"Todos os meus versos são um apaixonado desejo de ver claro mesmo nos labirintos da noite."
Eugénio de Andrade

domingo, 6 de maio de 2012

Porquê?!...

Tu…O acordar tardio, a corrida para a praia, a bica e a água gelada no Ginca. Um pouco de praia com a Gilda, o António e o André, que tinham saído mais cedo. As ondas alterosas, o vento que se levanta, o regresso bem cedo a casa, ao contrário do habitual. “Vou aos Açores. Queres vir comigo…?”
Depois a sesta no quarto, o duche partilhado, saboroso, a agradável sensação de te sentir bem. Uma certa amargura no recordar do nosso desencontro, tão desiludidamente realidade…A esperança de que nasça para nós o entendimento…mais uma vez. A alegria infantil por ti manifestada pelo novo corte de cabelo que te dá um ar de garoto, apesar de trintão…
Após o jantar,  a tua visita à cozinha, enquanto lavo a loiça, o teu corpo que me pressiona contra o lava-loiças, a simulação rítmica do amor…Rimos…Estás bem-disposto, e eu agarro-me a essa atmosfera como um náufrago.
A Gilda, O António e o André saem. Da sala, chamas-me para ver televisão…a telenovela. Acabo a louça e sento-me contigo. Momentos depois fartas-te e dizes que vais tomar a bica.
— Também vou!
Ficas irritadiço. Não podes esperar.
— Só vou ali ao café em frente! Já te podias ter arranjado!...Vai assim!
— Vou-me arranjar em cinco minutos.
Enfio um vestido, coloco umas pulseiras. Saímos. Os comentários secos e desagradáveis ao meu aspeto, não se fazem esperar…
— Estavas melhor antes. É a velha história do agradar…Só futilidades…
Calo-me, receosa da borrasca que se adivinha. O meu sexto sentido aconselha-me à calma. A tua boa-disposição evapora-se, e eu, com a sensação do “déjà vécu”, fico num estado de tensão, tentando preparar-me para a maratona de vigília e recriminações que se seguirão.
No café, os comentários velhos de sempre…” galinha,” “puta,” “ estás a olhar para onde?” “…para que olhas para o relógio constantemente? ”, enfim…Declaro a urgente necessidade de ir a casa. Largas-me e partes. Voltarás depois da meia-noite, encharcado em cerveja. Apesar de eu fingir estar a dormir, não escapei…
Ao outro dia, quando chegamos à praia, o André larga os brinquedos e corre a abraçar-me.
— Adoro-te, titi!
A Gilda e o António sorriem-me, e naquele sorriso de desconforto, eu tenho a certeza de que eles sabem.
Não vesti fato-de-banho. Não quero que ninguém veja as pisadelas no meu corpo. Na cara, apenas a minha grande amargura, os olhos que se enchem de água e insistem em fitar o horizonte.
Levanto-me da toalha e dirijo-me ao mar. Vens atrás. Colocas os teus braços por cima dos meus ombros. Caminhas ao meu lado, em silêncio. De súbito, apanhas uma concha do mar, e, a rir e com um ar travesso, coloca-la na palma de uma das minhas mãos, que fechas com a tua mão por cima. E dizes:
 — O meu coração pertence-te. Amo-te. Perdoa-me!
Eu continuo a caminhar, sem nada dizer. Só quero morrer.



 

sábado, 28 de abril de 2012

Foi para as salvar

Vi-as crescer. Ainda antes de nascerem, vi-as crescer no ventre das mães. Quando nasceram, foi para mim uma grande alegria. Um bebé que nasce é sempre uma grande esperança. Acompanhei-lhes os primeiros passos, as primeiras palavras, os bracitos a estenderem-se tantas vezes para mim, os sucessos na escola. Consolei-as nas desilusões. Assisti à primeira comunhão, foi pela minha mão de acólito que todas elas receberam inúmeras vezes o corpo de Cristo. Contei-‑lhes histórias, ganhei-lhes amor, se querem saber. Eu amava-as. E, quando se tornaram mulheres, acompanhava-lhes os passos, vigiava-as de longe quando saíam de noite, até chegarem a casa. Zelava pela sua segurança. Como agente da autoridade, era essa a minha obrigação.
Eram atrevidas. Era talvez a inocência. Não sabiam o perigo que corriam. Não sabiam ser recatadas. Riam-se muito, a torto e a direito, sem pensarem que esse riso podia provocar nos homens desejos de pecar. Usavam saias muito curtas, decotes que deixavam adivinhar os seios. E eram bonitas, todas elas. Oh! Se eram!...Uma delas começou a namorar. Ele não prestava para nada. Não a merecia. Ela era ingénua, uma menininha. Ele não a conhecia como eu. Ia estragá-la, fazê-la sofrer…Ia desflorá-la à pressa, só preocupado com o próprio gozo, sem saber o que estava a fazer…Que sabe um garoto da vida? De como se trata uma mulher? Ela merecia alguém experiente, que lhe desse o seu grande momento. Esperei-os, um dia. Ele costumava deixá-la ao cimo da rua, para os pais dela o não verem. Eles ainda não sabiam do namoro. Esperei que ele desaparecesse e ofereci-lhe boleia. A pequena agradeceu. Só começou a estranhar à medida que nos íamos afastando da cidade. Acalmei-a, que precisava da opinião dela para a prenda que havia de dar à minha afilhada. Quando me atirei para cima dela, começou a gritar, a espernear. A parva! Eu preocupado com ela, a querer dar-lhe a maior queca da vida dela, e a gaja a gritar, a gritar, a chamar pela mãe. Fui-me a ela, dei-lhe uns murros valentes, e ela lá deixou de gritar. Depois gemeu, gemeu, gemeu, de gozo, está bem de ver. Depois matei-a. Para a salvar. Depois de uma queca destas, é como se morrêssemos. Fiz-lhe a vontade.
Com a segunda já foi mais fácil. A gente habitua-se, ganha-lhe o jeito e o gosto. A terceira era forte, a cabrita…e deu muita luta. Deu-me pontapés, e arranhou-me todo. Foi pena ter sido obrigado a cortar-lhe os braços e as pernas. Mas só o pensamento de que as estava a salvar das mãos de rapazecos vis e inexperientes que não iam saber dar-lhes o devido valor, encorajava-me a cumprir a minha missão, apesar dos gritos delas. Deitei-as ao mar, depois de as matar. Não lhes perguntei, mas tenho a certeza que elas haviam de gostar…Desde miúdas que adoravam chapinhar na água do rio…

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Era minha

De mim ninguém faz pouco. Não sou velho, só tenho 72 anos, e ainda faço a minha perninha. Ela era minha. Ao princípio, quando a minha mulher morreu, lavava-me a roupa e cuidava da casa, mas com o tempo, eu é que passei a cuidar dela. Dava-lhe o dinheiro de que ela precisava, para ela e para a miúda. Quando a garota ia para o pai, ela ficava em minha casa. Só ainda não vivíamos juntos, porque ela dizia que a garota era ainda muito nova, precisava de crescer mais um pouco e de se habituar à ideia. Até entendo isso, e não forçava muito. Eu tenho pena da garota. Sei que não devia ter visto o que viu, mas para dizer a verdade, eu também não contava ver o que vi. A mãe dela andou a fazer pouco de mim. A jurar que era eu o único homem na vida dela, e faz-me uma destas…bem que eu andava desconfiado. Ultimamente arranjava sempre desculpas para não dormir comigo, devia andar de barriga cheia…mas a cabra, dizia uma coisa e pensava outra…e a esmifrar-me, era dinheiro para isto e mais aquilo, e eu, verdade seja dita, não tinha coragem para lho negar…ela…ela…sabia como me levar…. A minha família nunca gostou dela. Mas era a minha vida, eu tinha o direito de ser feliz, e eles não tinham nada que se meter.
Eu não tinha intenção…mas quando a vi na cama com o outro, perdi a cabeça. Vi tudo vermelho à minha frente...saí do quarto, e agarrei na primeira coisa que encontrei…Era o machado de cortar a lenha para a lareira, que estava na varanda. Bati, bati, bati…na cabeça dela, até o machado se me escapar da mão… Se ele não tem fugido, comia pela mesma medida…De mim ninguém faz pouco.

domingo, 22 de abril de 2012

Quem havia de dizer...

   Ele adorava comer. Comia de tudo, e nada lhe fazia mal. As análises dele estavam sempre impecáveis. Eu, cuidadosa com aquilo que comia, e os problemas com o colesterol, diabetes e estômago não me davam tréguas. Estava velha, esgotada e doente e, por isso, fui sugerindo um jantarzinho leve, uma sopinha, uma fruta…Que não, que não ficava satisfeito. E continuava a enfardar, a enfardar, o que tinha no prato e, muitas vezes, também o que eu deixava por comer, ou prevenindo futuras indisposições, ou por falta de apetite.
Um dia esmerei-me especialmente a fazer o jantar. Ah! E juntei uma gotinhas de veneno no arroz de pato. Coisa pouca. À hora da refeição, provei, e avisei-o:
— Há alguma coisa que não está bem. O odor… por favor, não comas!
Eu agarrei na travessa e corri com ela para o lixo. Ele agarrou-me a mim e tirou-me a travessa da mão.
Sentei-me à sua frente, enquanto ele devorava o conteúdo da travessa. Entre duas garfadas, atirou-me:
— Quem não é para comer, também não é para trabalhar!
Acabei de chegar do cemitério. Coitado! Quem havia de dizer que a gula ainda havia de o matar!

sábado, 21 de abril de 2012

Afinal era ele

Eu sabia que era ele quem me telefonava. A qualquer hora do dia ou da noite, lá estava aquela voz nojenta, ora a insultar-me, ora a descrever-me minuciosamente o que me faria com a língua, ora demonstrando conhecimento profundo de todos os passos do meu dia-a-dia. Eu sabia que era ele, o meu vizinho da frente. Era como se o estivesse a ver, do outro lado do telefone, a cara vermelha e gordurosa, a borbulha purulenta a mudar de cor e aquele ar escarninho a martirizar-me, a conspurcar-me. Já o acusara à operadora, exigira que confirmassem o número, mas, sem provas, disseram-me, não podiam fazer nada. Acéfalos! Provas, era o que eu queria! Pretextaram que tinham que proteger a privacidade dos clientes! E a minha, quem a protegia? Também era cliente! Acabei com o telefone fixo. Mas os telefonemas por telemóvel saíam-me caríssimos, e, por vezes, quando estava sem óculos, acabava por atender chamadas com o número privado, por não conseguir ler as letras no visor do telefone. E lá estava a mesma voz maldita a envenenar-me a vida. Fui à Polícia. Os incompetentes disseram que não podiam fazer nada sem ordem de um juiz. Mas foi-me dito que essa autorização só seria concedida em caso de investigações que envolvessem perigo de vida, mortes, assassínios…Pois bem. Matei-o. Um tiro de caçadeira mesmo no meio da testa. Agora sim. Descobriram que era ele o autor dos telefonemas. Quanto a mim…bem…quanto a mim, também fizeram uma descoberta inesperada: sou louca. Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah!

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Não tenho culpa da sua teimosia


Estava farta. Farta de que se esquecesse de puxar o autoclismo. Farta de que ele marcasse o território nas sanitas das várias casas de banho. Farta de que não fosse capaz de acertar naquela bocarra tão grande e deixasse o chão salpicado de urina à volta das sanitas. Mal eu acabava de as limpar, começava ele na sua romagem de as conspurcar, uma por uma. O cheiro a urina enojava-me cada vez mais e avivava os meus instintos de vingança.
Um dia, decidi-me. Ainda lhe dei uma oportunidade de se salvar. Disse-lhe:
— Não uses esta casa de banho. Acabei de a limpar. Quero mantê-la mais recatada e limpa, para o caso de vir alguém.
Limpei-a, e, ainda húmida, passei óleo da cozinha nos mosaicos. E deixei o patim do nosso neto bem a jeito, como se tivesse sido esquecido.
Escorregou, bateu com a cabeça na sanita, e…foi-se!
Não tenho culpa da sua teimosia.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Vai um cafezinho?

Estávamos sozinhas, sem vontade de cozinhar, numa sexta-feira. Eu e a Rita. Decidimos ir jantar ao Centro Comercial. Jantámos sossegadamente, e conseguimos manter uma conversa serena, sem nos irritarmos, o que é raro.
No final, ela quis ir dar uma volta a uma das muitas lojas de roupa. Embora sem vontade de fazer compras, fiz-lhe a vontade. Deixei-a deambular a seu belo prazer e eu própria não resisti a um vestido preto, que decidi comprar e experimentar em casa.
Quando estávamos na fila para pagar, ela mostrou-me uma blusa que me agradou. Quis saber se havia noutra cor, e abandonei a fila, regressando pouco depois, dizendo-lhe que as cores não eram do meu agrado. Entretanto, atrás da Rita estava já um indivíduo, acompanhado de uma miúda, certamente a sua filha. Quando chegámos à caixa, a minha filha quis pagar as suas compras. Foi para mim uma sensação inusitada aquela! Senti-me a vivenciar um momento histórico da minha vida. A minha filha pretendia pagar as suas compras com o produto de seu trabalho, embora os seus pacientes ainda fossem poucos, e eu estivesse ali, disponível para pagar.
Mas a minha exultação interior havia de ser cortada por uma voz um tanto arrastada atrás de mim:
— Mas como é que a senhora passou à minha frente?
Olhei aquela cara de sapo, os olhos escondidos atrás das lentes, as repas do cabelo a tentarem esconder uma calvície precoce.
— Desculpe, mas eu já estava à sua frente. Estou com a minha filha, e só me afastei para verificar uma peça de vestuário.
— Não sei nada disso. Eu até pensei que iam pagar tudo junto!
Fiquei estupefacta, sem perceber a lógica daquele raciocínio. Qual era a diferença, se pagávamos tudo junto, ou separado? Eu não estava interessada em criar ali uma discussão da qual sairia a perder, enaltecendo o ego do senhor. Não costumo ter agilidade mental nem verbal para aparar e devolver as estocadas de espadachins exímios. Claudiquei.
— Eu estou com a minha filha. Pensei que tinha percebido. Mas tem razão. Faça o favor. Desviei-me e cedi-lhe a vez.
— Agora não. Já começou!
O senhor da caixa observou, conciliador.
— Há mais caixas, senhor. Vou já abrir outra.
O cara de sapo não desarmava.
— Não é isso que está em causa, percebe?
— Eu não me meto! — retorquiu o jovem da caixa erguendo os braços apaziguadoramente.
O cara de sapo continuou a resmungar, enquanto outra caixa era posta à sua disposição.
Eu ficara visivelmente perturbada. Enquanto fazia o pagamento, o jovem da caixa piscou-me o olho, manifestando dessa forma a sua solidariedade.
Ainda tentei balbuciar algumas palavras de justificação, explicar que ela, a minha  querida filha, se oferecera para pagar, pela primeira vez, estando eu ali na sua companhia… Mas ela interrompeu-me.
— Deixa, mãe, deixa!
Calei-me e viemos embora. Mas não me saía da cabeça o ar daquele peralvilho, a tentar dar-me uma lição de civismo. A mim, que eduquei os meus filhos no respeito pelos outros, que cedo o meu lugar no autocarro aos idosos, às pessoas que estão carregadas, às mães grávidas ou com crianças, que cedo a minha vez nas filas de pagamento dos supermercados quando as pessoas têm apenas uma ou duas peças para pagar, se eu tiver o carro cheio, que facilmente peço desculpa, “com licença”, e “obrigada”, enfim, que me considero atenta aos outros e respeitadora! Sentia-me injustiçada! O bom senso apelava a que esquecesse o incidente, e nem sequer lhe desse o mínimo de importância. Mas o meu amor-próprio estava ferido, e eu fervia interiormente de raiva e impotência. A minha filha, percebendo o meu estado, tentou serenar-me:
— Mãe, esquece! Olha, eu ainda vou ao supermercado comprar os meus iogurtes. Vens,ou queres ir para o carro?
Esta deixa deu-me a certeza de que esta história não ia ficar por aqui. Peguei na chave do carro. Olhei em volta, e, apressadamente, dirigi-me para a máquina automática distribuidora de bebidas. Tirei um café, e coloquei-me à porta da loja, qual felino que aguarda a sua presa. O boca de sapo saía, calmamente, na companhia da filha. Estuguei o passo, avancei, e tropecei no homem, vertendo o conteúdo do copo de plástico na sua roupa:
— Desculpe, desculpe, não o vi! Espero que não se tenha queimado!
Apanhei o copo de plástico do chão e afastei-me rapidamente. De caminho atirei o copo no contentor amarelo do lixo. Alguns metros depois, sem parar, olhei para trás, tentando avaliar os estragos. O homem estava atónito, congelado, a olhar para a roupa toda manchada. A garota esfregava-lhe o blusão, provavelmente com um lenço de papel.
Ainda tive presença de espírito para informar a empregada da limpeza com a qual me cruzei e que fazia naquele momento a manutenção, que os seus serviços eram precisos no outro extremo do piso.
Quando a minha filha chegou ao carro, eu ainda estava engasgada pelo riso. Pelo menos, agora, o homem tinha razão para me amaldiçoar.


quinta-feira, 12 de abril de 2012

O teu rosto


      Repara bem!...Aprecia cada marca cravada no teu rosto! Tão belo! É o teu percurso de vida, a tua caminhada por este mundo que estão marcados nas rugas do teu rosto! Não! Por favor, não penses em apagar essas marcas, em dar-lhes um aspeto impessoal e incaraterístico. Apagá-las, seria o mesmo que renegares toda a tua vida, os teus sonhos, os teus fracassos, os obstáculos que enfrentaste, alguns que venceste, outros que perdeste, e com os quais aprendeste lições de vida!
Não te sentes orgulhosa quando olhas para um certificado que atesta as tuas competências académicas, ou profissionais? Olhas para ele e sabes que representa grande esforço, empenhamento e investimento da tua vida. Então! O teu rosto, as rugas que nele estão marcadas, certificam que viveste. É desejável que outras experiências venham ajudar a tecer a teia indelével que nele vai surgindo. Por favor, não varras a história que contam as rugas do teu rosto! O teu rosto é tão belo, assim, vivido! Para mim, continua a ser o rosto mais belo, aquele que eu distingo entre todos os rostos… Tanto, ou mais, se isso é possível, como quando éramos novos. Amo-te, e amo o teu rosto assim marcado, esculpido pela vida, meu amor!

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Estarás grávida...







Quantas vezes me ocorrem episódios que compartilhei contigo, ou outros que, embora os não tenha vivenciado, me foram relatados e por mim guardados com se guardam os objetos que nos transportam a memórias muito queridas…Este meu amor por histórias, a ti o devo…Como ninguém, tu foste uma contadora fabulosa, quer das histórias do “ Bocais”, como tu dizias, quer das histórias tradicionais, quer ainda de pessoas com as quais te cruzaste na vida. Mas, contadas por ti, estas histórias ganhavam uma vida, um fôlego, um cheiro, como em mais nenhuma outra voz…Eras uma humorista de mão cheia, e adoravas uma conversa brejeira…
Adoro lembrar-me das palavras que, no próprio dia em que morreste, proferiste para uma das várias vizinhas com quem durante anos e anos conviveste à soleira da porta, desfrutando das tardes de soalheiro. A mulher, quase tão entrada na idade como tu, ter-se-á queixado de uma indisposição na zona da barriga.
O teu comentário, risonho e insinuante, não se fez esperar:
— Estarás grávida!
A gargalhada foi geral. Elas, as vizinhas, ali estavam, fazendo-te companhia, uma vez que, adoentada, estavas de cama e não podias ir à rua.
A morte estava já à tua espera, no quarto, aguardando a altura propícia para te levar com ela. Depois dos ânimos se terem acalmado, pediste à tua irmã, e minha avó, que te chegasse um beirito de água. A minha avó acercou-se do cântaro, deixou escorrer para a caneca de esmalte um fio fresco daquele líquido de vida. Ajudou-te a soergueres-te da cama. Lambeste os beiços, e, quando a tua cabeça poisou na almofada, já havias partido. Aquele líquido que tu absorveste com tanto prazer, enquanto a vida te era tomada, serviu, certamente, para encetares a viagem, pronta para começares a contar as tuas histórias onde quer que tenhas chegado. Tinha treze anos quando partiste. Soube da tua morte à hora do almoço, depois de chegar do liceu. Primeiro fui assaltada por um sentimento de perda profundo. Quando me contaram a maneira como partiste, sorri. E tenho a certeza que quiseste deixar esta vida, da mesma maneira como a levaste a maior parte dos dias: sorrindo. Sorrindo à morte, tal como soubeste sempre sorrir à vida, apesar das partidas, algumas bem visíveis e dolorosas, que ela te pregou.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Metamorfose


Sentia a cabeça pesada, os membros entorpecidos, uma sonolência maior que o seu próprio tamanho, o qual, diga-se em abono da verdade, havia aumentado só nos últimos tempos, mais, muito mais que o dobro. É certo que o seu apetite era voraz…Agora, só de pensar nisso, sentia-se invadir por um enjoo que se estendia a todo o seu corpo…Fechou os olhos. Estavam tão pesados!…Voltou a abri-los, e a fechá-los, num movimento intermitente e lento. Sentiu saudades das irmãs, quando serpenteavam pelo prado e tudo à sua volta lhe parecia promissor… E, quando ela dizia que o que queria era dançar, voar, riam-se dela… E pensar que chegou a ter inveja delas, quando as viu serem transportadas pelos ares no bico de um pássaro, e uma gritou:
— Estou a voar! Estou a voar!
As irmãs acabaram no estômago de uns pássaros glutões…é claro que isto só o veio a saber muito mais tarde, quando a sua amiga Brisa da Tarde lhe contou como esta breve ilusão se transformara em pesadelo, no momento em que as suas irmãs se viram a ser sugadas para as goelas de passaritos ávidos, todos de bicos bem abertos. E quando ela se mostrou horrorizada com a triste sorte das irmãs, a Brisa da Tarde explicou-lhe que este era o destino de muitas das lagartas da sua condição…Mas ela, a lagarta Tixa, não se conformava…Não queria acabar como elas…A sua amiga também lhe explicou que o seu destino, se ela fosse cuidadosa, podia ser outro…um destino igual ao da sua mãe.
 Conheceste a minha mãe?! — perguntara, entre sobressaltada e curiosa.
— Claro que conheci a tua mãe! Era a mais bela e graciosa dançarina que borboleteava sobre as flores deste jardim!
— Dançarina…a minha mãe…bela…mas eu…eu sou tão feia!…
— Que ideia, menina! Tu tens a beleza própria das lagartas da tua condição!
— Não! Todos me acham feia! E os meninos da casa grande chamaram-me nojenta, repugnante, horrorosa!…sacudiram-me da roupa, e correram a lavar as mãos aos gritos…
— Ora, esses são meninos da cidade! …Têm muito que aprender sobre a natureza, se quiserem instalar-se no campo…
— Por pouco não me pisaram aos pés…
— E o que fizeste?
— Corri a esconder-me debaixo de uma folha de couve…Mas, por favor! Conta-me mais coisas sobre a minha mãe! Como era ela?
E a Brisa da tarde, com um sorriso nostálgico, foi contando.
— Era sonhadora, como tu. E acreditava firmemente que o seu destino se iria cumprir até ao fim…Nunca se deixou vencer pelas contrariedades…
— Não?!
— Não! Era invulgarmente esperta e cuidadosa… Por isso chegou a borboleta.
— Mas, então, se ela era borboleta, e tão bonita, por que razão eu sou uma lagarta tão feia?
A Brisa da tarde sorriu.
— És tão curiosa! Sabes, a maior parte das lagartas nunca chegam a borboletas. Nunca sequer sonham com isso, nem se interrogam acerca do seu futuro. Mas tu és diferente…
— Mas que mistério! Não chegam a borboletas, porquê?
— Pensa no que aconteceu às tuas irmãs! E não são só os pássaros que são perigosos! As abelhas, as moscas, as formigas, as doenças, as chuvas…
— Sim, sim, eu estou sempre alerta! Não quero ser comida, não quero morrer! Eu quero voar, voar, beijar as flores, receber o abraço do sol, correr mundo!...Achas…achas…que  posso?
— Claro que podes!
— Mas como? — perguntei, algo impaciente.
— As borboletas não nasceram borboletas, nem sempre foram tão belas como as vês.
— Não?!
A tua mãe, tal com tu, saiu de um ovo, e começou por ser uma belíssima lagarta.
— Ooooooooh!.......
— É verdade! Usou sempre de todos os cuidados para escapar aos predadores, esses bichinhos que se alimentam de lagartas, e para não adoecer. E conseguiu transformar-se numa linda borboleta, com uma combinação de cores que era um deleite para os olhos! E pensou em ti e nas tuas irmãs com muito carinho, escolhendo, para pôr os ovos, um sítio abrigado, com muita comidinha para vocês comerem logo que nascessem!
— Querida mamã! Mas diz-me, então, como é que eu faço?
— Não sejas impaciente! A vida deixaria de ser aliciante se soubéssemos tudo o que nos vai acontecer! Basta que deixes a Natureza fazer o seu trabalho. E deixa-te levar pelo teu instinto. Mas tem cuidado! Continua a proteger-te dos perigos como até aqui. E alimenta-te muito bem, pois vais precisar de todas essas reservas. Agora tenho que ir. Mas não te preocupes! Estarei vigilante e atenta! Até um dia!
Agora estava sozinha, sem mais ninguém no mundo…Amigos…não eram verdadeiros todos os que a humilhavam, chamando-lhe feia, nojenta…Só a Brisa da Tarde…só ela é que era mesmo sua amiga…mas também a deixara sozinha, com uma conversa de mistério, que só ela é que tinha que descobrir…tretas, certamente, só para ela não ficar triste…Ah! Mas a última conversa encheu-lhe o coração de esperança…O melhor, por agora, era dormir…escolhera um sítio muito escondidinho, e protegera-se bem, dentro de seu casulo...dor…mir…Aaaaaaaaaaaaah!...
No dia em que a Brisa Tarde tivera aquela conversa com Tixa, partira, enternecida com aquela menina tão sonhadora! Então foi passando com o seu manto subtil e transmitiu aos pássaros, às abelhas, às formigas, ao Vento Norte, às nuvens, que a lagarta Tixa que habitava a horta da casa grande era sua protegida. Que se não atrevessem a colocar a sua vida em perigo, pois aquela jovem desejava cumprir o seu destino, e tinha todas as condições para isso. Em breve todos se deleitariam ao vê-la cirandar pelo jardim, transformada numa bela borboleta, tal como o fora a sua mãe, a sua avó, a sua trisavó, até ao perder dos tempos.
Os dias foram passando. E os meses. Protegida pela ramagem de uma laranjeira, Tixa continuava dentro de seu casulo, calma e sossegada.
Um dia sentiu-se despertar, com se uma música interior e desconhecida lhe fizesse vibrar todo o seu corpo. Abriu os olhos. Estava tudo às escuras, tudo muito aconchegado dentro da sua casinha quentinha. Sentia-se muito bem, porém esfomeada e com vontade de enfrentar a luz do sol. Apetecia-lhe espreguiçar-se. Fez um movimento, mas a reação que esperava obter foi deveras estranha. Ela havia-se enovelado sobre si mesma, mas agora sentia o corpo mais comprido, mais leve…mexeu as patas da frente…meu Deus, que patas tão compridas!…sacudiu-se…e sentiu algo exterior a si própria, sobre o seu dorso, a querer levantar-se…Queria mexer-se, esticar-se, mas não conseguia…Em pânico, sem perceber o que lhe está a acontecer, reúne todas as suas energias. Sacode-se. Faz força nas patas, e atira com elas. Espaneja-se com quantas forças tem… Sente algo a quebrar-se, e a casa que ela construíra, a descolar-se do seu corpo. O sol quente envolve-a num abraço…Um último esforço, e ela vê, então, entre atónita e louca de felicidade, umas lindas asas coloridas, a erguerem-se, presas ao seu dorso…Experimenta-lhes a força, planando com elas no ar, batendo-as uma e outra vez. Inicia então uma dança gloriosa sobre o jardim, uma dança de louvor ao sol e à natureza, com as asas levantadas e palpitantes. A Brisa da Tarde chega, suave e leve, e segreda-lhe:
— Seja bem-vinda a este jardim, a borboleta mais bela!

sábado, 21 de janeiro de 2012

Crise

Chorei. Primeiro, apenas os olhos se me alagaram de água. Aquelas palavras atingiram-me como um soco. Só não me verguei com a dor, porque à nossa volta o átrio estava cheio de alunos. Virei costas e corri para a casa de banho e, aí, deixei que os cordões que sustinham a minha dor, se soltassem. O sofrimento que me atingira era real, profundo, físico, como uma dentada perfurante que se me cravara na carne. Chorei de rajada, sem poder conter os arranques ruidosos dos soluços. E nesse choro, estava contida não apenas a dor incomensurável pelo F., mas também por todos os outros jovens conhecidos e anónimos a quem roubam a esperança. Aqueles que, com o F, já desistiram de procurar, mas por todos aqueles que entram na calha que os levará a pôr fim ao sofrimento por suas próprias mãos. Chorei por mim e por aquela mãe, porque, enquanto eu me comprazia naquele estado de felicidade em que se festeja o aniversário de um ser que gerámos e trouxemos ao mundo, ela debatia-se na dor e estupefacção de se aperceber que o ser que ela gerara, e trouxera ao mundo, o abandonara.
Depois o choro foi de raiva e revolta. Raiva e revolta por todos os políticos neste país que, com um discurso ora miserabilista ora mentiroso, semeiam a confusão e o desespero na nossa juventude. Raiva, revolta e puro asco. Asco pelos políticos que têm um sistema de valores invertido, que dão o exemplo de que a mentira, o roubo, a corrupção, são válidos, quando estão em jogo “ a glória de mandar”, o bem-estar próprio e dos seus compadres. Asco por aqueles políticos que, clara ou implicitamente, incentivam os jovens a emigrar, num discurso no qual entendo estar subjacente a mensagem: emigrem ou matem-se. Asco por aqueles políticos que têm o descaramento de vir apregoar ao povo: “para vós não há nada, acabou-se!” mas continuam a banquetear-se e a pavonear-se com o dinheiro de todos nós. Asco por aqueles políticos que vêm a público degladiar oratórias especializadas a cujo sentido muito poucos têm acesso, iludindo o povo, adormecendo-o com estas canções de embalar, para que ele se mantenha calmo e lhes vá cedendo a legitimidade para continuarem do alto do seu trono a roubá-lo e a enganá-lo. Asco por estes políticos para quem o que interessa, é ganharem os debates que lhes massajarão o ego, em lugar de agirem, actuarem e procurarem verdadeiras soluções para a crise, mesmo que os seus privilégios senhoriais possam ser reduzidos. Asco por aqueles políticos que, depois de terem sido roubados direitos adquiridos ao povo, vêm clamar pela reposição dos seus direitos adquiridos, que foram injustamente beliscados. Asco profundo por aqueles políticos com um auto-conceito de tão suprema superioridade que se permitem arrogar o direito de usufruírem vencimentos escandalosos, quando comparados com o ordenado mínimo nacional, sob o pretexto de que é o vencimento justo para as suas competências e para o cargo que vão desempenhar…E os outros, aqueles a quem nem sequer é dada a possibilidade de mostrarem as suas competências, a quem é negado emprego, porque há muitos que, tendo ultrapassado a idade da reforma, que deviam estar a cuidar e a contar histórias aos netos, estão a ocupar cargos que deviam estar nas mãos de gente jovem? Que pretensiosismo, que arrogância são estes, que lhes permitem pensar não haver ninguém mais jovem capaz de desempenhar tão bem, ou até melhor do que eles, certos cargos? Já assim pensava Salazar. Mas, pelo menos, que se saiba, não enriqueceu à custa de chupar o sangue dos portugueses. Cada vez vejo mais semelhanças entre esta democracia (?) e o regime ditatorial contra o qual tantos nos indignámos e lutámos.
São estes senhores responsáveis pela crise económica, de valores, existencial. São estes senhores promotores de roubos, de desmandos, de suicídios. São estes senhores os ladrões da esperança dos nossos jovens.
No mesmo dia em que festejávamos a vida, na nova casa do meu filho, ali, a poucos metros, o F., seu antigo colega da escola primária, desistia dela, inundado pelo sofrimento, extenuado por caminhar ao encontro de ilusões que, tão rapidamente como as havia seguido, assim desistia delas, por não se encaixarem na sua busca. Extenuado, com o cerco a fechar-se cada vez mais à sua volta, extenuado por não encontrar uma réstia de luz, de futuro, de esperança, no mesmo dia em que festejávamos vinte e cinco anos de vida do meu filho, ali perto, o F. abria os braços à morte, transpunha esse portal, o único que lhe faltava transpor, que sabia ser sem regresso, perseguindo no Universo a paz, a esperança, a felicidade, que este mundo pequeno não teve para lhe dar. 
Que um coro de anjos celestial te receba e te conduza a saborear dos prazeres do Éden, menininho!

domingo, 8 de janeiro de 2012

Facebook

Aquilo que cara a cara
Confessar não te atreves,
Pode-lo sempre gritar
No facebook , twitter, etc e tal.
Não se vê a reação imediata,
É limpo, inodoro e higiénico.
A resposta pode ser bem preparada,
Encenada, mui forjada e mascarada.
Não dói. Não cansa. Não faz mal.
Garanto que agora é normal.

E se o acaso te quiser preparar
Um encontro cara a cara
Oh! Que azar!
Não há tempo para grandes elocuções
Marcas “rendez-vous”no facebook
Ao jantar.
Partilhas informações, indiscrições
Numa sala virtual e avantajada
Com todos os amigos e os amigos dos amigos.
Não dói. Não cansa. Não faz mal.
Garanto que agora é normal.

A minha avó é que tinha razão.
Amigos dos meus amigos meus amigos são.
E, já agora, acrescentar convém:
Meus, e de todos os outros também
É sempre bom haver e fica bem
Um mediador bem amestrado
Nas populares redes sociais
Que se meta onde não é chamado
E modere ímpetos irracionais
Inconvenientes e bestiais.
Não dói. Não cansa. Não faz mal.
Garanto que agora é normal.


terça-feira, 3 de janeiro de 2012

História Breve de uma Boneca de Trapos



Este mês o meu blog esteve votado ao abandono. Não consigo escorar-me em nenhum pretexto que eu considere suficientemente válido.Tentei duas ou três vezes escrever, pelo menos para o desafio proposto pelo "blog das Letras", mas deu-me uma angústia...Desisti.
Agora, já sem esse peso, não posso deixar de partilhar este belo poema de António Botto, subordinado ao tema " Indiferença". Aí vai ele...

Era uma vez uma boneca
com meio metro de altura.

Insinuante, bonita,
Mas pobremente vestida.

Um ar triste_ uma amargura
Diluída no olhar…_
Grandes olhos de safira
E um sorriso combalido
Como flor que vai murchar.

Quase a meio da vitrine
Lá daquela capelista
Essa boneca de trapos
A ninguém dava na vista!

Ninguém via o seu sorriso!

Ninguém sequer perguntava:
Quanto vale a “ marafona”?
Quanto querem p’ la “ Princesa”?

Passaram anos _ Com eles,
Foi-se a minha mocidade
E cresce a minha tristeza.

_ Quem é que dá p’la Boneca
Que os meus olhos descobriram
Lá naquela capelista
Quase à esquina do jardim?

_ Quem dá por Ela? Ninguém!

E quantas almas assim!

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Sonhos

Agarrei os meus sonhos
Inflamados e cegos
Calquei-os aos pés
Arrastei-os pela lama
Injuriei-os amordacei-os
Sepultei-os
No mais secreto escaninho
Das grades da memória
Para se desvanecerem em pó
E lancei a chave no fundo
Do pântano lamacento.

Olhei em redor
E vesti meus rostos de mentira
E nela construí a minha verdade
Entre iguais
Diluí-me na multidão.
Dentro de mim ecoavam
Cânticos fúnebres
E de pedra se fizeram meus sentidos
E um dia vi que estava morta.

Mas o vento passou
E tudo à sua volta se agitou
E em volátil rodopio aspergiu
Brisas perfumadas leves e macias
E acordou murmúrios e lamentos
E suspiros e sussurros
Cicios de rezas encantatórias
Em meus sentidos empedernidos.

E veio chegando a chuva
Ressoaram tambores
Longínquas reminiscências
De ancestrais ciências
E dancei nua à luz da lua
Danças antigas e tribais
Contagiadas por estranhos rituais
No meu corpo sábio gravados
Desde tempos imemoriais
Emboscados
Em meus saberes ignaros

Bebi dos pingos de chuva
A poção dos druidas
Pelo vento convocados
Ergui-me da noite
Em sobressalto
Quebrei as grades
E soltei meus sonhos ao vento

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Enquanto é tempo

Hesitei. Tive que respirar fundo, pensar…
Naquele momento, não me lembrei da minha idade. Não, não me ocorreu mentir, como fazem muitas mulheres quando são questionadas sobre a sua idade…simplesmente, depois de dizer o meu nome, o que fazia, por que estava ali, a minha idade real pareceu não jogar com o resto. Nem com o resto, nem com os outros elementos do grupo daquela ação de formação. Estávamos todos no palco do auditório, em roda, na posição de lótus, cada um apresentando-se aos outros. A mim coube-me terminar a roda, porque chegara atrasada. E engasguei-me na informação da minha idade. De facto, eu era a mais velha daquele grupo. Mas isso não me ocorreu naquele momento. Esta reflexão só posteriormente a fiz. Só que aquele número de dois dígitos que pronunciei hesitante, depois de uma ligeira pausa, deixou-me uma sensação estranha de descasamento.
Tal como os outros, eu estava ali para aprender, porque amo a leitura, a escrita, as palavras, e queria desenvolver competências que me permitissem comunicar melhor. A maior parte dos elementos do grupo, tem ainda um caminho longo a percorrer junto dos seus alunos. Eu estou na fase terminal. Não que tenha já atingido a idade que agora é exigida para a aposentação. Mas porque atingi a meta, que, há já alguns anos, tracei para fazer outras coisas que adoro fazer. Quando essa meta foi traçada, a idade e os anos de serviço que agora tenho dar-me-iam direito à remuneração por inteiro. A penalização enorme que me vai ser aplicada, em termos económicos, não me esmorece o entusiasmo e a determinação. Mas não posso deixar de lamentar o facto de, se tivesse ficado pelo magistério primário, como o meu pai desejava, já estar aposentada há quatro anos, e sem penalizações, como aconteceu com amigas que frequentaram comigo os bancos da escola, com a mesma professora, mas que ficaram pelo magistério primário, porque não quiseram ir mais longe, ou consideraram não ter capacidades para isso, quer económicas, quer intelectuais. Também as capacidades económicas da minha família eram débeis, sobretudo para criar quatro filhos, e proporcionar a todos as mesmas oportunidades. Mas a minha mãe considerava que um “curso” era uma ferramenta para a vida, e, se haviam de nos deixar bens, deixar-nos-iam o canudo. E a família mudou-se para a cidade, para que todos pudéssemos tirar um curso. E tirámos. Só víamos o meu pai ao fim de semana. Eles, os meus pais, não tinham mais que a quarta classe, mas fizeram dos quatro filhos doutores. O meu querido avô, que nos ajudou como pôde, há-de rebolar-se no túmulo, ao aperceber-se que a sua neta “doutora,” que tanto queimou as pestanas, a estudar durante dezasseis anos, vai receber muito menos dinheiro ao fim do mês, que as amiguinhas dela, que apenas estudaram nove.
Escolhi ser professora com todo o entusiasmo. E sou. Mas agora há outras coisas que desejo fazer, com o mesmo entusiasmo com que escolhi a minha profissão. Quero contar histórias, mediar leituras, dizer poemas, escrever os textos que adoro escrever, ter mais disponibilidade para o teatro. Ao fim de trinta e seis anos de ensino, sinto que já dei o que tinha a dar na minha profissão, tal como está organizada neste momento. A burocracia afoga-me. Os quilos de papelada desnecessária que é preciso preencher, tiram-me o sono. Os alunos que não querem aprender, que parecem ter “bichos carpinteiros”, que acham que basta estarem nas salas de aula de corpo presente (de corpo, que a cabeça, essa nem se digna responder à chamada), para passarem de ano, que desrespeitam os adultos, revoltam-me. Estou cansada. Sinto que devo retirar-me com alguma dignidade. Enquanto há alunos que me agradecem por tê-los motivado para a escrita, ou para a poesia, por ter despertado neles o prazer pela leitura, ou pelo teatro, que se lembram das minhas aulas divertidas. Daqui a algum tempo, apenas restará uma velha amarga, sem paciência, prisioneira do sistema, com lapsos graves de memória, sem genica para manter na ordem os meninos que carecem que se lhes mostre quem manda na sala de aula, que em breve poderá ser alvo de chacota dos meninos malcriados.
Quero tirar prazer daquilo que quero fazer. Quero que quem me quiser ouvir, o faça por prazer. Será pedir demasiado?

domingo, 30 de outubro de 2011

E tu não vieste

Duas badaladas
Ressoaram pungentes
Na torre da igreja

Desviou-se a nuvem
Que escondia a lua
Incendiando
Contra o fundo escuro
Um gongo de prata

No meu peito
Um pássaro triste
Espanejou as asas
Abrindo a ferida
Que o teu adeus
Nele havia macerado

Esperei-te.
Esperei-te.
Esperei-te.
E tu não vieste,
Meu amor.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Nos olhos de minha mãe


E o outono vai avançando                                        
Legando pelo caminho                                             
Inefáveis traços da sua voragem                               
E descem tardes soturnas                                           
Veladas de rendilhadas neblinas
Vergando-se à sua passagem

Ainda se acendem sóis
Porém,                 
De  manhãs primaveris                            
De outrora                                                
Nos olhos da minha mãe

E o outono vai tecendo
Nítida teia de seda
Onde já florescem douradas
Redondas pérolas de âmbar
Em sua tez delicadas.

Ainda rumorejam águas
Porém
Saltitando dos córregos
Da minha infância,
Nos olhos da minha mãe

E o outono vai tingindo
Seus cabelos de fios de prata
E em suas mãos de labor
Sobressaem já azuladas
Veias finas e diáfanas

Ainda cantam rouxinóis,
Porém,
Trinando nas tardes soalheiras
De então,
Nos olhos de minha mãe.

E apesar do Outono quero para sempre
Os sóis, as águas e os rouxinóis
 A brilhar, cantar e trinar
Nos olhos da minha mãe.

sábado, 15 de outubro de 2011

Viagem

Desfraldo as velas
Aparelho a nau
Seguro o leme
Rumo às estuosas
Procelas
Em teu corpo aventureiro
Emboscadas.

Penetro nas florestas luxuriantes
Que verdejam em teus olhos
Onde espreitam ansiosos
Gritos de pássaros tropicais
Adejos de coloridos tucanos
Murmúrios cantantes de cascatas
Miríades de matizadas mariposas.

Escalo erectas colinas
Orvalhadas por gotas de mel
Palmilho tuas curvas de seda
Saboreio néctares perfumados
Nos meandros do teu corpo
Em anelantes arquejos desperto.

Desço às grutas ocultas
Que o paraíso alojam
E peregrino perco-me
No santuário do teu corpo
Ainda ancorado.
E acendem-se roteiros na tua pele
Crescendo em ofegantes suspiros.

Zarpamos.
Enrolam-nos ondas aleivosas
Sacodem-nos em sufocantes abraços
Levantam-nos no ar e chicoteiam-nos
Gritos em tropel desenfreados
Suga-nos frenética girândola
Em infindável rodopio
Que gira, gira, gira
E nos projecta
No vazio.

Náufragos damos à costa
Ofegantes e apaziguados.
E há promessas de novas viagens
Nos dedos entrelaçados.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Fingimento


“Anda, despacha-te. Sei bem que tens mais que fazer. Escusavas de cá vir. Não te chamei cá, e, para vires com essa disposição, é melhor não pores cá os pés…Que disposição?! Ainda me perguntas que disposição? Então eu não vejo? Estúpida é que eu não sou!... Deixa!...não preciso da tua ajuda…posso muito bem pegar na chávena sozinha! Não estou inválida! Como é que faço nos outros dias, hem? Estava bem arranjada, se estivesse à tua espera!...Mas…quem te deu autorização para mexeres nas minhas gavetas? Não quero que mexas nas minhas gavetas! Tenho tudo o que preciso, muito obrigada! Não sei porque é que estás tão preocupada a ver o que preciso ou deixo de precisar! Bem te conheço! Já em miúda eras assim! Sempre a espiolhar, a espiolhar, e o que te agradava, não era para mais ninguém. Coitadinho do teu irmão! Ora essa! Se não vem mais vezes, é porque tem a vida dele, mas telefona-me a toda a hora, enquanto tu…Já te disse! Deixa os armários! A Amélia foi às compras. Comprou tudo o que preciso. Ai sim?! Pois digo-te eu, que ela se incomoda mais comigo do que tu! É a companhia que me resta! Conheço-a bem, conheço! Assim como te conheço bem a ti, Maria Clara! É triste, mas é verdade! Preocupa-se ela mais comigo, que não é da minha família, do que tu, carne da minha carne. O quê?! Com certeza também querias que te pagasse como pago a ela, não? Ai não? Então querias dizer o quê?! Ela é do que vive, pobre criatura! E faz muito mais do que aquilo para que foi contratada. Vai, vai. Vai à tua vida! Tu não me puxes pela língua! Ai queres ouvir a verdade? Queres ouvir a verdade nua e crua, queres? Carinho, menina! Carinho e atenção. E paciência. Isso, não há dinheiro que o pague, estás a ouvir ? É isso que a Amélia me dá. Ai é fingido?! Pois que seja! Mas faz-me bem. Também tu podias fingir ! Custava-te muito, fingir uma vez por semana, uma hora por semana, custava-te muito fingir? Tratares-me com carinho, com paciência, com atenção, sem estares sempre a olhar para o relógio, Maria Clara? Não quero saber se é hábito, se é feitio, se é defeito. O que eu tenho a certeza, é que é falta de educação. É falta de e-du-ca-ção. Lindo exemplo, que tu dás aos teus filhos! Já te disse que para vires cá com essa cara de obrigação, não precisas de cá voltar! Finge, mulher, finge! Eu…não me im…porto. E eu também finjo… que acredito…que acredito no…teu amor…no teu carinho…eu finjo…Não, não estou a chorar, não…Deixa…deixa…Não sei…não sei…mas a mim parece-me que vens sempre à pressa… a correr…cumprir uma …obrigação…uma chatice…que sou ….um… far…do….hum…hum…hum… olha a chávena…segura-a…está bem, filha, acredito… acredito…sim…desculpa…mas fico toda a semana à espera, ansiosa, a espreitar a janela…e depois passa tão rápido…não sei porque sou tão desagradável…penso sempre que vou ser mais simpática…mas depois…já está…quando me apercebo, já estou a disparatar…assomas à porta com aquela cara dura, o rosto fechado. Acho que vens assim … porque tens que me vir visitar…que lamentas o tempo que passas comigo…Pronto, filha, desculpa, não chores, perdoa a tua velha mãe. Olha, hoje ficas mais um bocadinho, está bem? Vamos lanchar as duas…como antigamente, sim? Vamos fingir…que és pequenina. Eu conto-te uma história, está bem? Aquela que tu gostavas tanto…A da princesa Estrela. A Amélia…comprou uns pastéis de Belém. Estão numa caixa. No armário da casa de banho. Por detrás das toalhas. Sabia que aí não os encontravas…”

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Madame Buterfly



Ópera em 3 actos, de Puccini, com libretto de Luigi Illica e Giuseppe Giacosa, baseado numa história escrita pelo americano Luther Long. Esta ópera estreou no Scalla de Milão, a 17 de Fevereiro de 1904.
A história de madame Buterfly tem um fundo verídico e surge na sequência do hábito adquirido pelos oficiais americanos de contraírem casamentos temporários com jovens japonesas, aquando das expedições de reconhecimento ordenadas pelo presidente americano ao Japão— território que na altura (1870) estava quase isolado do mundo — com o objectivo de estabelecerem relações de amizade e comerciais. Esta é uma história de amor e sangue, e, provavelmente, pretendia chamar a atenção para as consequências funestas destes enlaces, que eram de fachada apenas para os oficiais americanos.
Pinkerton, jovem oficial da marinha americana, em serviço em Nagasaki, faz um negócio extraordinário: adquire uma casa na colina com vista para o mar, e o direito de posse da gueixa Cio-Cio-San, ( Buterfly ), a qual virá viver naquela casa, acompanhada pela sua aia. É, no entanto, necessário encenar uma cerimónia de casamento, situação que a Pinkerton não causa qualquer constrangimento. Buterfly tem apenas quinze anos, mas aguarda ansiosamente pelo seu casamento com o oficial americano, plenamente convencida da veracidade deste enlace. Como prova do seu amor, Buterfly renuncia à fé dos seus antepassados, e adopta a religião de Pinkerton. Na cerimónia do casamento, um tio da jovem, que fora contra esta união, lança uma maldição sobre a sobrinha, que chora, desgostosa, pelo que é consolada pelo marido.
Depois de algum tempo de idílio amoroso, Pinkerton regressa aos Estados Unidos, com a promessa de regresso. Depois de três anos, Buterfly chora de saudade, aguardando ansiosamente pelo seu amor, sem saber que ele contraíra casamento no seu país com uma americana. Entretanto recusa as insistentes propostas de casamento do príncipe Yamadori, lembrando-lhe que já é casada e tem um filho, cuja existência Pinkerton desconhece. As manifestações de saudade, de carinho e de fidelidade, durante a ausência de Pinkerton, não deixam dúvida quanto aos sentimentos de Buterfly pelo seu amado.
Um dia Buterfly avista o navio de Pinkerton, que se aproxima do porto. A sua alegria não tem limites. Apresta-se a decorar a casa com flores, para receber condignamente o seu amado. Nessa noite não consegue dormir de ansiedade.
Quando Pinkerton chega, é recebido pela aia, que lhe dá conta das saudades da sua ama. Ao ver a mulher que acompanha o patrão, imediatamente se apercebe da situação, e teme pelo sofrimento da sua senhora. Tomado pelo remorso, Pinkerton abandona a casa. Buterfly acorre à sala, mas, em vez do marido, encontra uma estrangeira desconhecida, na companhia da sua aia. Esta mulher pede-lhe que lhe entregue a criança, que será educada por ela como se fosse sua. Buterfly concorda e pede à aia que vá buscar a criança. Quando se encontra sozinha, retira um punhal do baú. Para recuperar a sua honra, resta-lhe imolar-se através da cerimónia dos seus a antepassados: o hara-kiri. E num hino pleno de dramatismo e dor, a sua alma parte.