"Todos os meus versos são um apaixonado desejo de ver claro mesmo nos labirintos da noite."
Eugénio de Andrade

domingo, 5 de maio de 2013

Nos olhos de minha mãe


E o outono vai avançando                                        
Legando pelo caminho                                             
Inefáveis traços da sua voragem                              
E descem tardes soturnas                                            
Veladas de rendilhadas neblinas
Vergando-se à sua passagem

Ainda se acendem sóis
Porém,                 
De manhãs primaveris                            
De outrora                                                
Nos olhos da minha mãe

E o outono vai tecendo
Nítida teia de seda
Onde já florescem douradas
Redondas pérolas de âmbar
Em sua tez delicadas.

Ainda rumorejam águas
Porém
Saltitando dos córregos
Da minha infância,
Nos olhos da minha mãe

E o outono vai tingindo
Seus cabelos de fios de prata
E em suas mãos de labor
Sobressaem já azuladas
Veias finas e diáfanas

Ainda cantam rouxinóis,
Porém,
Trinando nas tardes soalheiras
De então,
Nos olhos de minha mãe.

E o outono e a minha mãe
Em sintonia perfeita
Estreitam sua união.
Cobre-se de outono
A natureza
E treme o meu coração.

terça-feira, 30 de abril de 2013

Ninhos


Acordo sobressaltada com os gritos das crianças. Tateio o interruptor, mas não há luz. Salto da cama. A sombra da cerejeira agiganta-se, ameaçadora, na parede do meu quarto. Às apalpadelas vou avançando pelo corredor, tão depressa quanto a escuridão me permite. A sapateira aparece-me à frente, barra-me o caminho, e eu dobro-me instintivamente pela cintura, enquanto um grito de dor se me escapa por entre os lábios. Contorno o móvel e avanço. Os gritos das crianças são mais urgentes, e denunciam terror. Grito-lhes, tentando acalmá-los. O meu filho mais velho costuma ter pesadelos que me obrigam a ir ter com ele, abraçá-lo e acordá-lo. Mas agora, o meu coração diz-me que não pode ser um pesadelo. Os gritos são de ambos, e vêm do quarto deles.
— A mamã está a ir! Calma!
É então que ouço três golpes surdos, e, logo a seguir, os gritos das crianças param. Começo a ouvir gritos descontrolados, e só alguns momentos depois me apercebo que sou eu quem assim grita. Passos pesados afastam-se em direção ao jardim. A janela ao fundo do corredor está aberta, e as cortinas esvoaçam ao vento. Um urro de pânico sai-me do peito.
— Nãaaaaaaaaaaaaao!
O meu coração galopa desenfreadamente. Sinto as lágrimas quentes rolarem-me pela cara. Os soluços engasgam-me e uma dor atroz no peito mal me deixa respirar. Parece que nunca mais alcanço o quarto das crianças. Um outro urro sai-me da garganta e eu ouço-o claramente a fazer eco dentro do meu peito.
Olho à minha volta, sem perceber onde estou. São precisos alguns segundos para reconhecer a familiar e tranquila atmosfera do meu quarto. A pouco e pouco acalmo-me. Verifico as horas no telemóvel. Dez e vinte! O Eduardo há muito que se levantara. Que disparate! Porque dormira eu até tão tarde? Acordara por volta das quatro e meia para urinar, estivera bastante tempo acordada, acabara por adormecer e ter aquele pesadelo absurdo! Tenho que telefonar ao Hugo e ao Sebastião. Preciso de me certificar de que estão bem. Claro que nem lhes vou falar naquele pesadelo tonto!
Desço as escadas, tão incomodada como aliviada. Começo a preparar o meu pequeno-almoço. O ruído que me chega do terraço atrai a minha atenção para a janela da cozinha. Vejo um jovem desconhecido, a segurar um volume de telhas preso por um cordel. Só então me lembro de que hoje vinham mudar o telhado. Chove nos quartos dos garotos, e, como não fomos previdentes ao ponto de termos guardado algumas telhas quando construímos a casa, temos que substituir todo o telhado. As fábricas de telhas ganham um dinheirão com pessoas incautas. Devia ser proibido mudarem o encaixe das telhas. Por meia dúzia de telhas, as pessoas são obrigadas a substituírem todo o telhado. Antigamente, um telhado era para uma vida…Agora, tudo é efémero!
Aproximo-me mais da janela. De repente, os meus olhos poisam aterrados, num espetáculo indescritível! O chão do terraço está pejado de destroços de ninhos, e ovos esmagados lambuzam as palhas e as penas dos escombros, que ainda mantêm o seu formato. Uma onda de uma raiva imensa começa a inundar-me. Sinto um calor no rosto, e, por momentos fiquei literalmente cega. Abro a porta da cozinha, corro para fora, a gritar:
 — Assassinos! Que é que fizeram? Assassinos! Assassinos!
O meu marido surge à esquina da casa, fita-me alarmado, com um ar estranho, e agarra-me. Eu debato-me, com os punhos cerrados, e continuo a gritar:
 — Assassinos! Assassinos! Assassinos!
Ao mesmo tempo que Eduardo grita o meu nome, dá-me duas bofetadas. Eu desato a soluçar convulsivamente. Consigo vislumbrar o ar dos trabalhadores que, entretanto, acorreram, paralisados pela surpresa. Eduardo conduz-me para dentro de casa. Deita-me no sofá, enquanto eu descarrego a minha dor. Não tem palavras de conforto para mim. Cobre-me com a manta do sofá, e deixa-me só. Acabo por adormecer de exaustão. Quando acordo, são quatro horas da tarde.
O meu marido está lá fora, sentado no terraço, com uma cerveja na mão. Conheço bem aquela sua pose. As asas do nariz oscilam ritmicamente. Está zangado, muito zangado. No terraço já não há vestígios dos ninhos. Aproximo-me. Calmamente, pergunto:
 — Porque destruíram os ninhos?
Eduardo poisa a garrafa que segurava  na mão. Olha para mim, com um ar acusador:
— Estás ciente do ridículo a que me expuseste?
 — Os ninhos…Porque destruíram os ninhos?
 — Sónia!...O que é que se passou aqui?
— Isso pergunto eu! Destruíram os ninhos, os ovos dos pássaros!...Eles confiaram em nós! Sabiam que podiam vir todas as primaveras, construir aqui os seus ninhos e as suas famílias, que estavam protegidos! E agora…
 — Mas o que é que tu querias? Acorda, mulher! Era preciso mexer nos ninhos, para mudar o telhado! Os ninhos estavam por debaixo das telhas! Não tenho culpa que os trabalhadores destruíssem os ovos! Mas, de qualquer maneira, os pássaros iam enjeitar os ovos, depois de lhes terem tocado! O que me preocupa…
Eduardo respirou fundo, focou qualquer ponto distante à sua frente. E continuou:
— O que me preocupa, é a tua reação inexplicável! Parecias louca, ouviste? Louca! Uma reação completamente desajustada à situação! Tive que mandar os homens embora! Deves-me uma explicação!
Suspirei. Cansada. Triste. Apercebi-me de que ele tinha razão.
 — Desculpa. Mas agora… não posso. Talvez…quando estiveres disposto a ouvir-me sem essa raiva…sem me julgares… Quando estiveres disponível para me ouvires e te libertares dessa impressão de que te coloquei mal perante os outros…neste momento…os outros são quem menos me interessa. Estou muito cansada.
Avancei para o meu quarto. Bebi um copo de água. Deitei-me. Não queria ouvir nada. Não queria pensar em nada. Mas continuava a pensar nos pobres pássaros, que viram a sua família destruída. Haviam de querer voltar para os seus ninhos, chocar os ovos, e não havia ninhos, nem ovos…Esta primavera não haverá pássaros no meu jardim…E não sei se haverá nas primaveras mais  próximas. Como se terão sentido eles, ao assistirem impotentes à destruição dos seus lares, os ninhos, ao massacre dos seus filhos potenciais!
Foi então que me lembrei do sonho! Já o tinha esquecido!
Levantei-me de novo, e desci ao jardim, onde Eduardo continuava sentado no mesmo sítio onde o havia deixado.
— Eduardo, quero contar-te uma coisa. Um sonho. Ou melhor: um pesadelo que tive esta madrugada.
Eduardo ouviu-me, sem uma palavra, sem um comentário. Quando terminei, ele abriu-me os braços, acolhedores. Sentei-me no seu colo. Abraçou-me, longamente. Aninhei-me nos seus braços, e ele beijou-me os cabelos. Ficámos assim, sem falar, durante alguns minutos. Finalmente, ele perguntou:
— Não tens fome?








terça-feira, 26 de março de 2013

A Concertina




Na casa do ti João era uma verdadeira animação. Do nascer ao pôr-do-sol, não havia lugar para tristezas. Não que a ele lhe faltassem motivos para andar mais macambúzio um dia ou outro, com acontecia a qualquer mortal, mas o ti João, quando algo o atormentava, agarrava-se à sua concertina, tocava, tocava, tocava, e até as pedras  despertavam…Era o animador de festas, casamentos  e romarias das redondezas…Festa onde estivesse o João da concertina, era diversão assegurada…
A mulher acompanhava-o a mais das vezes nas suas rondas, cantando e  dançando  as modinhas que o seu João tirava daquele instrumento, encorajando os mais tímidos a participarem no arraial, dando  o seu pezinho de dança….
Não havia na aldeia onde nasceram e viviam casal mais alegre … Criaram os filhos, ao som da concertina, e os males sempre lhes pareciam apoucados, debaixo do ritmo daquelas pitorescas melodias.
Mas, como não há mal que sempre dure, nem bem que nunca se acabe, a passagem do tempo trouxe com ele a velhice, o desgaste natural…O ti João, já entrado em idade, apercebeu-se que a sua hora de prestar contas a Deus se aproximava… Então teve uma conversa com a mulher:
— Olha, Maria, tu foste sempre uma boa companheira… Mas eu, já cá não vou andar muito tempo…Por isso, quero pedir-te…Sabes como a concertina fez parte da nossa vida…Era o nosso divertimento…Tu não sabes tocar… e eu…talvez ainda dê alguns acordes lá no sítio para onde vou…Tu que dizes?
— Tu queres levar a concertina, não é, homem?                                               
— Pois queria…se te não importas…se não te fizer falta…
— Mais do que a concertina, quem me vai fazer falta és tu, homem de Deus…— disse a ti Maria, com a lágrima a espreitar-lhe no canto do olho…
O ti João não sobreviveu muitos mais dias a esta conversa. E a concertina lá foi ajeitada no caixão, como tinha pedido o moribundo. E, de entre o choro das carpideiras sobressaíam os gritos da Ti Maria, numa dor tão pública, tão genuína, tão desvairada:
— Ai meu rico homem! Homem da minha alma, que levas o nosso divertimento entre as pernas!
Só quem não os conhecesse poderia fazer juízos injustos perante a manifestação de tão sentida separação.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Não me apetece...


 

Hoje não me apetece escrever

Nem sair, nem sonhar, nem ler.

Estou encapotado em mim mesmo

Rosnando na minha lura

Fria, húmida, viscosa, escura.

A crescer dentro de mim o negrume

Imposto por minha imposta clausura.

 

Hoje sinto asco de ser.

De pertencer à mesma miserável

Raça humana que com desumanidade 

Abaixo de animais

Arrosta as mulheres suas iguais

 

Não pode haver humanidade

Em quem isento de bravura

Vestido da mais chã vileza

Mulheres frágeis subjuga

A pretexto de sua ostensiva beleza

 

Cinco  brutas feras…

 

Num execrando ataque bestial

De uma jovem a vida deceparam

A coberto de impunidade usual

Sua frágil intimidade retalharam

 

Que ninguém me diga para esquecer

Que ninguém me diga para perdoar e não ver…

 

Pertencer à raça humana me recuso

A partir de hoje dela não mais farei uso.

Vou partilhar a casota do meu cão

É nele que reconheço meu irmão.

 

domingo, 6 de janeiro de 2013

Prisioneira


Olhava para eles, sentados à volta da mesa. Via-os sorrir, trocarem olhares mais ou menos entendidos, ou até desaprovadores. Media os seus gestos, adivinhava-lhes a direção dos olhares, a impaciência traída na dança inquieta das pernas debaixo das mesas, o nervosismo nascendo no tamborilar dos dedos, ou a confiança latente no recostar lento e largo nas costas das cadeiras…
Prisioneira dentro do muro quase inexpugnável que a vida e a minha própria negligência construiram entre nós, por vezes a minha voz elevava-se exterior a mim própria e à minha vontade, escapava-se por uma qualquer brecha inadvertidamente aberta no muro do silêncio que me envolvia e me protegia. Mas o comentário que então saía, quase como um eco interior, era invariavelmente acolhido ora com intolerante ironia, ora com o condescende comentário de algum dos meus netos:
_ Não sabes de que falas, pois não, avó?
Qualquer palavra estava a mais, falhava o alvo, era desadequada, inoportuna…Deixei de ouvir definitivamente. E de opinar. Encerrei-me cada vez mais na minha surdez protetora, eu, os meus livros, os meus rabiscos e as minhas recordações…Felizmente ainda me resta alguma vista…ainda que tenha que ler com as folhas quase coladas aos olhos. Abençoo os dias de sol, que me permitem errar pelo quintal, com passos lentos e titubeantes, olhando os pássaros, as nuvens no céu, os canteiros adormecidos, as árvores…Mas também os dias de chuva e vento, dormitando à volta da camilha, sonhando com a minha juventude, com os filhos ainda pequenos, quando as minhas palavras ainda se ouviam…
Já só me resta esperar.
 
 
 
 

domingo, 9 de dezembro de 2012

Nunca mais foi Natal

Sempre que mais um Natal me bate à porta, chega com ele a mesma sensação, um misto de engano e desilusão que em pequena me abalou, ao ver, escondida no roupeiro do quarto dos meus pais, uma boneca que, alguns dias passados, viria ocupar o lugar junto do sapato à beira da minha cama de miúda, na manhã daquele dia de Natal. Apesar de ter desaparecido da minha vista há muitos anos, ainda hoje essa boneca vive comigo: toda ela era em plástico: as pálpebras de cílios pintados de castanho-escuro, desciam sobre uns olhos azuis fixos de vidro, os cabelos curtos, de um  castanho dourado pintado sobre o plástico em relevo, simulando os caracóis, e um vestido que era o meu encanto, de chita azul às pintinhas, de linhas direitas, cuja bainha terminava num folho vermelho com pintinhas brancas. Os braços e as pernas eram articulados, e ela podia sentar-se. Os sapatinhos eram brancos, presos por umas correias à volta do tornozelo. A grande novidade, é que os sapatos eram verdadeiros, e não apenas pintados. Dias antes, eu havia descrito com um verdadeiro entusiasmo aquela boneca à minha mãe, que vira na montra do Ti´ Orestes. Esta era à prova de banhos, e eu estava salva de a ver desfazer-se-me nas mãos, como acontecera em tempos à velha boneca de papelão, quando decidira dar-lhe banho, com a conivência do meu irmão. Ai se o Menino Jesus ma trouxesse…
E agora, ali estava ela, no armário. De repente, eu percebera…Mas recusava-me a acreditar no que assim me entrava, sem licença nem prévia preparação, pelos olhos adentro. Ainda guardara a esperança de que tudo não passasse de um engano…de que houvesse alguma explicação que me mantivesse embalada naquela fantasia. Mas quando, naquela manhã fria, saltara da cama, e dera com a boneca junto do meu sapatinho, a imagem do Menino Jesus, em vestido claro, com os pés descalços e frios, varreu-se-me do espírito, e eu só pensava que andara a ser enganada.
A posterior explicação mal-amanhada dos meus pais, tentando remediar aquele impacto negativo que eles imediatamente terão percebido, de que era o Menino Jesus que dava saúde aos pais para ganharem dinheiro para comprarem os presentes aos meninos, e de que eles seriam os intermediários, colou muito mal. E os natais posteriores, foram insípidos, sem aquela magia que me fazia sentir irmanada do Menino Jesus, que se levantaria da sua cama, e viria, também ele cheio de frio, colocar os presentes nos sapatinhos dos meninos. Na minha mente, era esse o meu Menino Jesus, um menino lindo e louro, simplesmente vestido, com a idade próxima da minha, que eu vira numa folha de um calendário religioso, e que adotara. Mas agora, ele desvanecera-se, e em seu lugar ficara um desgostoso vazio. Foram precisos alguns anos para me reconciliar com o Natal. Mas nunca mais foi o mesmo.


segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Recomeços

Todos os sábados, ainda o alvorecer tardava, já Engrácia e Reinaldo tinha largado a cama. Enchiam as canastras com as frutas e legumes da época, e partiam, a pé, na companhia de outros camponeses, rumo ao mercado de Loriga. A dureza do caminho seria compensada no regresso, já aliviados da carga, mas com   as algibeiras recheadas de notas e os sacos de pano a rebentarem com o peso das moedas.
Naquele sábado, Engrácia deixara o aconchego da cama com o coração algo pesado. O seu Reinaldo não poderia acompanhá-la. Uma dor que se lhe ferrara nas costas, já ia para três dias, e que mal o deixava mexer, obrigava-o a guardar o leito.
Engrácia já deixara de véspera a canastra forrada com folhas de figueira, mas agora era preciso enchê-la com a fruta. A Ermelinda da ti Rosa, não estava com aqueles cuidados, e deixava tudo pronto na noite anterior, mas Engrácia sabia que aqueles preparativos feitos antes de sair, eram o segredo para que as clientes habituais a procurassem, não havendo em todo o mercado quem tivesse fruta mais bonita, mais fresca, mais cheirosa, mais tentadora. E os seus pêssegos redondos e aveludados, os figos roxos e verdes, os tomates duros e rubicundos, as uvas douradas e negras, os pimentos verdes e suculentos, as ameixas e os abrunhos carnudos e brilhantes, os melões de casca verde, e de polpa alaranjada, os pepinos rijos e luzidios, as cebolas doces ou picantes, eram a garantia de uma bolsa cheia. Em nenhuma outra feira, as vendas corriam tão bem! Os loriguenses acorriam à praça, e trocavam os géneros pelo dinheiro, sem grandes regateios. Ela sabia que naquela aldeia a fruta escasseava. Os camponeses preferiam comprá-la a quem vinha das aldeias próximas, a verem os campos pilhados e vandalizados, o renovo calcado, as colheitas comprometidas pelos assaltos da garotada da aldeia às árvores de fruto. Mas a ela, quem a procurava, eram sobretudo as senhoras ricas, que gostavam do que era bom, e podiam pagar bem pela sua fruta.
Estava a Engrácia a colocar o farnel na amieira, e a Almira do ferreiro a gritar-lhe à porta, para que se despachasse. Foi apressadamente despedir-se do seu Reinaldo. Antes já o havia acomodado com o mata-bicho, e deixara-lhe numa mesita oval que empurrara para junto da cama, resguardados por um alvo pano de linho, pão, queijo, chouriço e uma garrafa de vinho. Dobrou a rodilha que colocou sobre a cabeça, vergou-se pelos quadris, e, como não lograsse elevar a canastra, gritou:
 — Ó Almira! Ó Almira! Dá-me aqui uma mão, pelas almas!
Colocada a canastra à cabeça, vacilou com o peso da fruta, mas respirou fundo, fez força nas pernas, e lá se recompôs.
Cá fora, o Alberto da senhora, o Ramiro, a Leontina e o Zé da Ponte.
— Então o ti António? — perguntou Engrácia.
— Foi andando com o Tó Sêmeas — esclareceu Alberto.
— E o Reinaldo está melhor?
— Passou melhor a noite, se queres saber…Mas ainda se queixa muito.
Todos exibiam fruta e legumes de qualidade. Os pêssegos do Zé da Ponte eram mais pequenos, mas iam encontrar também clientela certa para eles. Naquela praça, era raro algum deles voltar para casa sem vender o que levava. Vendia-se tudo, com a graça de Deus. A fruta mais fraca era vendida mais barata, a quem não podia pagar tanto.
Na aldeia, correu tudo como esperavam. Muito dinheiro havia naquela terra! As fábricas de lanifícios e a metalúrgica, as pequenas empresas artesanais de manufatura de queijos e enchidos, asseguravam o dinheiro certo nas algibeiras dos fregueses.
De regresso, Engrácia pediu aos companheiros que fossem andando.
— Já vos alcanço! Vou levar estes pêssegos à senhora do senhor doutor, que mos apalavrou na semana passada. Ó Almira, podias levar-me a amieira.
— Dá cá! Hoje apanhaste-me bem-disposta!
Os companheiros de Engrácia foram seguindo caminho. Depois de entregar a encomenda e receber o dinheiro, foi direita à loja do sr. Manuel. Olhou a resma de cortes de tecido que estavam empilhados à porta, e lançou os olhares cobiçosos a um tecido adamascado, com um lavrado de grandes rosas acetinadas, que ela já namorava há que tempos. Ficou-se ainda um bocado à porta, antes de entrar, antecipando o momento em que chamaria seu àquele belo corte. Pediu para ver os tecidos, fingindo não saber ainda o que queria. Depois de tocar vários, virou-se então para o objeto dos seus desejos. Passou a mão ao longo da fazenda, e um frémito de prazer percorreu-lhe o corpo. Mostrou-se indecisa, apenas para prolongar aquele momento. Quando saiu da loja, apercebeu-se que se demorara bastante mais tempo do que tencionara. Iria fazer o percurso sozinha, a menos que os companheiros tivessem parado para esperar por ela. Colocou a canastra vazia debaixo do braço, junto aos quadris e o embrulho de papel pardo na taleiga de pano, junto do maço de notas presas com um elástico. Chegou-se a um recanto, olhou em volta, e, não vendo ninguém, ajeitou rapidamente debaixo do avental e da saia a algibeira que lhe pendia da cintura, onde guardava as moedas envoltas num lenço, e lá foi caminhando. Iria mandar fazê-lo à Alice costureira, e estreá-lo na festa da padroeira da terra. Aquele tom de azul iria realçar ainda mais a cor dos seus olhos. Tinha que se despachar, senão chegaria a casa de noite.
A aldeia foi ficando para trás, e a o sol já esmorecia no horizonte. Ia tão entretida nos seus devaneios, que se sobressaltou quando ouviu aquela voz:
— Então a feira foi boa?
Engrácia levantou os olhos, e o coração não lhe adivinhou nada de bom. Aqueles dois maltrapilhos encardidos que assim se lhe atravessavam ao caminho, estavam a preparar-se para lhe roubar o dinheiro, ou ainda pior. Nas roupas surradas e cobertas de poeira, era impossível descortinar a cor original que elas haviam tido. O mais alto trazia à volta da cintura, presa por um cordel, uma galinha com o gargalo decepado, por onde ainda escorriam uns pingos de sangue. Seria pateta o sorriso constante na cara do outro, não fora a gruta em que assomavam os poucos dentes tortos e cariados a torná-lo patético. Na mão uma fisga, com a qual brincava, baixando-se a espaços para apanhar uma pedra que depois atirava para o ar. Tinha que pensar rápido:
— Não foi má, não! Mas que boga! Aquele bebedolas do meu homem vai estoirar tudo na taberna! Estou-lhe cá com uma raiva!
— Então mas porquê, senhora?
Quem falava era o mais alto. O outro limitava-se a pontuar a conversa com uns esgares ruidosos que só vagamente lembravam gargalhadas.
— Ora, porque havia de ser? Entrámos na taberna do ti Aleixo a comer umas sardinhas, vai o meu homem pegou-se numa aposta com uns bêbados como ele, e agora vai estoirar o dinheiro todo!
— Todo, menos o que traz consigo!
— Pois isso é que me dá mais raiva! Vossemecê é que não conhece o meu homem! Mas eu, que já sei como ele é, bem que queria ser eu a trazer o dinheiro, mas qual o quê! Não me deixou ficar nem um tostão para amostra! Cabrão! Pus-me a mexer dali para fora! Agora há de ser tarde que me chegue a casa.
 E, antes que ele perguntasse o que levava na taleiga de pano, pegou nela, e mostrou-a, enquanto explicava:
.— Vi-me negra para lhe arrancar uns míseros escudos para comprar uma chita para uma bata!
.— Na taberna do ti Aleixo, foi? A gente vamos lá buscá-lo!
.— Cá por mim bem pode levá-lo o inferno! Se lhe dá uma veneta, ainda me mói o corpo com pancada!
Os dois facínoras riram-se um para o outro, e continuaram o caminho na galhofa, um a dar pontapés nas pedras, o outro a brincar com a funda.
Engrácia respirou fundo. O medo deixou-a coberta de suores frios. Não conseguia acreditar como escapara. Agradeceu mentalmente à senhora das Preces. Olhou para trás, e, vendo que os dois gandulos já se não viam, desviou-se do caminho e meteu-se pelo meio do pinhal, tendo cuidado para não calcar os fetos. O receio de que os dois homens voltassem para trás para se vingarem, quando descobrissem o engano em que caíram, dava-lhe energia suficiente para se embrenhar cada vez mais no interior do terreno. Procurou a nascente de granito onde tantas vezes se dessedentara, ela e os companheiros, que era costume estar seca naquela altura do ano. Se desse com ela, estava safa!...Os coirões, quando se apercebessem que ela os tinha enganado, bem podiam voltar por ela…Nossa Senhora das Preces o não permitisse! Quase às apalpadelas, lá encontrou a tão desejada nascente. Tentou acalmar-se, mas os temores escorriam-lhe pelas pernas, pelos braços, pelo corpo todo… Atirou a canastra e a taleiga para o chão, e deixou-se cair logo a seguir. Arrastou-se, sem forças, para dentro da ombreira de granito. Depois de algum tempo, já mais calma, tirou o avental, com o qual tapou as pernas, e tentou aninhar-se debaixo da canastra, para se proteger do arrefecimento da noite. Porém, apesar de manter as pálpebras fechadas, o sono não veio ajudá-la a passar o tempo. Ouviu todos os ruídos que acompanham a noite, aterrorizada. Pensou nos cuidados em que ficaria o seu Reinaldo, e a sogra, quando fosse saber deles. Coitado do seu homem, tão seu amigo, e tão negro que ela fora obrigada a pintá-lo. E ela, às vezes, tão ríspida… E, claro, o pai, a mãe, os irmãos…Ao saberem que ela não tinha voltado, iriam afligir-se tanto… Ainda bem que não tinham filhos (iria tê-los alguma vez? Eles já tardavam…), não teria de se preocupar com a preocupação deles…Depois rezou, rezou, e prometeu à Senhora das Preces, que, se chegasse sã e salva a casa, lhe mandaria fazer um manto para estrear na próxima procissão. O tecido já ela o comprara na venda do ti Manuel. Pensando bem, não precisava de vestido nenhum. E prometeu também nunca mais fazer o caminho sozinha. E ser mais meiga para o seu Reinaldo. E mais amiga da sogra. E dos irmãos. E… Ainda a aurora não rendera a noite, e já ela se punha de pé, sacudia a roupa, ajeitava o cabelo, decidida a novos recomeços. Resolveu, porém, esperar mais um pouco, até o dia estar completamente claro. Quando chegou ao caminho de onde se desviara no dia anterior, sentia-se ainda temerosa. E foi esse temor que a fez esconder-se numa berma, ao avistar ao longe um grupo de homens que se aproximava, a passo lento e cauteloso, com cajados com que varavam a vereda. Só quando ouviu gritar o seu nome, reconheceu o pai, os irmãos e outros homens da aldeia. Saiu então do esconderijo, e caiu nos braços do pai e dos irmãos, sacudida pelos soluços.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Mãe de carne e osso...

A mãe estava linda. Tinha um chapéu de palha azul-escuro, com fios de ráfia coloridos, que passavam por cima da copa e da aba do chapéu. O vestido cor-de-rosa tinha umas flores acetinadas em relevo, e a saia cingida ao corpo. À volta do pescoço, um colar com umas contas coloridas de formato irregular. E ela, soerguida sobre a areia, com as pernas nuas e os pés descalços, parecia fazer pose para uma fotografia. Lurdes sentia orgulho na sua mãe, de tão linda que estava. Naquele momento, não devia nada, absolutamente nada, à beleza e ao bom gosto da Chinha. Olhava à sua volta. Nenhuma mulher, mas mesmo nenhuma, estava tão bela quanto a sua mãe. Havia mulheres de bata a tomar banho pela mão do banheiro, entre as quais estava incluída a avó. Outras de saias, vestidos franzidos e coloridos, e ainda outras, bastantes, de fatos de banho, alguns com uma saiinha pequenina sobre as coxas, outros, só com pedaço de tecido à frente. Enfim, mulheres vulgarmente vestidas. Mas a sua mãe parecia ter saído de uma revista. Uma mulher linda de morrer, como as de papel. Por isso, não percebeu a razão pela qual, ao fim do dia, de regresso à casa alugada, a mãe declarara, numa voz que ela tão bem conhecia e que anunciava o desencadear de uma violenta tempestade, que ao outro dia ficaria em casa. Ouvira depois o pai, também nervoso, dizer à avó que ele é que sabia, que ela não tinha nada que se meter, que os tempos eram outros, e que pecado era roubar. 
E, ao outro dia, o longo percurso em direcção à praia fora feito apenas por Lurdes, os irmãos, e a avó de lábios cerrados a comandar a caminhada. Lurdes nem se atrevera a fazer perguntas. Reconhecia os indícios da tempestade e já sabia que era melhor nada perguntar. Mais tarde, bastante mais tarde, chegariam os pais. A mãe vinha despojada das jóias que no dia anterior a tinham enfeitado. Reconheceu-lhe o vestido simples, que ela própria tinha confeccionado, assertoado à frente por uma fieira de botões, e que ela já usara várias vezes. O pai entrou na barraca com um volume debaixo do braço, e saiu envergando uns calções de banho pretos, de malha elástica. Estava com uma ar bem-disposto e divertido, pouco habitual nele no dia-a-dia. No meio da barriga proeminente, uma clareira de pele branca, contrastava com a restante mancha serrada de pelos negros. A mãe tinha-se sentado à frente da barraca, a levantar montinhos de areia e a deixá-los escorregar por entre os dedos. Lurdes e os irmãos faziam covas na areia, com a ajuda das suas próprias mãos.
O pai dirigiu-se à mãe:
 — Então? Vai lá!
— Espera! Estou a ganhar coragem! Primeiro os miúdos!
Foi então que o pai se dirigiu à barraca e saiu de lá com o embrulho que tinha trazido. E foi uma alegria. Três baldes de plástico saíram do embrulho de papel pardo. Um amarelo, um vermelho, e outro verde. E três pás. E foi uma festa. Não houve luta na escolha dos baldes. Cada um chegou-se ao seu, naturalmente. Amarelo para a Lurdes, verde para o António, vermelho para o Gustavo. E, enquanto os garotos davam asas à sua felicidade, a mãe entrou na barraca e saiu, discretamente, com um fato de banho azul vestido. E Lurdes chegou-se junto da mãe, sem dizer nada, e os seus braços rodearam-lhe a cintura. A mãe deu-lhe um beijo no alto da cabeça. A avó olhou, fez um jeito esquisito com a boca, um jeito que Lurdes não gostava nada que ela fizesse, afastou o olhar e concentrou-o lá longe, no mar, durante muito tempo.
Lurdes achou que a sua mãe estava ainda muito mais bonita que no dia anterior. E que era uma mãe de carne e osso, como todas as mulheres naquele extenso areal. E que tudo estava em perfeita harmonia.
E foi uma família feliz que se dirigiu ao banho da tarde, enquanto a avó ficava de guarda aos pertences que estavam no interior da barraca.

De olhos fechados...

Estava desiludida. Sentira-se fora da sua pele, humilhada, ridícula, nessa manhã, na praia. Tantos preparativos, tanta excitação, e não pensara que nem toda a roupa era adequada para levar para o areal. Nem a Chinha, com toda a sua sabedoria, a salvara do ridículo. Também nunca iria saber. Percebera, ao olhar à sua volta, a falta que cometera. Aprende-se com os erros, pois claro! Será que ela, a outra, estava à espera que ela cometesse uma gafe daquela envergadura? Ou terá sido ela a ser demasiado ingénua? Não interessava agora! Era a altura de remediar a falha. Tinha que falar com toda a calma com o marido. Já gastara tanto dinheiro, e agora era preciso gastar mais! Nem lhe iria falar nas contas da D. Maria. Isso era entre as duas. Pagaria com o seu trabalho, pois então! Ela estava sempre a precisar de mãos experientes. E fora sua mestra, sabia muito bem quanto valia o trabalho de uma costureira diplomada, em que ela se tornara quando, após os seus ensinamentos, se candidatara a um curso de corte e costura. Claro que lhe fora fácil obter a certificação, pois não estava a começar do zero. E isso, era à D. Maria que o devia.
Mas aquela Chinha saíra-lhe uma peça! E durante meses ela entregara-se completamente nas suas mãos. “Tens que ter, pelo menos, dois fatos para sair, vestidos para o casino, sapatos a condizer…”
E ela, com receio de que a sua mentora desistisse de a conduzir por aqueles caminhos que exigiam regras de etiqueta tão rígidos, caminhos que ela nunca poderia caminhar sozinha, a tudo ia dizendo que sim. E só depois, em casa, afastada temporariamente daquela influência que lhe sugava o discernimento, caía em si, decidia que não precisava nem podia manter aqueles luxos, e, numa conversa cautelosa, tentava encontrar o meio-termo, “ um fato seria o suficiente, e dois vestidos de noite.”
A Chinha, depois de alardear bem alto, como se estivesse a convencer uma plateia (a plateia era apenas constituída pela Celeste, e, ocasionalmente, os filhos, que, perante aquela gritaria, ocorriam a ver o que se passava), de que não podia fazer má figura, não era nenhuma labrega, o marido iria gostar de a passear bela, bem vestida, iria sentir-se orgulhoso ao ver os olhares cobiçosos dos outros homens pousados na sua mulher, pois que olhassem, porque aquela era a sua mulher e de mais ninguém, era a sua. E colocar-lhe-ia os braços à volta dos ombros, puxá-la-ia contra si, para que todos os homens o admirassem por aquela bela mulher que ele passeava, a sua! Acredita, menina, os homens gostam disso… ora, filha, a minha sogra certamente não vai querer que tu pagues tudo de uma vez…vais pagando, querida, vais pagando…até com o teu trabalho…tal como tens feito até agora… as bainhas, chulear, alinhavar, pespontar, passar a ferro…é uma oportunidade única, menina, aproveita!... Vais ver que vais ter o teu maridinho caidinho por ti…não vai resistir…nunca mais vai ter olhos para nenhuma outra…
E a “menina” lá se convencia que aquela causa valia alguns sacrifícios. Afinal, nunca tinha saído dali…Merecia apresentar-se em grande na primeira saída daquele buraco situado lá no fim do mundo… Ele conhecia outra gente, outros mundos, por imposição do seu trabalho, é certo, mas não ela…tinha que ficar em casa, criar os filhos, que não lhe deixavam tempo para mais nada. Esta saída estava programada e prestes a acontecer. Quem lhe garantia a ela que haveria outras? Era aproveitar, portanto. Em miúda, invejava os ricos que partiam sempre no mês de Agosto para as praias. Era a D. Maria quem lhes tratava de enxoval para a praia, e pelas mãos dela, a aprendiz, passavam todos aqueles tecidos comprados na cidade, que a faziam sonhar, imaginar-se no lugar delas… Se não fosse a Cinha!... Sabia tudo! Lá no Congo vivia em grandes luxos, fazia vida em sociedade, via-se bem, pelas fotografias e pelo guarda-roupa que ela trazia! Sabia lá ela que precisava de roupa específica para ir à praia, outra para a tarde, outra para a noite, para passear no picadeiro, ou para ir ao casino…sabia lá ela, pobre dona de casa ao serviço do marido e dos filhos…ela sabia, isso sim, o que era bonito, sim, sabia, sabia que gostaria de usar aquela roupa, sim…os colares, as pulseiras…os sapatos… mas daí a destrinçar que aquela era adequada para a “matinée”, como dizia a Chinha, aqueloutra para passear, ou para o casino…nunca sequer se dera ao trabalho de pensar nisso…ai se não fosse ela…felizmente que a tinha por perto…tinha que ignorar os mexericos da sogra e da mãe, que constantemente lhe azucrinavam os ouvidos contra a pobre da Chinha, toda pintada e desgargalada, aquilo não eram modos de uma mulher decente!
Era boa rapariga, era sua amiga, e só queria que fizesse boa figura…ponto final! E era tão divertida! As histórias que ela contava…Dos amigos do marido, que andavam babadinhos por ela…Daquele que uma vez, num dos jantares importantes a que eles iam lá no Congo, descalçara os sapatos por debaixo da mesa, e começara, com os pés, a trepar-lhe pelas pernas acima…Credo! Aquilo era indecente! Mas a Chinha ria-se, divertida, dava gargalhadas altas e hilariantes…
Gostava daquele bâton vermelho vivo com que ela pintava os beiços e que lhe fazia sobressair os dentes brancos e bem tratados…ela era muito bonita…Muito morena, (até teria algum ascendente de raça negra), os lábios muito carnudos, os decotes generosos…”O que era bom era para se ver”, tinha ela rematado, com uma boa gargalhada, quando Celeste, timidamente, a sondara sobre esse assunto.
Era uma bela figura de mulher…e muito certa dos seus atractivos e ascendência sobre os homens.
O Leopoldo acabara por arranjar uma boa mulher…melhor do que ela seria… A D. Maria Fontes, ainda andou uns tempos sem quase lhe falar… O meu Leopoldo, dizia ela naquela voz sibilante, melosa e soprada, enrolando as sílabas …o meu Leopoldo, sabes, filha, pediu-me para te perguntar…o que achas tu…Ele gosta muito de ti…e já te conhece desde que nasceste…Que dizes?
 Deu um salto. E a agulha espetou-se-lhe na unha, e caiu uma gota de sangue na bainha do vestido da cliente. Foi uma trabalheira para conseguir limpar a nódoa sem a cliente perceber…O que vale, é que o vestido era estampado, com grandes flores cor-de- rosa, e a mancha que ficou, depois de se ter retirado a nódoa, desvaneceu-se no meio das pétalas das flores.
Mas não esteve com meias palavras. Ele era velho, e tinha os dentes e as unhas amarelos…
Ela tinha dezasseis anos, ele tinha trinta…Sempre fora seu amigo, é certo, a vizinhança, e o facto de ela ter passado grande parte da sua adolescência no salão da mãe, a aprender costura, proporcionaram o convívio e a amizade. E ele sempre fora simpático para ela…agora daí a casarem…E, afinal, ele até tivera sorte, está visto…ela era uma garota da aldeia, mas a Chinha estava preparada para a vida em sociedade, para aqueles bailes, jantaradas e caçadas com gente importante…
Se ela tivesse casado com ele, seria ela a ter aquela vida de princesa, servida por criados, a acordar tarde e a preguiçar toda a manhã, a tomar o pequeno-almoço na cama…E vestiria camisas de noite de seda e cetim, untar-se-ia com cremes para a pele se manter jovem e sedosa, e quando o Leopoldo chegasse para se deitar nos lençóis de cetim... TODO O ENCANTO DESAPARECERIA!

segunda-feira, 18 de junho de 2012

A alma dos contos

Levantou os olhos relutantes do livro em que estava embebida.
— Diga, Dona Eugénia!
— Uma substituição, professora, na sala 21.Sétimo B.
Com um suspiro, ela levantou-se da cadeira, fechou o livro, e colocou-o na prateleira de onde o havia tirado.
— A professora deixou plano?— perguntou.
— Não vejo aqui nada.
Enquanto deixava para trás de si a biblioteca, pensava que era preferível não haver trabalho deixado pela colega que estava a faltar. Assim poderia contar -lhes um dos contos do seu vasto reportório, como costumava fazer sempre que  era solicitada para aquelas aulas e não havia plano. Não era fácil enfrentar uma turma de adolescentes ao último tempo de segunda-feira, das dezassete e quarenta e cinco às dezoito e trinta, na expetativa de que não houvesse professor para fazer substituições. Ela estava na escola desde manhã, e os miúdos também. As aulas de substituição não eram benquistas. Muito menos àquela hora. Conhecia a turma. Tinha sido sua professora no ano letivo anterior. Miúdos irreverentes e desrespeitadores de regras, sem hábitos de trabalho. A adolescência, com todas as alterações que essa fase acarreta, agravara-lhes o comportamento. Todos os professores se queixavam. Individualmente, eram miúdos normais, alguns até amorosos. Mas a força que o grupo conferia a cada um deles, transformava-os numa turma com a qual era difícil trabalhar.
Ao chegar à porta da sala, ouviu gritos, e barulho. Quando a funcionária a viu, desabafou:
— Estão insuportáveis! Malcriados! Não têm educação nenhuma!
Passou-lhe o livro de ponto e saiu. Ela ficou ali, a olhar para eles, sem sequer darem pela sua chegada, ou melhor, a fingirem não a ver. Ninguém estava sentado no seu lugar, conversavam aos gritos uns com os outros, davam altas gargalhadas, alguns estavam sentados em cima das mesas. Ela nada disse. Dirigiu-se à secretária e esperou, de pé, braços cruzados. Alguns foram-se sentando, mas continuavam a fitar os colegas e a rirem-se. Depois de algum tempo, ela bateu com as palmas das mãos na secretária, e disse com voz alta e firme:
— Pouco barulho!
Algum barulho cessou, mas continuava um certo burburinho. Uma das miúdas estava sentada ao fundo, de costas para a janela, e pernas em cima da cadeira da colega. Esta não havia sido sua aluna no ano anterior.
— Sentas-te direita, fazes o favor.
A garota sentou-se direita, olhou-a com o nariz empinado, e disse:
— Está bem!
Ela pediu aos alunos que estavam ao fundo da sala, que viessem ocupar os lugares da frente que estavam vazios. Eles vieram arrastando-se, com má vontade. A rapariga a quem ordenara que se sentasse corretamente, já estava de novo com os pés na cadeira da vizinha.
— Já te disse que te sentasses como deve ser! Não me obrigues a tomar uma medida desagradável!
— Está bem, está bem!— resmungou.
— Menina, respeitinho!
— Mas o que é que eu fiz?— volveu, num tom desafiador
— Dá-me a tua caderneta!
— Não tenho!
— Então tens falta de material! Dá-me o teu caderno diário!
A garota estendeu-lhe uma folha em branco.
— Quero a folha onde tens os sumários, não uma folha em branco.
Escreveu o recado para o Encarregado de Educação, sabendo perfeitamente que mais valia estar quieta, pois aquele recado não iria mudar nada. Em seguida pediu aos alunos que fechassem as persianas e apenas manteve acesa a luz do quadro. Um dos alunos sugeriu:
— Ó professora, vamos buscar o comando, e vamos ver os vídeos para rir!
— Não! Vou contar-vos uma história.
O ar de enfado foi geral. Ela sabia o que eles estavam a pensar. Nos anos anteriores, muitos deles haviam frequentado a Hora do Conto que ela dinamizava, mas durante este ano, nenhum lá pusera os pés. Não podiam admitir que ainda gostavam de ouvir histórias, sob pena de serem alvo de troça dos outros.
— A história que vou contar-vos chama-se: “ O Príncipe Cobra”.
— Ora! Essa já a contou no ano passado! — desvalorizou  o aluno que sugerira os vídeos cómicos.
— Estás enganado. Esta contei-a pela primeira vez na penúltima sessão da Hora do Conto.
— Então mas no ano passado também contou uma história de um príncipe!— insistiu.
— Quase todas as histórias que contei no ano passado tinham príncipes, mas não repeti nenhuma.
O rapaz calou-se. Porém, como não conseguira fazer desistir a professora dos seus intentos, deitou a cabeça em cima da mesa, e fechou os olhos, no que foi seguido por bastantes colegas. Os que o não fizeram, olharam uns para os outros, hesitantes. Um ou outro foi seguindo aquele exemplo. Pretendiam desencorajar a professora, mostrar-lhe o seu completo desinteresse por aquela história. Se queria contar, que contasse para as paredes. Mas ela não fez qualquer reparo a esta atitude e foi contando. À medida que ia progredindo, exagerava propositadamente os momentos de suspense, prolongando-os o mais que podia. As cabeças iam-se levantando. Um a um, lá estavam eles, atentos, seguindo a narração. Ela pôde ler o impacto dos acontecimentos nos seus olhares, que assim desnudavam as suas almas. Leu-lhes a estupefação quando o príncipe se transformou em cobra devido à insistência da princesa para lhe revelar um segredo que queria manter, a tristeza e o desgosto que comungaram com a princesa, a curiosidade  perante os vestígios de lama no quarto da princesa,  a repulsa quando as cobras saíram do rio, o alívio quando o príncipe voltou à sua forma inicial, os sorrisos de cumplicidade quando os príncipes se estreitaram num abraço entre confissões de amor. E, quando, mesmo no final da história, ela concluía realçando a lição que a princesa aprendera, foi a aluna que a havia obrigado a escrever aquele recado, que fez coro com ela, dizendo que não se deve obrigar os outros a desvendarem os seus segredos, se o não quiserem fazer.
Mais uma vez ela tivera a prova do poder que os contos podem exercer ainda hoje na eficácia da transmissão de mensagens e como eles podem ser um forte auxiliar pedagógico.

Menina Triste

       Através da janela da casa da avó a menina observava os pássaros no telhado em frente. Lá ao fundo erguiam-se as janelas recuadas, e era como se alguém tivesse estendido a partir das janelas de guilhotina, um enorme lençol de telhas de barro castanho enegrecidas pelo tempo, pelo musgo, pelos líquenes e humidade. O telhado estendia-se à sua frente como se fora um terraço ondulado, e estava tão próximo, que parecia à menina poder tocar-lhe, se estendesse os braços. Mas não.
Os passaritos saltitavam, aproximavam-se uns dos outros e coçavam com os seus biquitos, as próprias penas e as dos companheiros. Os gorjeios penetravam a manhã triste, chuvosa e húmida. Impossível dizer qual seria a estação. A menina não sabia.
O café de cevada com pedaços de trigo e boroa migados, arrefecia esquecido em cima da mesa da cozinha forrada a oleado, com quadrados floridos vermelhos e verdes.
A menina não conseguia desviar os olhos dos passaritos.Olhava…olhava…olhava…Uma mágoa desmedida e funda ia alastrando como um nevoeiro adensando-se dentro dela, empurrando-a suavemente para o interior de si …
De repente, estremeceu. Foi como se  por algum tempo se tivessse ausentado dali. Olhou à sua volta. Tudo permanecia na mesma, menos ela. Pelo seu rosto corriam silenciosas lágrimas grossas e salgadas. No peito uma dor como um buraco aberto. A menina, sem saber porquê, sentiu pena de si mesma. E os soluços substituíram as lágrimas silenciosas.


sábado, 2 de junho de 2012

Voar mais alto

      Certo camponês encontrou, perdido, o ovo de uma ave, de um tom branco sujo, com umas manchas acastanhadas. Imaginou que poderia tratar-se do ovo de uma águia, devido ao seu aspeto e tamanho. Estava intrigado, pois sabia muito bem que as águias costumam pôr os ovos em penhascos, ou em árvores de grande estatura. A única árvore onde havia um ninho de águia, era ainda bastante distante do lugar onde encontrara o ovo! Dar-se-ia o caso de o ovo ter caído do ninho, e ter vindo a rebolar até ali? Fosse como fosse, iria levá-lo consigo. Pegou no ovo com todo o cuidado, e levou-o para casa, indo colocá-lo junto dos ovos de uma das suas galinhas, na esperança de que viesse a chocar.
      A galinha não estranhou aquele ovo tão diferente dos outros, e aceitou-o como se tivesse saído de dentro de si. Quando o ovo eclodiu, a águia passou a ser alimentada como as outras galinhas, com milho e ração.
Um dia, um biólogo que andava a fazer um levantamento das várias espécies que os camponeses criavam nas suas quintas, veio ter a casa deste camponês. Ao passarem no jardim, a atenção do biólogo foi canalizada para a águia:
— Essa ave não é uma galinha. É uma águia! — observou.
  — Pois é! — concordou o camponês — Mas eu  criei-a como galinha. Ela agora já não é águia, é galinha. Já se esqueceu da sua verdadeira origem. Ela faz como as outras galinhas, apesar das suas enormes asas.
— Não diga isso! Ela é uma águia. Pode ser tratada como galinha, mas tem coração de águia, e genética de águia. Ela não se esqueceu de quem é. Um dia ela voltará a cruzar as alturas.
— Está enganado! Foi tratada como galinha, e como galinha morrerá.
E cada um começou a insistir naquilo em que acreditava. Resolveram, por isso, fazer uma experiência. O biólogo pegou na águia, ergueu-a bem alto, e, desafiando-a, disse-lhe:
— Tu és uma águia, a rainha das aves, e o teu reino é o céu, e não a terra. Cumpre a tua natureza. Voa!
— A ave, em cima do braço do biólogo, olhava para um e outro lado em seu redor. E, vendo as galinhas que debicavam os grãos, voou dos braços do homem para o chão, para junto das suas companheiras.
O camponês mostrou um grande sorriso.
 — Eu não lhe dizia? Ela é uma galinha, ponto final!
— Não! Ela é uma águia, e uma águia será sempre uma águia. Não tenho qualquer dúvida. Ela só precisa de tempo. Se não se importa, amanhã tentaremos de novo.
       No dia seguinte, o biólogo pegou na águia e subiu com ela até ao telhado da casa do camponês. Depois sussurrou-lhe:
— Águia, ouve o apelo da tua natureza. Tu pertences aos céus. Foste destinada a voar. Por isso, voa!
       Mas, mais uma vez, a águia, ao ver as galinhas lá em baixo, a debicarem a terra, voou para junto delas.
     O camponês, mais uma vez, sorriu, e insistiu:
— Está a perder o seu tempo. Ela só conhece esta vida. Nunca será capaz de voar.
— Não vou desistir facilmente. Ela é uma águia. A sua consciência de águia poderá estar adormecida, mas está lá. Ela foi privada da liberdade, mas ela continua a ser quem é. Precisa de despertar os seus instintos de águia. Amanhã tentaremos outra vez.
No dia seguinte, ainda o sol se mostrava tímido, os dois homens levantaram-se e dirigiram-se para a serra, longe das casas e do bulício da aldeia. Caminharam durante algum tempo, até atingirem o cume da montanha. Nesta altura, o sol brilhava esplendorosamente, espalhando laivos doirados nos píncaros da montanha.
         Uma vez aí chegados, o biólogo pegou na águia, ergueu-a bem alto, e bradou-lhe:
— És uma águia. Pertences aos céus, e não à terra. Cheira o apelo da natureza! Abre as tuas asas e voa .Vooooooa!
A águia olhou em redor. Parecia inquieta. Olhava à sua volta, mas mantinha-se parada, alheia ao apelo do biólogo. Mais uma vez, ele agarrou-a firmemente, virando-lhe a cabeça em direção ao sol, para que os seus olhos fitassem bem o astro-rei. O espetáculo do cimo da serra era vertiginoso. O horizonte era amplo e vasto. O biólogo girava em círculo, com ela bem agarrada, dando-lhe um forte impulso, para que ela pudesse sentir o cheiro da montanha e o rumor do vento na sua magnífica plumagem. E gritava:
— Voa! Voa! VOOOOOA!
Nesse momento a águia pareceu acordar. Abriu as suas enormes asas, e, com um movimento forte, mas elegante, entregou-se ao céus, enquanto do seu bico se soltava um grasnado estridente e real. Antes de se perder no azul dos céus, ela experimentou a potência das suas asas, em voos amplos circulares. O camponês e o biólogo observavam, maravilhados, o encontro da ave consigo própria. O biólogo estava emocionado.
Em todos nós vive o espírito de uma águia. Não devemos satisfazer-nos com os grãos miseráveis com que nos querem fazer esquecer a grandeza para que fomos criados. Se Deus nos deu asas, foi para voar.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Eu acreditava...

Guardo os dias em que dizias
Lua abrigo sal dia
E a lua se derramava em mim
E eu acreditava
Em tudo o que não via
Mesmo que não houvesse lua
Eu acreditava
Em qualquer palavra tua
Que era teu abrigo
Teu sal sol fonte norte
Eu acreditava
Nos dias e noites
 Sem fim contigo
Protegida pela idade
Em que para percorrer
Há toda a estrada
E pela primeira vez
 Tudo a acontecer.
Eu acreditava…

domingo, 6 de maio de 2012

Porquê?!...

Tu…O acordar tardio, a corrida para a praia, a bica e a água gelada no Ginca. Um pouco de praia com a Gilda, o António e o André, que tinham saído mais cedo. As ondas alterosas, o vento que se levanta, o regresso bem cedo a casa, ao contrário do habitual. “Vou aos Açores. Queres vir comigo…?”
Depois a sesta no quarto, o duche partilhado, saboroso, a agradável sensação de te sentir bem. Uma certa amargura no recordar do nosso desencontro, tão desiludidamente realidade…A esperança de que nasça para nós o entendimento…mais uma vez. A alegria infantil por ti manifestada pelo novo corte de cabelo que te dá um ar de garoto, apesar de trintão…
Após o jantar,  a tua visita à cozinha, enquanto lavo a loiça, o teu corpo que me pressiona contra o lava-loiças, a simulação rítmica do amor…Rimos…Estás bem-disposto, e eu agarro-me a essa atmosfera como um náufrago.
A Gilda, O António e o André saem. Da sala, chamas-me para ver televisão…a telenovela. Acabo a louça e sento-me contigo. Momentos depois fartas-te e dizes que vais tomar a bica.
— Também vou!
Ficas irritadiço. Não podes esperar.
— Só vou ali ao café em frente! Já te podias ter arranjado!...Vai assim!
— Vou-me arranjar em cinco minutos.
Enfio um vestido, coloco umas pulseiras. Saímos. Os comentários secos e desagradáveis ao meu aspeto, não se fazem esperar…
— Estavas melhor antes. É a velha história do agradar…Só futilidades…
Calo-me, receosa da borrasca que se adivinha. O meu sexto sentido aconselha-me à calma. A tua boa-disposição evapora-se, e eu, com a sensação do “déjà vécu”, fico num estado de tensão, tentando preparar-me para a maratona de vigília e recriminações que se seguirão.
No café, os comentários velhos de sempre…” galinha,” “puta,” “ estás a olhar para onde?” “…para que olhas para o relógio constantemente? ”, enfim…Declaro a urgente necessidade de ir a casa. Largas-me e partes. Voltarás depois da meia-noite, encharcado em cerveja. Apesar de eu fingir estar a dormir, não escapei…
Ao outro dia, quando chegamos à praia, o André larga os brinquedos e corre a abraçar-me.
— Adoro-te, titi!
A Gilda e o António sorriem-me, e naquele sorriso de desconforto, eu tenho a certeza de que eles sabem.
Não vesti fato-de-banho. Não quero que ninguém veja as pisadelas no meu corpo. Na cara, apenas a minha grande amargura, os olhos que se enchem de água e insistem em fitar o horizonte.
Levanto-me da toalha e dirijo-me ao mar. Vens atrás. Colocas os teus braços por cima dos meus ombros. Caminhas ao meu lado, em silêncio. De súbito, apanhas uma concha do mar, e, a rir e com um ar travesso, coloca-la na palma de uma das minhas mãos, que fechas com a tua mão por cima. E dizes:
 — O meu coração pertence-te. Amo-te. Perdoa-me!
Eu continuo a caminhar, sem nada dizer. Só quero morrer.



 

sábado, 28 de abril de 2012

Foi para as salvar

Vi-as crescer. Ainda antes de nascerem, vi-as crescer no ventre das mães. Quando nasceram, foi para mim uma grande alegria. Um bebé que nasce é sempre uma grande esperança. Acompanhei-lhes os primeiros passos, as primeiras palavras, os bracitos a estenderem-se tantas vezes para mim, os sucessos na escola. Consolei-as nas desilusões. Assisti à primeira comunhão, foi pela minha mão de acólito que todas elas receberam inúmeras vezes o corpo de Cristo. Contei-‑lhes histórias, ganhei-lhes amor, se querem saber. Eu amava-as. E, quando se tornaram mulheres, acompanhava-lhes os passos, vigiava-as de longe quando saíam de noite, até chegarem a casa. Zelava pela sua segurança. Como agente da autoridade, era essa a minha obrigação.
Eram atrevidas. Era talvez a inocência. Não sabiam o perigo que corriam. Não sabiam ser recatadas. Riam-se muito, a torto e a direito, sem pensarem que esse riso podia provocar nos homens desejos de pecar. Usavam saias muito curtas, decotes que deixavam adivinhar os seios. E eram bonitas, todas elas. Oh! Se eram!...Uma delas começou a namorar. Ele não prestava para nada. Não a merecia. Ela era ingénua, uma menininha. Ele não a conhecia como eu. Ia estragá-la, fazê-la sofrer…Ia desflorá-la à pressa, só preocupado com o próprio gozo, sem saber o que estava a fazer…Que sabe um garoto da vida? De como se trata uma mulher? Ela merecia alguém experiente, que lhe desse o seu grande momento. Esperei-os, um dia. Ele costumava deixá-la ao cimo da rua, para os pais dela o não verem. Eles ainda não sabiam do namoro. Esperei que ele desaparecesse e ofereci-lhe boleia. A pequena agradeceu. Só começou a estranhar à medida que nos íamos afastando da cidade. Acalmei-a, que precisava da opinião dela para a prenda que havia de dar à minha afilhada. Quando me atirei para cima dela, começou a gritar, a espernear. A parva! Eu preocupado com ela, a querer dar-lhe a maior queca da vida dela, e a gaja a gritar, a gritar, a chamar pela mãe. Fui-me a ela, dei-lhe uns murros valentes, e ela lá deixou de gritar. Depois gemeu, gemeu, gemeu, de gozo, está bem de ver. Depois matei-a. Para a salvar. Depois de uma queca destas, é como se morrêssemos. Fiz-lhe a vontade.
Com a segunda já foi mais fácil. A gente habitua-se, ganha-lhe o jeito e o gosto. A terceira era forte, a cabrita…e deu muita luta. Deu-me pontapés, e arranhou-me todo. Foi pena ter sido obrigado a cortar-lhe os braços e as pernas. Mas só o pensamento de que as estava a salvar das mãos de rapazecos vis e inexperientes que não iam saber dar-lhes o devido valor, encorajava-me a cumprir a minha missão, apesar dos gritos delas. Deitei-as ao mar, depois de as matar. Não lhes perguntei, mas tenho a certeza que elas haviam de gostar…Desde miúdas que adoravam chapinhar na água do rio…

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Era minha

De mim ninguém faz pouco. Não sou velho, só tenho 72 anos, e ainda faço a minha perninha. Ela era minha. Ao princípio, quando a minha mulher morreu, lavava-me a roupa e cuidava da casa, mas com o tempo, eu é que passei a cuidar dela. Dava-lhe o dinheiro de que ela precisava, para ela e para a miúda. Quando a garota ia para o pai, ela ficava em minha casa. Só ainda não vivíamos juntos, porque ela dizia que a garota era ainda muito nova, precisava de crescer mais um pouco e de se habituar à ideia. Até entendo isso, e não forçava muito. Eu tenho pena da garota. Sei que não devia ter visto o que viu, mas para dizer a verdade, eu também não contava ver o que vi. A mãe dela andou a fazer pouco de mim. A jurar que era eu o único homem na vida dela, e faz-me uma destas…bem que eu andava desconfiado. Ultimamente arranjava sempre desculpas para não dormir comigo, devia andar de barriga cheia…mas a cabra, dizia uma coisa e pensava outra…e a esmifrar-me, era dinheiro para isto e mais aquilo, e eu, verdade seja dita, não tinha coragem para lho negar…ela…ela…sabia como me levar…. A minha família nunca gostou dela. Mas era a minha vida, eu tinha o direito de ser feliz, e eles não tinham nada que se meter.
Eu não tinha intenção…mas quando a vi na cama com o outro, perdi a cabeça. Vi tudo vermelho à minha frente...saí do quarto, e agarrei na primeira coisa que encontrei…Era o machado de cortar a lenha para a lareira, que estava na varanda. Bati, bati, bati…na cabeça dela, até o machado se me escapar da mão… Se ele não tem fugido, comia pela mesma medida…De mim ninguém faz pouco.