"Todos os meus versos são um apaixonado desejo de ver claro mesmo nos labirintos da noite."
Eugénio de Andrade

sábado, 11 de setembro de 2010

O dr. Lacerda





O meu bisavô paterno era barbeiro de profissão. Na loja térrea de sua casa recebia ele os clientes e os amigos, que muitas vezes ali vinham dar dois dedos de conversa. Então aos sábados não tinha mãos a medir, cortando cabelos e barbas, fazendo jus à expressão “tem mais freguesia que um barbeiro ao sábado”. Por vezes também arrancava dentes e fazia sangrias, quando o chamavam.
Contrariando o hábito que grassava na grande parte dos homens da sua terra, ele não partira para o Brasil…Gostava da sua profissão… não dava para ser rico, mas também não tinha essas ambições…Havia coisas mais importantes que o dinheiro…Amava a sua terra, a mulher, os filhos, e era incapaz de os trocar pelas perspectiva de riqueza. Ele bem via o que acontecia àqueles que partiam em busca de riqueza…Muitos voltavam doentes, outros nem sequer voltavam…Uns perdiam as famílias, as mulheres deitavam- se com outros…os filhos olhavam para eles como se de uns desconhecidos se tratasse…Ná… isso não era para ele… Claro que ficava contente quando algum dos seus amigos voltava do Brasil, e partilhava sucessos… mas nunca desejou estar no lugar deles…Além do mais, pensar que haveria um oceano a separá-lo da sua terra, dava-lhe voltas ao estômago. A água era importante, sim, mas para fazer a barba aos fregueses, para a comida, para fertilizar a terra, e para a ouvir cantando pelos regos da aldeia abaixo…Do que ele mais gostava era de manhã cedo, antes de abrir a barbearia, ir regar as terras, plantar umas couves, as batatas, o milho … e, à noite, depois de um dia de trabalho sem grandes sobressaltos, deitar-se de bem com a sua consciência e orgulhoso da família que Deus lhe dera…Não era homem para viver longe da mulher, dos filhos, dos amigos, das terras…Queria-os ali a todos, bem próximos…
Era uma pessoa sensata, leal e amiga do seu amigo. E exigia igual tratamento daqueles que com ele privavam, não admitindo traições ou faltas de carácter.
Houve em tempos na aldeia um indivíduo de algumas posses, que era muito miudinho e picuinhas, gostando de usar termos que a maioria dos aldeãos, com muito pouca instrução, desconhecia. Essa personagem, por vezes queria esmiuçar de tal maneira as instruções que dava àqueles que chamava para lhe fazerem determinados trabalhos, que se tornava frequentemente complicado perceber o que ele pretendia com esses termos. Exigia, por exemplo, que no jardim lhe “efectuassem um orifício com 30 centímetros de profundidade, 15 centímetros de diâmetro equidistantes 12 centímetros dos outros orifícios”… Ainda por cima o homem não despegava de cima dos trabalhadores, que ficavam sem pachorra para o ouvir, e a olhar para ele de olhos arrelampados, sem perceberem patavina do que ele queria…Daí que tivesse ganho o epíteto de dr. Lacerda.
Por dr. Lacerda passou a ser apelidado todo o gabarolas, aquele que usasse palavras imperceptíveis para a maior parte dos seus iguais, ou até que não lograsse explicar-se por excesso de palavreado. E a expressão “parece o dr. Lacerda”, passou a ser recorrente por aquelas bandas. Numa terra em que todos se conheciam, os mais novos se tuteavam e com os mais velhos se usava o “ti”, ser tratado por “Dr.” era, de facto, irónico e discriminatório. O mesmo não sucedia com o tratamento de “senhor” a que almejavam os que regressavam ricos do Brasil. Aqui não se tratava de discriminar, mas de reconhecer o mérito dos que haviam partido pobres, e regressavam ricos. Começou assim a assistir-se a um natural fenómeno de ascensão social traduzido na substituição dos “tios “ pelos “senhores, por parte da camada mais jovem da população.

Um dia, um amigo de infância com o qual o meu bisavô muito havia brincado, regressou do Brasil, depois de bastantes anos de trabalho duro, e, ao que constava, com alguns cabedais e planos para abrir um negócio de vinhos e petiscos.
Passou pela barbearia do meu bisavô, que o recebeu calorosamente, algo emocionado, feliz pelo sucesso do amigo. Depois das primeiras euforias, dos abraços e partilhas, entregou-se o brasileiro nas mãos conhecedoras do seu amigo, para o serviço completo de barba e cabelo.
O barbeiro lá foi cortando o cabelo, com calma e cuidado, enquanto cada um expunha ao outro os seus percursos de vida.
Depois do corte do cabelo, passou o meu avô à barba. Com toda a parcimónia, ensaboou o rosto do antigo companheiro de brincadeiras, e foram recordando as traquinices que a vida ao ar livre e sem vigilâncias lhes proporcionara, deleitando-se com o gosto dessa liberdade sem limites de uma infância feliz e despreocupada: o roubo da fruta ainda verde só pelo prazer da transgressão, as tardes inteiras passadas a nadar e a caçar bordalos e rãs na ribeira, o jogo aos feijões e aos botões, o despique com os piões, as explorações com os rodízios conduzidos com a gancheta pelas ruas da aldeia, as corridas com os carros feitos com as pranchas de madeira e as carretas dos desperdícios da fábrica… as armadilhas aos pássaros com os costilos, a pontaria com as fisgas que, às vezes, em vez de acertarem nos pássaros ou na fruta lhes fugia para os vidros da janelas de alguém com quem precisavam de acertar umas contas…
Ficaram um breve instante calados, mergulhados em tão saborosas recordações. Com todo o vagar, as mãos do meu bisavô continuavam levando a cabo a sua tarefa…
Foi o Arnaldo quem rompeu aquela torrente de lembranças…
— Sabes, José, agora sou rico, felizmente a vida correu-me bem…Estudei, sou uma pessoa importante… Toda a gente me trata por “senhor,” e eu mereço… por isso, não fica bem tratares-me por “tu”. Não é um bom exemplo… Não me leves a mal, mas… a partir de agora, queria que me tratasses também por “senhor”.
Por instantes a lâmina que escanhoava a barba do senhor Arnaldo ficou no ar…
O brasileiro tinha metade do rosto ensaboado. A outra metade havia já sido afagada pela lâmina.
— Tens razão!—respondeu o meu avô. — Tens carradas de razão. Mas, como sabes, a minha casa é modesta…
A acompanhar as palavras, os gestos decididos do meu bisavô: tirou a toalha à volta do pescoço do ex-companheiro de brincadeiras, sacudi-a e dobrou-a.
— Tenho muita pena. Eu aqui não faço a barba a senhores finos. Aqui, só mesmo a homens da minha condição.
E, ao mesmo tempo que empurrava o freguês dali para fora, com meio rosto ensaboado, metade da barba feita, outra meia por fazer, rematou:
— Vai fazer a barba a quem trate de senhores finos!
Arnaldo, atónito e sem reacção, deixou-se conduzir como um autómato, não acreditando no que estava a acontecer. Quando se viu na rua, expulso de casa de José, é que se deu conta de que talvez tivesse perdido um amigo para sempre. Lentamente, levou a mão ao bolso, tirou o lenço e limpou a cara.
Nunca mais se falaram. Por vezes, na barbearia vinha à baila a história daquele que, para o meu bisavô, deixou de ser o seu velho amigo Arnaldo, e passou a ser o Dr. Lacerda.




quarta-feira, 8 de setembro de 2010

A estrela





Já lá ia mais de um mês que o Daniel perscrutava incessantemente a abóbada celeste e, até agora, nada...
E uma angústia crescente roía-lhe o peito, plantando nele, a cada noite que passava sem resultados, a certeza de que fora abandonado.
Regressava à cama, desiludido, sentindo-se cada vez mais só, traído e enganado e com o peso daquela dor enorme a devorá-lo por dentro, que parecia esmagá-lo e era maior, muito maior que o seu corpito frágil e franzino para um rapaz de onze anos.
Puxava então os cobertores, cobrindo a cabeça, para que a mãe não pudesse sequer desconfiar...Não queria afligi-la ainda mais, pois ele bem lia todas as manhãs, nos seus olhos vermelhos e inchados, a tristeza que lhe morava na alma, muito embora ela tentasse disfarçar...
Entregava-se, então, à sua dor, deixando que os soluços tomassem conta do seu corpo, lhe sacudissem os ombros… até ser vencido pelo cansaço e adormecer…

.........
Até que um dia, a viu. Ela brilhava intensamente, mais que todas as outras, e correspondia ao piscar dos seus olhos. E o Daniel, louco de felicidade, pôde, enfim, reconhecer que, afinal, não fora enganado.
— Oh! Pai! Porque demoraste tanto?
E a resposta a esta pergunta, Daniel ouviu-a no seu coração. Soube, então, que tudo tem o seu tempo, e que o tempo que o pai demorara a responder ao seu apelo, fora o que tivera de ser.
Então o Daniel começou a desfiar um rosário de confidências...os amigos, a escola, a sua tristeza e a da mãe, o sorriso da Sónia, que lhe fazia correr o sangue mais depressa nas veias, e lhe provocava a vontade de a trazer com ele para casa...
Ouviu, dentro de si, a expressão do desejo do pai, fazendo-lhe saber que não queria que estivesse triste, porque, tal como lhe havia prometido pouco antes da sua partida, ele estaria sempre ali, velando por ele e pela mãe, ouvindo-o e aconselhando-o. Bastava que procurasse no céu a estrelinha mais brilhante e especial, e acreditasse com toda a força, que ele não lhe iria faltar...Mas teria que prometer não contar à mãe destas suas conversas...
— Mas...porquê, pai, porquê?! — quis saber Daniel.
E, mais uma vez, foi de dentro de si que veio a resposta: a mãe estava ainda muito perturbada com a sua morte e isto iria perturbá-la mais ainda...Além disso, nunca se sabe como podem os adultos reagir a uma situação destas...
— Oh! Pai! Tenho tantas saudades tuas! Sabes? Dos teus abraços... das tuas brincadeiras...
— Pois, meu filho, fecha os olhos, e pensa nessas situações em que eu te abraçava, e vais ver que eu continuo a abraçar-te... — esta foi a resposta que sentiu dentro de si.
E o Daniel fechou os olhos com tanta força, que ficaram reduzidos a dois traços no seu rosto.
Viu então o pai a correr com ele de bicicleta, os dois lado a lado, como antes, ouviu as suas gargalhadas, e um calor começou a invadi-lo, ao sentir-se fortemente estreitado pelos braços do pai...o seu cheiro característico inundou-lhe as narinas, o bafo morno da sua respiração acariciou-lhe o pescoço e os seus cabelos roçaram-lhe a cara...
Uma paz incomensurável foi subindo por ele acima, semelhante à que sentia quando mergulhava na água quente da piscina Municipal da sua cidade.
Não! Ele não estava sozinho!
Do fundo do seu sofrimento, a mãe do Daniel começou a asstir a uma transformação do seu filho....mais alegre, começava a dar sinais muito claros de estar a recuperar da morte do pai, se é que alguma vez se recupera...Mas o que é certo é que já o ouvia a cantarolar, e os colegas da escola já passavam novamente lá por casa, quando, à tarde regressavam das aulas...
A sua carga de mãe sofrida, começava a ficar mais leve...Ao ver a disposição do seu filho, também ela se sentia mais apaziguada, com o coração menos oprimido...Começava a acreditar que, afinal, era possível a vida retomar o seu trilho para voltar a girar, lenta, mas implacável, nos seus carris...

domingo, 29 de agosto de 2010

"Os filhos do Albatroz"


A leitura deste livro foi para mim uma grande revelação. Tocou-me a forma poética e comovente como a autora esmiúça os sentimentos, os ecos das vivências da infância e adolescência — algumas bem devastadoras — que vão ficando na nossa alma, mesmo depois de adultos, mesmo depois de nos julgarmos imunes à dor, eles chegam e manietam-nos, sempre que percepcionamos como idênticas situações vividas anteriormente. Então tudo emerge, e somos pequeninos, e instinto, e sangue e carne.

domingo, 22 de agosto de 2010

Despertar


Despi meus desejos,
Meus sonhos, meu canto...
Larguei meu abrigo,
Meu espaço...
E parti contigo,
Envolta no teu abraço.

Adormeci embalada
Pelo teu olhar,
Pelas tuas quimeras,
Pelos teus sonhos,
Teus desejos...

Quando acordei,
No teu olhar me mirei
E não me reconheci
Também já não estavas ali...
Era teu o caminho que percorri,
Tua a vida que vivi.

A Bola de Cristal
Na qual víamos o mundo
Quebrou-se nas nossas mãos
Em desespero profundo

Por negras sombras cercada
No silêncio da escuridão
Vi-me cheia de nada
Largada da tua mão.

Caminho tropeçando
Na noite dura
Frágil e temerosa
Tacteando a estrada perdida
À luz da lua....

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Entrega


Emergem do marulhar das águas submersas
Palavras encantatórias
Acordam melodias adormecidas
No mais recôndito da tua alma
Vibram acordes na pele súbita e abstracta
Enleiam-se sôfregos arrepios
No teu corpo desperto
Instalam-se nas narinas ávidas
Da tua respiração mole e doce
Afloram tuas pálpebras palpitantes
Cerradas pelo desejo circular
Percorrem teus mamilos erectos
Descem pela tua boca entreaberta
Gelatinosas algas esquivas
Explodem silêncios de júbilo
Num segundo.

sábado, 14 de agosto de 2010

No fundo das cinzas



No Fundo das cinzas
Do meu ser
repousam
minhas desfeitas quimeras
Lanço-as ao vento
Para não mais as ver
E de novo construo
Meu viver...

Para não mais as ver
Lanço-as ao vento...
Das cinzas renasço
Armada para outras esperas...
De novas asas
Apetrechada,
Novos voos tento,
Imbuída
De fé e de esperança
Que me dão novo fulgor,
Novo alento...

E por mais mares
Encapelados
Por mais tormentas
No caminho,
Há sempre a calmaria
À minha espera,
Há sempre
À minha espera,
O meu ninho...

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

"Renascer"





Nem sabia por que cedera ao impulso de estender a roupa. Tinha decidido nem sequer a lavar. Deixá-la lá, no cesto da roupa suja, para ele sentir a sua ausência. Mas não fora capaz. Arrumara tudo, como era seu hábito. Queria deixar tudo impecavelmente limpo, como sempre fizera durante aqueles quinze anos. Apesar das angústias, dos desamores, das desatenções… das depressões.
Ia-se embora. Partir. Abandoná-lo. Deixar para trás aquela vida de morta-viva. Ia-se embora enquanto era tempo, enquanto ainda tinha forças para trabalhar. Ali sufocava e estiolava. Não aguentava os dias sempre iguais, monótonos, sem uma palavra de apreço. Ele já não a via. Em tempos ela ainda se esmerara em jogos de sedução: uma blusa nova, um novo penteado, um perfume diferente…mas nada o fazia sair daquele mutismo…olhava para ela, distraído, e não a via. Cansara-se.
Para já, ia alojar-se na casa da prima que morava nos arredores da aldeia, junto à paragem das camionetas. No dia seguinte, de madrugada, seguiria para Lisboa, onde Daniela lhe garantira alojamento e apoio.
Perdida a esperança de engravidar, o que talvez trouxesse algum vigor àquela relação moribunda, o melhor era partir. Levava pouca coisa. Colocara alguma roupa num saco que guardara na casa da prima. O que lhe interessavam as coisas? Aliás, em casa sempre tivera tudo. Ele comprava tudo o que era necessário, até algumas extravagâncias… Mas fora-se esquecendo de prover o alimento da sua alma. Ele confundia o sexo com a sua necessidade de ternura, carinho, conversa, estímulo, sorrisos…E ela precisava de tão pouco…bastava que olhasse para ela, que a visse, e reparasse na blusa nova, no penteado diferente, que lhe dissesse que era bonita, que a amava… que se chegasse junto dela carinhosamente, sem a ideia preconcebida de a arrastar para a cama.
O que ela fazia em casa, qualquer uma faria…Que contratasse uma empregada…No fundo, não era o que ela era, empregada para todo o serviço?
Quando chegasse, no Sábado, correria a casa toda à sua procura e não a encontraria…ficaria preocupado? Aborrecido? Raivoso? Ciumento?
Ora, que lhe interessava? Ficasse lá como quisesse…
Uma nuvem de tristeza ensombrou-lhe os olhos. Suspirou fundo. Tinha pena! Claro que tinha pena! Dela, dele, da vida deles, de…
Ora! Não podia deixar-se amolecer. A decisão estava tomada. E em Lisboa, iria trabalhar como auxiliar no infantário que a Daniela dirigia. Era o que ela sempre desejara! Em solteira, trabalhara com crianças! Mas ele quisera que ela ficasse em casa! Olha agora! Ficar em casa a contar os segundos, as horas, as decepções mensais nas cuecas manchadas… Que homem antiquado! Na altura, os argumentos dele convenceram-na, e pressentiu até algum despeito nas suas amigas...Ele ganhava mais do que o suficiente, não queria que se cansasse a cuidar dos filhos dos outros, mas que se preparasse para cuidar dos próprios filhos…Enfim! Ilusões!
De repente, lobrigou um vulto na janela da cozinha. Sobressaltou-se. Era ele. O coração bateu-lhe no peito.
O receio de que se apercebesse do que se preparava para fazer, roubou-lhe as molas das mãos, e a toalha caiu no chão. Ficou manchada. Era preciso lavá-la de novo. Mas…lavá-la, para quê? Isso já nada interessava, agora que a sua decisão estava tomada.
Ia fingir que não se dera conta da sua chegada.
******
Rosa saiu do banho de imersão perfumado. Nem queria acreditar no que estava a acontecer! Durante anos, sonhara com um momento como aquele!
Tinha que telefonar às primas e torná-las cúmplices do seu segredo. Ele não podia saber o que ela estivera prestes a fazer!
Convidara-a para irem jantar fora, e dançar!... Dissera-lhe que estava linda, e olhara-lhe os olhos com promessas, e…Ai meu Deus! Sentia-se uma adolescente! Que parvoíce! Ao fim de quinze anos!
Já pedira à irmã que a viesse maquilhar, e fora desencantar no baú aquele vestido de cerimónia que nunca chegara a usar! E ainda lhe servia! Ia pôr-se esplendorosa! Cheirava a paixão no ar! Não é que sentira um arrepio pela espinha, quando ele lhe dissera que estava linda? Ela sabia bem que não era bonita, mas a beleza está nos olhos de quem a vê e ele olhou, e viu-a bela aos seus olhos. O seu homem!
Neste momento não pôde conter-se e o dique aprisionado em seu olhar rompeu em águas mansas, salgadas e libertadoras. As águas correram e limparam as réstias de resistência que ainda moravam lá bem no fundo de si mesma.
Decidiu entregar-se e calar de vez o grito de alma emudecido durante anos na flor dos seus lábios. Olhou para o espelho e gostou do que viu. Sorriu para o rosto que o espelho lhe devolvia. Aquele sorriso acendeu-lhe primaveras no corpo. Viu as horas. Tinha que se despachar. Bateu as palmas. Sentia-se rebentar de excitação.
Nos escombros do seu coração começou a despontar uma tenra e viçosa esperança. Iria regá-la diariamente com ternura, cuidar para que nenhum vento lhe vergasse o caule tenro ainda menino.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Carta a meu pai



Vale da Ribeira, 2 de Dezembro de 2007

Meu pai:

Nem imagina quantas folhas de papel rasguei, antes de começar esta carta. Virei a minha imaginação do avesso, até, finalmente me decidir por “meu pai”.Embora o senhor tenha tentado apagar da sua vida esse episódio em que participou para me trazer ao mundo, é aquilo que o senhor é, quer queira quer não.
Nem imagina o quanto, em pequena, sonhava com o momento em que o senhor surgiria à minha frente a chamar-me “filha”, e me abraçaria com o amor de pai que eu nunca experimentei, porque o senhor mo negou.
Mais tarde, já rapariga, sonhava ainda que o senhor havia de aparecer, estender-me os braços, e que eu iria a correr aninhar-me neles, como qualquer filho faria...
As raparigas da minha idade sonhavam com um belo rapaz que, tal como num conto de fadas, apareceria do nada, casaria com elas e levá-las-ia para muito longe, onde seriam felizes para sempre. Eu também sonhava...mas o sonho mais importante dos meus dias e noites, era com o senhor.
Um dia havia de aparecer...
E então, eu esperava que, nessa altura, o senhor me resgataria do domínio daquele homem que me humilhava e maltratava, e que a minha mãe arranjou, para que fizesse o papel de pai que competia ao senhor, e que o senhor rejeitou.
Coitada da minha mãe! Como pagou caro o erro de ter confiado nas suas promessas!... Para evitar que eu fosse humilhada na escola quando me perguntassem o nome do meu pai, ou quando tivesse que preencher algum documento e, no lugar do nome do pai fosse obrigada a escrever aquela palavra terrível que me marcaria e inferiorizaria, comprou, para a sua vida e dos filhos, um bêbado do qual era obrigada a fugir pela noite dentro, ao frio, à chuva, arrastando consigo os filhos que ele perseguia munido de uma faca, numa fúria assassina. Aprendi a odiar esse homem, ao assistir às cenas de pancadaria a que ele sujeitava a minha mãe, e aos maus-tratos que nos infligia a todos. Quando descobri que ele não era meu pai, consegui perdoar-me, e prosseguir a minha vida sem o peso terrível que era saber que se odeia o próprio pai. Essa consolação não tiveram os meus irmãos, que, apesar de filhos deste bruto, nem por isso escapavam a esta sanha animalesca.
Mas nessas alturas, em que o álcool e a raiva o viravam contra nós, eu rezava, pedia a Deus que me trouxesse o meu pai, que ele me salvaria das mãos deste louco e lhe pediria contas pela maneira cruel e desumana como me tratava... Se não fora o meu avô a acolher-me em sua casa a partir dos meus catorze anos, não sei o que me poderia ter acontecido...
Mas as vozes do Céu permaneceram mudas...Dizem que vozes de burros não chegam aos céus...Talvez eu fosse burra, mas por acreditar que este milagre pudesse ser possível...Sim, porque de burra para as coisas da escola, segundo diziam os professores, eu não tinha nada...A professora primária bem disse à minha mãe que era uma pena eu não poder continuar a estudar...Mas eu era a mais velha...E o meu padrasto sempre me discriminou relativamente aos meus irmãos...Como pensar em estudar? Era preciso que eu ficasse a cuidar da casa, dos meus irmãos, fizesse a comida, enquanto a minha mãe ia trabalhar para nós e para o bêbado do marido que ficava agarrado à cama semanas inteiras, a curar a bebedeira...
Como teria sido diferente se o senhor tivesse cumprido a lei da ética, já que não pôde fugir à da Natureza, trazendo-me ao mundo...
Imagino o quanto deve ter odiado a minha mãe, por se ter recusado a abortar como o senhor queria!...Sei que a tratou com desprezo, como a um ser inferior, ao arranjar testemunhas que, a troco de uns tostões, empenharam a honra jurando falso, ao inventarem-lhe outros homens com os quais se teria deitado, saindo o senhor livre do compromisso que não teve a dignidade de assumir...
Não lhe bastava tê-la lançado nas bocas do mundo por ser mãe solteira, “crime” do qual o senhor foi cúmplice, tratou ainda de lhe denegrir a reputação, remetendo-a ao mais baixo da escala moral a que uma mulher pode chegar...
Estou a par de tudo...Mas a minha mãe conseguiu superar isso tudo...Se lhe perdoou ou não, não sei. Sei que não esqueceu. Nem eu esqueci, nem esqueço... Aquilo que verdadeiramente me fez falta, como lhe contei, já o senhor me não pode dar.
Por diversas vezes as minhas tias me instigaram a que o procurasse, que havia de se lhe derreter o coração quando eu lhe aparecesse à frente, e o senhor visse na minha cara espelhado o seu rosto...Mas eu nunca quis...Nunca o procurei com receio de que pudesse pensar que estava a exigir aquilo a que tinha direito. A minha mãe diz que eu sou orgulhosa como o senhor.
E não me teria mexido, nem teria sequer falado aos meus filhos no senhor, se o seu irmão, tinha eu quase dezoito anos, me não tivesse procurado, tomado o pulso, perguntando-me se eu precisava de alguma coisa, dizendo que o senhor pensava em mim e queria aproximar-se. Houve quem me alertasse para a possibilidade de os senhores quererem saber se eu estaria na disponibilidade de mover uma acção de investigação de paternidade, a qual só seria possível até aos meus dezoito anos. Não acreditei, e até fiquei zangada. Eu defendi o senhor, veja bem! Que ingenuidade!
E foi nessa altura, quando o seu irmão me procurou, que eu, no fundo de mim lhe perdoei...
Penso que o senhor terá ficado bem tranquilo, ao aperceber-se de que eu, pobre de mim, não seria nenhuma ameaça, nem para a serenidade do seu casamento, nem para o património dos seus filhos, nem para a sua tranquilidade de espírito. Eu sempre disse, muito embora tenha sido chamada de parva por causa disso por muito boa gente, que nunca exigiria nada do senhor. Mas que, se porventura me quisesse presentear, também não recusaria. Houve também quem me viesse dizer que uma determinada terra do seu património, me estaria destinada...Não acreditei...Pelo menos, eu não quis acreditar, com receio de que isso fosse demasiado bom para ser verdade e, ao acreditar, pudesse trazer azar a essa hipótese. Não que me importasse o valor da terra, mas porque esse gesto seria a prova de que o seu coração teria reconhecido a filha que as suas palavras nunca aceitaram. E o meu coração ficou também mais quentinho e aconcheguei num cantinho, o senhor, meu pai…
Mas o tempo foi passando, e o senhor nunca mais fez nenhum gesto para se aproximar, como tinha prometido...E eu respeitei o desejo dessa maneira expresso, de estrangular à nascença esta relação, que nem chegou a nascer. Ficaria sossegada, aqui, no meu cantinho, e não teria a ousadia de sequer pensar em lhe escrever. Mas os filhos fazem-nos repensar as nossas intenções e corrigir atitudes, ou traçar-lhes uma outra trajectória.
O meu filho mais novo, que tem agora onze anos, não me larga, sempre a dizer-me que quer conhecer o avô. A culpa é minha, porque sempre lhes falei no senhor, desde miúdos, com todo o romantismo que a minha alma albergava. O mais velho, nunca manifestou curiosidade em conhecê-lo. Mas este mais novo é tão sensível!...
Os meus filhos são o melhor que eu tenho! Embora com dificuldades financeiras, sempre com os trocos contados, a procurar esticar o dinheiro até ao fim do mês, procuro dar-lhes o que está ao meu alcance, e sempre que posso, fazer-lhes um miminho. Não lhes falta amor, atenção e carinho, e procuro dar-lhes tanto mais, quanto a mim me faltou.
Um dia, depois de muito ter ouvido este meu filho, acabei por ceder à proposta dele e fomos procurá-lo a sua casa, mas o senhor, se estava em casa, refugiou-se bem lá dentro, evitando o confronto.
O meu filho mais novo diz-me muitas vezes que quer ir para a Universidade. Que lhe posso dizer? Cortar-lhe já essa possibilidade? Vou-lhe dizendo que estude, estude muito, porque, se for bom estudante, logo se há-de ver. Claro que gostava que ele fosse doutor, se tivesse cabeça … Mas sei que não temos possibilidades económicas para isso. Mas, se ele o merecer, e continuar com essa ideia enraizada, eu tudo farei para o conseguir. Continuo a ser orgulhosa, mas agora sou mãe. Há outros sentimentos que se sobrepõem ao orgulho.
Entretanto, o meu filho continua a insistir em querer conhecer o avô.
Não sei como o serenar. Que lhe hei-de dizer? Que o avô não quer saber da sua existência?


Cumprimenta-o a sua filha,
Leonor


P:S: Pedi à minha patroa que me corrigisse o português desta carta. Ela é minha amiga, desde os meus dezasseis anos, e eu confio nela. Ajudou-me a encontrar as palavras para dizer aquilo que eu queria dizer, mas não sabia como. Mas as ideias, são minhas, e só minhas.

domingo, 8 de agosto de 2010

Uma longa viagem







Finalmente chegou. Era preciso galgar a pé o quilómetro que o separava de casa. O alvoroço coexistia com uma sensação de calma, como se a simples decisão de mudar de vida lhe eliminasse os anos de stress acumulado. Mesmo que tivesse decidido não pensar na experiência que vivenciara, não podia apagá-la como se fosse o traço de um lápis que se elimina com o simples passar da borracha. Ainda não decidira se contaria à Rosa. Era difícil de explicar e de acreditar. Poderia até pensar que tinha enlouquecido... O melhor era calar-se, por enquanto. Depois se veria. No final da curva, a sua casa apareceu. Uma casa pequena, de pedra, enquadrada por hortenses, as flores preferidas de Rosa. À frente da casa estendia-se a horta bem cuidada. Pela primeira vez olhou as portadas com olhos de ver. Precisavam de uma pintura. Já não iria adiar mais essa tarefa. Teria muito tempo para isso. Abriu o portão. Entrou em casa sem fazer barulho, antegozando o ar estupefacto da mulher. Deu a volta à casa, sem a encontrar. Da janela da cozinha viu-a nas traseiras, pendurando a roupa que a máquina ainda quente acabara de lavar. No rosto desgastado da mulher liam-se os últimos quinze anos de depressões provocadas por tentativas frustradas de engravidar. A medicação tinha-lhe deformado o corpo elegante que o vestido de noiva cingira no dia do casamento. José sabia-lhe o olhar sempre ensombrado por uma nuvem de tristeza, mesmo quando se ria. E ele não tivera paciência para entender. Muitas vezes a deixara sozinha entregue àquela dor silenciosa e fora afogar a dor que era comum, no café do bairro. Uma dor que cada um procurava curar de costas um para o outro, perdidos em gestos e olhares desencontrados. Pela primeira vez reconhecia o egoísmo que a atitude de se afastar, deixando-a sozinha a lidar com a ausência de risos de criança, podia comportar. Sempre apaziguara a sua consciência dizendo de si para si “que eram coisas de mulheres”… José sentiu uma ternura infinita pela sua companheira. Aproximou-se e resolveu chamar por ela, para a não assustar.
— Rosa! Cheguei!
O rosto de Rosa voltou-se para ele. Triste, com sempre.
— Já chegaste?! Mas tinhas dito que só vinhas no sábado! Aconteceu alguma coisa?
Enquanto dizia estas palavras, levantou a cabeça, para trocar com o marido os dois beijos de boas-vindas habituais.
José puxou-a para si, olhou-a nos olhos até à alma. Disse então:
— Sabes que estás linda?
— Eu?! — O tom de incredulidade foi acompanhado por uma passagem das mãos pelos cabelos, tentando repor no seu lugar uma repa teimosa que lhe descaía sobre o rosto, e um sorriso tímido. — O que tens? Nunca me viste? — perguntou, rindo-se. Desde há muitos anos que se desabituara destes mimos do marido, e sentia-se até um pouco desconfortável com esta atenção.
— Olha, hoje vamos jantar fora e depois vamos dançar. Que dizes?
— Que não deves estar bom da cabeça!
José pegou-lhe nas mãos. Depois insistiu.
— Rosa, olha para mim. Para os meus olhos. De agora em diante vou falar contigo sempre de olhos nos olhos. Não estou a brincar. Estou a fazer-te um convite sério. Põe um vestido bonito e vamos sair.
Um sorriso lindo iluminou o rosto de Rosa. Ainda contrapôs:
— Mas…Tu não gostas de dançar…
— Mas gosta a minha querida mulher…
Rosa quebrou as suas resistências, abraçou o marido e, como uma criança, bateu as palmas:
— Ai que bom! Ai que bom! Mas… vestido!... Não tenho vestido! …
— Claro que tens! Aquele que comprámos para a festa da Daniela…
O sorriso de Rosa morreu-lhe nos lábios. José percebeu o esmorecimento da mulher.
Aquele vestido nunca o chegara a usar…Compraram-no com um grande entusiasmo para o casamento da Daniela, a sobrinha que casara em Lisboa numa família muito “bem”. Mas ele embebedara-se na véspera, e o vestido ficou guardado no baú durante anos, sem nunca ter chegado a oportunidade de ser usado…
— Desculpa, Rosa! Eu vou mudar! Aliás, já estou mudado!
Rosa afastou com as mãos esses pensamentos intrusivos e, voltando ao ar gaiato, agora reconquistado, decidiu:
— Vou buscá-lo! Tenho que o pôr a arejar antes de o passar a ferro. E ver se me serve!
Os olhos de José seguiram a mulher até ela desaparecer no interior da casa. Olhou então para dentro de si, convocando os estranhos acontecimentos daquele dia, daquele exacto momento, daquela fracção de segundo, em que José tomou uma decisão. A sua vida cheia de rotinas entediantes, a sua vida cinzenta, de trabalho duro, de um bom salário cheio de horas extraordinárias sem dias para o gastar…essa vida sem sentido, ia acabar…
Aos dias seguiram-se os meses, os anos, sem que nada de verdadeiramente importante o fizesse sentir que a vida valia a pena ser vivida…Os quinze anos de casado não lhe trouxeram os filhos por que ansiara…Dentro de pouco tempo estaria velho, a coluna desfeita pelas longas horas de condução, e a vida por viver…
Naquele dia, naquele exacto momento, naquela fracção de segundo em que adormecera ao volante do camião de longo curso que durante anos fora a sua casa, tomou a suprema decisão de comandar a sua vida.
Naquele dia, naquele exacto momento, naquela fracção de segundo em que fechara os olhos, embatera violentamente contra outro camião, sendo projectado pelo ar e esmagado contra o asfalto, vira-se a si próprio espectador da sua desgraça: arrastado num turbilhão de cenas passadas, a esbracejar e a escorregar, sugado por um sorvedouro gigante em forma de cone de névoa… e vira o sorriso triste da mulher…e desejara que tudo tivesse sido diferente… Subitamente, como num filme em rewind,, encontrou-se de novo sentado ao volante do seu Mercedes-Benz e o camião, o tal contra o qual embatera, passou calmamente no outro lado da estrada, saudando-o com o sinal de luzes.
Não teve dúvidas…Não fora um sonho…Fora um sinal. A Morte batera-lhe à porta, tragara-o e cuspira-o, como alguém que, por engano, prova algo que detesta. Uma nova oportunidade. Não sabe porquê. Mas não a ia desperdiçar, nem perder muito tempo a esmiuçar as razões…Chegara a altura de tomar o seu destino nas suas próprias mãos, e encetar uma nova viagem. A partir daquele momento, uma nova vida o esperava…
Estacionou o camião na estrada, junto a uma paragem de camionetas de carreira. Ligou para a empresa, a explicar onde tinha deixado o camião, e a pedir que não contassem mais com ele. Fez sinal à camioneta que chegava e entrou. Sentiu um alívio enorme, como se o camião que acabara de abandonar na estrada, deixasse de lhe pesar nas costas. Sorriu ao imaginar o ar de surpresa da Rosa. Agora ia começar uma nova vida. Uma nova viagem. Uma longa viagem… Era pelo menos o que ele esperava…se não fosse para coser as pontas desalinhadas da sua vida, por que outro motivo ele tinha sido devolvido pela morte?
*************
Fora tão fácil fazê-la feliz! O ar maravilhado e incrédulo que lhe vira no rosto, quando se admirara ao espelho maquilhada pela irmã! A segurança com que ela caminhara nos saltos altos, como se nunca tivesse feito outra coisa…O vestido, o célebre vestido de trespasse, a que ela só precisara de mudar um botão, o jantar saboreado com vagar no restaurante com pista de dança, o brilho extasiado no seu olhar… A valsa que dançaram na praça, quando regressaram a casa, ternamente enlaçados, e que culminou com os aplausos dos vizinhos, que, longe de se zangarem por terem sido acordados, com eles festejaram o amor… A noite de louca paixão renascida que lhes incendiou os sentidos…
Já não se lembrava daquela maravilhosa sensação de apaziguamento, de terna felicidade…Na verdade, sentia-se leve, leve…como se o chão tivesse uns amortecedores, que lhe davam a sensação de caminhar nas nuvens…Deixara de sentir as dores nas costas, e a barriga pesada, embora ela continuasse lá, bem proeminente…
Deu um último retoque ao tabuleiro do pequeno-almoço, colocando uma rosa que colhera no jardim, ao lado da chávena da sua Rosa. Cuidadosamente, agarrou no tabuleiro e dirigiu-se ao quarto.

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quarta-feira, 21 de julho de 2010

Aparências




Não é alta nem baixa, nem magra nem gorda, nem nova nem velha…
Os cabelos curtos, castanhos e encaracolados, emolduram-lhe o rosto redondo e moreno, onde sobressaem os olhos castanhos, vivos e perspicazes, os quais olham invariavelmente de cima, mantendo a pálpebra bem esticada. É frequente olhar o seu interlocutor pelo “rabo do olho”.
O seu sorriso constante é frequentemente assaltado por um subtil repuxar, do lado esquerdo, em direcção à orelha do mesmo lado, como se comandado pelas mãos invisíveis e caprichosas de um manuseador de marionetas.
Mas, de tal sorriso constante e frequente, não deverá inferir-se a simpatia da personagem. Efectivamente, quando com ela lidamos de perto, verificamos que de simpática ela não tem nada. Veste o seu sorriso (sem que disso se aperceba), em consonância com o sentimento que as pessoas lhe provocam: frieza, desdém, repulsa, condescendência ou ternura, este exclusivamente reservado `a família, reduzida às duas filhas que lhe ficaram de um divórcio litigioso e devastador.
Que se desiludam aqueles que, estimulados pela frequência do seu sorriso, se aproximam na mira de com ela estabelecer uma relação de amizade…Ela lançar-lhes-á um sorriso que congelará indefinidamente esse pretenso devaneio.
Aparentemente atenciosa com as pessoas, mantém-nas à distância disparando sempre uma frase curta, directa e seca, para repor no seu lugar aqueles que tentam, incautamente, com ela iniciar um contacto que possa ultrapassar os limites do mero conhecimento. E, se o não fizer, não deverá atribuir-se tal facto a falta de inspiração ou oportunidade momentâneas, mas tão somente à decisão de aguardar o momento mais favorável para então lançar, como uma granada, a frase que deixará em estilhaços o desejo de com ela privarem de perto.
Fala de uma maneira calma, segura de si. Em situação de confronto verbal, dificilmente admitirá não ser senhora da razão. Aliás, qualquer disparate saído da sua boca fará nascer no seu interlocutor o desejo de com ela defender a ideia mais estapafúrdia, como se de uma verdade insofismável se tratasse!
Destaca-se, no seu caminhar, o movimento pendular das ancas, ora para a esquerda, ora para a direita, num gingar ritmado e algo exagerado Acompanha este movimento, como uma batuta, o nariz, o qual, deixando por momentos de apontar para as nuvens, se recolhe em direcção aos pés, caprichosamente calçados com modelos dos melhores estilistas italianos. Esta é, aliás, a única extravagância a que ela se permite, seu “fétiche”.
****
Meteu a chave na porta depois de ter demorado quase cinco minutos a procurá-la na carteira. Inútil tocar a campainha. O apartamento estava vazio, tal como ela. Este fim-de-semana as filhas ficavam com o pai.
Mal atravessou o umbral da porta despiu a sua pose. O seu olhar humanizou-se, os ombros descaíram-lhe e ela caminhou lentamente em direcção ao sofá da sala. Descalçou as botas de pele envernizada e colocou-as direitinhas, uma ao lado da outra. Observou-as longa e compenetradamente. Mirou-as de um lado, depois do outro. Depois pegou nelas e as suas mãos passearam-se demoradamente pelo calfe macio. Aspirou-lhes o aroma profundamente. Acariciou as, sentindo-lhes a suavidade. Depois num gesto inusitado, apertou-as ao peito, ao mesmo tempo que dos lábios deixava escapar um longo suspiro, vindo do mais profundo das suas entranhas. Do seu olhar desprendia-se uma enorme tristeza, a qual, conjugada com o rictus que lhe marcava os cantos da boca, lhe conferia uma pesada amargura.
Dispôs novamente as botas uma ao lado da outra. Puxou a manta que descansava num dos braços do sofá de camurça branca, estirou-se preguiçosamente e cobriu–se. Ajeitou uma das almofadas debaixo da cabeça e fechou os olhos. O ritmo cadenciado da sua respiração tomou conta dela e, por algum tempo, ela pôde, enfim, descansar.

terça-feira, 20 de julho de 2010

Ninho vazio




De que me serve
O amor para dar
Este carinho a transbordar...
Se os meus passarinhos
Voaram dos seus ninhos
E não querem mais me escutar...

Cresceram suas asas
Suas pernas e seus braços
Não querem mais meus abraços,
Para longe caminham seus passos...

Perseguem uma quimera
Suas vidas é Primavera
Sua meta é viver,
Descobrir, nada perder...

Não querem mais o seu ninho
Para amparar com carinho
Suas quedas, suas dores...


No ninho fiquei eu só,
A crescer-me este vazio
Esta dor, este nó

Tu continuas passando,
Gerindo tudo tão bem....
Não te dói a dor de mãe...

E não consigo ser mulher,
Com esta angústia cravada
Eu sou mãe e mais nada!

domingo, 18 de julho de 2010

É sempre uma grande emoção ouvir este maravilhoso poema de Vinicius de Morais cantado por Chico Buarque.Há trinta anos utilizei a "Valsinha " numa aula assistida. Fez sucesso.

sábado, 10 de julho de 2010

Disparou...






O som dos carros que silvavam no empedrado da calçada não a enganava. O dia despertara, avançava apressado. Ela é que não tinha pressa nenhuma. Passara a noite em claro, contando as badaladas do relógio da sala, procurando concentrar-se na sua respiração para aprisionar o sono. Em vão. Tanto que desejara o amanhecer, e agora que alvorecia, desejava não ter que sair da cama. Doía-lhe o corpo, maçado de tanto voltear, a cabeça, que não lograra descansar, e no peito pesavam-lhe angústias acumuladas que os medicamentos não conseguiram ainda amenizar. “Dá tempo ao tempo, pequena!”, dizia-lhe o médico, mas os meses iam passando…
Era preciso continuar a viver, mas essa era uma tarefa monstruosa…Durante o dia esforçava-se, ria e fazia rir as colegas do escritório, contava piadas brejeiras, não queria que tivessem pena dela, lágrimas é que nunca veriam, que se desiludissem os que esperavam vê-la por baixo…mas mal entrava em casa caía-lhe o vazio da sua vida em cima e a energia que mantivera durante o dia escoava-se como a água pelo ralo …Como iria conseguir viver dentro daquelas paredes, tão cheias de lembranças, as boas e as más, pois por ter conhecido as boas é que lhe era insuportável conviver com estas…
Recusava abrir os olhos e enfrentar tudo o que a esperava…Recusava, sobretudo enfrentar o vazio da sua cama…Ainda se não habituara a ver a cama do lado dele sem vestígios do seu corpo, embora soubesse que, se abrisse os olhos e esses vestígios lá estivessem, significaria que ele era um criminoso, por ter violado as ordens do tribunal, ou que ela era doida por lhe ter perdoado …ou, quem sabe, talvez ele tivesse voltado a amá-la outra vez…e tivessem tentado de novo…
Abriu os olhos. Sacudiu a cabeça para afastar aqueles pensamentos delirantes e soltou um gemido. Parecia que alguma coisa se soltara lá dentro. Tinha que passar o dia como uma anormal, tentando não se mexer bruscamente…
Ouviu passos na cozinha…O ordinário ainda não tinha saído… não bastava ter entrado em casa às três da manhã, ostensivamente ruidoso, subindo as escadas em tropel, batendo com todas as portas, sem respeito pelo seu descanso…claro que o seu descanso era o que menos lhe importava, e respeito por ela, há muito tempo que o tinha perdido, mas como era possível que nem o mais elementar instinto de protecção comum a qualquer besta relativamente às suas crias o não fizesse respeitar o descanso do filho? Ela bem sabia que isto tudo fazia parte de um estratagema para a fragilizar psicologicamente e a obrigar a abandonar a casa que era ainda de ambos…Mas estava muito enganado se pensava que cedia a chantagens…
Iria lutar até ao fim por aquilo a que tinha direito, não tanto por ela, mas pelo filho adolescente que ele renegara, ao excluí-lo de todos os afectos como a excluíra a ela. Nunca lhe perdoaria o terror psicológico a que sujeitara o miúdo, quando, na última vez em que haviam viajado de carro, ele disparara em altas velocidades, travando e acelerando a fundo nas veredas mais estreitas, rindo-se dos gritos e do pânico que provocava nos passageiros. Segundo ele, não passara de uma brincadeira, ela é que não tinha sentido de humor…Era doido, mas ninguém acreditou que ele provocara voluntariamente aquele clima de terror no intuito de a fazer passar por paranóica entre os amigos…Por isso ela só se deitava depois de o filho se trancar no quarto, e de ela fazer o mesmo…
Mas vivia em sobressalto …Houve quem a aconselhasse a ter uma arma consigo, na mesinha de cabeceira…Recusara…Não confiava na sua capacidade de controlo…Era bem capaz de a usar… O seu olhar procurou o frasco quase cheio onde ia depositando as moedas de dois euros. Na eventualidade de ser atacada, o frasco servir-lhe-ia de arma…
Tudo se iria resolver…As coisas estavam bem encaminhadas…Era, pelo menos, o que dizia a sua advogada.
************

— Maldito! Vai parar ao inferno! — Ela apontava-lhe uma arma de fogo, decididamente, segurando-a com as duas mãos.
— Grande cabra! Para que é esse brinquedo? Tinhas lá coragem para uma coisa dessas!
Virou-lhe as costas, e continuou a barrar o pão com manteiga, sacudido por algumas gargalhadas.
Aquelas gargalhadas acordaram nela uma raiva secular. Num flash as humilhações infligidas nela e no filho, passaram-lhe à frente. Viu-o virar-se para ela. Viu-lhe os dentes amarelados, com a falha que transportava desde miúdo, a boca a mexer-se enquanto falava, falava, falava…sem que ela conseguisse ouvir o que ele dizia. Só ouvia as gargalhadas daquele homem com quem um dia ela fora capaz de se deitar e que agora procurava humilhá-la.
Sentiu-se nauseada, a saliva na boca a crescer-lhe, as batidas cardíacas aceleradas nos dedos que apertavam o gatilho. Disparou.
Ao mesmo tempo, acordou com o estrondo. Ouviu um grito enorme. Saltou da cama, meio atarantada, sem perceber logo onde estava. Abriu a porta e correu corredor fora, em pânico. Chamou pelo filho.

Na cozinha, o rapaz apontava ao pai uma pistola ainda fumegante. No chão começava a alastrar uma poça de sangue, debaixo do corpo todo torcido daquele que fora o carrasco de ambos.
— Meu filho!
— Matei-o, mãe! Matei-o! — soluçou.
Abraçou-se a ele fortemente. Beijou-o e tornou a beijá-lo.
— Meu menino! Meu querido menino!
O rapaz estava sem reacção. Tirou-lhe ternamente a arma. Limpou-a. Depois pegou nela como se fosse atirar.
Em seguida agarrou o rosto do rapaz com as duas mãos, e fitou-o firmemente nos olhos.
— Filho, ouve o que te vou dizer. Quem matou o teu pai fui eu. Estás a ouvir? Fui eu. Em legítima defesa. Acordaste com o estrondo. Não sabes mais nada, ouviste? Deixa o resto por minha conta.
Pegou no telefone e marcou o 112.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Aqui estou...















Caminham as tuas agitadas
Ondas de espuma
Na passadeira dos meus
Passos brancos
Que orgulhosamente
Ao longe se levantam…

Ouço a tua voz de areia
Cedendo sob os meus pés mais nítidos
À medida que me aproximo…

E eu continuo o prazer
Do sabor antecipado
Caminhando…

Detenho-me a uma certa distância…
Cai-me ajoelhado o saco de livros
Acabados de comprar
E também os meus se vergam…

Não resisto à paz que lentamente
Começa a invadir-me os sentidos…

Enterro as mãos de areia fina e quente
E deixo-a escapar-se-me
Por entre os dedos abertos
Expectantes de carícias…

Espraio o meu olhar
Pelas tuas águas
Da cor de papo de rola
Revoltas

Fecho os olhos,
E cheiro a tua música
Que se repete num vaivém
E vai crescendo e crescendo e mordendo
E chicoteando a areia

E já ecoa o bichanar rezado das beatas
E na areia de novo cresce em tropel
E se levanta e urra…
E nela se aninha extenuado…

Levanta-me os cabelos uma brisa suave
Beija-me o rosto salgado
O respingar sussurrado das tuas águas…

Abro os olhos …
E do fundo de mim,
A tranquila felicidade
De um murmúrio dança-me nos lábios:
“ Cheguei! Cheguei!”

sábado, 26 de junho de 2010

Estava vazio

Ouvem-se ao longe dispersos acordes de músicas populares, como quem afina os instrumentos. Daqui a pouco, a música rebentará, plena e sem hesitações.
Evola-se dos espaços abertos das casas em redor, a fragrância da sardinha assada. Imagino-a, loirinha, a pele estaladiça, os lombos brancos e suculentos a escorrerem o delicioso suco. Começo a salivar…um desejo incontrolável apodera-se de mim. Decido que hoje tenho que comer sardinhas. Quando chega o Alberto, lanço-lhe o desafio.
Afinal, hoje é noite de S. João.
Desde os dezasseis anos que não ponho os pés lá em baixo, no povo… Nessa altura, saltavam-se as fogueiras, dançava-se na praça…E porque não? Calcei umas sapatilhas e descemos a rua, eu com aquela alegria que nos assalta quando deixamos que as coisas entrem naturalmente nos nossos dias, sem as afugentar…
Chegámos na altura certa. Dez minutos depois, já uma longa fila se formava na caixa de pré-pagamento. Renques de mesas no interior do pátio acolhiam os comensais. Os pratos e os talheres de plástico não lograram quebrar-me o entusiasmo.
A boroa fazia honras à sua fama… As sardinhas satisfizeram-me. O prazer de estar ali ao ar livre, saboreando o que para mim é um autêntico pitéu, superou a desconfiança relativamente à integridade do tempero da salada, parente muito afastado do insubstituível azeite…Bebemos uma garrafa de vinho e, no fim, uma pequena transgressão: fumámos um cigarro. Ao levantarmo-nos, senti-me um pouco tonta, confirmado na troca das pernas.
Fomos avançando. Passámos em frente das traseiras de casas velhas, novas, reconstruídas… mas todas elas tendo em comum o seu quintal, maior ou mais pequeno, com caramanchão natural ou construído para a altura da festa…mesas improvisadas, fogareiros, sardinhas, fêveras, vinho, animação, convidados… O tom era de festa.
Depois de um ligeiro deambular, sentámo-nos num banco de pedra corrido, à beira de uma velha casa de granito, mesmo ao lado do local onde tinha sido montado o palco. A pedra conservava ainda o calor deixado pelo sol que durante toda a tarde ali se espojara. Assumimos placidamente o papel de espectadores.
A noite vai avançando, ao mesmo tempo que aumenta também o vai-e-vem dos populares. Vão passando rostos conhecidos, aos quais se acena com um sorriso, e outros que se abeiram para um cumprimento mais personalizado. O som do arraial vai aumentando. Ouve-se a infalível música “pimba.” Hoje nem essa música me incomoda.
Em frente ao local onde nos instalámos, do outro lado da rua e vedando o acesso a uma garagem, uma garota que aparenta não ter mais de nove anos, de uma suave e natural beleza loura, vigia a sua trouxa: um enorme cacho de balões de papel, uma pequena banca toscamente improvisada, expondo apitos extensíveis e martelos de S. João, e, no chão, um saco de plástico de grandes dimensões, onde objectos idênticos aguardam a vez de mudarem de dono. A garota chama a atenção dos eventuais clientes batendo ritmicamente com um dos martelos na palma da mão, num “pic-pic-pic” irritante e monótono, ao mesmo tempo que a sua trança loura salta ao mesmo ritmo. Passados alguns momentos, apercebo-me que a pequena desaparecera e fora substituída no “pic-pic-pic” e na banca por um rapaz bem mais velho. Entretanto começa o espectáculo. Não obstante, por ali nos deixamos ficar, alongando prazenteiramente os momentos relaxantes. O negócio em frente corre de vento em popa, maugrado a tão badalada crise.
Vem acomodar-se no mesmo banco, uma família como tantas outras. Os pais são jovens, e os três filhos bonitos. O mais novo, ainda bebé, mansamente acomodado no carrinho, lança os olhares curiosos que a cúpula do carrinho lhe permite.
A garota, talvez com três anos, olhar negro profundo, e uma expressão doce, entretém-se a observar o vaivém das pessoas. O rapaz mais velho não terá mais de sete anos. É forte, no limite da obesidade, pestanas longas e cerradas. Não deixa dúvidas quanto à filiação paterna.
A determinada altura dei conta do garoto junto do pai, insistindo na pedinchice habitual de algumas crianças. A reacção não foi muito acolhedora. Perante a insistência, o pai começou a espicaçar o rapazito, a mandá-lo avançar. A criança dava dois passos e voltava para trás.
— Vai lá tu, pai!
— Não, não, vai, vai lá perguntar!
O rapaz dá meia dúzia de passos e recua novamente. Depois de estarem neste jogo alguns momentos, a mãe avança e vai direita ao jovem vendedor dos martelos. Volta com uma informação, que foi unilateralmente chumbada pela soberana decisão paterna. O garoto desata num choro desconsolado. Deita ao pai um olhar suplicante por baixo das cerradas pestanas. Cruza os braços, choraminga. A mãe passeia o olhar pela multidão que passa, também ela indiferente ao pequeno conflito entre pai e filho.
A figura paterna afasta-se. Enverga umas bermudas de ganga, uns ténis Nike falsos. O ventre volumoso faz-lhe alçar a tee-shirt preta. O rapazito vencera a disputa. Enganei-me. Dá alguns passos, retorna. Volta-se para o filho com um sorriso desdentado, mascando uma chiclete. O rapaz responde-lhe com o seu ar amuado, suplicante e de braços cruzados. O pai volta a afastar-se, desta feita em direcção ao palco, onde o espectáculo está ao rubro. O garoto vai-lhe no encalço. Corre para ele a mãe, subitamente desperta do aparente alheamento. Descansa quando repara que o garoto se juntou ao pai. Também ela ostenta uma barriga demasiado proeminente. A miúda olha-me longamente. Começa a cantarolar baixinho, e depois ignora-me, voltando o seu interesse para si própria. Pai e filho juntam-se ao resto da família. Os dois adultos não trocam palavras entre si, embora a postura de ambos seja a de um entendimento tácito.
Atitude espaventosa, de galo, a deste progenitor. Fica de costas voltadas para a família. Estica o corpo, incha o peito, abre as pernas, como forcado que se prepara para a “pega”. Enfia as mãos nos bolsos das calças. Balouça o tronco para a frente e para trás, levantando alternada e ligeiramente os calcanhares. Deixa-se estar assim, a baloiçar-se para trás e para diante, quem sabe se ruminando alguma importante decisão…Passeia a mão pelo peito e alisa a tee-shirt em cima da barriga a custo coberta. Subitamente arranca em direcção ao vendedor. Os dois garotos vão atrás dele. Volta um minuto depois, no rosto estampada a desolação. O garoto vem de boca escancarada, agora num choro magoado. A garota imperturbável.
Chega ao pé da mulher, que o questiona:
— Então?
— Esgotados.
— E o saco?
— O saco? Vazio. Já estava vazio…

domingo, 20 de junho de 2010

Homenagem a José Saramago

" A vida é imprevisível.Põe palavras onde imaginávamos silêncios e súbitos regressos quando imaginávamos que não voltaríamos a ver-nos."
José Saramago

Fico sempre triste quando uma estrela deixa de brilhar aqui na terra, para ir iluminar outras esferas.
Apesar de algumas posições corajosamente controversas, fruí a leitura de não mais de meia dúzia dos seus livros-poucos, como se depreende, atendendo à sua vasta produção... Mas o texto que maior impressão me causou, foi uma crónica, em jeito de carta, que escreveu à sua avó, e que me emocionou profundamente, a ponto de ainda hoje me lembrar dele... talvez porque as suas palavras me fizeram pensar na grande mulher que foi a minha propria avó...
Li esse texto há muitos anos, mas recordo-me que nele Saramago deixava tranparecer uma grande ternura por essa mulher simples, de noventa anos, com um vocabulário reduzidíssimo, que pouco mais conhecia que a soleira da porta da sua casa onde se sentava ao sol. Mas, apesar desse seu mundo tão limitado, ela confessava para o neto: "O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer..."
Ao contrário, dizia-se que Saramago não tinha medo da morte... Ainda bem!...

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Alma perdida...

Puxei uma cadeira e sentei-me. Àquela hora a esplanada estava quase deserta. Escassos eram também os transeuntes que atravessavam a rua Formosa. Numa mesa, duas senhoras já algo entradas na idade, cochichavam. Noutra, um homem de panamá irrepreensivelmente branco folheava o jornal. Nas mãos, as manchas castanhas apontavam para uma idade já avançada, confirmada pela teia de sulcos que lhe marcavam o rosto.
Sentei-me de costas para a pastelaria, de frente para o antigo mercado, a que a intervenção de Siza Vieira não logrou integrar na vida da cidade. Por ali ressoam os ecos da antiga vivacidade, animação e colorido de que agora não restam os mais ínfimos vestígios. Também nas minhas nostálgicas memórias latejavam vibrantes e buliçosos os mesmos ecos. Um sol tímido penetrava pelo buraco do guarda-sol abrindo um círculo de claridade na sombra projectada na mesa onde me acolhi.
Algumas pombas saltitavam na calçada. Outras atreviam-se a ir debicar nas mesas migalhas esquecidas. Apesar do que li na Net sobre as pombas — tão ou mais perniciosas que os ratos, uma vez que as asas lhes permitem a propagação mais rápida de doenças — não consigo ter para com elas a mesma atitude de instintiva repulsa. Não são elas o símbolo da paz?
Passado um bocado, a mesa ao lado da minha, mas um pouco mais à frente, foi ocupada por outro idoso. Não me apercebi da sua chegada, absorta nos meus pensamentos e reflexões. Também ele procurou posicionar-se de costas para a pastelaria, e de frente para o mercado. A frequência pendular com que retirava um lenço da algibeira esquerda, e o passava pelo rosto, atraiu a minha atenção. Inicialmente pensei que estaria constipado. Mas depressa me apercebi de aquele movimento era destinado a limpar os olhos. O empregado, sem que ele tivesse pedido, trouxe-lhe um pastel de nata e um galão. A familiaridade do gesto levou-me a concluir que a presença daquela personagem era ali habitual. A reforçar essa suspeita, a atitude de conforto do funcionário que levou a sua mão ao ombro do indivíduo, e lho apertou suavemente. O homem olhava fixamente em frente, para um determinado ponto do mercado. Lentamente retirou um saco de pano castanho pouco maior que a sua mão, do bolso interior do seu blusão gasto pelo uso. Abriu os cordões do saco e tirou de lá de dentro um fragmento de um azulejo que colocou sobre a mesa. Retirou um papel dobrado quase a desfazer-se e abriu-o também em cima da mesa. Tive alguma dificuldade em identificar o papel. Era uma nota de vinte escudos. Em seguida retirou um rosário de contas de vidro e colocou-o junto dos outros acessórios. Depois recostou-se na cadeira, colocou a mão direita sobre aqueles objectos, e chorou. Chorou mansamente, sem ruído. Apenas os suspiros profundos a levantarem-lhe o peito lhe denunciavam o choro.
Aproximei-me.
— Desculpe, sente-se bem? Precisa de alguma coisa?
Abriu os olhos azuis, baços e aguados. Fitou-me com uma mágoa tão profunda…Não me respondeu. Apenas o seu braço se levantou num gesto largo e circular, abarcando o mercado. Deixei-o só.
Quando fui à caixa pagar, o empregado notou a minha perturbação.
Soube então que aquele senhor possuíra em tempos um posto de venda de flores no antigo mercado. Nunca se conformara com a mudança. O seu negócio no novo mercado para onde foram mudados os vendedores, nunca florescera, porque, segundo ele, a sua alma não o acompanhara. O velho viu-se vítima de várias desgraças: tempestades que destruíram as suas estufas, pragas mortíferas e insanáveis que arrasaram a sua produção de flores.
O pastel e o galão eram oferta dos donos da pastelaria, compadecidos com o sofrimento do velho.
Há mais de dez anos que, todas as semanas, ele voltava ali, ao local onde fora feliz, para se unir em pensamento à sua alma.

domingo, 13 de junho de 2010

Adolescência

Miúdos irreverentes. Reacção negativa a qualquer proposta, desde que vinda de um adulto. Arrogantes. Críticos. Sarcásticos. Inseguros.
Meninos doces dos quinto e sexto anos, agora irreconhecíveis. Escapando ao nosso olhar, sorrisos e posturas provocadores, escudos de medos que se desejam sepultados. Experimentando incursões por uma liberdade supostamente conquistada. Entrando no limiar do proibido. Sorrisos. Troca de olhares, na procura de reconhecimento e aprovação entre pares…
Tédio. Bocejos. Risinhos. Mãos na cara tapando o riso, escondendo inseguranças. Olhares cúmplices. Aulas de substituição interpondo-se ao desejo de liberdades não vigiadas. Cadernos abertos iludindo o ecoar dos minutos…supostamente para tirar ou fingir tirar últimas dúvidas para o teste. Trabalhos de casa que é preciso despachar… Palavras de calão sopradas para o ar. Provocações. Ar gingão. Olhares longamente demorados para além das janelas. Tédio. Suspiros. Risos. Palavras articuladas entre dentes. Corpos esticados nas carteiras.
Bocejos. Risos. Tédio. Sarcasmos. Inseguranças. Irreverências. Bocejos. Risos. Tédio. Sarcasmos. Inseguranças. Irreverências. Adolescência…
O toque libertador! ...

domingo, 6 de junho de 2010

55 anos








Cheguei há pouco da terrinha que me viu nascer há cinquenta e cinco anos. O motivo da deslocação foi juntar os nascidos neste rincão, há 55 anos, para uma pequena comemoração. No programa constava também uma visita ao cemitério, em romagem de saudade aos já falecidos, e colocação de uma flor simbólica nas suas campas e na do casal de professores primários que nos ensinou — ele os rapazes, ela as raparigas. Estes encontros têm-se realizado de cinco em cinco anos, desde 1985. Esta foi a minha segunda participação. Desta vez não pude estar presente nas actividades que estavam programadas para a manhã, pelo que, quando cheguei para o almoço, algo atrasada, já estavam todos sentados.

Alguém me guardou um lugar numa das mesas. Conversei mais do que comi. Como já é habitual nos encontros deste tipo, e este não foi excepção, as mulheres, de uma maneira geral, mantém-se com um aspecto mais jovem.

Foi agradável reconhecer alguns rostos, embora também me tivesse entristecido não ter reconhecido outros, apesar das explicações. Eu saí deste cantinho para continuar a estudar aos onze anos, e fui perdendo o contacto com a maior parte deles. Naquela altura, era raro tirarem-se fotografias. Na maior parte das famílias, o dinheiro mal dava para comer, e só os que seguiram estudos, têm registos desse tempo perpetuado nas fotografias do bilhete de identidade, o qual, para os outros, não era obrigatório. Mesmo assim, reconheci mais rostos femininos do que masculinos, o que se compreende, dado o facto de, nessa altura, nos ser praticamente vedado o convívio entre sexos. O edifício escolar estava divido: os rapazes iam para um lado, e as raparigas para outro. Os recreios estavam separados por muros.
Durante o almoço, na minha mesa comentou-se o programa que eu tinha perdido. Relembraram-se com saudade os colegas já desaparecidos. Aproveitei para dizer que não lamentava ter falhado a colocação das flores nos professores. Não tinha nenhuma vontade de deixar flores a pessoas que eu considerava responsáveis por alguns traumas de infância.
Acorreram-me imagens do tempo escolar, em que fomos martirizadas por uma professora, que, não tendo tido filhos, semeou nos nossos corações o medo, a angústia, a insegurança…Nunca fomos poupadas aos castigos…e, aquelas com quem falei, confessaram também não terem sido tempos felizes os que passaram na escola. É certo que ficámos bem preparadas…mas a custo de termos atravessado a nossa infância sob um clima de terror…A pedagogia que imperava, era a da régua…Durante muitos anos vivi assombrada pelos pesadelos de uma professora agressiva, intolerante, injusta, pronta para castigar ao mínimo deslize, que me atormentava as noites, mesmo depois de, no liceu, saber que já nada me poderia fazer voltar à escola primária. Mas, no meu subconsciente prevalecia nítida essa marca que voltava materializada nos sonhos, sempre que no meu percurso de vida se atravessava alguém cujo comportamento se assemelhava ao da professora primária.
Encontrei e reconheci a Alicita, nome carinhoso que todas lhe dávamos, por ela ser tão pequenita, apesar de ter a mesma idade que nós. Parecia uma boneca, loira, magrinha, pele diáfana… A Alice ficou feliz por eu a ter reconhecido. Peguei-lhe nas mãos e juntei-as às minhas.
— As tuas mãos continuam pequeninas, Alicita!
— Pois, como eu!
Rimos. É de estatura baixa, de facto, mas irradia alguma alegria nos olhos brilhantes, no rosto e nos gestos. Contei-lhe que me lembrava muitas vezes das mãozitas dela branquinhas e pequeninas, a serem torturadas pela régua empunhada por aquela mulher implacável! …
Ela assentiu. Ficou calada, por breves instantes.
— Então quando levávamos reguadas e as mãos estavam geladas, parecia que caíam… E os pobres eram mais castigados que os outros…
Esta observação veio ao encontro de uma impressão que me ficara, mas que eu não tivera ainda oportunidade de confirmar…Alice vivia, no tempo da nossa meninice, num bairro social, mandado construir de raiz para os pobres, por um benemérito da terra.
Contou então que houve uma altura na escola em que era preciso um caderno de problemas que a professora se encarregou de encomendar e que custava dois e quinhentos.
O pai estava hospitalizado, a mãe não tinha dinheiro para comprar o caderno.
Todos os dias a professora lhe perguntava pelo dinheiro. Todos os dias a Alicita explicava à professora a situação familiar e todos os dias era mimada com reguadas. A partir de certa altura, já era um ritual. A Alicita já nem esperava que a professora lhe mandasse esticar a mão para o castigo diário, que não falhava, e as lágrimas também já vinham antecipadas. Finalmente, o dinheiro chegou. Tal era a força do hábito, que Alice estende as duas mãos: uma com o dinheiro; a outra a oferecer-se ao castigo.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

A voz de Deus


Tempos terríveis os daquela aldeia serrana… Terra sem homens, ou quase… Terra de velhos e de crianças… ou de jovens sem ambição, ou medrosos, ou tão pobres que nada possuíam de seu e desencorajavam quem pudesse emprestar-lhes dinheiro para a passagem. Durante várias gerações, cumpriu-se a tradição. Quase todos os homens emigravam para o Brasil. Os casados deixavam as mulheres no torrão a tomarem conta dos filhos e dos bens que o casal ia entretanto amealhando. Muitos constituíam outras famílias por lá, e só vinham de quando em quando passar umas férias. Era maior o tempo passado lá fora, do que o que passavam junto das suas legítimas famílias.
Também muitas mulheres não conseguiam resistir a esta solidão forçada e impiedosa e acabavam por sucumbir à insistência de algum galaró, procurando aconchego em outros braços viris que as ajudassem a encurtar as longas noites de ausência, e a darem vazão ao desejo e aos sentidos..
Um destes casais assim constituído encontrava-se clandestinamente no Cabeço, lugar da residência dela. Ele chegava de noite, simulava o piar do mocho e, passado um bocado, ela ia ao seu encontro.
As árvores de fruto naquela aldeia não abundavam. Terreno que possuísse uma árvore de fruto, tornava-se alvo da cobiça daqueles que procuravam encher a barriga e matar a fome naquelestempos de miséria. Ninguém gostava de ver as suas terras devassadas por ladrões de fruta, os quais, além de impedirem que os donos a pudessem saborear, davam cabo de outros cultivos ao avançarem descuidadamente pelos terrenos adentro, na mira de se encherem.
Mantinha-se, porém, no Cabeço, aquela frondosa cerejeira, talvez porque, como crescia no interior do terreno, não era de acesso fácil à vista e exploração de quem passasse no caminho, não sentindo por isso, o seu dono, os efeitos dos predadores da fruta.
Mas o casal conhecia bem os cantos da courela. Numas dessas noites, entendendo que aquelas ramagens cheias de folhagem, eram ideais para manter discreto o seu ninho de amor, veio deitar-se debaixo da árvore. Nem ele nem ela se aperceberam de que já alguém antes deles vira na árvore um poiso acolhedor e, a coberto da noite, se viera banquetear com os deliciosos frutos, bastando-lhe para tanto estender o braço e apanhar uma barrigada de cerejas. Quando este explorador se apercebeu de que chegara companhia, deixou-se estar calado e sossegado, sem vontade de denunciar a sua presença, não fossem acusá-lo de ladrão de fruta. Entretanto o casal preparava-se para ter ali as suas bem-aventuranças. Ela parecia um pouco renitente, e ele tentava convencê-la. No meio do “agarra-aperta”, foi ela apunhalada por um remoque de consciência e responsabilidade, e, no tom de voz meloso de quem julga não haver testemunhas das suas ilícitas intimidades, pergunta ao amante:
— E se engravido?
— Engravidas lá agora!
— Ai não! Só Aquele que está lá em cima é que sabe! — responde a mulher, assaltada por um pingo de devoção religiosa algo tardio.
Imagine-se o pânico destas almas, quando ouvem uma voz vinda de cima, que eles assumem, na sua ingenuidade, como sendo a resposta divina ao temor da adúltera:
— Essa agora! Eu para aí não sou tido nem achado! O problema é vosso!
Ei-los que correm, em pânico, desembestados, com as calças na mão ele, em camisa, ela, descomposta, com a trança desfeita a balouçar ao longo das costas…