pouco e pouco, para não dar nas vistas. Pouco depois do almoço lá nos fomos escapando de casa, e por volta das 3 horas da tarde já lá estávamos os seis. Depois de juntarmos o que havíamos surripiado de casa, logo demos conta de que a comida era mais do que a que conseguiríamos comer. Mas estávamos decididos a ficar por ali até nos apetecer, e só ao fim da tarde contávamos regressar a casa. Tínhamos castanhas, dois garrafões de jeropiga, duas mantas, e o resultado do assalto clandestino às despensas e salgadeiras das nossas casas: as fêveras eram poucas, mas havia chouriças e bons nacos de toucinho e presunto, que era o que mais apreciávamos. Encarámo-nos felizes, e despreocupados. O Tó Figas trazia com ele a concertina e o realejo. Quando puxei do meu cavaquinho, o Chico da Santa logo lembrou que, antes da música, havia que tratar da fogueira. Era preciso acartar a caruma, e umas pinhas para atiçar o lume. E foi o que fizemos. Começámos a descer o monte, na galhofa.
— Ó Chico, tu gostas mesmo de mandar! Já meteste a Ilda na ordem? — perguntou, provocador, o Edmundo.
— Isso não é da tua conta, e a llda não é para aqui chamada! — vociferou, enraivecido, o Chico, enquanto dava dois passos ameaçadores em direção ao Edmundo.
— Então não combinámos que era um domingo só nosso? Se começamos a falar das conversadas, lá se vai a satisfação — conciliou o Tó Figas.…
— Oh! Oh! O caso é sério! A mim não se me dá de falar na minha Francisca! —  atalhou o Zé Garrincha..
— Tratos são tratos. Acabou-se! — insistiu de mau humor, o Chico da Santa.
Eu tratei de deitar água na fervura.
— Pronto, homem, não te enxofres! Não se fala de negócio de mulheres, acabou-se!
— Mas, então de que havemos nós de falar? — insistiu o Periquita.
Enquanto se estava nesta conversa, fomos amontoando a caruma e as pinhas nas mantas, que depois transportámos para o terreiro.
Acendemos a fogueira, tratámos das brasas, assámos as castanhas, as chouriças, as fêveras, e os garrafões foram passando de boca em boca. Cantámos, tocámos, contámos anedotas, falámos do nosso trabalho, e acabámos até por falar no assunto proibido. Depois de bem bebido, o Chico nem se importou, e tomou parte na conversa como os outros. Foi uma animação, e uma tarde bem passada. Teria sido perfeita, se não fosse o que veio a seguir…O Almiro da Volta estava já bastante tocado. O rapaz não aguentava a pinga. Era fraquito, nem a pinga, nem os cigarros…e a cabeça…Bom, adiante!...Chegou-se a hora de recolher, e nem queiram saber o que aconteceu. Tinha crescido muita comida…A fogueira ainda deitava fumo, e as castanhas que restaram estavam que nem tições. Mas havia ainda restos de chouriças e alguns nacos de toucinho. Começava a escurecer.
— Que se faz a esta comida?— perguntei — Alguém a quer levar?
— Eu não! Então vou levar as provas do assalto à salgadeira para casa? — recusou o Almiro.
— Eu também não!
— Nem eu!
O Tó Figas não disse nada, mas balançou a cabeça da esquerda para a direita.
— Bom! — concluiu o Zé Garrincha — Então fica cá o resto para aqueles que estão lá em cima!
Ao dizer isto, o Garrincha rodou o queixo apontando-o para o alto da colina onde se situava o cemitério .
Nessa altura ouviu-se um enorme estrondo. Com fragor, as portas de ferro do cemitério abriram-se de par em par. Ao mesmo tempo levantou-se um vento forte, a uivar e a enrolar dentro de um enorme remoinho tudo que encontrava à sua passagem. Sei que me agarrei ao tronco de uma árvore, para não ser sugado por aquela tromba de vento. A mesma sorte não teve o Zé. Vi-o ser engolido por uma girândola de ar e vento, e ser cuspido, ao cabo do que me pareceu uma eternidade, pela encosta do monte que conduzia ao povo. De dentro do cemitério, um cortejo de vultos negros, com capuzes bicudos, descia pelo monte abaixo, na nossa direção. Nem queirais saber: eu estava petrificado, sem me conseguir mexer. De súbito, senti uma incrível energia, e comecei a correr em direção ao local por onde o Zé fora atirado. Senti os meus companheiros a correrem atrás de mim, aos gritos. Todos nós rebolámos pela encosta, só parando numa zona em que o chão se aplanava. Olhámos uns para os outros, incrédulos e aterrados. O vento tinha amainado. Levantámo-nos, e continuámos a correr. Só parámos perto do povoado. Combinámos não contar nada, até nos voltarmos a juntar e pensarmos melhor no assunto. O Periquita desde sempre disse que não se lembrava de nada. O Almiro, como sabem, acabou por dar em...cá para mim… ele nunca foi muito forte do miolo… não aguentou, e… ficou pírulas…Os outros nunca quiseram falar no assunto. Não é nada que eu ande por aí a contar a qualquer um, mas… o que eu vos digo é que os mortos não gostam de ser importunados, ai isso é verdade verdadinha, tão certo como eu estar agora aqui …


segunda-feira, 5 de agosto de 2013

O sapo e a cotovia

Na minha mente cruzam-se excertos de narrativas de infância que se enredam e enovelam umas nas outras, e me assaltam constantemente, tantas vezes às horas e nas situações mais indiscretas. Vou adiando o confronto, por uma tendência inata para a procrastinação, uma preguiça que se vai instalando, e à qual não tenho forças para resistir. Quando finalmente cedo ao apelo e me sento para escrever, é porque uma dessas vozes se sobrepôs, e sei que me basta puxar o fio desse novelinho para a narrativa se ir desensarilhando… A voz que agora sobrevém das brumas da memória é a da minha tia-avó materna, que vivia connosco, terna figura indissociável da minha infância, que disseminou o meu mundo e o dos meus irmãos, de narrativas e de sonhos… Ouço a sua voz, contando a fábula da cotovia e do sapo. Nunca encontrei esta fábula em nenhum livro, e nunca a ouvi contar a ninguém. Nem sei se a reconheceria escrita, ou até narrada por outrem, de tal maneira a voz da minha tia, imitando e mimando as personagens se tornou parte integrante do corpo da história, sem a qual ela estará, para mim, mutilada.
Ó tia, conte lá a do sapo e da cotovia! pedíamos
Era uma vez um gato-montês…Queres que te conte outra vez?
Oh! Não! A do sapo e da cotovia! Vá lá!
Era uma vez um sapo e uma cotovia. Eram casados, e um dia foram fazer um passeio. Mas foram apanhados por uma tempestade, que durou três dias e tiveram que ficar abrigados numa árvore. (A voz dramática da tia, os seus gestos, os seus olhares, criavam o ambiente indispensável à visualização da história) Finalmente a tempestade parou e eles resolveram voltar para casa. Tinha chovido muito, os campos estavam alagados, as ribeiras e os riachos levavam muita água. E lá vão os dois, o sapo ( e aqui a voz da minha tia, ao pronunciar a palavra “sapo” faz a voz grossa, enche as bochechas de ar, e sopra as sílabas “ sa-po”, ao mesmo tempo que baloiça o corpo com a sílaba “sa-” para a esquerda, e com a “-po “ para a direita. Afasta os braços, e faz com eles uma roda larga à volta do seu corpo. Sem mais explicações, a personagem estava instalada à nossa frente, que víamos um sapo gordo, pesado, bonacheirão…) e a cotovia ( neste  ponto afina a voz como uma flauta, e dá pulinhos na cadeira. É uma cotovia leve e saltitante que os nossos olhos veem. E estes gestos irão acompanhar toda a narrativa, alternando-os à media que intervêm uma ou outra personagem.) Chegam à beira do riacho que têm que atravessar, porque a casa deles é do outro lado. Mas o riacho, que quando passaram para cá tinha pouca água, agora vai cheio. A cotovia, sempre a saltitar, a saltitar, levanta voo, e, num instante, está do outro lado. Mas o sapo… olha para a água, olha para lá do riacho, e não se decide a passar. A cotovia, do lado de lá, começa a encorajar o homem dela.
— Passa, sapo, passa! E a voz aflautada da minha tia que imita a cotovia, com os gestos respetivos, e os pulinhos na cadeira, recriam a narrativa.
 — Num posso! Num posso! — responde o sapo.
A cotovia começa a voar em redor do sapo, ora voando para lá, ora vindo colocar-se ao lado do seu companheiro.
— Passa, sapo, passa!
Bem, estão nisto algum tempo, passa, passa, num posso, num posso, até que o sapo, com todas as cautelas, lá se decide. Mas com tanto azar, que quando mete a pata, ela lhe escorrega, e ele vira-se, ficando de patas para o ar a estrebuchar no meio da água. E a corrente arrasta-o pelo riacho abaixo. A cotovia, ao ver aquilo, desabafa, aflita e chorosa:
— Ai sapo, que fico viúva!
Resposta do sapo:
— E dum belo rapaz, tocador de viola!

Ao ouvirmos esta história não conseguíamos conter as gargalhadas, e a pena que a sorte do pobre sapo nos pudesse despertar, era desviada pela imagem patética que conseguíamos visualizar, do sapo gordo de patas no ar, a responder ao choro da cotovia, com a voz soprada, grossa e compassada, que a tia lhe emprestava. 

domingo, 14 de julho de 2013

O bicho não estava mau...

A história que vos vou contar aconteceu mesmo. Aconteceu comigo, era eu um rapazito, acabadinho de fazer exame, e com distinção, se quereis saber. Nunca a contei a ninguém a não ser à minha mãe que Deus tem. E foi ela quem me aconselhou a manter o bico calado. Durante estes anos todos esta história coabitou comigo, e marcou a minha vida. Procurei esquecê-la, afogá-la no fundo da memória, mas parece que quanto mais me esforçava para a esquecer, mais ela procurava um escape, e parecia crescer como massa que se põe a levedar. Muitas foram as noites em que estas recordações assombraram o meu sono, e os pesadelos que me assaltavam, aterrorizaram a minha juventude. Quando deixei de lutar contra as memórias, também as minhas noites serenaram, e deixei de ter medo que eles viessem atrás de mim. Se tivessem essa intenção, tê-lo-iam feito logo, enquanto eu era pequeno, sem ninguém que me defendesse, mas nunca me aborreceram nem falaram no assunto. Sabiam, certamente, que o terror de alguma represália me manteria calado. Já passaram muitos anos. De todos os que participaram nesta história só eu estou vivo…Já não há perigo, nem para mim, nem para eles. Todos eles já prestaram contas ao Criador, e alguns deles, senão todos, Deus me perdoe, estarão a arder nas profundezas do inferno. Calma, não me apressem, eu sei que já não corro perigo, mas ainda sinto um arrepio na espinha, ao lembrar-me…Sei bem que não há motivos para isso, mas…foram muitos anos, a guardar este segredo. E se hoje me atrevo a desvendá-lo, foi porque andei muito tempo a matutar nisso…a convencer-me, a ganhar coragem…Não, não estou a exagerar, acreditem no que vos digo…E, apesar dos anos, não me esqueci de nenhum pormenor. Parece que, quanto mais o tempo passa, mais eles se avivam na minha memória.
O velho pegou no copo de vinho, olhou em volta, e emborcou-o de uma só vez. O som do líquido a escorrer pela goela, enquanto a maçã-de-adão subia e descia, era o único som que se ouvia. Sobre a mesa redonda, as garrafas de vinho, algumas já vazias, os copos tingidos de roxo, a assadeira de barro onde ainda ardia o baraço da chouriça, a broa de milho já no fim, eram fracamente alumiados pela luz bruxuleante do candeeiro de petróleo. O fumo dos cigarros serpenteava em volutas caprichosas. As sombras iam crescendo como um balão que se enche, ocupavam todos os recantos da loja, agigantavam-se ao redor dos quatro homens. O professor, o Joaquim da venda e o Leonel boticário não despregavam os olhos do velho Mateus.Com aquela introdução Mateus havia conseguido captar a atenção de todos eles. Todas as quartas-feiras eles se juntavam na loja do Joaquim, depois do expediente, para contarem as suas histórias ou debaterem algum tema de interesse. Joaquim fechava a porta da mercearia mal o sino da torre batia as sete badaladas, e eles ajeitavam-se para ali passarem o serão. As mulheres sabiam que naquele dia escusavam de esperar os maridos para jantar. Só a Mateus ninguém o esperava. Era o único idoso e o único que nunca casara, muito embora se lhe conhecessem algumas inclinações amorosas nunca assumidas nem por ele, nem por elas. Nesta quarta-feira, era a sua vez de iniciar a reunião contando uma história.
Na braseira enlanguesciam as brasas, que o professor ia atiçando nervosamente.
Mateus continuava: Pois quando fiz o exame, a minha saudosa mãe foi pedir ao almocreve Pero Piçarro, para me levar com ele e o seu bando, para eu ir aprendendo o ofício. Os almocreves naquele tempo ganhavam muito dinheiro, e, se bem que estivessem sempre sujeitos a assaltos dos amigos do alheio, a fama e a experiência que Piçarro havia consolidado, deixavam a minha mãe tranquila. E num dia combinado, eu lá parti com a caravana deles. Os homens iam todos montados nas suas mulas e machos, e dos alforges de couro ensebado sobressaiam as coronhas das espingardas. Nem parecia que partiam por quase um mês, tal era a boa-disposição que os animava. Contavam graçolas, cantavam, riam-se. Eu ia sentado na carroça das mercadorias, amuado e envergonhado por me terem visto agarrado à minha mãe, soluçando desalmadamente, perante a perspetiva da separação. Nunca a tinha deixado, e ela sempre me acarinhou, quem sabe se também para me compensar da falta de pai, que, como sabem, não conheci. Um deles, o Zé Manco, meteu-se comigo por eu ir choroso e abatido como uma menina, e eu ia ressentido com ele… Mas lá íamos progredindo vagarosamente pelas estreitas veredas, o corpo sujeito aos solavancos que os acidentes do caminho comandavam. Estávamos quase a chegar à Malhada das Vacas, quando me apercebi que eles se tinham calado. Espreitei, e vi que tinham parado, e tirado os chapéus. Parecia que estavam a rezar. E não é que estavam mesmo? Dois ou três minutos depois, benzeram-se, puseram os chapéus, levantaram a cabeça, e retomaram o caminho. E o que eu percebi, é que estavam zangados…Um deles, de quem já me esqueci do nome, falava muito alto, e dizia que o havia de varar com dois tiros no meio dos cornos, como ele tinha feito ao Almiro Pardo, e ela havia de ter a mesma sorte…Só mais tarde percebi de quem falavam, quando contei à minha mãe e ela me convenceu a ficar calado para o resto da minha vida. Já vai, já vai…não tenham pressa, já lá chego…
O Pero Piçarro, que era o chefe do grupo, censurou-o, disse-lhe que tivesse calma, que ele fervia em pouca água, que a vingança era um prato que se servia frio…
Andámos aí uns cem metros, quando o Ramires Murtinheira, que mal tinha falado, disse:
 — Pois então, Piçarro, espero que o prato esteja bem frio, porque o alarve está a caminhar para as tuas mãos.
No caminho de baixo avistava-se um cavaleiro. Obrigatoriamente, ele tinha que passar pelo mesmo caminho que seguíamos.
— Aí está a resposta às minhas orações — murmurou o que chamavam de Padre.
Imediatamente os homens saltaram das montadas, conduziram os animais e a carroça para fora do caminho, e pegaram nas armas. Agacharam-se atrás das moitas, e esperaram, silenciosamente. Não tardou muito que se não aproximasse uma mula ruça, em cima da qual se sustinha um homem que eu conhecia, mas de quem não sabia o nome. Avançavam lentamente. O homem, grande e pesado, com o chapéu descaído para os olhos, parecia dormitar; a mula, derreada sob aquele peso exagerado parecia ainda mais velha, e, tanto montada como cavaleiro, vinham cobertos de pó e aparentavam um grande cansaço. Mal ele chegou perto, os meus companheiros saíram dos esconderijos, e apareceram-lhe à frente, de espingardas apontadas.
— Lembras-te do que fizeste aqui ao Almiro Pardo?— perguntou o Pero Piçarro.
O homem teve um sobressalto, e agilmente lançou mão da sua arma, com uma destreza imprevisível para alguém com aquela compleição anafada.
— Eu se fosse a ti, nem sequer tentava. Já contaste as armas que tens apontadas às trombas?
Nunca me esqueci do ar apavorado que cobriu o homem! Tenho a certeza que ele soube que ia morrer.
— Lembras-te, ou já te esqueceste?
 — Lem…lembro…
 — E tens alguma coisa a dizer em tua defesa?
— Eu…ele…ele batia-lhe, e…
— E se batia, era lá com ele…entre marido e mulher não metas a colher! — interrompeu o Laginha.
 — Se é só isso que tens a dizer, faz as tuas  orações…Embora tenha a certeza de que te não vão servir para nada…há de ser o mafarrico quem vai tratar da tua alma, se a tiveres — avisou o Padre.
Estas observações foram recebidas com gargalhadas por todos, exceto pelo cavaleiro, que estava pálido, e tremia. Na poeira das calças começou a alastrar uma mancha escura.
Eu estava aterrado, escondido atrás da moita, mas sem conseguir desviar o olhar. O bando parecia ter-se esquecido da minha presença. Lembro-me de que comecei a rezar, eu também. De repente, uma metralhada de tiros fere os ares, quase em uníssono. Fechei os olhos com força, e cravei as unhas nas palmas das mãos. Ouço então um baque surdo, pesado, como se um saco de batatas escorregasse até ao chão, ao mesmo tempo que me entra pelas narinas o cheiro a pólvora misturado com poeira. Logo a seguir, a voz de Zé Manco, à qual se associam as gargalhadas dos companheiros:
 — O bicho não estava mau!
É neste momento que eu desato a correr, a correr, a correr, e só paro em casa.
Mateus parece despertar. A história que acabou de narrar deixou-o sem forças. Contou quase como se estivesse sozinho, sem fitar os seus ouvintes. Só agora volta a passear o olhar pelos companheiros, que não se atrevem a falar.
Quando cheguei a casa, eu quase desmaiava de pavor e exaustão. Depois de beber um beirito de água que a minha mãe colocou à minha frente, e me ter acalmado, contei-lhe aquilo a que assistira. Notei que ela ficou muito aflita e pediu-me que esquecesse aquela história. Devia fazer de conta que nunca tinha acontecido, e que desconhecia completamente aquele assunto. Pois foi isso que eu fiz, professor, até agora. Mas antes eu quis saber quem era o tal Almiro Pardo. Lembro-me que a minha mãe ficou perturbada, respirou fundo, e explicou-me que esse Almiro fazia parte do grupo dos almocreves do Pero Piçarro. Fora assassinado perto da Malhada, e constava que o Abel da Várzea o tinha matado para lhe ficar com a mulher, mas não havia provas. Pois dizes bem, Joaquim, foi um ajuste contas! Qual quê ! O corpo nunca foi encontrado, e eles trataram de espalhar o boato de que ele teria fugido para o Brasil! Eu ia lá abrir a boca, professor! Quem tem cu tem medo! A minha santa mãe fez-me jurar, pela bíblia sagrada, que nunca diria nada! E o prometido é devido.
— Pois então, bebamos mais um copo! — propôs o Joaquim.
O vinho rodou pelos copos de todos. A voz de Mateus continuou ainda a ressoar depois de se ter calado.No ar sentia-se um ambiente pesado, como se a evocação daquela história tivesse convocado as almas dos seus intervenientes. E nessa noite, depois da rodada,os quatro companheiros da venda  foram desertando, sem quererem saber de mais conversa.

terça-feira, 9 de julho de 2013

O Castigo

António passeava-se pela sua vinha, orgulhoso. Aquela vinha era a luz dos seus olhos. Ele bem via os olhares cobiçosos que os outros camponeses lançavam aos cachos negros, redondos, carnudos… Cuidara dela com desvelo, vira-a brotar da terra, vira-a crescer, vira-a tornar-se frondosa. Vigiara dia-a-dia as videiras, combatera as pragas e as doenças…Mas fora abençoado. O vinho prometia…
Já lá iam cinco anos que ele e o cunhado tinham tomado de renda a quinta do sr. Manuel da Ponte. Entenderam-se com o ricaço, e dividiram a terra ao meio, tomando cada um conta da sua parte. Era uma terra farta, abastada de água, e devolvia-lhes a dedicação, presenteando-os com os frutos que agasalhava no seu seio. Também a irmã e o cunhado se mostravam satisfeitos e igualmente gratos pela terra fértil. Amavam a terra e não fugiam ao trabalho. Se bem que a irmã, depois da última gravidez, não fosse mais a mesma. Andava esquisita, e tristonha…Coitada! Seis pimpolhos, todos seguidos, era uma carga de trabalhos…Os miúdos eram saudáveis, e lá se iam criando…O mais velho até já ia ajudando o pai, porque a irmã, ultimamente…pouco prestava para o duro trabalho do campo. Sempre fora uma mulher trabalhadeira, mas agora… Puxava-lhe para a cama, ficava a olhar o vazio, macambúzia, queixava-se de grandes dores de cabeça, de não ter forças para nada… Quantas vezes Inácio, o marido, fora apanhá-la de enxada na mão, parada, e tivera ele de acabar o trabalho que lhe estava a ela destinado. A Delmira, a sua mulher, já por mais de uma vez fora buscar as crianças para comeram com eles. Ele não se importava. Gostava dos sobrinhos. Eram todos família, e quando as coisas não corriam pelo melhor, para onde é que uma pessoa se havia de virar senão para a família? Sopa nunca faltara na mesa. E aquilo havia de passar. A Delmira e a Clotilde lá se entendiam. A mulher pouco abria o jogo, mas ainda foi dizendo que a irmã andava cismada, que se levantava de noite, que ouvia chamarem por ela…Não ligara muito… Coisas de mulheres, decerto…
António deu a volta à vinha, sentindo crescer dentro de si um misto de amor, orgulho e gratidão. Subitamente deteve-se. Alguém lhe andava a roubar os cachos! Olá!..não se tratava de debicar um bago aqui ou ali, mas de cortar cachos e cachos inteiros. Ah! Iria apanhar o bandido, ou não se chamasse António Justo!...
 Na noite a seguir a esta descoberta, armou-se de um varapau e pôs-se à coca, pensando apanhar o ladrão com a boca na botija. Mas a dor que se lhe ferrara nas cruzes, depressa o demoveu da vigília. António magicou, magicou, à procura de uma solução, até que teve um rasgo de iluminação. O ladrão iria pôr-se a descoberto, vítima da sua própria gula.
Foi à arrecadação onde guardava as alfaias, os tratamentos das vinhas, os produtos de limpeza e desinfeção das cubas. Retirou o frasco da prateleira onde guardava o ácido tartárico. Desta vez, o ácido iria servir para pregar uma valente partida ao ladrão das uvas. O malandro iria dali sair com as calças na mão. Ou nem sairia… A disenteria que o ácido lhe ia provocar, não o deixaria ir muito longe. António sorriu para dentro. Com um balde na mão, a solução preparada e uma trincha, partiu para a vinha.
+++++++
Os sinos dobravam a finados. Ao aproximar-se a hora, houve alguma agitação na sala. O terço interrompeu-se, quando os gritos da ti Laurentina, vestida de preto dos pés à cabeça, atravessaram o compartimento. A mulher debruçou-se sobre o caixão e abraçou o cadáver magro, chupado de carnes, enquanto gritava:
 — Ai minha filha, minha rica filha, que tão cedo me deixaste! O que vai ser destes meninos?...
Duas mulheres acudiram de imediato, na tentativa vã de a acalmarem. Os gritos continuaram, como pano de fundo.
Inácio arrastou-se para junto do caixão, pegou nos filhos, um por um, para que se despedissem da mãe. A dor estava-lhe estampada no rosto, no porte derrotado. Depois inclinou-se sobre o cadáver, depositando um beijo, o último beijo, sobre os lábios pálidos e sem vida da mulher. A pele seca e encarquilhada de Clotilde, denunciava a desidratação extrema provocada pela diarreia que o médico não foi capaz de conter. Quando, após a prédica fúnebre do padre, a urna foi fechada, do fundo da sala explodiram os soluços ruidosos e descontrolados de António, como se o rastilho incendiado se tivesse esgotado.
Muitos se interrogaram por que pedira ele desculpas à irmã, mas o que a todos impressionou, e ninguém suspeitava, era que ele gostasse tanto dela.