"Todos os meus versos são um apaixonado desejo de ver claro mesmo nos labirintos da noite."
Eugénio de Andrade

domingo, 8 de agosto de 2010

Uma longa viagem







Finalmente chegou. Era preciso galgar a pé o quilómetro que o separava de casa. O alvoroço coexistia com uma sensação de calma, como se a simples decisão de mudar de vida lhe eliminasse os anos de stress acumulado. Mesmo que tivesse decidido não pensar na experiência que vivenciara, não podia apagá-la como se fosse o traço de um lápis que se elimina com o simples passar da borracha. Ainda não decidira se contaria à Rosa. Era difícil de explicar e de acreditar. Poderia até pensar que tinha enlouquecido... O melhor era calar-se, por enquanto. Depois se veria. No final da curva, a sua casa apareceu. Uma casa pequena, de pedra, enquadrada por hortenses, as flores preferidas de Rosa. À frente da casa estendia-se a horta bem cuidada. Pela primeira vez olhou as portadas com olhos de ver. Precisavam de uma pintura. Já não iria adiar mais essa tarefa. Teria muito tempo para isso. Abriu o portão. Entrou em casa sem fazer barulho, antegozando o ar estupefacto da mulher. Deu a volta à casa, sem a encontrar. Da janela da cozinha viu-a nas traseiras, pendurando a roupa que a máquina ainda quente acabara de lavar. No rosto desgastado da mulher liam-se os últimos quinze anos de depressões provocadas por tentativas frustradas de engravidar. A medicação tinha-lhe deformado o corpo elegante que o vestido de noiva cingira no dia do casamento. José sabia-lhe o olhar sempre ensombrado por uma nuvem de tristeza, mesmo quando se ria. E ele não tivera paciência para entender. Muitas vezes a deixara sozinha entregue àquela dor silenciosa e fora afogar a dor que era comum, no café do bairro. Uma dor que cada um procurava curar de costas um para o outro, perdidos em gestos e olhares desencontrados. Pela primeira vez reconhecia o egoísmo que a atitude de se afastar, deixando-a sozinha a lidar com a ausência de risos de criança, podia comportar. Sempre apaziguara a sua consciência dizendo de si para si “que eram coisas de mulheres”… José sentiu uma ternura infinita pela sua companheira. Aproximou-se e resolveu chamar por ela, para a não assustar.
— Rosa! Cheguei!
O rosto de Rosa voltou-se para ele. Triste, com sempre.
— Já chegaste?! Mas tinhas dito que só vinhas no sábado! Aconteceu alguma coisa?
Enquanto dizia estas palavras, levantou a cabeça, para trocar com o marido os dois beijos de boas-vindas habituais.
José puxou-a para si, olhou-a nos olhos até à alma. Disse então:
— Sabes que estás linda?
— Eu?! — O tom de incredulidade foi acompanhado por uma passagem das mãos pelos cabelos, tentando repor no seu lugar uma repa teimosa que lhe descaía sobre o rosto, e um sorriso tímido. — O que tens? Nunca me viste? — perguntou, rindo-se. Desde há muitos anos que se desabituara destes mimos do marido, e sentia-se até um pouco desconfortável com esta atenção.
— Olha, hoje vamos jantar fora e depois vamos dançar. Que dizes?
— Que não deves estar bom da cabeça!
José pegou-lhe nas mãos. Depois insistiu.
— Rosa, olha para mim. Para os meus olhos. De agora em diante vou falar contigo sempre de olhos nos olhos. Não estou a brincar. Estou a fazer-te um convite sério. Põe um vestido bonito e vamos sair.
Um sorriso lindo iluminou o rosto de Rosa. Ainda contrapôs:
— Mas…Tu não gostas de dançar…
— Mas gosta a minha querida mulher…
Rosa quebrou as suas resistências, abraçou o marido e, como uma criança, bateu as palmas:
— Ai que bom! Ai que bom! Mas… vestido!... Não tenho vestido! …
— Claro que tens! Aquele que comprámos para a festa da Daniela…
O sorriso de Rosa morreu-lhe nos lábios. José percebeu o esmorecimento da mulher.
Aquele vestido nunca o chegara a usar…Compraram-no com um grande entusiasmo para o casamento da Daniela, a sobrinha que casara em Lisboa numa família muito “bem”. Mas ele embebedara-se na véspera, e o vestido ficou guardado no baú durante anos, sem nunca ter chegado a oportunidade de ser usado…
— Desculpa, Rosa! Eu vou mudar! Aliás, já estou mudado!
Rosa afastou com as mãos esses pensamentos intrusivos e, voltando ao ar gaiato, agora reconquistado, decidiu:
— Vou buscá-lo! Tenho que o pôr a arejar antes de o passar a ferro. E ver se me serve!
Os olhos de José seguiram a mulher até ela desaparecer no interior da casa. Olhou então para dentro de si, convocando os estranhos acontecimentos daquele dia, daquele exacto momento, daquela fracção de segundo, em que José tomou uma decisão. A sua vida cheia de rotinas entediantes, a sua vida cinzenta, de trabalho duro, de um bom salário cheio de horas extraordinárias sem dias para o gastar…essa vida sem sentido, ia acabar…
Aos dias seguiram-se os meses, os anos, sem que nada de verdadeiramente importante o fizesse sentir que a vida valia a pena ser vivida…Os quinze anos de casado não lhe trouxeram os filhos por que ansiara…Dentro de pouco tempo estaria velho, a coluna desfeita pelas longas horas de condução, e a vida por viver…
Naquele dia, naquele exacto momento, naquela fracção de segundo em que adormecera ao volante do camião de longo curso que durante anos fora a sua casa, tomou a suprema decisão de comandar a sua vida.
Naquele dia, naquele exacto momento, naquela fracção de segundo em que fechara os olhos, embatera violentamente contra outro camião, sendo projectado pelo ar e esmagado contra o asfalto, vira-se a si próprio espectador da sua desgraça: arrastado num turbilhão de cenas passadas, a esbracejar e a escorregar, sugado por um sorvedouro gigante em forma de cone de névoa… e vira o sorriso triste da mulher…e desejara que tudo tivesse sido diferente… Subitamente, como num filme em rewind,, encontrou-se de novo sentado ao volante do seu Mercedes-Benz e o camião, o tal contra o qual embatera, passou calmamente no outro lado da estrada, saudando-o com o sinal de luzes.
Não teve dúvidas…Não fora um sonho…Fora um sinal. A Morte batera-lhe à porta, tragara-o e cuspira-o, como alguém que, por engano, prova algo que detesta. Uma nova oportunidade. Não sabe porquê. Mas não a ia desperdiçar, nem perder muito tempo a esmiuçar as razões…Chegara a altura de tomar o seu destino nas suas próprias mãos, e encetar uma nova viagem. A partir daquele momento, uma nova vida o esperava…
Estacionou o camião na estrada, junto a uma paragem de camionetas de carreira. Ligou para a empresa, a explicar onde tinha deixado o camião, e a pedir que não contassem mais com ele. Fez sinal à camioneta que chegava e entrou. Sentiu um alívio enorme, como se o camião que acabara de abandonar na estrada, deixasse de lhe pesar nas costas. Sorriu ao imaginar o ar de surpresa da Rosa. Agora ia começar uma nova vida. Uma nova viagem. Uma longa viagem… Era pelo menos o que ele esperava…se não fosse para coser as pontas desalinhadas da sua vida, por que outro motivo ele tinha sido devolvido pela morte?
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Fora tão fácil fazê-la feliz! O ar maravilhado e incrédulo que lhe vira no rosto, quando se admirara ao espelho maquilhada pela irmã! A segurança com que ela caminhara nos saltos altos, como se nunca tivesse feito outra coisa…O vestido, o célebre vestido de trespasse, a que ela só precisara de mudar um botão, o jantar saboreado com vagar no restaurante com pista de dança, o brilho extasiado no seu olhar… A valsa que dançaram na praça, quando regressaram a casa, ternamente enlaçados, e que culminou com os aplausos dos vizinhos, que, longe de se zangarem por terem sido acordados, com eles festejaram o amor… A noite de louca paixão renascida que lhes incendiou os sentidos…
Já não se lembrava daquela maravilhosa sensação de apaziguamento, de terna felicidade…Na verdade, sentia-se leve, leve…como se o chão tivesse uns amortecedores, que lhe davam a sensação de caminhar nas nuvens…Deixara de sentir as dores nas costas, e a barriga pesada, embora ela continuasse lá, bem proeminente…
Deu um último retoque ao tabuleiro do pequeno-almoço, colocando uma rosa que colhera no jardim, ao lado da chávena da sua Rosa. Cuidadosamente, agarrou no tabuleiro e dirigiu-se ao quarto.

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quarta-feira, 21 de julho de 2010

Aparências




Não é alta nem baixa, nem magra nem gorda, nem nova nem velha…
Os cabelos curtos, castanhos e encaracolados, emolduram-lhe o rosto redondo e moreno, onde sobressaem os olhos castanhos, vivos e perspicazes, os quais olham invariavelmente de cima, mantendo a pálpebra bem esticada. É frequente olhar o seu interlocutor pelo “rabo do olho”.
O seu sorriso constante é frequentemente assaltado por um subtil repuxar, do lado esquerdo, em direcção à orelha do mesmo lado, como se comandado pelas mãos invisíveis e caprichosas de um manuseador de marionetas.
Mas, de tal sorriso constante e frequente, não deverá inferir-se a simpatia da personagem. Efectivamente, quando com ela lidamos de perto, verificamos que de simpática ela não tem nada. Veste o seu sorriso (sem que disso se aperceba), em consonância com o sentimento que as pessoas lhe provocam: frieza, desdém, repulsa, condescendência ou ternura, este exclusivamente reservado `a família, reduzida às duas filhas que lhe ficaram de um divórcio litigioso e devastador.
Que se desiludam aqueles que, estimulados pela frequência do seu sorriso, se aproximam na mira de com ela estabelecer uma relação de amizade…Ela lançar-lhes-á um sorriso que congelará indefinidamente esse pretenso devaneio.
Aparentemente atenciosa com as pessoas, mantém-nas à distância disparando sempre uma frase curta, directa e seca, para repor no seu lugar aqueles que tentam, incautamente, com ela iniciar um contacto que possa ultrapassar os limites do mero conhecimento. E, se o não fizer, não deverá atribuir-se tal facto a falta de inspiração ou oportunidade momentâneas, mas tão somente à decisão de aguardar o momento mais favorável para então lançar, como uma granada, a frase que deixará em estilhaços o desejo de com ela privarem de perto.
Fala de uma maneira calma, segura de si. Em situação de confronto verbal, dificilmente admitirá não ser senhora da razão. Aliás, qualquer disparate saído da sua boca fará nascer no seu interlocutor o desejo de com ela defender a ideia mais estapafúrdia, como se de uma verdade insofismável se tratasse!
Destaca-se, no seu caminhar, o movimento pendular das ancas, ora para a esquerda, ora para a direita, num gingar ritmado e algo exagerado Acompanha este movimento, como uma batuta, o nariz, o qual, deixando por momentos de apontar para as nuvens, se recolhe em direcção aos pés, caprichosamente calçados com modelos dos melhores estilistas italianos. Esta é, aliás, a única extravagância a que ela se permite, seu “fétiche”.
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Meteu a chave na porta depois de ter demorado quase cinco minutos a procurá-la na carteira. Inútil tocar a campainha. O apartamento estava vazio, tal como ela. Este fim-de-semana as filhas ficavam com o pai.
Mal atravessou o umbral da porta despiu a sua pose. O seu olhar humanizou-se, os ombros descaíram-lhe e ela caminhou lentamente em direcção ao sofá da sala. Descalçou as botas de pele envernizada e colocou-as direitinhas, uma ao lado da outra. Observou-as longa e compenetradamente. Mirou-as de um lado, depois do outro. Depois pegou nelas e as suas mãos passearam-se demoradamente pelo calfe macio. Aspirou-lhes o aroma profundamente. Acariciou as, sentindo-lhes a suavidade. Depois num gesto inusitado, apertou-as ao peito, ao mesmo tempo que dos lábios deixava escapar um longo suspiro, vindo do mais profundo das suas entranhas. Do seu olhar desprendia-se uma enorme tristeza, a qual, conjugada com o rictus que lhe marcava os cantos da boca, lhe conferia uma pesada amargura.
Dispôs novamente as botas uma ao lado da outra. Puxou a manta que descansava num dos braços do sofá de camurça branca, estirou-se preguiçosamente e cobriu–se. Ajeitou uma das almofadas debaixo da cabeça e fechou os olhos. O ritmo cadenciado da sua respiração tomou conta dela e, por algum tempo, ela pôde, enfim, descansar.

terça-feira, 20 de julho de 2010

Ninho vazio




De que me serve
O amor para dar
Este carinho a transbordar...
Se os meus passarinhos
Voaram dos seus ninhos
E não querem mais me escutar...

Cresceram suas asas
Suas pernas e seus braços
Não querem mais meus abraços,
Para longe caminham seus passos...

Perseguem uma quimera
Suas vidas é Primavera
Sua meta é viver,
Descobrir, nada perder...

Não querem mais o seu ninho
Para amparar com carinho
Suas quedas, suas dores...


No ninho fiquei eu só,
A crescer-me este vazio
Esta dor, este nó

Tu continuas passando,
Gerindo tudo tão bem....
Não te dói a dor de mãe...

E não consigo ser mulher,
Com esta angústia cravada
Eu sou mãe e mais nada!

domingo, 18 de julho de 2010

É sempre uma grande emoção ouvir este maravilhoso poema de Vinicius de Morais cantado por Chico Buarque.Há trinta anos utilizei a "Valsinha " numa aula assistida. Fez sucesso.

sábado, 10 de julho de 2010

Disparou...






O som dos carros que silvavam no empedrado da calçada não a enganava. O dia despertara, avançava apressado. Ela é que não tinha pressa nenhuma. Passara a noite em claro, contando as badaladas do relógio da sala, procurando concentrar-se na sua respiração para aprisionar o sono. Em vão. Tanto que desejara o amanhecer, e agora que alvorecia, desejava não ter que sair da cama. Doía-lhe o corpo, maçado de tanto voltear, a cabeça, que não lograra descansar, e no peito pesavam-lhe angústias acumuladas que os medicamentos não conseguiram ainda amenizar. “Dá tempo ao tempo, pequena!”, dizia-lhe o médico, mas os meses iam passando…
Era preciso continuar a viver, mas essa era uma tarefa monstruosa…Durante o dia esforçava-se, ria e fazia rir as colegas do escritório, contava piadas brejeiras, não queria que tivessem pena dela, lágrimas é que nunca veriam, que se desiludissem os que esperavam vê-la por baixo…mas mal entrava em casa caía-lhe o vazio da sua vida em cima e a energia que mantivera durante o dia escoava-se como a água pelo ralo …Como iria conseguir viver dentro daquelas paredes, tão cheias de lembranças, as boas e as más, pois por ter conhecido as boas é que lhe era insuportável conviver com estas…
Recusava abrir os olhos e enfrentar tudo o que a esperava…Recusava, sobretudo enfrentar o vazio da sua cama…Ainda se não habituara a ver a cama do lado dele sem vestígios do seu corpo, embora soubesse que, se abrisse os olhos e esses vestígios lá estivessem, significaria que ele era um criminoso, por ter violado as ordens do tribunal, ou que ela era doida por lhe ter perdoado …ou, quem sabe, talvez ele tivesse voltado a amá-la outra vez…e tivessem tentado de novo…
Abriu os olhos. Sacudiu a cabeça para afastar aqueles pensamentos delirantes e soltou um gemido. Parecia que alguma coisa se soltara lá dentro. Tinha que passar o dia como uma anormal, tentando não se mexer bruscamente…
Ouviu passos na cozinha…O ordinário ainda não tinha saído… não bastava ter entrado em casa às três da manhã, ostensivamente ruidoso, subindo as escadas em tropel, batendo com todas as portas, sem respeito pelo seu descanso…claro que o seu descanso era o que menos lhe importava, e respeito por ela, há muito tempo que o tinha perdido, mas como era possível que nem o mais elementar instinto de protecção comum a qualquer besta relativamente às suas crias o não fizesse respeitar o descanso do filho? Ela bem sabia que isto tudo fazia parte de um estratagema para a fragilizar psicologicamente e a obrigar a abandonar a casa que era ainda de ambos…Mas estava muito enganado se pensava que cedia a chantagens…
Iria lutar até ao fim por aquilo a que tinha direito, não tanto por ela, mas pelo filho adolescente que ele renegara, ao excluí-lo de todos os afectos como a excluíra a ela. Nunca lhe perdoaria o terror psicológico a que sujeitara o miúdo, quando, na última vez em que haviam viajado de carro, ele disparara em altas velocidades, travando e acelerando a fundo nas veredas mais estreitas, rindo-se dos gritos e do pânico que provocava nos passageiros. Segundo ele, não passara de uma brincadeira, ela é que não tinha sentido de humor…Era doido, mas ninguém acreditou que ele provocara voluntariamente aquele clima de terror no intuito de a fazer passar por paranóica entre os amigos…Por isso ela só se deitava depois de o filho se trancar no quarto, e de ela fazer o mesmo…
Mas vivia em sobressalto …Houve quem a aconselhasse a ter uma arma consigo, na mesinha de cabeceira…Recusara…Não confiava na sua capacidade de controlo…Era bem capaz de a usar… O seu olhar procurou o frasco quase cheio onde ia depositando as moedas de dois euros. Na eventualidade de ser atacada, o frasco servir-lhe-ia de arma…
Tudo se iria resolver…As coisas estavam bem encaminhadas…Era, pelo menos, o que dizia a sua advogada.
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— Maldito! Vai parar ao inferno! — Ela apontava-lhe uma arma de fogo, decididamente, segurando-a com as duas mãos.
— Grande cabra! Para que é esse brinquedo? Tinhas lá coragem para uma coisa dessas!
Virou-lhe as costas, e continuou a barrar o pão com manteiga, sacudido por algumas gargalhadas.
Aquelas gargalhadas acordaram nela uma raiva secular. Num flash as humilhações infligidas nela e no filho, passaram-lhe à frente. Viu-o virar-se para ela. Viu-lhe os dentes amarelados, com a falha que transportava desde miúdo, a boca a mexer-se enquanto falava, falava, falava…sem que ela conseguisse ouvir o que ele dizia. Só ouvia as gargalhadas daquele homem com quem um dia ela fora capaz de se deitar e que agora procurava humilhá-la.
Sentiu-se nauseada, a saliva na boca a crescer-lhe, as batidas cardíacas aceleradas nos dedos que apertavam o gatilho. Disparou.
Ao mesmo tempo, acordou com o estrondo. Ouviu um grito enorme. Saltou da cama, meio atarantada, sem perceber logo onde estava. Abriu a porta e correu corredor fora, em pânico. Chamou pelo filho.

Na cozinha, o rapaz apontava ao pai uma pistola ainda fumegante. No chão começava a alastrar uma poça de sangue, debaixo do corpo todo torcido daquele que fora o carrasco de ambos.
— Meu filho!
— Matei-o, mãe! Matei-o! — soluçou.
Abraçou-se a ele fortemente. Beijou-o e tornou a beijá-lo.
— Meu menino! Meu querido menino!
O rapaz estava sem reacção. Tirou-lhe ternamente a arma. Limpou-a. Depois pegou nela como se fosse atirar.
Em seguida agarrou o rosto do rapaz com as duas mãos, e fitou-o firmemente nos olhos.
— Filho, ouve o que te vou dizer. Quem matou o teu pai fui eu. Estás a ouvir? Fui eu. Em legítima defesa. Acordaste com o estrondo. Não sabes mais nada, ouviste? Deixa o resto por minha conta.
Pegou no telefone e marcou o 112.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Aqui estou...















Caminham as tuas agitadas
Ondas de espuma
Na passadeira dos meus
Passos brancos
Que orgulhosamente
Ao longe se levantam…

Ouço a tua voz de areia
Cedendo sob os meus pés mais nítidos
À medida que me aproximo…

E eu continuo o prazer
Do sabor antecipado
Caminhando…

Detenho-me a uma certa distância…
Cai-me ajoelhado o saco de livros
Acabados de comprar
E também os meus se vergam…

Não resisto à paz que lentamente
Começa a invadir-me os sentidos…

Enterro as mãos de areia fina e quente
E deixo-a escapar-se-me
Por entre os dedos abertos
Expectantes de carícias…

Espraio o meu olhar
Pelas tuas águas
Da cor de papo de rola
Revoltas

Fecho os olhos,
E cheiro a tua música
Que se repete num vaivém
E vai crescendo e crescendo e mordendo
E chicoteando a areia

E já ecoa o bichanar rezado das beatas
E na areia de novo cresce em tropel
E se levanta e urra…
E nela se aninha extenuado…

Levanta-me os cabelos uma brisa suave
Beija-me o rosto salgado
O respingar sussurrado das tuas águas…

Abro os olhos …
E do fundo de mim,
A tranquila felicidade
De um murmúrio dança-me nos lábios:
“ Cheguei! Cheguei!”

sábado, 26 de junho de 2010

Estava vazio

Ouvem-se ao longe dispersos acordes de músicas populares, como quem afina os instrumentos. Daqui a pouco, a música rebentará, plena e sem hesitações.
Evola-se dos espaços abertos das casas em redor, a fragrância da sardinha assada. Imagino-a, loirinha, a pele estaladiça, os lombos brancos e suculentos a escorrerem o delicioso suco. Começo a salivar…um desejo incontrolável apodera-se de mim. Decido que hoje tenho que comer sardinhas. Quando chega o Alberto, lanço-lhe o desafio.
Afinal, hoje é noite de S. João.
Desde os dezasseis anos que não ponho os pés lá em baixo, no povo… Nessa altura, saltavam-se as fogueiras, dançava-se na praça…E porque não? Calcei umas sapatilhas e descemos a rua, eu com aquela alegria que nos assalta quando deixamos que as coisas entrem naturalmente nos nossos dias, sem as afugentar…
Chegámos na altura certa. Dez minutos depois, já uma longa fila se formava na caixa de pré-pagamento. Renques de mesas no interior do pátio acolhiam os comensais. Os pratos e os talheres de plástico não lograram quebrar-me o entusiasmo.
A boroa fazia honras à sua fama… As sardinhas satisfizeram-me. O prazer de estar ali ao ar livre, saboreando o que para mim é um autêntico pitéu, superou a desconfiança relativamente à integridade do tempero da salada, parente muito afastado do insubstituível azeite…Bebemos uma garrafa de vinho e, no fim, uma pequena transgressão: fumámos um cigarro. Ao levantarmo-nos, senti-me um pouco tonta, confirmado na troca das pernas.
Fomos avançando. Passámos em frente das traseiras de casas velhas, novas, reconstruídas… mas todas elas tendo em comum o seu quintal, maior ou mais pequeno, com caramanchão natural ou construído para a altura da festa…mesas improvisadas, fogareiros, sardinhas, fêveras, vinho, animação, convidados… O tom era de festa.
Depois de um ligeiro deambular, sentámo-nos num banco de pedra corrido, à beira de uma velha casa de granito, mesmo ao lado do local onde tinha sido montado o palco. A pedra conservava ainda o calor deixado pelo sol que durante toda a tarde ali se espojara. Assumimos placidamente o papel de espectadores.
A noite vai avançando, ao mesmo tempo que aumenta também o vai-e-vem dos populares. Vão passando rostos conhecidos, aos quais se acena com um sorriso, e outros que se abeiram para um cumprimento mais personalizado. O som do arraial vai aumentando. Ouve-se a infalível música “pimba.” Hoje nem essa música me incomoda.
Em frente ao local onde nos instalámos, do outro lado da rua e vedando o acesso a uma garagem, uma garota que aparenta não ter mais de nove anos, de uma suave e natural beleza loura, vigia a sua trouxa: um enorme cacho de balões de papel, uma pequena banca toscamente improvisada, expondo apitos extensíveis e martelos de S. João, e, no chão, um saco de plástico de grandes dimensões, onde objectos idênticos aguardam a vez de mudarem de dono. A garota chama a atenção dos eventuais clientes batendo ritmicamente com um dos martelos na palma da mão, num “pic-pic-pic” irritante e monótono, ao mesmo tempo que a sua trança loura salta ao mesmo ritmo. Passados alguns momentos, apercebo-me que a pequena desaparecera e fora substituída no “pic-pic-pic” e na banca por um rapaz bem mais velho. Entretanto começa o espectáculo. Não obstante, por ali nos deixamos ficar, alongando prazenteiramente os momentos relaxantes. O negócio em frente corre de vento em popa, maugrado a tão badalada crise.
Vem acomodar-se no mesmo banco, uma família como tantas outras. Os pais são jovens, e os três filhos bonitos. O mais novo, ainda bebé, mansamente acomodado no carrinho, lança os olhares curiosos que a cúpula do carrinho lhe permite.
A garota, talvez com três anos, olhar negro profundo, e uma expressão doce, entretém-se a observar o vaivém das pessoas. O rapaz mais velho não terá mais de sete anos. É forte, no limite da obesidade, pestanas longas e cerradas. Não deixa dúvidas quanto à filiação paterna.
A determinada altura dei conta do garoto junto do pai, insistindo na pedinchice habitual de algumas crianças. A reacção não foi muito acolhedora. Perante a insistência, o pai começou a espicaçar o rapazito, a mandá-lo avançar. A criança dava dois passos e voltava para trás.
— Vai lá tu, pai!
— Não, não, vai, vai lá perguntar!
O rapaz dá meia dúzia de passos e recua novamente. Depois de estarem neste jogo alguns momentos, a mãe avança e vai direita ao jovem vendedor dos martelos. Volta com uma informação, que foi unilateralmente chumbada pela soberana decisão paterna. O garoto desata num choro desconsolado. Deita ao pai um olhar suplicante por baixo das cerradas pestanas. Cruza os braços, choraminga. A mãe passeia o olhar pela multidão que passa, também ela indiferente ao pequeno conflito entre pai e filho.
A figura paterna afasta-se. Enverga umas bermudas de ganga, uns ténis Nike falsos. O ventre volumoso faz-lhe alçar a tee-shirt preta. O rapazito vencera a disputa. Enganei-me. Dá alguns passos, retorna. Volta-se para o filho com um sorriso desdentado, mascando uma chiclete. O rapaz responde-lhe com o seu ar amuado, suplicante e de braços cruzados. O pai volta a afastar-se, desta feita em direcção ao palco, onde o espectáculo está ao rubro. O garoto vai-lhe no encalço. Corre para ele a mãe, subitamente desperta do aparente alheamento. Descansa quando repara que o garoto se juntou ao pai. Também ela ostenta uma barriga demasiado proeminente. A miúda olha-me longamente. Começa a cantarolar baixinho, e depois ignora-me, voltando o seu interesse para si própria. Pai e filho juntam-se ao resto da família. Os dois adultos não trocam palavras entre si, embora a postura de ambos seja a de um entendimento tácito.
Atitude espaventosa, de galo, a deste progenitor. Fica de costas voltadas para a família. Estica o corpo, incha o peito, abre as pernas, como forcado que se prepara para a “pega”. Enfia as mãos nos bolsos das calças. Balouça o tronco para a frente e para trás, levantando alternada e ligeiramente os calcanhares. Deixa-se estar assim, a baloiçar-se para trás e para diante, quem sabe se ruminando alguma importante decisão…Passeia a mão pelo peito e alisa a tee-shirt em cima da barriga a custo coberta. Subitamente arranca em direcção ao vendedor. Os dois garotos vão atrás dele. Volta um minuto depois, no rosto estampada a desolação. O garoto vem de boca escancarada, agora num choro magoado. A garota imperturbável.
Chega ao pé da mulher, que o questiona:
— Então?
— Esgotados.
— E o saco?
— O saco? Vazio. Já estava vazio…

domingo, 20 de junho de 2010

Homenagem a José Saramago

" A vida é imprevisível.Põe palavras onde imaginávamos silêncios e súbitos regressos quando imaginávamos que não voltaríamos a ver-nos."
José Saramago

Fico sempre triste quando uma estrela deixa de brilhar aqui na terra, para ir iluminar outras esferas.
Apesar de algumas posições corajosamente controversas, fruí a leitura de não mais de meia dúzia dos seus livros-poucos, como se depreende, atendendo à sua vasta produção... Mas o texto que maior impressão me causou, foi uma crónica, em jeito de carta, que escreveu à sua avó, e que me emocionou profundamente, a ponto de ainda hoje me lembrar dele... talvez porque as suas palavras me fizeram pensar na grande mulher que foi a minha propria avó...
Li esse texto há muitos anos, mas recordo-me que nele Saramago deixava tranparecer uma grande ternura por essa mulher simples, de noventa anos, com um vocabulário reduzidíssimo, que pouco mais conhecia que a soleira da porta da sua casa onde se sentava ao sol. Mas, apesar desse seu mundo tão limitado, ela confessava para o neto: "O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer..."
Ao contrário, dizia-se que Saramago não tinha medo da morte... Ainda bem!...

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Alma perdida...

Puxei uma cadeira e sentei-me. Àquela hora a esplanada estava quase deserta. Escassos eram também os transeuntes que atravessavam a rua Formosa. Numa mesa, duas senhoras já algo entradas na idade, cochichavam. Noutra, um homem de panamá irrepreensivelmente branco folheava o jornal. Nas mãos, as manchas castanhas apontavam para uma idade já avançada, confirmada pela teia de sulcos que lhe marcavam o rosto.
Sentei-me de costas para a pastelaria, de frente para o antigo mercado, a que a intervenção de Siza Vieira não logrou integrar na vida da cidade. Por ali ressoam os ecos da antiga vivacidade, animação e colorido de que agora não restam os mais ínfimos vestígios. Também nas minhas nostálgicas memórias latejavam vibrantes e buliçosos os mesmos ecos. Um sol tímido penetrava pelo buraco do guarda-sol abrindo um círculo de claridade na sombra projectada na mesa onde me acolhi.
Algumas pombas saltitavam na calçada. Outras atreviam-se a ir debicar nas mesas migalhas esquecidas. Apesar do que li na Net sobre as pombas — tão ou mais perniciosas que os ratos, uma vez que as asas lhes permitem a propagação mais rápida de doenças — não consigo ter para com elas a mesma atitude de instintiva repulsa. Não são elas o símbolo da paz?
Passado um bocado, a mesa ao lado da minha, mas um pouco mais à frente, foi ocupada por outro idoso. Não me apercebi da sua chegada, absorta nos meus pensamentos e reflexões. Também ele procurou posicionar-se de costas para a pastelaria, e de frente para o mercado. A frequência pendular com que retirava um lenço da algibeira esquerda, e o passava pelo rosto, atraiu a minha atenção. Inicialmente pensei que estaria constipado. Mas depressa me apercebi de aquele movimento era destinado a limpar os olhos. O empregado, sem que ele tivesse pedido, trouxe-lhe um pastel de nata e um galão. A familiaridade do gesto levou-me a concluir que a presença daquela personagem era ali habitual. A reforçar essa suspeita, a atitude de conforto do funcionário que levou a sua mão ao ombro do indivíduo, e lho apertou suavemente. O homem olhava fixamente em frente, para um determinado ponto do mercado. Lentamente retirou um saco de pano castanho pouco maior que a sua mão, do bolso interior do seu blusão gasto pelo uso. Abriu os cordões do saco e tirou de lá de dentro um fragmento de um azulejo que colocou sobre a mesa. Retirou um papel dobrado quase a desfazer-se e abriu-o também em cima da mesa. Tive alguma dificuldade em identificar o papel. Era uma nota de vinte escudos. Em seguida retirou um rosário de contas de vidro e colocou-o junto dos outros acessórios. Depois recostou-se na cadeira, colocou a mão direita sobre aqueles objectos, e chorou. Chorou mansamente, sem ruído. Apenas os suspiros profundos a levantarem-lhe o peito lhe denunciavam o choro.
Aproximei-me.
— Desculpe, sente-se bem? Precisa de alguma coisa?
Abriu os olhos azuis, baços e aguados. Fitou-me com uma mágoa tão profunda…Não me respondeu. Apenas o seu braço se levantou num gesto largo e circular, abarcando o mercado. Deixei-o só.
Quando fui à caixa pagar, o empregado notou a minha perturbação.
Soube então que aquele senhor possuíra em tempos um posto de venda de flores no antigo mercado. Nunca se conformara com a mudança. O seu negócio no novo mercado para onde foram mudados os vendedores, nunca florescera, porque, segundo ele, a sua alma não o acompanhara. O velho viu-se vítima de várias desgraças: tempestades que destruíram as suas estufas, pragas mortíferas e insanáveis que arrasaram a sua produção de flores.
O pastel e o galão eram oferta dos donos da pastelaria, compadecidos com o sofrimento do velho.
Há mais de dez anos que, todas as semanas, ele voltava ali, ao local onde fora feliz, para se unir em pensamento à sua alma.

domingo, 13 de junho de 2010

Adolescência

Miúdos irreverentes. Reacção negativa a qualquer proposta, desde que vinda de um adulto. Arrogantes. Críticos. Sarcásticos. Inseguros.
Meninos doces dos quinto e sexto anos, agora irreconhecíveis. Escapando ao nosso olhar, sorrisos e posturas provocadores, escudos de medos que se desejam sepultados. Experimentando incursões por uma liberdade supostamente conquistada. Entrando no limiar do proibido. Sorrisos. Troca de olhares, na procura de reconhecimento e aprovação entre pares…
Tédio. Bocejos. Risinhos. Mãos na cara tapando o riso, escondendo inseguranças. Olhares cúmplices. Aulas de substituição interpondo-se ao desejo de liberdades não vigiadas. Cadernos abertos iludindo o ecoar dos minutos…supostamente para tirar ou fingir tirar últimas dúvidas para o teste. Trabalhos de casa que é preciso despachar… Palavras de calão sopradas para o ar. Provocações. Ar gingão. Olhares longamente demorados para além das janelas. Tédio. Suspiros. Risos. Palavras articuladas entre dentes. Corpos esticados nas carteiras.
Bocejos. Risos. Tédio. Sarcasmos. Inseguranças. Irreverências. Bocejos. Risos. Tédio. Sarcasmos. Inseguranças. Irreverências. Adolescência…
O toque libertador! ...

domingo, 6 de junho de 2010

55 anos








Cheguei há pouco da terrinha que me viu nascer há cinquenta e cinco anos. O motivo da deslocação foi juntar os nascidos neste rincão, há 55 anos, para uma pequena comemoração. No programa constava também uma visita ao cemitério, em romagem de saudade aos já falecidos, e colocação de uma flor simbólica nas suas campas e na do casal de professores primários que nos ensinou — ele os rapazes, ela as raparigas. Estes encontros têm-se realizado de cinco em cinco anos, desde 1985. Esta foi a minha segunda participação. Desta vez não pude estar presente nas actividades que estavam programadas para a manhã, pelo que, quando cheguei para o almoço, algo atrasada, já estavam todos sentados.

Alguém me guardou um lugar numa das mesas. Conversei mais do que comi. Como já é habitual nos encontros deste tipo, e este não foi excepção, as mulheres, de uma maneira geral, mantém-se com um aspecto mais jovem.

Foi agradável reconhecer alguns rostos, embora também me tivesse entristecido não ter reconhecido outros, apesar das explicações. Eu saí deste cantinho para continuar a estudar aos onze anos, e fui perdendo o contacto com a maior parte deles. Naquela altura, era raro tirarem-se fotografias. Na maior parte das famílias, o dinheiro mal dava para comer, e só os que seguiram estudos, têm registos desse tempo perpetuado nas fotografias do bilhete de identidade, o qual, para os outros, não era obrigatório. Mesmo assim, reconheci mais rostos femininos do que masculinos, o que se compreende, dado o facto de, nessa altura, nos ser praticamente vedado o convívio entre sexos. O edifício escolar estava divido: os rapazes iam para um lado, e as raparigas para outro. Os recreios estavam separados por muros.
Durante o almoço, na minha mesa comentou-se o programa que eu tinha perdido. Relembraram-se com saudade os colegas já desaparecidos. Aproveitei para dizer que não lamentava ter falhado a colocação das flores nos professores. Não tinha nenhuma vontade de deixar flores a pessoas que eu considerava responsáveis por alguns traumas de infância.
Acorreram-me imagens do tempo escolar, em que fomos martirizadas por uma professora, que, não tendo tido filhos, semeou nos nossos corações o medo, a angústia, a insegurança…Nunca fomos poupadas aos castigos…e, aquelas com quem falei, confessaram também não terem sido tempos felizes os que passaram na escola. É certo que ficámos bem preparadas…mas a custo de termos atravessado a nossa infância sob um clima de terror…A pedagogia que imperava, era a da régua…Durante muitos anos vivi assombrada pelos pesadelos de uma professora agressiva, intolerante, injusta, pronta para castigar ao mínimo deslize, que me atormentava as noites, mesmo depois de, no liceu, saber que já nada me poderia fazer voltar à escola primária. Mas, no meu subconsciente prevalecia nítida essa marca que voltava materializada nos sonhos, sempre que no meu percurso de vida se atravessava alguém cujo comportamento se assemelhava ao da professora primária.
Encontrei e reconheci a Alicita, nome carinhoso que todas lhe dávamos, por ela ser tão pequenita, apesar de ter a mesma idade que nós. Parecia uma boneca, loira, magrinha, pele diáfana… A Alice ficou feliz por eu a ter reconhecido. Peguei-lhe nas mãos e juntei-as às minhas.
— As tuas mãos continuam pequeninas, Alicita!
— Pois, como eu!
Rimos. É de estatura baixa, de facto, mas irradia alguma alegria nos olhos brilhantes, no rosto e nos gestos. Contei-lhe que me lembrava muitas vezes das mãozitas dela branquinhas e pequeninas, a serem torturadas pela régua empunhada por aquela mulher implacável! …
Ela assentiu. Ficou calada, por breves instantes.
— Então quando levávamos reguadas e as mãos estavam geladas, parecia que caíam… E os pobres eram mais castigados que os outros…
Esta observação veio ao encontro de uma impressão que me ficara, mas que eu não tivera ainda oportunidade de confirmar…Alice vivia, no tempo da nossa meninice, num bairro social, mandado construir de raiz para os pobres, por um benemérito da terra.
Contou então que houve uma altura na escola em que era preciso um caderno de problemas que a professora se encarregou de encomendar e que custava dois e quinhentos.
O pai estava hospitalizado, a mãe não tinha dinheiro para comprar o caderno.
Todos os dias a professora lhe perguntava pelo dinheiro. Todos os dias a Alicita explicava à professora a situação familiar e todos os dias era mimada com reguadas. A partir de certa altura, já era um ritual. A Alicita já nem esperava que a professora lhe mandasse esticar a mão para o castigo diário, que não falhava, e as lágrimas também já vinham antecipadas. Finalmente, o dinheiro chegou. Tal era a força do hábito, que Alice estende as duas mãos: uma com o dinheiro; a outra a oferecer-se ao castigo.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

A voz de Deus


Tempos terríveis os daquela aldeia serrana… Terra sem homens, ou quase… Terra de velhos e de crianças… ou de jovens sem ambição, ou medrosos, ou tão pobres que nada possuíam de seu e desencorajavam quem pudesse emprestar-lhes dinheiro para a passagem. Durante várias gerações, cumpriu-se a tradição. Quase todos os homens emigravam para o Brasil. Os casados deixavam as mulheres no torrão a tomarem conta dos filhos e dos bens que o casal ia entretanto amealhando. Muitos constituíam outras famílias por lá, e só vinham de quando em quando passar umas férias. Era maior o tempo passado lá fora, do que o que passavam junto das suas legítimas famílias.
Também muitas mulheres não conseguiam resistir a esta solidão forçada e impiedosa e acabavam por sucumbir à insistência de algum galaró, procurando aconchego em outros braços viris que as ajudassem a encurtar as longas noites de ausência, e a darem vazão ao desejo e aos sentidos..
Um destes casais assim constituído encontrava-se clandestinamente no Cabeço, lugar da residência dela. Ele chegava de noite, simulava o piar do mocho e, passado um bocado, ela ia ao seu encontro.
As árvores de fruto naquela aldeia não abundavam. Terreno que possuísse uma árvore de fruto, tornava-se alvo da cobiça daqueles que procuravam encher a barriga e matar a fome naquelestempos de miséria. Ninguém gostava de ver as suas terras devassadas por ladrões de fruta, os quais, além de impedirem que os donos a pudessem saborear, davam cabo de outros cultivos ao avançarem descuidadamente pelos terrenos adentro, na mira de se encherem.
Mantinha-se, porém, no Cabeço, aquela frondosa cerejeira, talvez porque, como crescia no interior do terreno, não era de acesso fácil à vista e exploração de quem passasse no caminho, não sentindo por isso, o seu dono, os efeitos dos predadores da fruta.
Mas o casal conhecia bem os cantos da courela. Numas dessas noites, entendendo que aquelas ramagens cheias de folhagem, eram ideais para manter discreto o seu ninho de amor, veio deitar-se debaixo da árvore. Nem ele nem ela se aperceberam de que já alguém antes deles vira na árvore um poiso acolhedor e, a coberto da noite, se viera banquetear com os deliciosos frutos, bastando-lhe para tanto estender o braço e apanhar uma barrigada de cerejas. Quando este explorador se apercebeu de que chegara companhia, deixou-se estar calado e sossegado, sem vontade de denunciar a sua presença, não fossem acusá-lo de ladrão de fruta. Entretanto o casal preparava-se para ter ali as suas bem-aventuranças. Ela parecia um pouco renitente, e ele tentava convencê-la. No meio do “agarra-aperta”, foi ela apunhalada por um remoque de consciência e responsabilidade, e, no tom de voz meloso de quem julga não haver testemunhas das suas ilícitas intimidades, pergunta ao amante:
— E se engravido?
— Engravidas lá agora!
— Ai não! Só Aquele que está lá em cima é que sabe! — responde a mulher, assaltada por um pingo de devoção religiosa algo tardio.
Imagine-se o pânico destas almas, quando ouvem uma voz vinda de cima, que eles assumem, na sua ingenuidade, como sendo a resposta divina ao temor da adúltera:
— Essa agora! Eu para aí não sou tido nem achado! O problema é vosso!
Ei-los que correm, em pânico, desembestados, com as calças na mão ele, em camisa, ela, descomposta, com a trança desfeita a balouçar ao longo das costas…

sábado, 29 de maio de 2010

Abri as asas...

Abri as asas
Enchi o peito
Voei tão alto
Neste meu jeito
De não querer nada
E tudo querer...

Inebriada
Voei, voei...
E qual Ícaro
Queimei as asas
E o meu voo
Se transformou
Em queda abrupta...

Abri os olhos,
Olhei em volta
E chorei...chorei...

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Abençoado...

Abençoado!
Entrou pela janela
Do meu quarto
E há tanto
Era esperado...
Esse sol tão descarado,
Que assim entrou,
Sem mesmo ser convidado,
Acendeu um brilho
No meu olhar.
No coração,
Desejos
De outra vez navegar...

Miminhos

Hoje, na minha escola, comemorou-se o Dia do Autor Português, tal como vem sendo hábito.

Porém, desta vez teve um gostinho muito especial para mim, uma vez que o autor português homenageado, foi…nem sei a que isto me soa…eu mesma.

A equipa da Biblioteca da escola resolveu publicar on-line, no seu blog, um conto meu, “O Rei-Bate-a-Pestana”, o que muito me honrou. A ilustração da capa esteve a cargo do meu colega-professor-pintor-poeta-vizinho-amigo (tantos epítetos para uma pessoa só!) Claro que depois de ter mandado a “pen” onde tinha o conto gravado, encontrei uma série de correcções que deveria ter feito, mas que já não puderam ser feitas no original. Agora já está. E desconfio que, de cada vez que eu ler o conto, encontrarei sempre acertos a fazer.

Hoje foi uma manhã muito cansativa, com a apresentação do livro na Biblioteca a todas as turmas do quinto ano, as minhas incluídas. Claro que aproveitei para divulgar as rimas que os meus meninos fizeram nas aulas de Língua Portuguesa e Estudo Acompanhado, porque eles também são Pequenos Autores, e nunca é de mais o que se faz para os incentivar a ler e escrever. E estavam bem compenetrados, a lerem os seus textinhos aos colegas de outras turmas!

Pois como ia dizendo: senti-me, claro, muito mimada. Mas, o que de facto me comoveu, e que eu considero o momento alto do meu dia de hoje na escola, sem menosprezar todo o carinho de que fui alvo por parte dos colegas, foram os testemunhos dos meus ex-alunos, que estão agora no nono ano, e que a Coordenadora da Biblioteca foi buscar às respectivas turmas, para me fazerem uma surpresa. E foi uma surpresa tão boa! Esses jovens fizeram-me sentir recompensada, ao confessarem que a professora deles dos quinto e sexto anos (eu, claro) tinha contribuído para desenvolver neles o gosto pela escrita e pela leitura, e que as aulas eram divertidas, havendo nelas lugar para a diversão e para o trabalho! Uma delas, menina que escreve muito bem, e que eu penso que irá dar que falar no círculo dos escritores daqui a uns tempos, afirmou que foi com as minhas aulas que descobriu que gostava muito de poesia. E senti-me orgulhosa deles. Estes testemunhos respondem à crítica que se insinuou levemente angustiante, de que eu massacraria os meninos com poesia! Está aqui o resultado. Que mais pode uma professora desejar? Perdoem-me a imodéstia, mas estou feliz!

Gracias a la vida…

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Canta, mãezinha, canta!

Acordei com uma sensação de conforto, tranquilidade e segurança. Na minha cabeça ecoavam ainda as notas musicais das canções que te ouvi cantar: "A Carmencita", "A Rosinha dos Limões", "O Fado do Hilário," "A Rua do Capelão", "A minha Rua" e tantas, tantas outras que tu ias cantando, enfiadas umas nas outras… Cantavas, cantavas, sempre…qual cigarra incansável para quem o viver é inseparável do cantar… Revivi esses momentos da minha infância e eram tão reais…
As viagens que fazíamos de carro, eram sempre embaladas pela tua voz harmoniosa, e pelas tuas melodias preferidas, que eu aprendi a trautear e a amar, também. Por vezes adivinhava-te os nervos à flor da pele, pela maneira como atacavas as melodias… Nessa alturas, então…não te calavas mesmo…
Desculpavas-te com os enjoos… se cantasses, enjoavas muito menos…Adivinhava a atmosfera pesada pelos silêncios do pai, enquanto tu cantavas, cantavas…Acho que era uma questão de sobrevivência…ou resistência…Mas nunca ele abriu a boca com algum comentário que te murchasse a voz.
É para mim impossível pensar na minha infância, ausente destas melodias... Agora, já adulta, surpreendo-me em flagrante delito de visita aos meus tempos de infância, sendo esta viagem cada vez mais recorrente, um refúgio para onde me recolho…e de lá venho recuperada das desilusões e dores que o viver de um adulto obrigatoriamente comporta…
Visitam-me as lembranças das manhãs de domingo, quando acordava e ouvia a tua voz ainda estremunhada de sono, a telefonia que o pai não dispensava, quer estivéssemos acordados ou a dormir, o ruído dos tachos e panelas que chegava da cozinha…
Se dava conta de todos estes ruídos, significava que estava em casa, e podia ouvi los… A sensação de que nada de mal me podia acontecer, era inconsciente, mas estava lá…
Ainda sem a obrigação de ir à escola, lembro-me de subir para as costas da cadeira em que estavas sentada, e começar a pentear-te os cabelos, fazendo-te os penteados mais esquisitos, e tu pacientemente entregue a este suplício, para que te não perturbasse a leitura, ou te deixasse fazer o teu tricô. Se calhava estares a tricotar, (muitas das vezes camisolas para os meus irmãos ou para mim), ias conversando comigo, ou cantando as tuas canções… Mas, se lias, e eu queria conversar, ias dizendo, entrecortadamente,"Sim…""Hum!" "Está bem!",completamente embrenhada na leitura, sem sequer ouvires o que eu perguntava… e, se bem me lembro, naquele tempo eu era uma grande tagarela, como são as crianças felizes… Depois, mais tarde, quando eu vinha cobrar-te o cumprimento das tuas promessas…
— Mas tu disseste, mãe!
— Eu? Disse lá agora! Não podia ter dito uma coisa dessas!
— Disseste sim, senhora!
Era um grande problema, pois nem sequer fazias ideia do que eu estava a falar…
E eu lá ficava, amuada, remoendo sabe-se lá que terríveis vinganças…
Já mais velha, no liceu, lembro-me de como me sentia calma, relaxada, quando chegava a casa, chamava por ti, e tu me respondias…Até na faculdade, lá estavas, mãezinha querida, e, mesmo que os meus desejos e anseios ficassem abafados dentro de mim, e por vezes invejasse a liberdade das jovens minhas colegas, afastadas dezenas e até centenas de quilómetros dificilmente transponíveis numa época de estradas esburacadas, do controle familiar pela necessidade que o estudo lhes impunha, saber-te ali, à distância de um abraço, dava-me uma sensação de profundo aconchego…e adorava ouvir-te cantar, sentia orgulho por cantares tão bem, e tentava aprender as canções que tu cantavas, e, às, vezes, cantávamo-las as duas…lembras-te?
Por vezes, mãezinha querida, sinto desejos de saltar para o teu colo (dava cabo de ti, eu sei), ou para as costas de uma cadeira, feita outra vez menina, pentear os teus cabelos, deixar-me embalar pelas tuas canções e voltar ao mundo mágico da infância onde tudo ainda é possível…
Oxalá os meus filhos venham algum dia a possuir de mim recordações tão serenas como aquelas que eu guardo de ti, quando um dia lhes der para a nostalgia…se é que algum dia lhes vai dar para isso… quando estou distraída e começo a cantar, pedem-me que me cale, que os perturbo…
As brincadeiras que eu tinha com eles, quando às vezes as recordo, eles não se lembram delas, dos momentos tão maravilhosos que me deram, da felicidade imensa que eu sentia, por serem tão lindos, saudáveis, carinhosos, meigos, educados, por serem parte de mim… Nunca foram miúdos de birras…foram sempre uns queridos…mas em mim permanece a angustiante dúvida:
Será que eles sentiram que nada de mal lhes poderia acontecer quando eram pequeninos? Albergaram nos seus coraçõezinhos os tais estados de alma a que todas as crianças têm direito para poderem crescer harmoniosamente e serem felizes?

terça-feira, 18 de maio de 2010

Chegaram as andorinhas

Meu Deus! Chegaram as andorinhas!
Um gorjeio eufórico e característico obrigou-me a levantar a cabeça do meu trabalho. Vi-as, voando perto de mim. E, num flash, também eu voei até à minha infância, a um momento preciso…
Eu era muito pequena ainda, mas registei fotograficamente esse momento. Vivíamos no segundo andar, na casa da praça, e eu cheguei ao quarto dos meus pais que tinha três janelas altas e rasgadas, com a parte superior ovalada e através das quais eu só conseguia vislumbrar o céu, dado o meu tamanho. Então arrastava uma cadeira e ficava empoleirada a observar, através da janela que dava para a praça, as pessoas que passavam lá em baixo, o pátio que conduzia à entrada da loja onde o meu pai trabalhava, e a vê-lo entrar e sair, ocupado nos seus afazeres. Mas, naquele momento, ainda antes de ter tempo para arrastar a cadeira para perto da janela, fiquei a olhar o céu…
Vi uns pontos negros a fazerem acrobacias no céu, a aproximarem-se e a afastarem-se em círculos ora mais largos ora mais apertados, acompanhados de uns chilreios hilariantes, e a minha alma desatou a cantar de alegria. Identifiquei-os como pássaros. A minha mãe entrou no quarto, pegou em mim ao colo, aproximou-se da janela e disse:
__ São as andorinhas, filha, chegaram as andorinhas.
Fixei o tom alegre e jovial da sua voz.
Chegaram. O mesmo sentimento de ingénua felicidade que experimentei nessa tarde em que as vi cruzar o céu apossou-se de mim. Recebi-as no quintal da minha casa, sentada a uma mesa redonda de ferro enquanto corrijo os trabalhos dos meus alunos, com o mesmo encantamento, passados quase cinquenta anos.
É fantástico o poder dos sons, dos ambientes, que nos transportam àquilo que pensávamos sepultado no fundo das nossas memórias.
Sinto-me feliz!
É já a festa da primavera que me invade os sentidos, os verdes caprichosos das ramagens das árvores orquestradas pela aragem e pelas variadas vozes dos pássaros que respondem uns aos outros, em desafio.
Do meu lado esquerdo, eleva-se, cadenciado, um assobio, num tom monocórdico, que se sobrepõe ao dos outros pássaros. Os sons vêm de todo o lado, parecendo convergir, num coral perfeitamente organizado.
É esse coral que me penetra os sentidos, se mistura com os cheiros da Primavera, e me deixa num êxtase de extrema felicidade.
As árvores que se elevam à volta do meu quintal, parecem entreter-se em amena cavaqueira…A expressão corporal desses seres tranquilos, é verdadeiramente peculiar.
Os ramos das tílias dos quintais vizinhos parecem animados de vontade própria, segredando sei lá que inconfessáveis segredos, ora assentindo, movimentando-se em sentido vertical, para cima e para baixo, ora de um lado para o outro, horizontalmente, como em desacordo com o que se lhe propõe …Agora calaram-se as tílias, e são os ramos das árvores mais pequenas que tomam parte na conversa, e defendem as suas posições, atentamente ouvidas pelas mais velhas.
De entre os vários tons de verde do meu jardim, destacam-se as enormes pinceladas de cor das azáleas brancas, rosa-fúcsia, salmão. A cameleira, que os cuidados do “jardineiro de serviço” mantêm anã, brinda-nos com as suas camélias de um vermelho escuro.
Um grande bando de pardais larga as ramadas onde se encontra, e risca os ares, numa estrepitosa algazarra, afastando-se em grupos para de novo se voltarem a encontrar, num jogo que me faz lembrar a apanhada da minha meninice…
São tão tagarelas os pássaros…Cada um na sua conversa diferenciada, respondendo, quem sabe se altercando. Que pena eu não saber distinguir a voz de cada ave!
Já fui dar uma volta aos ninhos que ficaram do ano passado. Mas ainda estão vazios…Este ano, com a morte da cadela, as andorinhas estarão mais tranquilas, sem precisão de andarem com o coração sobressaltado.

**********

Coisa estranha…Voltei aos ninhos, e este ano não foram ocupados… logo agora, que a ausência da cadela lhes permitiria estarem à vontade…Será em sinal de luto, pelo bicho que os acolhia com latidos de alegria, e, que eu saiba, nunca lhes fez mal?
Uma coisa é certa: o local que ela escolheu para morrer, foi junto dos ninhos vazios…Por vezes eu deparava, cheia de mágoa, com alguns passaritos mortos, ainda sem penas, caídos do ninho…A Daisy sempre “respeitou” os frágeis cadáveres e nunca me apercebi que ela tentasse, sequer, alcançar o ninho que todos os anos aí construía um casal de pardais…E, se os pardais aí continuavam a construir, ano após ano, era porque se sentiam seguros, uma vez que, não sendo o local muito alto, bem podia ser alcançado pelos saltos desta cadela ou pelas suas manhas, que ela tão bem pôs à prova durante os anos em que viveu connosco.

Sorri, menina,sorri...

Que peso transportas
Em ombros tão frágeis
Que duras e vis
São essas imagens?

Menina tão doce,
De sorriso triste,
Que imagens medonhas
São essas que viste?

Que mágoas se escondem
No teu coração?
Quebraram-te o mundo
Da doce ilusão!...

Sorri, menina, sorri,
Que o bicho-papão,
Já não mora aqui!

Ai se eu pudesse
Tuas dores afastar
Contava-te o sonho,
Dava-te o luar!

Dava-te o luar...
Que a inocência perdida,
Não ta posso dar...

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Poema à mãe

Quero partilhar neste espaço o meu poema preferido de Eugénio de Andrde.

Releio-o sempre com emoção.Assim tê-lo-ás à mão,Sophie.


No mais fundo de ti
Eu sei que traí, mãe.

Tudo porque já não sou
O retrato adormecido
no fundo dos teus olhos.

Tudo porque tu ignoras
Que há leitos onde o frio não se demora
E noites rumorosas de águas matinais.

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
São duras, mãe,
E o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
Que apertava junto ao coração
No retrato da moldura,

Se soubesses como ainda amo as rosas,
Talvez não enchesses as horas de pesadelos.

Mas tu esqueceste muita coisa;
Esqueceste que as minhas pernas cresceram,
Que todo o meu corpo cresceu,
E até o meu coração
ficou enorme, mãe!
Olha_queres ouvir-me?__
Às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos,

ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;

Ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
No meio de um laranjal…

Mas __tu sabes__a noite é enorme,
E todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber.

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas.

Boa noite. Eu vou com as aves.

Eugénio de Andrade

O trevo

Peguei na semente
Que me deste
E ajeitei-a no berço
De carinhos vesti meus dedos
Cobri-a de terra
E afagos em redor.

Reguei-a de esperança
E de cuidados
E aguardei o milagre.

Todas as tardes a terra
Do seu amado
Namorada espreitava
Palpitante o regresso

Reguei-a de esperança
E de cuidados
E aguardei o milagre.

Do segredo da terra
Frágil e verde espreitou
Uma cabecita hesitante.
Fino e tenro fio rosado
Dela fiel amante
Um bailado à vida encetou.

Reguei-a de esperança
E de cuidados
E aguardei o milagre.

Folhinhas abertas
A gritar as quatro
No trevo assumida
A consumação do milagre.