"Todos os meus versos são um apaixonado desejo de ver claro mesmo nos labirintos da noite."
Eugénio de Andrade

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Salvar-me...


Hoje acordei com um grito a crescer-me na alma, a alastrar em cada segundo pelo édredon, pela cómoda, pelas paredes do quarto, pelos vidros da janela…abri os olhos e as paredes lentamente e debruçarem-se sobre mim, a encerrarem-me dentro, a quererem sepultar-me viva dentro delas sem retorno. O grito da alma subiu-me aos lábios e emudeceu de som, a gritar só para dentro, mais e mais, e, mesmo depois de enrouquecer, continuou a gritar. Levantei-me e o grito sempre dentro de mim, exigente e ciumento de qualquer atenção que se lhe não dirigisse.

Está na hora, é agora ou nunca, vou estrangular-te, grito danado, roubar-te o último alento. Vou buscar os lençóis e tapar todos os espelhos, não posso olhar para eles para não perder a coragem, e vou partir, fugir deste cerco que me transforma em grito, toda eu sou grito, os olhos, a pele, os cabelos, as unhas, a língua, os passos que começo a dar pela casa…Vou pegar as chaves do carro, não vou tomar banho, é preciso partir sem demora antes que chegues, só a roupa do corpo me basta, agarro no carro e vou carregar no acelerador e voar com destino a parte nenhuma, colocar uma distância cada vez maior entre estas paredes e o mundo sem medida que me chama, de onde essa voz não sei, sabê-lo-ei quando chegar, reconhecerei o meu poiso, meu abrigo, e voltarei a viver. Vou ao banco levantar o dinheiro, o que ganhei e o que me deixaram os meus pais, e metê-lo todo no saco de viagem que me ofereceste no Natal. A tua metade lá ficará na nossa conta que vai passar a ser só tua, e tudo vai passar a ser só teu, só eu vou passar a ser só minha. E depois deito ao rio os cartões, todos os cartões, não preciso deles para nada, sem identidade nem eu saberei quem sou, serei eu quando chegar. E não vais acreditar que eu tenha partido, no roupeiro as minhas roupas a murcharem sem o meu corpo, a mesa posta, o almoço dentro do microondas, ela vem já não tarda nada, e quando for muito alongado o meu tardar e as sombras da noite te trouxerem a inquietação, estarei longe, sem rosto nem rasto, desculpa, meu amor, deixo-te as gatas e as orquídeas para não morreres nem tu nem elas de solidão. Eu há muito estou morta, morri quando me matou os sonhos que me desabrochavam no caule esta atmosfera nociva, por isso tenho a respiração suspensa dentro de mim, e os sonhos mortos à espera de serem ressuscitados, e há-de ser um sopro puro e limpo de passado que os há-de trazer de novo à vida, e esvaziarei então os pulmões há tanto tempo de respiração suspensos agora libertos de todas as dúvidas e receios e beberei sôfrega das fontes que jorrarem à minha passagem. É longo o caminho e não sei por onde caminhar, nem que caminho tomar, mas os meus passos me conduzirão onde devo chegar, e eles reconhecerão o caminho e a meta de chegada e então ocuparei o espaço que me pertence, e que me estava reservado desde que os meus olhos se abriram para a luz.
O carro, deixá-lo-ei por aí, abandonado onde possas recuperá-lo, quando estiver salva… quem me há-de salvar de mim…Tu nunca entendeste, e eu desisti de plantar o entendimento dentro de ti, quando se apartavam de sentido as palavras que usava para teu esclarecimento.
A chave a rodar na porta e eu sem o almoço feito. Nem sequer as compras do super-mercado!
Abro o chuveiro e afogo os gritos na canção que começa a encher os muros da casa de banho.

sábado, 6 de agosto de 2011

Fugir





Vejo-as passar à minha frente, sacudindo as ancas, numa provocação que me enche de raiva. Eles também passam, para cima e para baixo, para baixo e para cima, num vaivém de figuras de carrossel. E eu aqui fechada, espreitando através das grades do portão. Não me apetece dizer-lhes nada, não vou mesmo dar-lhes conversa. Isso é o que eles querem, que eu reaja, mas estão muito enganados. Não vou dar-lhes esse prazer, iriam pensar que os invejo, que invejo aquela vida de liberdade e de aventura, é claro que os invejo, mas, no que depender de mim, jamais o saberão.
Já lá vai o tempo em que também eu podia caminhar, galgar a distância que me separa do outro lado do caminho, e embebedar-me nessa sensação maravilhosa do vento a envolver-me como um véu enquanto corria como louca pelos campos…Sentir que tudo quanto está à nossa frente nos pertence…as flores, as borboletas, os pássaros, as lagartixas, a erva tenra debaixo dos nossos pés, os cheiros… os cheiros, sim, os cheiros não são iguais aqui, nesta prisão onde me obrigam a permanecer… Insensíveis! …Eu sei…lá fora…ai lá fora…os cheiros são outros, são os cheiros da terra…do mundo…
A culpa foi minha, eu sei…devia ter tido mais cuidado…abusei…em vez de me contentar com o que tinha e respeitar as regras, quis mais, muito mais… e o gozo que me dava pisar o risco…Mal apanhava uma aberta, escapulia-me, a absorver tudo o que pudesse naquele momento. E voltava, depois de muitas horas, consolada...Mas Eles, é que não queriam saber do meu consolo… Recebiam-me histéricos, por onde é que eu andara, já me tinham procurado por todo o lado, imaginado mil malefícios que me poderiam ter feito ou acontecido…já iam falar com a polícia, os bombeiros….Tanta confusão por uma coisinha tão simples…Foi nessas escapadelas que eu conheci a vida, a verdadeira vida…Sim, não é em casa, fechada a sete chaves, que a vida vem ter connosco…que se aprende a viver…Fecharam-me! A culpa é minha, e só minha!... Mas sou assim…de extremos. Quero aproveitar ao máximo, aquilo que tenho no momento, beber de um só trago, com sofreguidão. Nunca penso no futuro…o meu futuro é aqui, agora, neste momento …Que digo eu? Não é este o futuro que quero, não, eu quero sair por aí, vaguear sem destino, explorar os cantinhos mais estreitos, conhecer o que há para conhecer, viver tudo o que há para viver… Bem sei que, se eu não tivesse aparecido grávida, Eles certamente me dariam mais liberdade…Mas nessa altura eu sabia lá o que era a vida…apenas me deixei ir, obedeci àquilo que o corpo me pedia…Fiquei tão espantada quanto Eles… Depois de casa roubada, trancas à porta, dizem. Estou farta deles…O que eu queria era poder sair daqui, partir ao encontro desse mundo…bem sei que lhes devo muito…Acolheram-me, trataram-me sempre muito bem, a mim e aos meus filhos, é certo…Mas eu sempre correspondi, com a minha dedicação, lealdade…Então os meninos…meus anjinhos…como eu os adoro…Mas agora partiram, foram à vida deles…e eu? Que faço eu agora aqui? Ela fala-me sempre rispidamente, não esquece as asneiras que eu fiz, os desgostos que lhe causei…não acredito que não goste de mim, mas é incapaz de o mostrar. Por isso, ai! Se eu encontrar o portão aberto, nem olho para trás…vou-me embora. Tenho a certeza que não fará o mínimo gesto para me encontrar…digo eu…nem sei…Da outra vez que fugi, bem vi a alegria nos olhos dela quando me trouxeram a casa. Abraçou-me, e como foi meiga comigo! …Só ternura, só amor, eu era uma marota, que mal me tinham feito, estavam numa preocupação….mas depressa lhe passou este ataque de ternurite…
Nem sei porque fecham o portão à chave! Nem sequer há já o risco de eu voltar a engravidar! Trataram logo de me mandar operar! Privar-me daquilo que é tão caro a todas as fêmeas! Essa nunca lhe perdoei! Como foi capaz de me tratar como a um vulgar animal? Retirar-me a minha feminilidade! Bem a ouvi dizer aos meninos que, se voltasse a aparecer grávida em casa, me punha na rua. Nessa altura, só a ameaça encheu-me de pavor! Já lá vão uns bons anos! E Ela? Como se sentiria se lhe roubassem a capacidade de ser mãe, se a proibissem de sair, se só pudesse ver o mundo através das grades? Ela, que não pára em casa, sempre com o carro para trás e para a frente, e volta carregadinha de compras, e eu para aqui o dia inteiro, sozinha, a sonhar com os campos por onde correr, com o rio, com… Bem podia levar-me com ela, mas não! Deve ter vergonha de mim. Não sou de alta estirpe! Mas ainda não perdi a esperança! Preciso é de encontrar uma falha na vigilância! Ando cá a arquitectar um plano! Hoje à noite vou tentar de novo a minha sorte. Antigamente eu conseguia saltar o muro, e os portões, mas agora é impossível! Subiram-nos, e colocaram-lhes arame farpado e vidros cortantes…Estou farta de que me imponham regras, com a um animal de circo. Quero experimentar essa sensação de não pertencer a ninguém, nem a lugar nenhum, partir sem eira nem beira, viver a vida vadia daqueles que têm como tecto as estrelas e como paredes, o infinito…Sim, o céu e o infinito pertencem-me, são de todos, e eu pertenço-lhes. Aqui já não reconheço o meu lugar. A minha natureza chama por mim… Às vezes adormeço a chorar e, quando acordo, ainda estou a gemer. Isto quando não estou ocupada com a ideia de fugir. Ultimamente é só no que penso...Fugir….fugir….fugir….O homem da lenha vem descarregar e o portão vai ser aberto. Salto para cima da camioneta e aninho-me debaixo do oleado. Quando derem pela minha falta, já eu vou longe. Gosto do homem da lenha. Sinto-lhe no corpo e na roupa o mesmo cheiro que tinha o pai dos meus filhos… e ele também gosta de mim...pressinto-o quando me afaga, e eu lhe lambo as mãos rudes e ásperas, e ele diz com a sua voz cheia e rude:
— Ah! Canita bonita!

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Sessão de autógrafos





Fui convidada pela minha amiga C. dona da Livraria Pretexto, para fazer uma animação na celebração da parceria da sua livraria com a Editora LEYA.O escritor António Lobo Antunes iria estar presente para autografar o seu quarto livro de crónicas. Perguntei-lhe o que tinha em vista, e ela sugeriu uma personagem célebre da Literatura portuguesa, talvez. Falou comigo no dia vinte e três, na festa do S. João, enquanto o pinheiro ardia, onde nos encontrámos casualmente. O evento seria na quinta-feira, dia 30, às 18.30h. Para isso ela devia ter convidado um ilusionista que tirasse da cartola a tal personagem célebre à medida dos seus desejos.
Sugeri então a leitura de uma crónica do famoso escritor, ainda sem saber que o seu livro de crónicas tinha algumas lidas por ele. Mas, quando as ouvi, fiquei tão tocada pela ternura e sensibilidade com que ele as leu, que pensei que seria sacrilégio eu ler aquilo que era seu e lido com tanta alma. Foi então que me surgiu a ideia de escrever um texto onde tentaria incluir alguns títulos da sua vasta obra. O desafio estava lançado, e as ideias foram chegando sem esforço. E eu fiquei satisfeita com o produto final.
No dia indicado lá estava eu, os donos e empregados da livraria, os representantes da Leya, e alguns convidados. Uns trazidos por mim, meus amigos, outros vindos através de variados contactos. Havia piano, que seria tocado por um jovem professor do Conservatório. Depois de muito esperado, o senhor chegou, muito simples, discreto, recusando sentar-se no lugar de vedeta, após quase uma hora de espera. Ataquei o texto com o piano a acompanhar-me, e a sobrepor-se, por vezes, à minha voz. Eu receava que o senhor considerasse um abuso o que eu estava a fazer, servir-me assim, dos títulos dos seus livros... Mas li, com calma e serenidade. Não tinha nada a perder. Os que estavam ali exclusivamente pelo escritor, teriam que aguardar mais um pouco. À medida que ia lendo, fui-me apercebendo da boa receptividade do meu texto. Não consegui ver, do lugar de onde estava, o rosto da estrela do dia. Mas, quando terminei, não lhe notei qualquer reacção. Nem podia ter. O senhor nem me ouviu. Está surdo, não sei se como uma porta, ou um postigo. Não me ouviu e ponto final. Quem sabe se foi melhor assim? Também não pôde ofender-se. Seguiram-se os discursos habituais. A dona da livraria, o representante da Leya, e, contrariamente ao que é habitual, (disseram-me), o grande escritor quis falar. Estava bem-disposto, deu um arzinho da graça que não costuma ter nestas situações, e deu também uns passos em direcção ao escaparate que estava à sua frente, para pegar num livro. Que coincidência! Eu estava precisamente a olhar para aquele livro, e a lembrar-me que ele o tinha mencionado numa das suas crónicas, e a pensar que no final da sessão o iria comprar. É um livro do escritor espanhol Juan Marsé, Rabos de Lagartixa”. Falou brevemente deste autor seu amigo, com admiração e amizade. Recomendou esta leitura aos presentes, em vez de lerem porcarias…Foi esse livro, certamente, que o roubou ao mutismo no qual costuma refugiar-se, em situações semelhantes. Resumindo: estava a sair-se muito bem, e a disfarçar espontaneamente a antipatia que ele mesmo confessa ser seu apanágio. Pois é: estava! Porque em seguida, terminou, secamente:
— Agora assino meia dúzia de livros, que não tenho paciência para mais!...
O senhor por acaso esqueceu-se que as pessoas estavam ali para que ele autografasse um livro que ele tinha escrito? Que não arredaram pé, apesar de ele ter chegado atrasado? Que ele é tão conhecido e tem tantos livros publicados porque há quem os leia? Que havia ali leitores de toda a sua obra? E depois, para quê? Diz-se que pela boca morre o peixe…para quê esses tique de vedeta antipática, se, no fim de contas, acabou por assinar todos os livros que os presentes lhe estenderam? É certo que também houve quem não tivesse tido paciência para as suas “manias” e abandonou a sala. Mas, se acabou por autografar tudo, porquê aquelas palavras? Ou faz gala em ser desagradável?
Bom, mas aqui vai o texto que eu escrevi para este evento.

O meu avô era uma pessoa singular. Morreu com quase 93 anos, quase cego, depois de uma vida cheia, aventureira e plena de fantasia.
Andou pelos brasis, durante anos não deu notícias, perdido por esses cus de judas…por lá construiu um vasto património… Mas havia de regressar à terra tão pobre quanto partira. As suas plantações foram consumidas pelas chamas, e, enquanto todos os seus criados lutavam contra o braseiro, ele ali ficou, observando-as de braços caídos, murmurando: “ Que fazer quando tudo arde?”
Durante algum tempo mergulhou num mundo só seu, um mundo negro e cinzento como as matas devastadas pelas chamas por onde deambulava. Era comum encontrarem-no junto ao rio, a falar sozinho, discursando incendiado, a veia no meio da testa a latejar…a latejar…Quando lhe perguntavam porque falava sozinho, exaltava-se, chispando palavras cortantes:
— Ignorantes! Eu não falo sozinho! Estou a fazer uma exortação aos crocodilos!
E conta quem viu, que, em certas noites, aqueles enormes répteis largavam as águas do rio e vinham escutá-lo pachorrentamente enquanto ele prosseguia as suas perorações.
Quando regressou à terra, a minha avó tinha conseguido fazer florescer a pequena quinta, a custo de uma férrea vigilância e de apertada economia de subsistência. Era uma mulher severa, rígida, pragmática, que nunca esquecia uma ofensa, nem quem lhe estendia a mão. Arrogava-se possuidora de uma memória de elefante. Depressa concluiu que o meu avô estava imprestável para a ajudar a gerir a quinta. Católica fervorosa e beata assumida, a todo o momento se persignava, invocava o Santo Nome de Jesus, sacava do rosário e predizia a condenação do marido, que ela jurava estar possuído pelo demónio, às profundezas do Inferno. O meu avô troçava, soltava uma gargalhada escarninha:
— Que sabes tu disso? O conhecimento do Inferno é comigo! Conheço eu mais do inferno e do paraíso do que tu, sempre enfiada na sacristia!
— Herege! — acusava ela.
— Porque não te calas, Aurora? O meu Inferno és tu! Eu ainda hei-de amar uma pedra!
Anos depois, quando ela morreu, encontrava-o eu sentado no jardim, dia após dia, olhando o vazio, eu hei-de amar uma pedra… eu hei-de amar uma pedra…eu hei-de amar uma pedra…balbuciava, imerso na sua demência, da qual receávamos não mais voltasse. Sobre as pernas, um velho caderno de capa gasta e folhas enroladas nas pontas. “Letrinhas das cantigas”, podia ler-se, com letra bem desenhada, no frontispício do caderno escolar. Eram os versos que ele escrevera à minha avó no tempo do namoro, e que ela guardara no fundo do baú do quarto.
Mas um dia levantou-se de manhã cedo, e não o encontrei no lugar habitual. Embrenhara-se pelos pinhais adentro, e, quando voltou, trazia no olhar o brilho e o sorriso enigmáticos de quem é detentor da revelação exclusiva dos códigos da fortuna. Teias de aranha colavam-se à roupa desalinhada e empoeirada.
— O segredo, filha, está nos pássaros… Eles tudo sabem. Tudo conhecem. O segredo está na explicação dos pássaros. Eles sabem, eles sabem…
— O quê, avô?! O que é que eles sabem?
— Tudo o que há para saber!... Eles sabem!...
Depois, com uma energia invulgar, atirou-se à recolha dos desperdícios da fábrica. Passava noites acordado. E numa dessas noites, prisioneiro no arquipélago da insónia, começaram a nascer das suas mãos pequenas miniaturas, autênticas obras de arte, homens, mulheres e crianças em movimento, realizando várias tarefas do quotidiano, que minuciosamente apurava com solda e maçarico. E pássaros…muitos pássaros, todos diferentes, que ele distinguia pelo nome. Apareceram em seguida, esmiuçadas ao mais ínfimo pormenor, carros, carroças, comboios, monociclos, barcos, aviões que ele alinhava na cave ao longo das prateleiras que se iam enchendo de pequenos milagres. Trabalhava com frenesim e despedia-se dos bonecos mal o sol espreitava pelo postigo. E quando à tardinha, descia à cave, perguntava, solícito, com genuíno interesse:
— Então, como vão as coisas? Boa tarde às coisas aqui em baixo!
E começou a inventar histórias fantásticas em que era sempre o protagonista, e os seus bonecos surgiam insuflados de vida. A mais extraordinária era a “ história do hidroavião”, que ele comandara numa noite escura como breu, apenas iluminada pelos relâmpagos que intermitentemente se acendiam no céu. Movido pela paixão, ia ao encontro da sua amada que ficara prisioneira do outro lado do globo. E tecia considerações sobre as paixões, as verdadeiras paixões, as que valia a pena viver.
Prometeu-me que ainda havia de escrever um livro, um só, exemplar único, para mim, que me serviria de bússola para a vida. O “Tratado das paixões da alma”. Nunca o escreveu.
No seu leito de morte, como em vida, vagueou pelas brumas da loucura e da lucidez. Quando lhe apertei a mão, olhou-me com olhar mortiço e sussurrou:
— Meu amor, ontem não te vi em Babilónia!
— Sou a Teresa, avô!
— Ah! Teresa! Vou partir!
— Por favor, avô, ainda não… não entres tão depressa nessa noite escura!
— Não chores, filha! Porque é que há-de ser noite escura?! É a ordem natural das coisas!
Depois os seus olhos fixaram-se num ponto à sua frente.
— As gaivotas! Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar? Não! …Não são cavalos…são as naus…Estão aparelhadas para partir…Vêm buscar-me! As bestas…qual delas me vai levar?... A besta do paraíso ou a do inferno? Ah! Já vejo a aurora…a aurora…
E, ao mesmo tempo que a estrela da manhã fazia a sua aparição, o último sopro de vida abandonava o meu avô, num profundo e tranquilo suspiro.
Reconforta-me pensar que a Aurora que aos seus olhos surgiu, era a minha avó. Mas com ele nunca se sabe.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Que lindas!...




Lurdes saltava de contente, à volta dos produtos que o pai expunha na montra da loja. Eram tão bonitos! E o pai tinha feito a montra de uma maneira tão interessante! No meio tinha colocado o tronco de uma árvore verdadeira! Os galhos da árvore estavam sem folhas, mas o pai tinha-lhes pendurado as luvas, os cachecóis e as boinas de uma maneira artística! Parecia que aqueles produtos fofinhos tinham nascido mesmo na árvore! Eram de lã, com pelinho, e tinham as cores da moda, dizia o pai de Lurdes: verde-claro, cor de cérise, azul índigo. Havia também umas mantas para usar como agasalho, mas essas não estavam na árvore. Estavam dobradas, em montinhos, de cada lado da montra. Mas eram também muito bonitas, da mesma lã fofinha… Eram xadrez. Todas tinham o preto como cor comum, mas umas conjugavam com o rosa, outras com azul, e outras ainda com o verde. Lurdes, do que gostava mesmo, era dos conjuntinhos de cachecol, luvas e boina. Quem lhe dera ter um desses conjuntos! O cérise então era tão lindo! …Mas ela sabia que isso era impossível, pois os conjuntos eram para gente crescida. Ainda tinha que crescer muito para que alguma daquelas peças lhe assentasse…mas sonhar não custava nada. A mãe acabou por ficar com uma das mantas, que era o que lhe fazia jeito, dizia ela.
Nesse dia à tarde veio à loja a criada da professora de Lurdes.
— Ó senhor Augusto, a minha senhora queria ver um daqueles conjuntos que o senhor tem na montra. Se o senhor mos deixava levar para a minha senhora escolher…
— Claro, menina Zezinha!
Lurdes ficou de atalaia, embora aparentemente se mantivesse desinteressada daquela transacção. Viu o pai colocar os conjuntos numa caixa, e desaparecerem, levados pela menina Zezinha. Andou por ali, pegou nas revistas, a gastar o tempo. Finalmente a menina Zezinha chegou, sorridente.
— A minha senhora gostou muito. Fica com o cachecol cor-de-rosa.
— “Cêrise! O meu pai diz que é cêrise” — pensou Lurdes.
— Faz favor de se pagar! — Zezinha estendeu uma nota.
— Diga à senhora Dona Armanda que eu tenho muito gosto em lhe oferecer o cachecol. É uma atenção da nossa casa para uma boa cliente.
— Ah! Então muito obrigada!
Lurdes ficou a ver a Zezinha a afastar-se. E não pôde deixar de sentir um sentimento de satisfação, quase de orgulho, por a professora ter escolhido a cor de que ela mais gostava. Mas, se fosse ela, escolhia o conjunto todo. Só um cachecol, não fazia metade da vista.
Ao outro dia, na escola, viu a professora, entrar pela sala adentro, com o cachecol colocado. Era lindo! Mas quem primeiro o vira, fora ela, a Lurdes.
Antes do dia de aulas terminar, Lurdes sentiu na pele o resultado da atitude cavalheiresca do pai. A sua professora não se deixava amenizar com prendas. Para que não pudesse sequer passar pela cabeça do seu pai que aquele cachecol poderia humanizá-la, ou levá-la a privilegiar de algum modo a sua educanda, Lurdes foi castigada com três reguadas, por se estar a “estragar”!
O “estrago” fora um erro ortográfico no ditado. Lurdes não dava erros. Naquele dia, desconcentrara-se, e o “do que” do texto que fora ditado, saiu-lhe um “duque”…
Lurdes deixara-se escorregar para um mundo encantado de príncipes, princesas, duques, condes… A bruxa trouxe-a de volta à realidade.
Naquele momento, Lurdes sentiu que ela e Rosa estavam de algum modo irmanadas…

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Estávamos à tua espera...

Depois das aulas, encaminharam-se para a margem do rio. Iam todos a dizer os disparates do costume, só ele ia calado, a pensar na vida.
Mais uma vez, sentia uma enorme dor no meio do peito. Uma dor que não era como quando lhe doíam os dentes, ou a barriga, mas que era ainda mais forte, misturada com uma grande tristeza. Não! Não era como as outras dores…era muito, muito pior…fazia-o desejar estar sempre a dormir. E era isso que faria, se não fossem os sonhos… Os sonhos! Eram mais pesadelos…Mas nem sempre tinha pesadelos…às vezes conseguia dormir mesmo, como uma pedra…e nesses momentos esquecia…Não sabia como encontrar solução. Naquele momento, parecia-lhe que não havia, para o seu problema. Sentia-se um fraco. Apetecia-lhe nunca mais voltar a pôr os pés na escola. Mas depois vinha a guarda buscá-lo a casa, ele sabia…e o subsídio que ajudava a manter a família, ia à vida… Só se fugisse…para muito longe, onde ninguém o encontrasse…
Se não fossem a Sónia, a Gina e o Augusto… e o Leonardo, claro, o seu irmão gémeo…Às vezes ele armava em parvo, mas eram amigos…
À saída da escola, antes de voltar para casa, gostava de passar por ali. Gostava de atirar pedras ao rio, ver o quão longe elas podiam chegar…ou de ficar a apreciar os remoinhos que as pedras produziam, e a luz que entrava pelas águas adentro…as nuances das cores…verde-claro, verde-escuro, cinzento, azul-escuro, quase preto. Perdia-se a olhar para os reflexos distorcidos das árvores nas águas, que caminhavam barulhentas e imparáveis para o mar… Ao ouvir aquele cantar estrepitoso, esquecia parte dos seus problemas, serenava...
A Sónia… gostava dela. Ainda não namoravam, mas estava quase… o dia de hoje era decisivo…Por isso estavam todos, para disfarçar…De outra maneira não conseguia apanhá-la ali. Ela não largava a Gina! Mas o António ia também tentar a sua sorte. Toda a gente sabia que ele gostava da Gina…até a setôra de Português tinha dado conta!…
Boa vida era aquela, entregarem-se à brincadeira sem ninguém a chatear…não queria pensar no que o afligia, agora queria era embriagar-se de brincadeira, e…talvez…abraçar a Sónia, abraçá-la, beijá-la, apertá-la, como sonhara fazer tantas e tantas vezes, quando, à noite, debaixo dos cobertores, a imagem dela se vinha misturar com o choro que rebentava sem querer, depois de perseguido por memórias de episódios atulhados de humilhações e ameaças de colegas, de funcionários a gritarem pelos corredores, de professores autoritários e cegos ou tão permissivos que não ousavam estabelecer a ordem, receosos, também eles, de vinganças descarregadas nas pinturas dos carros. E alcançava alguma paz quando, assim abraçado à Sónia, acabava por adormecer, exausto, percorrido por um frémito quente e libertador.
Ia mostrar-lhe os recantos da mata, e, se tudo corresse bem, selariam o namoro à beira do rio.

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Chico foi tirando a roupa lentamente: primeiro a tee-shirt, depois os ténis, as meias. Enrolou-as e colocou-as vagarosamente dentro dos ténis. Arrumou-os um ao lado do outro.
Os companheiros riram-se.
Aquilo era tudo estudado. O Chico apelava a um momento, por mais breve que fosse, de protagonismo. Gostava de se sentir o herói, admirado, já que não era capaz de resolver as situações na escola que tanto o preocupavam e humilhavam. Mas aqueles quatro amigos eram fixes!
Depois tirou as calças, e, sem pressas, com arrepios de frio, foi entrando nas águas revoltas do rio.
— Mas que estás tu a fazer? Pára!
— Ainda ficas doente! Depois eu é que as pago! — avisou o Leonardo.
Leonardo era três minutos mais velho que o irmão, e, à conta disso, fora muitas vezes chamado à vara por não ter impedido algumas travessuras do Chico.
Naquele momento o riso foi morrendo em tempos desencontrados no rosto dos companheiros. Já completamente apagado nos lábios dos três miúdos, ainda a Sónia mantinha um resquício de sorriso, antes de um grito que irrompeu da sua garganta.
— Não sejas parvo, Chico! Pára! Volta!
O pânico que explodiu nas palavras da Sónia contagiou os outros miúdos. Os gritos tumultuosos e indisciplinados romperam o ar, atravessaram as folhas dos choupos, os ninhos abandonados, e perderam-se para lá das nuvens.
Chico deu duas braçadas, mas rapidamente se apercebeu de que o lodo do rio não lhe deixava espaço para nadar. E a corrente era ali muito forte. Os seus movimentos começam a ser cada vez mais desordenados e desesperados, as braçadas descoordenadas. Tenta manter a cabeça fora das águas, mas começa a cansar-se. Os garotos vêem o seu corpo desaparecer no interior do rio, enquanto gritam o seu nome.
As lágrimas, os soluços, a incredulidade submergem-nos, ao mesmo tempo que assistem, impotentes, ao desaparecimento do amigo. Leonardo, o irmão gémeo do Chico, começa nervosamente a largar os ténis. Os três garotos adivinham-lhe as intenções e agarram-se a ele, manietando-o. O corpo do Chico vem ainda à superfície mais duas vezes, em sítios diferentes do rio, arrastado pelas águas. Deixam de o ver. Sónia já não tem voz para continuar a gritar.
Chico sente o seu coraçãozinho bater, num pânico desenfreado. Não era isto que ele desejava. Pretendia apenas assustar os companheiros…para eles saberem que não era nenhum cobarde… Mas agora sente o arrependimento a possuí-lo. Não tem forças para lutar com as águas. Os membros entorpecidos parecem já não lhe pertencer. Imagens da mãe, do pai, dos irmãos, dos colegas da escola, da cadelita rabina, que o recebe sempre que chega da escola, e o persegue até à porta da cozinha…perpassam-lhe à frente. Sabe agora que nunca mais vai voltar a ser maltratado, ninguém mais lhe vai fazer mal. Relembra o beijo roubado à Sónia, na mata, quando ficaram os dois para trás…Sente-se empurrado cada vez mais para o fundo. A oração que a avó lhe ensinara começa a surgir dentro de si: “Santo Anjo do Senhor, meu zeloso guardador…” Já não sente medo…Entrega-se. Abre a boca e deixa entrar a água que rapidamente lhe inunda os pulmões. Começa a sentir uma paz infinita… o último esbracejar…Flutua…Lá de longe uma música suave e inebriante vai-se aproximando.
Uma luz azul, forte e brilhante, rasga as águas e o lodo…À sua frente a luz sugere uma figura radiosa, onde sobressai um sorriso infinitamente doce.
Não fala, mas Chico ouve-lhe as palavras no lugar do coração.
— Chamaste-me? Aqui estou. Vem. Estávamos à tua espera.
A figura levanta-o nos braços. Chico sente-se a pairar, leve, como se o seu corpo se tivesse esfumado.
A luz que emana daquela figura que Chico pressente ser o anjo que invocara, começa a alastrar e a inclui-lo dentro dela, ficando ambos envolvidos num gigantesco ovo feito de luz. Ao mesmo tempo, uma onda de plena felicidade, de um amor infinito, vai tomando conta dele.
Porém, fora daquela bolha enorme de luz, de amor e de felicidade, Chico pode observar-se enredado no lodo, como se se tivesse desdobrado e estivesse a ver-se num ecrã. Tremulamente mexe os lábios para fazer uma pergunta, mas as palavras não lhe saem. Ficam apenas no seu pensamento.
— Não te preocupes. É apenas uma carapaça, para que os que te choram possam fazer o luto.
E outra pergunta atravessa-lhe o pensamento.
— Estou morto?
E ouve a resposta no seu coração, da mesma maneira que já tinha ouvido as outras.
— Não!... Acabaste de nascer.


domingo, 29 de maio de 2011

A Régua

Na escola, a Rosa era a menina mais castigada por falta de pontualidade. Exagerava, mesmo. Chegava já quando a aula estava em pleno curso. Por vezes, conseguia penetrar sub-repticiamente, e ir sentar-se sem que a professora a visse. Isso acontecia quando as alunas que a professora escolhera para a verificação dos trabalhos de casa, e que depois iam fazer a ronda pelas carteiras das colegas, estavam de pé, à volta da secretária. Aí, a Rosa conseguia safar-se no meio da confusão. Mas se esse momento já tinha passado, não escapava ao castigo. Tanto Maria de Lurdes como as colegas, já quase não ligavam, de tal maneira esta situação se tornara um hábito. Chegava desgrenhada, com a trança grossa que lhe corria ao longo das costas, esfiapada. Algumas vezes, apresentava-se sem sacola, o que assanhava ainda muito mais a fúria da professora. Os olhos grandes e pestanudos não deveriam ter visto água, uma vez que as remelas eram visíveis. Quando falava, a saliva soltava-se-lhe com frequência, e, por vezes, apresentava feridas nos cantos da boca. Quando acabava de falar, o lábio inferior ficava-lhe descaído, como se estivesse preparada para ter que responder prontamente a alguma questão. Rosa era um dos “bombos da festa”, quase diários, onde a professora aproveitava para manter a sua forma física sempre impecável. O que Lurdes não sabia na altura, era que a mãe da Rosa estava muito doente, acamada havia alguns anos. As irmãs saíam de madrugada, ainda o sol não luzia no buraco, para trabalhar na fábrica, e Rosa não tinha quem a chamasse de manhã, nem quem lhe penteasse a trança que aparecia num estado desleixado. A doença da mãe não interessava à professora, nem era motivo para que ela fosse mais tolerante para com a pobre Rosa.
Ora um dia a professora encomendou ao pai da Rosa, que era marceneiro, uma régua, objecto pedagógico tão do agrado da maioria dos professores daquela época. Não, não era uma régua em forma de palmatória... essa régua em forma de palmatória, com cinco olhos vigilantes e cúmplices dos castigos, só soubera da sua existência através dos relatos da mãe. As réguas agora usadas pela sua professora tinham cerca de seis centímetros de largura e trinta de comprimento. Uma manhã a régua chegou, comprida e encerada, de um belo tom de mel, pelas mãos de Rosa, que mais uma vez chegou atrasada. Não, não era uma régua em forma de palmatória...Essa régua em forma de palmatória, com cinco vigilantes e cúmplices dos castigos, só sabia da sua existência, através dos relatos da mãe.
Quem havia de estrear a régua? A candidata estava lá, à mão de semear, havia motivo. Não era preciso escolher mais para testar a eficácia de tão odioso instrumento de tortura. E assim, a Rosa estreou a régua, fabricada pelo seu pai, e que ela própria transportara até às mãos do carrasco.

O Caderno da Classe


Chegara a sua vez de escrever no caderno da classe. Era uma grande responsabilidade, dizia a professora, e tudo tinha que estar impecável, sem rasuras nem erros…
O caderno ia passando pelas mãos de todos os alunos. Todos tinham que escrever lá uma cópia, ilustrada por um desenho, um ditado, as contas, os problemas. Nada de mais…o habitual, o que se fazia todos os dias…Mas agora, era no Caderno da Classe. O peso desta responsabilidade tolhia-lhe os movimentos, e o raciocínio. O caderno era de linhas, isto é pautado, e mesmo as contas e os problemas tinham que ser feitos nas linhas. Havia regras rígidas: os números tinham que ser escritos de linha a linha, para ficarem todos do mesmo tamanho. As letras também obedeciam a normas: os “efes” tinham que ter a parte superior a tocar o extremo da linha superior, e a parte de baixo devia tocar a linha inferior. Os “éles”os “bês,” os “agás,” deviam tocar a linha superior, os "tês" e os "dês," ficavam a dois terços. De igual modo, os "guês" e os “jotas” deviam tocar a linha de baixo, e os “pés” e os “quês de aste”, ficariam na linha inferior até dois terços. O nervosismo assaltava-a, queria fazer boa figura. Felizmente que já tinha uma caneta de tinta permanente, luxo a que as outras meninas da sala não chegavam, com excepção da Carminho, filha de um industrial da terra, a única que tinha direito ao “inho” no nome, e ao beijo diário da professora. Não corria por isso o risco de que algum borrão indesejado caísse na escrita, desde que não usasse movimentos bruscos. Mas estava sujeita a outros imponderáveis: era escrava dos nervos. E, com a língua de fora, ao canto da boca, lá ia fazendo a sua tarefa. Até que parou, perturbada: o oito ficara com o arco superior ligeiramente abaixo da linha. Então, irreflectidamente, levou o aparo ao local onde se quedara o arco, e desenhou-o novamente, por cima. O resultado não podia ser pior. A professora farejava estes pequenos incidentes e já estava em cima dela, a ver a obra. E uma valente bofetada sai disparada, indo assentar no rosto de Lurdes. Ao mesmo tempo, resultado do impacto, cai um borrão de tinta grossa e azul, no Caderno da Classe. A raiva da professora explode:
— Ah! Sua grandessíssima burra! Lindo serviço!
Lurdes sente a face em brasa. As lágrimas inundam-lhe os olhos em vagas, e espraiam-se, quentes e salgadas. Recrimina-se intimamente pela falta de jeito que a levara a tentar emendar o não emendável…
A professora corre para a secretária. Lurdes aguarda com o coração a bater, o castigo que se seguirá. Mas, em vez da régua, a professora regressa com o mata-borrão que tinha sempre na sua secretária.
E, ao fim da tarde, enquanto faziam as fichas com os problemas de Aritmética, viu a professora à volta do Caderno da Classe, muito compenetrada, com o pincel e o frasquinho de descolorante com que ela emendava os eventuais erros no caderno dos mapas de faltas mensais dos alunos que enviava para a direcção escolar…

terça-feira, 24 de maio de 2011

Na tua mira


.

Este foi o resultado das minhas descobertas e experências no "paint". Este filho acabou de nascer. Aqui o entrego ao mundo( pequenininho, pequenininho, mas não deixa de ser uma parte do mundo, pelo menos do meu mundo...)

segunda-feira, 23 de maio de 2011

A fada Miriam


Era uma vez uma fada que vivia numa casa muito bonita, com um grande jardim à volta. Quer dizer: a casa não era assim tão bonita! Era uma casa normal, mas, para a fada era a casa mais bonita do mundo, porque era a casa onde ela morava com os seus pais e o seu irmão. O jardim era o reino das brincadeiras que ela e o irmão inventavam. E eles eram muito felizes.
A fada era fada, mas ela ainda não sabia. Nem ela, nem o irmão, nem os pais. Mas foi aos poucos que eles foram descobrindo.
Esta fada não tinha varinha de condão como as outras fadas, mas tinha um grande, grande, grande coração. E tinha uns olhos muito especiais. Quem olhasse para eles, via apenas uns belos olhos negros, de uma profundidade de veludo. E estes belos olhos negros de veludo, viam para além daquilo que as pessoas normais conseguem ver. Ela conseguia perceber a maldade, a beleza e a bondade no coração das pessoas, só de olhar para elas. Por vezes, na rua, quando saía com a mãe, havia pessoas conhecidas que paravam para falar com ela e insistiam em dar um beijo à menina. E, sem se perceber bem porquê, a menina às vezes sorria com o seu sorriso tímido e carinhoso, e, outras vezes, escondia-se atrás das saias da mãe, e não havia força nenhuma que a convencesse a dar um beijo, ou mesmo a ser sociável com certas pessoas. Isto acontecia tanto com pessoas já conhecidas, como com aquelas que a menina encontrava pela primeira vez. Eram os seus olhinhos de fada a verem para além do que os olhos podiam ver. Mas ela ainda não sabia.
As pessoas que lidavam com ela mais de perto, sentiam que o seu mundo ficava muito mais bonito, mais alegre, mais luminoso. De facto, com a sua natural forma de ser, a fadinha tornava a vida das pessoas mais brilhante e encantadora.
Esta fada era igual às outras meninas da sua idade: gostava muito de brincar, de ouvir histórias, de ir à escola. Adorava brincar com os seus amiguinhos, e tinha muitos. Todos os meninos no infantário gostavam dela, e queriam namorar com ela. E ela gostava de todos, mas, como não queria magoar nenhum, namorava com eles todos. Na sua inocência, sentia que todos tinham um lugar no seu enorme coração, apesar de tão pequenino de tamanho. O Jaime perguntou à mãe, na altura em que estavam a construir a casa nova, qual era o quarto da Miriam, pois, na sua cabecinha de menino, era perfeitamente natural que a menina de quem ele tanto gostava, fosse viver com eles, e tivesse um quarto reservado para ela na nova casa. E a Miriam contava a sua mãe, levantando os dedinhos da sua mão, o nome dos meninos que eram os seus namorados. E, quando a mãe, com um grande sorriso, perguntou à menina por que eram tantos, recebeu a explicação tão natural:
__Porque eu gosto deles todos, mamã, e se o Jaime for embora, fico com o António, se o António for embora, fico com o João, se o João for embora, fico com o André se o André…
A mãe não pôde deixar de pensar que este desprendimento, era ao mesmo tempo um ensinamento para as pessoas mais velhas, porque, efectivamente, não vale a pena sofrer-se por aqueles que partem e vão à sua vida, porque não somos donos deles, mas devemos voltar as nossas atenções para quem nos quer e precisa de nós. Mas, com a perda da inocência, perde-se também esse sentido prático, e começamos a capacitar-nos, erradamente, que os outros nos pertencem, e sofremos se eles nos abandonam. Por isso a mãe de Miriam dava-lhe um grande beijo, e dizia-lhe:
__ Meu amor, tu és a minha fada!
E esta fada tinha o condão de ser um bálsamo para os corações tristes, que ela adivinhava, através dos olhos dos outros.
Quantas vezes ela se chegava junto da mãe, e, sem que a mãe dissesse nada, ouvia as palavras da sua fadinha:
__ Mamã, não estejas triste! Eu gosto de ti, muito, muito, muito, muito! Até ao maior número que há no mundo! E cobria o rosto de sua mãe de beijos e carícias! E, como por magia, o coração da mãe ficava aliviado, e as tristezas fugiam.
Também na escola Miriam era uma menina muito cumpridora e carinhosa. Fazia desenhos para os meninos e meninas, pintava flores, sóis e corações e dizia-lhes o quanto gostava deles. Se eles estavam tristes, tinha sempre uma palavra de conforto. Se algum menino chorava, ela sentava-se junto dele, brincava com ele, dizia-lhe o quanto gostava dele…E, a pouco e pouco, as lágrimas desapareciam das faces dos meninos tristes…
A fadinha Miriam tinha um cantinho especial no coração da sua professora. Um dia, houve um castigo colectivo, porque os meninos ultrapassaram o prazo fixado para saberem a tabuada de cor. E eles começaram a dizer que a sua professora era má, era como uma bruxa. A professora tinha com os seus alunos uma relação que lhes permitia esse desabafo. Por isso, olhou-os um a um, com um ar um tanto triste. Se o seu coração estava mesmo triste, não sabemos. O que sabemos é que o seu ar era de tristeza.
— Acham mesmo? Eu sou uma bruxa? — perguntou, dirigindo-se à turma inteira.
Neste momento o coro dividiu-se. Houve a resposta afirmativa e categórica de alguns, e a hesitação de muitos. A fadinha Miriam olhou nos olhos da sua professora, e pressentiu-lhe a tristeza. No fundo do seu coraçãozinho doce, Miriam entendeu que bruxa era um epíteto muito forte. Era necessário suavizá-lo. Por isso, num arroubo, arriscou:
— Bruxa, não! Fada má!
Esta solução acolheu a aprovação dos seus colegas, e a fadinha ganhou mais um ponto no afecto da sua professora.
As asas de Miriam só para ela eram visíveis, e ela andava sempre a saltitar, de casa em casa, distribuindo o mel às meninas suas amigas, que queriam vir dormir em sua casa, ou que ela fosse dormir a casa delas. Se a mãe da fadinha deixasse, ela nunca dormia em casa. Por isso, os pais diziam muitas vezes:
— A nossa fadinha tem uma agenda social muito preenchida!
Ora a fadinha foi crescendo, crescendo, crescendo. Olhou à sua volta e viu que havia quem não se importasse de mentir, prejudicando os outros. E começou a aperceber-se que não bastava o amor que tinha no coração para dar aos outros. Havia quem se aproveitasse da sua bondade para se desculpar por maldades cometidas e não assumir responsabilidades, deixando-a a ela, por vezes, em situações embaraçosas que ela não tinha criado. Achou que andara enganada ao acreditar na bondade das pessoas, ao acreditar que o amor, a compreensão e o carinho que lhes dava, as tornava melhores. Mas elas maltrataram-na, troçaram dela, achavam que aquela bondade não podia ser genuína, acusaram-na de ser manipuladora…Sentiu um grande sofrimento e, depois de ter sido magoada por quem não esperava, começou a pensar que tinha que se proteger para a não magoarem mais. O sorriso alegre e bondoso começou a murchar nos seus lábios, e o seu olhar começou a ser ensombrado por nuvens negras, densas e espessas. Parecia que uma tempestade violenta estava a acumular-se dentro de si, prestes a desabar. Então escondeu-se atrás de uma muralha de raiva, de arrogância, de palavras duras. Resolveu estrangular o seu coração doce, calmo e manso.
Foi então que a grande Bruxa da Escuridão, ao ver que no coração daquela fadinha havia uma ferida aberta, entrou por ali dentro e instalou-se no seu coração.
A fadinha sentiu uma grande dor no coração, e, muitas vezes, chorava, sozinha, não compreendendo porque sentia tanta dor, por que razão aquelas mudanças eram tão dolorosas para ela. Sentia que tinha entrado num poço sem fundo, do qual não conseguia sair. Outras vezes, desabafava com as suas amigas, as poucas que guardara, e que sentia serem mesmo leais. Sentiu-se mais amparada, quando percebeu que algumas também estavam em sofrimento, e tentavam amparar-se umas às outras.
A mãe da fadinha percebeu que a sua menina mudara, mas, quando tentava aproximar-se para ajudar, a sua menina repelia-a. E a tempestade que andava a formar-se dentro da fadinha, desabava sobre a sua mãe, que a amava tanto! E a mãe da fadinha sofria, sofria, sofria…Sofria por ver a sua fadinha sofrer, sofria pelas palavras duras que ela não merecia, sofria, porque alguém viera roubar a alma da sua menina doce e meiga, e ela não a conseguira proteger…
E a fadinha sofria, sofria, sofria…
Guardou os seus pozinhos mágicos, e transformou-se. Tirou as suas asas de fadinha que só ela via, e rasgou-as, pisou-as, calcou-as aos pés…Depois, misturou-se no mundo. Agora ela é mais uma, entre a multidão, igual a tantas outras fadinhas que por aí andam perdidas…

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Estrelas nos teus olhos


A minha mãe é linda e tem passarinhos a cantar na voz dela e ela às vezes faz uns bolos muito bons que se parecem com as maminhas dela fofas e quentinhas e que também cheiram a bolos e ela também dá leite para o meu maninho mamar e eu quando era mais pequenina também mamava mas agora já não porque já sou grande e a minha mãe diz que eu sou a bonequinha dela e ela faz-me casacos de malha e vestidos e saias muito bonitos mas só faz para mim e para os meus irmãos e ela penteia-me e às vezes arrepela-me e eu choro e ela dá-me beijinhos e a dor logo passa e depois olhamos as duas para o espelho e ela diz que eu sou a menina mais linda do mundo e eu vejo no espelho duas estrelinhas a brilharem nos olhos dela e eu sei que ela é a mãe mais linda do mundo e ela diz que quando o meu pai deixar havemos de ir à Manela cabeleireira cortar o cabelo curtinho para não me arrepelar eu não gosto de sopa mas tenho que comer e fico sentada na mesa até comer a sopa e a sopa fica fria e faz-me arrepios e vómitos por causa das couves a esborracharem-se na minha boca e o meu pai diz que eu estou a fingir e tenho que comer e a minha mãe vem e diz que já chega que já comi um bocadinho. Às vezes a minha mãe zanga-se e as estrelas e os passarinhos fogem se calhar também têm medo como eu tenho que ela já não goste de mim e depois ninguém gosta, só a minha avó mas ela já está no céu e é muito longe para ela me vir dar beijinhos e dizer que eu sou a sua netinha querida e não há carteiro lá no céu e os selos são muito caros e o Menino Jesus também gosta de todas as criancinhas mas só quando se portam bem e eu às vezes faço tolices mas eu não quero fazer asneiras mas elas vêm ter comigo e o meu avô também gosta e é muito meiguinho mas mora longe e se a minha mãe não gostar mais de mim ele não sabe para me vir salvar e o meu pai está sempre zangado e tem uns olhos muito grandes e eu tenho medo dos olhos grandes para me ver melhor e eu não quero que ele me veja e me castigue e o meu irmão quer casar com a minha mãe mas eu não deixo ela é minha muito minha e eu dou-lhe beijinhos no sinal castanho de veludo que ela tem na bochecha dela e ela ri-se e diz que os seus meninos são o seu tesouro e um tesouro é uma coisa muito muito importante e ela também é o meu tesouro muito muito muito muito muito muito grande até ao céu.
Eu gosto muito da minha mãe.

terça-feira, 17 de maio de 2011

O "Coin"



Sempre fui tremendamente distraída e despistada desde que me conheço.
Quando era mais nova, nas situações embaraçosas que a minha distracção me criava, pensava que um dia, com a idade, com a experiência, eu seria uma senhora, o que para mim significava, naquela altura, que eu ficaria curada desses despistes e distracções.
Mas, infelizmente, hoje reconheço que esses males não têm cura. A doença é crónica e irreversível, e até se tem vindo a agudizar com o decorrer dos anos. A única diferença é que agora eu consigo falar das tais situações, rir-me delas, contá-las às minhas amigas…Mas em relação aos meus filhos adolescentes, nem pensar…esses continuarão na ignorância destas minhas aventuras…Bem basta quando elas ocorrem debaixo dos seus olhos, e eu tenho que me sujeitar aos seus comentários implacáveis…
É que ninguém gosta de ter uma mãe ou pai tão totós, que param, por exemplo num cruzamento, a perguntar a um condutor: “ Vou bem para tal sítio? “ e, depois de terem ficado a saber que se enganaram, verem, chapadinha à sua frente, a placa a indicar a direcção que tinham acabado de perguntar.
Realmente é profundamente ridículo, e os adolescentes não perdoam aos progenitores situações destas.
Estou a lembrar-me de uma dessa situações em que os meus filhos não estavam presentes e eu fiz uma triste figura, — mas, felizmente, esta até foi bem disfarçada — e, claro, em casa, eu remeti-me a uma omissão pura e simples.
O “Fórum” abriu na minha cidade e eu resolvi ir até lá para dar uma vista de olhos, ver as lojas…
Como tinha aberto também o estacionamento subterrâneo, conduzi o meu carro até lá.
Nos estacionamentos subterrâneos pagos que costumo utilizar, há uma máquina que emite um cartão quando entramos no estacionamento, o qual, depois de efectuado o pagamento, se introduz noutra máquina que nos levantará a barra que nos permite o acesso à saída. Aqui, em vez do cartão, retira-se uma moeda verde, de plástico. Mais moderno, portanto.
Entrei no estacionamento e tive o cuidado de guardar a moeda numa das bolsas laterais da minha carteira, para depois não perder tempo à procura dela. Ao cabo de cerca de duas horas, fiz o pagamento. Recebi troco e um bilhete que estranhei não ser rígido, mas maleável. Peguei no automóvel e, depois de andar às voltas e não encontrar a saída, perguntei a um segurança que andava por ali numa moto 4,e ele respondeu-me:
— Okay, siga-me, por favor! Tem a sua “coin” ?
— “Coin”?! Não! Só tenho este bilhetinho que comprova o pagamento.
— Mas devia ter consigo uma moedinha verde. Não tem?
— Não! Certamente ficou na máquina!
— Em que máquina pagou?
— Naquela!
— Vamos lá ver!
Nada de “coin“!
— Bem, então… terá de se deslocar ao primeiro piso, ao “guichet” central e expor a situação.
Voltei a estacionar a minha viatura, e lá fui ao tal”guichet”central, onde estava uma menina no computador e outro indivíduo.
A menina explicou-me que, a ser assim, eu ia ter que pagar as horas do estacionamento desde as oito da manhã até àquele momento (seriam 18 horas ), mais cinco euros , que era o valor do “coin”.
Eu comecei a rir-me, de tão nervosa, e disse:
— Desculpe lá, mas isso é que eu não pago! Então se eu tenho aqui o talão que atesta as horas a que eu entrei, o tempo que cá estive, e que o pagamento está efectuado, hei-de pagar o estacionamento desde as oito da manhã até agora? Não pago!
Bem, a menina foi falar com o outro “fulano”, que veio, muito calmamente, explicar-me que eram normas da empresa, que eles eram funcionários, e que eu não tinha outro recurso, senão pagar.
— Então nesse caso o meu carro fica aqui e eu vou telefonar já ao meu advogado (faz muito bem ver muitos filmes), e ele dir-me-á o que hei-de fazer – disse eu, nervosíssima, completamente fora de mim, mas a tentar mostrar uma calma que estava muito longe de sentir. — E já lhe digo, é a primeira vez que aqui venho, e a última. Pelo menos estacionar aqui é que nunca mais.
— Faça o favor de me acompanhar, que eu vou falar com o meu chefe!
E lá vou eu, seguindo o homem, completamente ansiosa, nervosa, enfim...
Lá fomos ao piso não sei quantos, e o homem entrou lá num gabinete, e eu fiquei num “hall”, à espera da decisão suprema.
Pouco depois voltou com a decisão: só teria que pagar o “coin” (eu já estava a ficar irritada com o “coin”! Porque lhe não chamavam pura e simplesmente moeda, ou ficha, e tinham que ser tão parolos, com o “coin” para trás e para a frente, tendo nós em bom português, o seu correspondente?), que era cinco euros. Eu respondi que sim senhor, e o homem foi comigo junto da máquina para eu poder sair do estacionamento...
Antes disso o cavalheiro passou-me um recibo e disse-me que, caso o “coin” aparecesse, que poderia reaver o dinheiro, bastando, para isso, apresentar aquele impresso.
Passados dois dias, quando despejava o porta – moedas à procura de 50 cêntimos para o carrinho do supermercado, o que é que eu encontrei? Isso mesmo, o malfadado “coin”, misturado com as outras moedas. Sou ou não sou maluca?
Tinha guardado a moeda automaticamente, juntamente com o troco, e era capaz de jurar pela minha vida que nunca tinha retirado nenhum “coin” da máquina de pagamento!
É claro que me calei, e nada de vir fazer tristes figuras, entregando o “coin” a troco de uns miseráveis cinco euros sobretudo depois de ter “pintado a manta”, e de me ter sentido vítima de uma profunda injustiça!



quinta-feira, 28 de abril de 2011

Cabelo e alma vermelhos



Hoje pintei o cabelo. De vermelho. Púrpura. Não, não ficou tão agressivo como a cor púrpura poderia deixar adivinhar. Sou morena, o meu cabelo é castanho-escuro, por isso ficou assim um tom castanho com reflexos vermelhos bastante pronunciados.Cor de vinho escuro. Ao princípio pareceu-me que não ficaria nada de jeito. Mas agora gosto, e muito. Mas acho que não é para manter durante muito tempo. Ando à procura de um tom que me convença, e não consigo encontrar. O que tinha anteriormente era cor-de-laranja, mas no meu cabelo ficava assim um tom loiro escuro com reflexos laranja. Mas também não é este tom que me agrada. Quero um laranja avermelhado, assim um tom de fogo. Por isso, vou continuar a procurar. Só que desta vez, fiz uma tenda incrível na casa de banho. Ficou tudo sujo de vermelho: roupão, toalhas, pijama…Das outras vezes que tingi o cabelo, não fui tão desastrada, ou melhor: eu tive tanto cuidado como das outras vezes, o resultado é que foi diferente. Quando o Alfredo chegou de S., estava eu ainda com o cabelo todo empastado de vermelho. Já tinha a carne e as batatas a assar no forno, mas estava durante o tempo de espera, até que a tinta actuasse. O Alfredo assustou-se com o vermelho à volta das orelhas, no pescoço, na testa. Quando abri a água para sair a primeira camada de pintura, antes de usar o champô, ofereceu-se para me ajudar. Do cabelo saiu imensa tinta vermelha, parecia que alguém estava a sangrar. Brincou com a situação, mas não consegui libertar-me do vermelho que me tingia a pele.
Desceu para a cozinha e, passado um bocado o nosso filho subia, com um ar malandro, para “gozar”, dizia ele, com a minha cor vermelha. Felizmente a tinta (pelo menos a maior parte), já tinha saído, e ele mostrou-se desiludido por não encontrar motivo para gozar. Enquanto o Alfredo orientava o almoço, eu fui para o terraço e sequei o cabelo à luz do sol. Aí é que eu fui vendo a cor final do cabelo, que se foi revelando à medida que ia secando. E eu ia olhando para o reflexo do vidro da janela, a gostar do que via.
A minha filhota chegou e perguntou-me porque escolhera eu aquela cor horrorosa para pintar o cabelo. O Afonso também se mostrou pouco agradado. O Alfredo não comentou, mas quando o confrontei, disse que gostava. É uma qualidade dele, gostar das coisas diferentes que eu escolho para usar, seja roupa ou cabelo. Tem um espírito mais aberto do que os filhos, principalmente a Sara, que é bastante conservadora. Se ele também não gostasse, paciência. Mas eu gosto, até ver. As minhas unhas e a pele dos dedos têm vestígios da melindrosa operação a que me entreguei. Qualquer investigador dos CSI tiraria conclusões, quiçá precipitadas, do tom avermelhado dos meus dedos e unhas. Isto porque não vi logo as luvas que costumam acompanhar a embalagem de tinta. Até pensei que já não trouxesse luvas. Mas estavam muito bem aconchegadas no panfleto informativo que acompanha a tinta e, como eram transparentes e já vejo mal ao perto, não as reconheci. Por isso misturei as tintas sem as luvas, e só depois fui procurar umas (tenho sempre em casa material de limpeza). Quando já não precisava delas, é que descobri as que vinham na caixa.
Bom, mas isto tudo para dizer que me sinto bem com a minha cabeleira, apesar de não ter sido aprovada pelos meus filhos. Aliás, da parte deles já sei que não posso contar com palavras de encorajamento, seja para o que for, pois a onda deles é sempre do contra. Apesar de serem praticamente adultos, continuam a comportar-se como estando em plena adolescência. Qualquer atitude da minha parte, que seja discordante de algo que eles fazem, ou pensam, é o rastilho para uma enorme discussão ou mal-estar. Mais um pequeno episódio que o comprova, decorreu hoje, durante o almoço.
O arroz estava ao lume, a acabar de cozer.
Estávamos sentados lá fora, aproveitando a temperatura maravilhosa. Tocaram à porta e o Alfredo foi atender. Desligou o fogão. O Afonso já estava a comer, e tinha pedido o arroz. Eu trouxe o arroz para a mesa e pareceu-me que ainda não estaria cozido. Aliás, estava ainda bastante húmido. Como os meus dois filhos estavam já sentados à mesa, servidos de carne e de batatas e aguardavam o arroz, eu tirei uma pontinha de arroz numa colher, e disse:
— Olha, Afonso, prova, vê se já está cozido.
Pareceu-me lógico que lhe desse a provar.
O que eu fui fazer! O meu filho zangou-se comigo, dizendo que não tinha nada que lhe colocar o arroz no prato, que provasse eu, etc., etc., etc.
Enfim! Isto foi o suficiente para me deixar irritada também, porque eu não compreendo como pode ele reagir de uma maneira tão agressiva, por uma situação menor. Resolvi deixar passar, embora a irritação fosse notória aos olhos do meu marido, que entretanto entrou na cozinha, vindo de atender a porta, e reparou no meu estado de espírito. Pouco depois, e já a levantar a mesa, lembrei-me de sugerir à Sara a mudança dos lençóis lá na casa do Porto à 5ª feira, pois podia pedir a uma das amigas que a ajudasse a fazer a cama, e depois seria ela a ajudar a amiga. Não gostou da sugestão e, rispidamente, como se eu a tivesse maltratado, respondeu-me que ela conseguia perfeitamente mudar os lençóis sozinha e que, se ainda o não fizera, foi porque não tivera tempo, e que era melhor que eu a deixasse em paz.
Em paz ando eu durante a semana, com eles fora. Apesar de os aguardar com saudades e gostar que eles venham, quando eles chegam a minha paz de espírito vai-se, o “stress” instala-se, e eu enervo-me profundamente.
Retomei a arrumação da cozinha, enquanto as lágrimas me corriam pela cara. Então, não pôde deixar de me ocorrer que não posso ligar a estes pormenores, porque, em contrapartida, eles são saudáveis, atinados, e eu tenho a família “unida” ao fim-de-semana, um emprego de que gosto, saúde, etc. Mas todos saíram e deixaram-me a arrumar a cozinha. Nenhum perguntou, sequer, se eu precisava de ajuda…
O Alfredo partiu para a aldeia, cortar as ervas lá na casa de campo. A Sara saiu com um velho amigo de infância, e o Afonso declarou que ia ter com o pai. No corredor, amontoava-se a roupa que os meus filhos trouxeram para lavar. Comecei a rezingar. O Afonso foi dizendo que eu estava sempre maldisposta, sempre a barafustar… Retorqui:
— Tens razão, filho, a partir de agora vou deixar de barafustar. Vou agir. Vocês já são crescidos, por isso, se querem a roupa lavada, lavem-na. O meu filho saiu. Eu saí a seguir depois de me arranjar, olhar-me ao espelho, achar que estava maravilhosa…E aqui estou, na esplanada da pastelaria do bairro onde vivo, escrevendo estas linhas.
Sinto-me bem, poderosa, animada. Está um lindo dia e pretendo gozá-lo. Não são os meninos mimados que eu não soube educar no respeito pela mãe, (no que tive a ajuda do pai), que vão estragar-me o dia.
O sol aqui já se está a afastar. Vou para casa, para o meu terraço, apanhar sol, com um bom livro por companhia.
Gracias à la vida!

sexta-feira, 22 de abril de 2011

A praia





A excitação dos preparativos acumulados durante dias a fio, presenteou-a com uma noite de vigília. Uma noite de lençóis amarrotados, pernas e braços atirados fora do colchão, murros no travesseiro, voltas e reviravoltas, suspiros de desespero.
O cansaço atirou-a finalmente para aquele estado de sonolência em que se esvai a noção do local onde nos encontramos. Um estado do qual se assoma mais cansado do que se partiu.
Acabou por sair da cama, meio trôpega, e, depois de atravessar a porta do quarto, viu acesas as luzes do corredor.
A mãe, com um ar cansado, andava de trás para diante, colocando roupa numa grande mala aberta em cima de duas cadeiras. No chão, outra mala, exactamente igual, abarrotava, aguardando, talvez, o jeito e a força do pai para a fechar.
A mãe olhou-a, e sussurrou:
— Vai dormir, ainda é cedo!
— E você, mãe? Já dormiu?
— Não te preocupes. Vá. Vai dormir. Ainda é muito cedo. O pai vai acordar-vos quando chegar a hora.
— Vou beber água.
— Mas depois tenta descansar. E não andes aí descalça!
Lurdes dirigiu os seus pés nus até à cozinha. Deu a volta à torneira da enorme talha de barro vermelho que estava assente num dos cantos da cozinha, e a água jorrou para uma caneca de esmalte, antes de a emborcar, límpida e fresca, pela goela abaixo.
Voltou para a cama. Fechou os olhos, mas o sono andava arredio. Do pensamento não lhe saíam todos os momentos dos preparativos, desde que souberam que iriam de férias, durante um mês, para a praia. Figueira da Foz. Ela nunca tinha visto o mar. Ao vivo, quer dizer. Já o conhecia dos calendários. Na véspera, estivera ela em casa da Aurora costureira, até bem tarde, enquanto ela lhe colocava a espiguilha no fato de banho vermelho que a mãe lhe mandara fazer. Era lindo, de popelina vermelha escura, todo cheio de franzidos. E, à volta dos ombros, um folho largo, descaído, orlado da espiguilha branca. Fora preciso recorrer à Aurora costureira, já que a D. Maria Fontes, que, durante quase um mês, trabalhara quase exclusivamente para a mãe, não conseguira dar conta deste seu tardio capricho. E D. Maria não teve mãos a medir. Calções e camisas para os seus irmãos, saias, vestidos, blusas e corsários para ela…Para a mãe, vestidos lindíssimos, lisos e estampados, um fato de saia e casaco cinzento, muito elegante, com as mangas do casaco a três quartos, e à frente, só um grande botão à volta do pescoço, de onde saía uma carreira de tecido desfiado. Duas blusas para o fato. Lurdes não se lembra de que o pai tenha feito qualquer preparativo especial…roupa, quer dizer…
A Chinha, nora de D. Maria Fontes, de férias em Portugal, vinda do Congo, assumira o papel de conselheira da mãe e era vê-las às duas a consultarem os figurinos, e a mãe, excitadíssima, a submeter-se às indicações de quem sabia. Sim, porque as fotografias não mentiam. A Chinha, sempre elegantíssima, num ambiente rodeado de palmeiras, e um belo carro descapotável. A Chinha a ser servida por vários criados negros. A Chinha, num safari, sabe-se lá onde…A Chinha…
E a mãe, a sua mãe, ignorada naquelas berças, a ter que alombar com todo o trabalho da casa, a cuidar dela e dos dois irmãos, e do pai, que se sentava à mesa a exigir ser servido e nunca sequer pusera a mesa, a sua mãe sem criados, sem vida que merecesse ser contada, a deixar-se encantar por aquela outra vida que parecia retirada de um conto de fadas.
E os filhos da Chinha, dois rapazes, o mais velho da sua idade, cada um dentro de seu carro, carros de brincar, como ela nunca imaginara que pudessem existir, iguaizinhos aos dos adultos, e que andavam mesmo, movidos a pedais…Os únicos carros que ela conhecia parecidos com aqueles, e no entanto tão diferentes, eram os que eram feitos com uma prancha de madeira dos caixotes de sabão, e rodas aproveitadas no lixo onde eram lançados os desperdícios da fábrica. Os garotos montavam em cima deles, que começavam a deslizar pela calçada, ganhavam balanço, e transformavam os rapazes em donos do mundo. Mas eram brincadeiras vedadas às raparigas.
E as fotografias que mostravam os dois irmãos muito direitos, começaram a aumentar, a aumentar, a aumentar, rodearam Lurdes e eles a chamarem-na para dentro dos carros, e ela entrava no carro do Nuno… Era um carro vermelho de madeira, que começou a andar aos tropeções, por uma enorme seara…Mas a seara transformou-se num enorme campo espelhado, de onde começavam a brotar girassóis vermelhos, que tinham olhos e bocas de peixe, e todos os girassóis, com as suas bocas de peixe, começavam a cantar, desafinadíssimas: “Bom barqueiro, bom barqueiro, deixa-me passar, tenho filhos pequeninos, não os posso deixar…” E o carro deslizava naquele chão espelhado, por entre os girassóis que não paravam de crescer, crescer, crescer e iam cantando a mesma cantilena…
— Vá, meninos! Está na hora!
A fotografia encolheu rapidamente. A voz do pai encheu o quarto. A voz do pai, sempre autoritária, tinha agora laivos de condescendência.
O irmão mais velho acordou logo, mas o outro continuou a dormir. O pai afastou o cobertor e deu-lhe uma leve palmada no rabo. Ele voltou-se, fitou o pai com aqueles olhos enormes e pestanudos, e, com uma voz meiga e infantilmente ciciada, perguntou:
— É agora, pai? Vamos ver o mar?
— Agora vamos tomar o café. O mar é só mais logo, depois da viagem.
**********

Acordaram quando o carro parou.
— Olhem, meninos, é o mar!
Lurdes sentiu um cheiro forte a entrar-lhe pelas narinas.
— A que cheira, pai?
— A maresia. Cheira a maresia. É o cheiro próprio do mar.
O céu parecia-lhe um reposteiro a conter aquela imensidão de água cintilante e doirada. Pássaros planavam ao longe. Sentiu uma emoção muito forte, inexplicável.
— Que lindas as andorinhas!
— São gaivotas, filha! Gaivotas!
— Podemos?
— Sim, vão lá!
Quando Lurdes pisou a areia fina e quente, ajoelhou-se, enterrou as mãos, riu-se das cócegas, rebolou, correu, saltou, gritou de felicidade. Depois correu para as ondas, seguida de perto pelos pais e irmãos. Assustou-se quando sentiu a água fria a rodear-lhe os pés.
— Que bom! Que lindo! Tanta água!
E havia lágrimas nos seus olhos.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Regresso



Nasci no sítio errado. Num vale perdido no meio da serra. Não obstante todas as suas belezas naturais, senti sempre que o meu lugar não era ali. Que era fruto de um tremendo equívoco. Em miúda, e durante muito tempo, pensei que era ali o fim do mundo, o lugar onde a terra acaba. E que, para lá dos montes, era o nada. Quem entrasse na aldeia, só podia sair pelo mesmo caminho, voltando para trás, recuar, retroceder. E quem retrocede, quem volta atrás, desfaz o caminho percorrido. Como quem se arrepende de ter escolhido aquele caminho. Ou como quem dá conta que se perdeu. E tem que voltar atrás, refazer o caminho. É isso. Como quem se perde. Então, eu, ao nascer, perdi-me, porque abri os olhos para a vida naqueles montes serranos, naquela aldeia sem futuro, como sem futuro prometiam ser as vidas ali concebidas e que ali abriam os olhos para uma vida sem promessas. Cresci com uma sensação claustrofóbica, que só muito mais tarde viria a identificar como tal. Olhava à minha volta, e só via montes a cercarem-me, montes ameaçadores que se fechavam sobre mim e me gritavam um destino confinado e sem asas, e me roubavam a respiração, os sonhos, as ilusões.
Mas havia, mesmo assim, alguma esperança. A água que escorria pela serra, escavando sulcos nas encostas dos montes, e que de dia e de noite rumorejava pelos regos da aldeia, era a voz imperiosa e imparável que dentro de mim se erguia, e me prometia esperança. E eu esperava. Quando a noite chegava, essa voz submergia-me, e brotava em todos os poros do meu corpo. E eu pressentia, sem me ter sido ensinado, que essa água corria para algum lado, encontrava o seu caminho, desaparecia da minha vista, mas encontrava o seu refúgio, não voltava para trás.
Os meus pesadelos eram povoados de figuras aterradoras que me perseguiam e das quais eu fugia, fugia, fugia…Mas eu sabia como as ludibriar. Entrava no rego, unia--me a essa água que corria sem entraves, dissolvia-me nela, lançada numa corrida vertiginosa em abrupto declive, os ouvidos ensurdecidos com o fragor brumoso da cascata e eu acordava, enfim, liberta das garras da ave de rapina que, do alto do seu império, me devolvia à terra. E sentia o embate no meu leito, o coração num sobressalto, batendo descompassadamente. E, na noite, os meus olhos abriam-se, e voltavam a fechar-se, com a certeza de que haveria algures, no mais remoto escaninho, esperança. E readormecia reconfortada.
Aos domingos os meus olhos e sentidos ficavam prisioneiros de encantamento na janela mágica que se abria no Café em frente da minha casa, que me prometia outros mundos, outros céus, outras paisagens, outras pessoas, outras vidas. E mais uma vez o pressentimento de que talvez houvesse mundo para lá daqueles montes intransponíveis debruçados sobre mim, vigilantes, a transformarem os meus sonhos em pesadelos. Sim, havia outros mundos. Havia esperança. Esperança.
O mundo que os livros me prometiam, era mentira.. Eu sabia disso, mas mergulhava neles e devorava aquelas páginas que me levavam para além dos montes, porque cedo aprendera que só através deles era possível sair dali. E viajava dentro deles, emboscava-me naquelas páginas douradas, que me permitiriam sobreviver sem cicatrizes na alma.
Quando, finalmente, fui chamada a voltar para trás, a recuar, a retroceder, para ir estudar para a cidade, compreendi que se pode recuar e estar a caminhar em frente, para um futuro com esperança. Soube então que estava salva.
Mas o maior encantamento foi quando descobri o mar, quando descobri espaços amplos sem montes, quando descobri que as grilhetas que eu receava que me amarrassem irremediavelmente àqueles montes, àquelas enormes fragas suspensas nas encostas, àqueles pinheiros sussurrantes, poderiam ser quebradas como cordas esfiapadas, pela vontade indómita do meu querer. E foi aqui, em frente ao mar, que eu senti a união, o regresso ao ventre materno, a paz e tranquilidade que procurei, a razão do meu ser. Só aqui encontro a fonte inesgotável que sacia a minha sede, só aqui a minha alma ganha asas, voa e se liberta, volteia junto às gaivotas que cruzam os céus hoje sem nuvens. Aqui solto os meus medos, que transporto comigo como cães de fila sempre à espreita de avançarem e me congelarem os meus íntimos anseios. Apaziguo-os e eles dão-me tréguas, enquanto caminho pela marginal ou voo confiante pelo areal, ao encontro das águas do mar. Aqui sinto que é possível reconstruir-me como se voltasse ao princípio, ao primeiro momento de vida, quando abri os olhos pela primeira vez naquele vale. Abro-os aqui, em frente ao mar, e sinto que nada me detém. Já não há montes a subjugarem-me, nesta vida renovada, em que a parte de mim que andou perdida, se une à outra que sempre aqui esteve, à espera, à espera que eu chegasse e a reconhecesse.
Voltei a casa.

Companheiras


Era uma vez uma felpuda ninhada de gatinhos cinzentos, tigrados, que apareceu, resguardada pelos arbustos, no quintal da tia Juliana...
De manhã cedo, antes de ir para o trabalho, a tia Juliana viera estender uma máquina de roupa que havia ficado a lavar durante a noite. E fora alertada por uns guinchos débeis, vindos por detrás do arbusto.
Cheia de precauções, não fosse o diabo tecê-las, a tia Juliana afastou os arbustos e...ficou encantada e comovida, ao reconhecer a gata vadia (à qual ela por vezes deitava uns restos de comida, ou umas sopas de leite), pacientemente esparramada, enquanto oito novelinhos, de focinho rosado, empoleirados uns em cima dos outros, lutavam para chegar às tetitas da gata exausta।
Perante aquele espectáculo, a tia Juliana não pôde conter uma exclamação espantada। E os olhinhos meigos que a gata lhe lançou, enterneceram o coração de Juliana, que não se conteve que não dissesse:
— Pobre bichana! Arranjaste-a bonita! Olha em que trabalhos te meteste, enquanto o malandro do pai dos teus filhos, anda por aí no laró!
A tia Juliana não pôde deixar de reconhecer naquela gata vadia, uma homónima da sua sorte। Já havia algum tempo que deixara de a ver, mas agora, ao surpreendê-la ali, naquela situação, sentiu-se irmanada com o pobre animal।
Também ela ficara sozinha, com os quatro filhos, quando o seu homem decidira dar às de “Vila Diogo”!E ela lá os criara, à custa de muito trabalho, comendo o pão que o diabo amassou. E não precisara dele para nada. Deus ouvira as suas preces, e, realmente pusera “a mão por baixo”aos seus meninos. Agora, cada um seguira o seu destino: o mais velho trabalhava na “Carris”, em Lisboa. O mais novo era professor primário no Alentejo, e as duas raparigas, ambas solteiras por opção, tinham uma sociedade de”catering,”ou lá o que é, em Vila Nova de Gaia. Estavam todos bem, graças a Deus। O único senão é que ela estava sozinha, depois de ter tido uma vida cheia e sem tréguas, enquanto os criara. É certo que a visitavam com alguma regularidade, sobretudo as raparigas. Mas sentia-se só. Por isso mesmo, nunca deixara de trabalhar, e o seu trabalho como empregada doméstica, trazia alguma animação e distracção aos seus dias. As duas casas onde ela trabalhava, tinham crianças, como ela exigia. Quando cresciam, e iam para a Universidade, ela despedia-se, e ia procurar outras casas, onde houvesse outras crianças a precisarem do seu carinho de avó, já que os seus únicos netos, dois rapazes do filho mais velho, estavam tão longe. Foi buscar à loja o cesto das cebolas, que despejou no chão de terra batida, e, com mil desvelos, forrou o cesto com um cobertor velho। Em seguida dirigiu-se ao quintal e começou a pegar nos gatinhos. Ao princípio a gata levantou a cabeça, vigiando as crias. Olhou para a tia Juliana, e, nesse olhar aquela mulher pôde ler uma súplica muda. As palavras que lhe saíram da boca foram ditadas pelo coração, de igual para igual:
—Vá, sossega!
A gata voltou a poisar a cabeça। Parecia muito fraca। Finalmente a tia Juliana pegou –lhe, e ela não ofereceu resistência। Uns gemidos fracos e cansados foram a sua única reacção। A anciã ajustou os gatinhos, de modo a que pudessem ir mamando।
Uma suspeita foi nascendo no espírito da Tia Juliana, que se dirigiu à gata:
— Ó mulher, tu não vais morrer, pois não? Olha que tens estes filhos todos para criar! E uma mãe nunca desiste, ouviste?
Foi à cozinha, esmigalhou o pão da véspera, ao qual acrescentou um pouco de leite। Aproximou-se da gata, que não mostrou o mínimo interesse pela oferta।
— Ai a nossa vida! Isto assim não pode ser! Tens que te alimentar! Como queres ter leite para esta filharada, não me dirás? Ah! Já sei! Estás enjoada, não é? Espera aí!
Voltou à cozinha e trouxe uma lata de sardinhas, que abriu mesmo à frente da gata.
—Olha-me só este cheirinho! Ora prova! Não queres?! Queres ver como é bom?
E, pegando num bocadinho, levou-o à boca, esperando, com o seu exemplo, convencer a gata a comer:
— Tão bom! Ora prova!
Perante a indiferença da gata, a tia Juliana levantou-se, e avisou:
— Bem, tenho que ir trabalhar। Vou-te deixar, mas volto! Ficam-te aqui as sopas e as sardinhas e vou-te pôr também uma taça de água। Quando voltar, quero ver que comeste alguma coisa। Até logo!
Durante a manhã não lhe saiu da cabeça a pobre bichana। Foi com algum esforço que fez o seu trabalho, enquanto aguardava que os meninos chegassem para almoçar। Então contou-lhes, com os olhos cheios de alegria, dos oito gatinhos que lhe tinham aparecido no quintal। Mas, ao falar-lhes da mãe, os seus olhos tingiram-se de negro, pelo receio que lhe ensopara a alma। O Bernardo lembrou –se logo:
__ O pai da Rita da minha turma é veterinário। Eu logo já falo com ela। Nós estamos a fazer um trabalho em “Área de Projecto” sobre os animais abandonados। Até podemos arranjar donos para os gatinhos!
— Não, menino! Donos, não! Eles têm dono, aliás, dona!
Naquele momento Juliana assumira aquilo que ainda nem sequer pela cabeça lhe passara: ficar ela a cuidar dos gatinhos। Mais tarde, acabaria por concluir não possuir condições para desempenhar aquela tarefa e, efectivamente, os gatos foram partindo, para casas onde seriam bem cuidados, mas sempre acompanhados por duas lágrimas da tia Juliana, e pela promessa de que os nomes com que ela os baptizara, haveriam de prevalecer। Só guardaria para si a Zélia, a mãe।
— Se o pai da menina Rita pudesse ver a gata!
E a excitação, doseada pela preocupação da tia Juliana, fora o rastilho que em breve incendiaria a turma do 6º ano da escola frequentada pelo Bernardo। Aquela “Área de Projecto” rapidamente tomou outros contornos। A Rita implicou o pai no tratamento da Zélia (então ainda sem nome), que necessitou de uma intervenção cirúrgica, sem a qual teria morrido।
Sem conhecimentos médicos, mas com grande sensibilidade, a tia Juliana apercebeu-se do estado da gatinha।
E é vê-las no quintal, logo pela manhã... A tia Juliana a estender a roupa, e a gata a seguir todos os passos da sua companheira, sim, porque a relação entre elas é de companheirismo, e não de dona / servo।
Enquanto estende a roupa, a tia Juliana vai falando com a Zélia, que lhe responde com miados, ronrons, gemidos, silêncios, arrebitamento de orelhas, acenos de cabeça, saltos mais ou menos calmos...E a tia Juliana aprendeu a reconhecer, nestes gestos de Zélia, o assentimento ou a discordância ao seu discurso, num diálogo perfeitamente animado e interactivo।
Quando chega a hora de dormir, Zélia dirige-se para o quarto comum, deitando-se na sua almofada, enquanto aguarda que Juliana faça a sua “toilette” e encoste, também ela, a cabeça na almofada que lhe pertence।
Nunca mais a tia Juliana sentiu o peso da solidão a marcar-lhe as horas, os dias, os meses... Encontrou uma companhia com a qual pode conversar, que a escuta e compreende melhor que ninguém। Disso ela não tem a menor dúvida।

sábado, 19 de março de 2011

Desentendidos


A minha linguagem
Não consegue tocar-te a alma.
Lês nas minhas palavras
Agressões que não transporto.

As minhas palavras
Não querem dizer
O que dizem as tuas palavras
Mas o que me não dizes,
Também me faz doer...

As palavras que te digo
Abrem feridas não saradas
Impotente, calo o meu dizer
Ficam a doer-me
As palavras caladas

Doem e queimam
As palavras não-ditas...
Malditas,
Ecoam...
Ressoam...
Fazem ricochete
Em subentendidos
Desapercebidos.

Desencontros



Marca-lhes os passos
Amarra ferrada na carne
Dos dias apagados amortecidos
Por inexistentes sobressaltos

Invisíveis fios inquebráveis
Amarras sem remédio
Vidas amarradas confinadas
Pelo tédio

Vidas sem caminho
caminhando
De costas voltadas
Em caminhos sem encontro

sexta-feira, 11 de março de 2011

Violência





Não era de ferro. Sabia que lhe competia guardar a casa, mas se via uma aberta, pirava-se. A sua natureza chamava por ela. Era um apelo demasiado forte para ser ignorado.
Olhou para ele. Alto, autoritário, pernas abertas, de chibata na mão direita. Batia com ela na mão esquerda, ritmicamente, experimentando o poder desse instrumento que costumava descarregar nela.
— Anda cá! Aqui! Já!
Avançou para ele, rastejando. Mal conseguia suster-se nas pernas. Um medo espesso começava a inundar-lhe os sentidos, paralisando-os.
O coração, descomandado, batia-lhe na boca, ameaçando sair disparado.
— Ah! malandra! Chega-te aqui! Já te vou ensinar a respeitar as ordens.
Aterrorizada, viu-lhe as botas cada vez mais próximas. Aninhou-se, à espera do castigo. À sua volta começa a alastrar uma poça de água tépida.
Fere-lhe os ouvidos o riso despropositado do dono. Um riso quase tímido, primeiro, depois desembestado. Um riso que adivinha cariado e negro, quente e pesado.
— Já não susténs as águas? Mijaste-te de miúfa, não foi?!
Só então se apercebe da natureza da água. Mais do que as chicotadas a que costuma submetê-la, dói-lhe aquele sorriso escarninho, que a sufoca em marés de continuado desprezo.
Levanta-se. Segura-se firmemente nas patas traseiras. Recua. Mede a distância. Dispara em galope, derruba o dono e crava-lhe os dentes na garganta.
Não era de ferro.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Castigo implacável




Já havia algum movimento no andar de cima, na casa da avó. Era preciso levantar-se, e ir para a escola… mas estava tanto frio…Já tinha tentado pôr o nariz de fora dos cobertores, e sentira-o a ficar gelado, gelado… Encolheu-se mais um pouco, colocou-se em posição fetal, juntou as mãos entre as pernas, e pensou que tinha que ser… Do lado de fora, a avó desceu as escaleiras de pedra e veio bater-lhe nos vidros da janela do seu quarto que dava para o quintal comum. Sem contemplações, a avó gritou que eram horas, que estava atrasada. Foi então o momento de deslizar para fora, deixando o irmão mais novo ainda na cama. Sentiu uma inveja profunda, por não poder ficar ali, ao pé dele, no quentinho. O frio do quarto penetrava-lhe a carne até aos ossos. Vestiu-se rapidamente, lavou as mãos, a cara, e chamou a mãe. Ela lá veio, ensonada e friorenta. Rapidamente aqueceu-lhe uma caneca de cevada com leite, e preparou-lhe um pão com manteiga…O nervosismo de Lurdes era agora cada vez maior. Ganhou finalmente consciência de que estava atrasada e de que iria enfrentar o mau génio e o castigo implacável da professora. Queixou-se à mãe e começou a choramingar… A mãe tentou acalmá-la, dizendo-lhe que ainda faltavam vinte minutos para as nove horas…Este argumento irritou ainda mais a garota.
— Pois é, mãe, mas sabe muito bem que a professora nos quer lá mais cedo, e, se lá não estivermos, ela bate-nos…
— Essa agora, não tem nada que te bater, o horário é às nove, não é às oito e meia…
— Mas ela bate-nos…ela bate-nos…
E as lágrimas caiam pelas faces de Maria de Lurdes, antevendo já o castigo que nunca deixava de vir.
A mãe, também já nervosa, acicatava a filha:
— Então anda lá, despacha-te!
E a pequena saiu, agarrando no pão que ia mordendo pelo caminho, misturado com lágrimas e angústias…
Num passo apressado, caminhou para a escola, edifício novo que ficava afastado da aldeia, a uma distância considerável que era preciso vencer…subiu a rua onde morava, passou pela igreja, pela farmácia, percorreu a praça da aldeia, atravessou a rua, com o nariz vermelho enfiado no cachecol, avançou pela rua da Amoreira, a sacola a pesar-lhe cada vez mais… entrou finalmente na Carreira. Aqui o frio era insuportável…Não havia casas …apenas o edifício do apeadeiro das carreiras que quebravam o isolamento da aldeia e a mantinham em ligação com outros mundos…filas de carvalhos perfilavam-se ao longo da avenida…De um e do outro lado da estrada, rugiam os ribeiros que da serra traziam as águas que alimentavam os campos e as casas.
O vento assobiava forte, impedindo a garota de progredir na sua caminhada…O seu corpo frágil e franzino avançava um passo, e o vento obrigava-a a recuar dois… O frio penetrava através da malha grossa do passa-montanhas tricotado pela mãe, arrepiava-lhe os cabelos, e o vento impedia-a de respirar…Os pés enfiados nuns botins de borracha, estavam gelados, apesar das meias grossas que apenas lhe chegavam aos joelhos. Esses nem os sentia... Depois de ultrapassar este obstáculo, Maria de Lurdes, protegida pelas casas, e pelas construções fabris, sentia o vento mais ameno. Começava agora outra etapa…era preciso subir os barrancos de terra batida, quase a pique…A respiração entrecortada denunciava-lhe o cansaço. Quando finalmente se encontrou em terra plana, e avistou a escola ao fundo, começou a sentir menos frio, mas a angústia aumentada. O coração batia-lhe descompassadamente…
Sabia que era tarde, pois não encontrara pelo caminho nenhuma colega da sua sala, nem da sala dos rapazes…
Entreabriu a porta, como um criminoso que volta sempre ao sítio do crime. A lengalenga da tabuada cantada ou da conjugação dos verbos, era a toada que saía pela porta entreaberta. Tentou passar despercebida e esgueirar-se para a carteira, como tantas vezes já vira fazer a algumas colegas…Mas não teve sorte... A professora ferrou-lhe os olhos em cima, e, com um gesto, chamou-a para junto de si. A régua estava já a postos na mão do carrasco. Lurdes estendeu a mão sem uma desculpa que sabia inútil, a professora pegou-lhe na ponta dos dedos, e as reguadas caíram-lhe nas mãos geladas. Quase as não sentia naquele momento. Mas já conhecia o processo…As mãos começavam a ferver, sentia um formigueiro e uma dor insuportável, como se as mão lhe estivessem a cair…O esforço para não chorar nunca resultava. Ia para o seu lugar, tentava controlar-se, mas as lágrimas quentes e salgadas desaguavam-lhe nos cantos da boca. Sem um queixume tentava tirar os cadernos da sacola com a mão que escapara do castigo, visto que a outra estava por momentos inútil. Pior que a dor física, era a dor da humilhação…Tanto que ela gostaria de enfrentar a professora enquanto a castigava, de olhos nos olhos, sem que nenhuma lágrima lhe denunciasse a fraqueza... Mas nunca o conseguira…era obrigada sempre a baixar a cabeça, numa tentativa de disfarçar…Felizmente que também nunca fizera a fita que fazia a Elsa quando era castigada…Chorava, soluçava alto e bom som, as lágrimas a deslizarem umas atrás das outras sem cessar…Como é que ela conseguia fabricar tanto líquido em tão pouco tempo, era para Lurdes uma incógnita. Depois, era preciso pôr rapidamente a funcionar a estratégia que lhe ensinaram para que a dor passasse mais depressa…quando a mão fervia, o melhor era colocar a palma virada para baixo sobre o tampo frio da carteira. Lentamente, começava a sentir-se um alívio… Mas, durante esse dia, era-lhe impossível olhar a professora nos olhos...

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Ao sabor dos pensamentos...




Que chuva horrível, logo hoje havia de estar um dia de Inverno, como é que logo havemos de ter a casa cheia, como tivemos ontem e anteontem, ontem ainda mais que na estreia, foi chato terem que mandar as pessoas embora, venham amanhã, já não há mais bilhetes, ah!, que viessem um quarto de hora mais cedo, já sabiam que as reservas só se guardam até um quarto de hora antes do espectáculo, não iam as pessoas ficar pespegadas à espera de entrar, ou mandá-las embora, porque havia bilhetes reservados que corriam o risco de não serem levantados porque os donos não apareciam, desculpa lá, deu-me uma dor de cabeça, apareceram visitas inesperadas à última da hora, isso é que era bom, agora já não caio nessa, já ninguém me toma por lorpa, mas chove, e continua a chover, e um arrepio… isto é psicológico, logo tinha que chover hoje, que precisávamos de ter gente a assistir ao espectáculo, não bastava o facto de ser domingo e amanhã dia de trabalho, o que desencoraja as pessoas a irem para a rua à noite, ainda tinha que vir esta chuva chata e deprimente a aborrecer…e a roupa que não seca, e a miúda precisa da roupa seca para levar, a farda, sobretudo a farda, como é que há-de ser, se aparece sem farda, a orientadora mói-lhe o juízo, parece que é perita a moer o juízo das estagiárias, ela devia era tratar-se, tem que se acender a lareira, vai a cheirar a fumo, mas paciência, a outra não se pode queixar do fumo, se a quer de farda, vai tê-la de farda a cheirar a fumo, isto não deve ser motivo para penalizar a cachopa na avaliação, não deve haver nenhum parâmetro sobre os cheiros das fardas, cheira a fumo, a sabão Alecrim, a amaciador do Lidl ou do Mini-Preço, ou a Chanel nº 5, isso é que era bom, mas pelo sim pelo não, o melhor é a pequena disfarçar o cheiro a fumo com o perfume das amoras de que ela gosta tanto, Mûre Sauvage, como diz o frasco, aliás, esse é o perfume que é a marca dela, da minha menina linda, às vezes, durante a semana vou ao quarto dela, abro o roupeiro e ponho-me a aspirar o perfume das amoras que está entranhado na roupa, e é tão bom, fecho os olhos e parece que ela está outra vez em casa, a inundar o silêncio com o seu perfume, mas é melhor acender a lareira, vou dizer ao meu homem, olha, parece que adivinhou os meus pensamentos, nem foi preciso eu falar, já está a acendê-la, para secar a roupa da menina, que vozinha tão melada põe ele para dizer menina , é bom quando o nosso homem nos adivinha os pensamentos, poupa-nos o latim, e se antecipa, em vez de estar a pensar, como eu, que há-de fazer, já está a fazer, os miúdos adoram o pai, que bom, adoro que adorem o pai, já que em miúda não tive grandes motivos para adorar o meu, antes pelo contrário, tinha pavor quando ele estava por perto, felizmente que não era muitas vezes, às vezes julgo que ainda estou traumatizada, mas já não me mete medo, tenho muita pena por ele não ter sido um paizão, agora já sou adulta, já era tempo de me deixar de traumatismos e de ganhar juízo, quando era miúda achava que quando crescesse seria uma mulher muito ajuizada e sem dúvidas nenhumas sobre nada, agora cada vez tenho mais dúvidas sobre quase tudo, e cada vez sei menos, e juízo ainda me falta algum, não sei se vou alguma vez adquirir todo aquele que devia pertencer a uma mulher adulta, quase sexagenária, por falar nisso, tenho é que ir fazer o almoço, o meu pessoal está aí a chegar para almoçar, e eu estou para aqui pasmada, a pensar na morte da bezerra, como é meu costume. Já chega.