"Todos os meus versos são um apaixonado desejo de ver claro mesmo nos labirintos da noite."
Eugénio de Andrade

terça-feira, 24 de julho de 2018

No fundo do poço

Ora, isto não é nada!...Estou lá agora a esconder…É só porque…não é uma coisa bonita de se ver… e há pessoas a quem faz impressão…Ai não se impressiona? Está bem, pronto! Já, já tratei, já! Então, desinfetei com álcool, Bétadine, vê!...Hã…dói-me um bocadito, agora já não é nada, mas na altura…não, menina, precisa lá agora de pontos…ia lá para o hospital por uma coisa destas?! Falta-lhes lá a eles o que fazer…Isto passa! Daqui a bocado, para fazer o jantar, o meu Abel ata-lhe aqui um plástico, e pronto! Não!... menina, foi lá agora ele! O meu homem é um berrão, lá isso é, mas, graças a Deus, nunca me tocou nem com um dedo!...Ameaças já fez muitas, isso fez…às vezes cresce para mim de uma maneira…Mas é só da boca para fora…que eu também lhe abro os olhos…Não me fico!... Olhe, sabe, são coisas que acontecem…a gente às vezes está onde não devia estar, pronto! E depois…Isto é uma vida…Para que hei de estar agora a contar coisas de quem nem me quero lembrar? Para quê? Isto passa, pronto!...
Ah! menina, ele às vezes fica assim doido, doido, parece que tem o diabo no corpo, nem o conheço…bem, a bem dizer, já há muito tempo que ele não é o mesmo…E se eu lhe tenho amor! Criei-o, então, desde pequenino, a ele e à irmã! Eram tão meus amigos! Quem havia de dizer que ele se havia de tornar neste diabo? Eu é que os criei! Pois, coitadinhos, quem havia de lhes valer?! Sem mãe, e o pai não presta para nada, um criminoso…Ele nunca mais quis saber do rapaz…Nem os animais… Então, o pai, aquele excomungado, esteve na prisão, bem pouco tempo, cá para o meu gosto…mas isto agora é assim! Eles fazem-nas, passam um tempito na prisão e depois vêm cá para fora, infernizar a vida da gente!
Então… olhe, acordou lá para as três da tarde…parecia doido… andou não sei lá por onde até de madrugada, depois de manhã, claro…não tem forças para se levantar…ai emprego…não! Às vezes aparece aí com muito dinheiro, olhe, eu não sei onde o arranja, e compra sapatilhas, camisolas, roupa de marca, tudo do bom, que custa uma fortuna, tem um bom telemóvel, eu não sei mexer naquilo…uma…ai, com é que se diz…uma dessas coisas grandes para ouvir música, faz um estardalhaço, que a gente fica com uma dor de cabeça…isso! E vem com umas caixas que guarda no quarto, não sei lá o que têm as caixas, ele fecha a porta do quarto à chave, o meu Abel já lhe disse umas poucas de vezes que não quer a porta do quarto fechada, mas é como quem está a falar para uma porta. Mas assim com vêm, também desaparece com elas num instante… Mas como lhe estava a contar, o rapaz queria dinheiro, à minha volta, “ó avó, onde é que tens o dinheiro, e eu não tenho, não tenho, e ele onde está a chave da gaveta? Não sei, não sei dela…, e eu com ela aqui por dentro, pendurada neste fio ao pescoço, olhe, pegou no martelo da caixa das ferramentas do avô, e começou a bater com ele na gaveta da mesinha de cabeceira onde eu guardo o dinheiro para as compras, para comermos, está a perceber? A reforma do meu Abel fica na Caixa. Eu é que me fui lá meter!... Pois não sei como foi…e deu nisto…Ai menina! Desculpas? Pediu lá agora! Isso não é com ele! Olhe, depois desapareceu…não sei para onde foi… ele ainda recebe um subsídio, mas estafa-o num instante, sabe? Depois, claro…mas eu não lho dou…só uns troquitos, de vez em quando…O meu Abel nem sonha !...Ai! então eu ia lá chamar a polícia? Para quê? Violência?! A menina sabe lá o que é violência! Violência era aquela entre o meu genro e a minha filha…Ai! Minha pobre filha!...Cá para mim o rapaz é um revoltado por isso mesmo! E a vida da minha filha, ninguém lha volta a dar…e sabe, ninguém fica na mesma depois de ver o pai dar um tiro na mãe mesmo à frente dos olhos, quem é que aguenta uma coisa destas e fica assim…normal, não é?! Devia ficar na prisão para toda avida, assim é que era…desgraçou a vida da minha filha, a dos filhos e a nossa…Ora…a rapariga, nunca mais soube dela…o maldito veio buscá-la quando saiu da prisão…já me disseram que a viram lá em Lisboa, que anda na vida, e eu, olhe…nem sei…que o pai era capaz de a meter a ganhar para ele, disso não tenho dúvida nenhuma, isso não tenho…  
Agora o rapaz…se a polícia o apanhasse aqui era uma desgraça!...Ele nem sequer pode pôr aqui os pés, menina…ele tem que estar afastado de nós nem sei quantos metros, ou quilómetros, foi o que o juiz disse da última vez que…
Bem, mas isso agora não vem ao caso…Hum! Arranjaram-lhe um emprego, mas pensa que se aguentou lá?! Os compinchas não lhe largavam a porta…Aqui não entram, mas assobiam de longe, e ele fica todo alvoraçado, sai porta fora, e às vezes está dias seguidos sem aparecer, olhe, eu fico aqui, com o coração num cesto… Quando volta, se lhe pergunto alguma coisa, abre-me umas goelas, que eu sei cá…que me meta na minha vida… Eu da vida dele nada sei, ele a mim não se confessa!... Quem?! Essas são umas invejosas, umas más-línguas! Não podem ver o rapaz bem vestido, que anda logo na droga! Credo! Não! Não acredito! Já, já esteve na prisão, mas olhe, se quer que lhe diga, já nem sei bem…acho que foi por andar à pancada, parece-me…lá o desafiaram, e ele respondeu…ele não é para ficar calado, lá nisso, tem a quem sair, Deus me perdoe…
Bem… às vezes o meu filho vem aí…é o meu filho do meio, o meu mais velho vive em Sacavém…
Ó mãe, vossemecê não pode ter aqui o Rafael, feche-lhe a porta, ele que durma na rua!...Então mas eu lá tenho coragem, menina, diga-me lá, eu hei de fechar a porta ao rapaz? Ele não tem mais ninguém, como já lhe contei, ele era tão meiguinho…E fecho-lhe a porta como?! Eu lá lhe posso fechar a porta?! Ele tem uma força!...Olhe que noutro dia empurrou-me, fui bater com as costas ali naquelas grades, está a ver? Fiquei com os ferros todos marcados nas costas… o meu homem andou a esfregar-me com um produto que comprou na farmácia, isto já vai fazer uns dois meses…e ainda cá tenho dorido…estas coisas levam o seu tempo…

Ai, meu Deus, ai meu Deus, não sei quem nos há de valer!...

quinta-feira, 21 de junho de 2018

Sonhos perfeitos

Sonhos perfeitos

Na penumbra branda
Permanece solene o pranto
De prata paramentado
Presto, prendo os sonhos
À pérgula que no meu peito plantaste
Prestes a perderem-se de tão perfeitos
Retorna o canto que precede
A transmutação dos prados pardos
Pressinto o seu pulsar primordial
Subterrâneo e secreto
Meus passos ora entrelaçados
Perdem-se entre os pés das prímulas
E penetram a terra tenra e terna
Rompem dos pulsos ramos aéreos
Repouso sereno da conversa dos pássaros
Desprendem-se as pálpebras pesadas.
Do sonho privada, parto para o pesadelo
Assim é o preço dos sonhos perfeitos.



segunda-feira, 7 de maio de 2018

O percurso do restaurante até casa foi doloroso e pareceu-lhe interminável. Esforçou-se até ao limite para conter as lágrimas. Uma raiva surda envenenava-a, e, quanto mais remoía, mais os insultos lhe cresciam no íntimo. Insultos gritados no interior de si, e injetados nas suas veias, inundando-lhe todas as fibras daquele veneno. “Cabra, cabra, cabra, grande vaca, grande vaca, “gritava no seu interior.
Alfredo estacionou o carro à frente da garagem, ela abandonou o carro precipitadamente, subiu a correr os degraus de granito que a conduziam até à entrada, abriu a porta com nervosismo, e, mal se viu a salvo, um profundo grito libertou-se das entranhas. Subiu as escadas em direção ao quarto, lançou a carteira para longe, atirou-se para a cama, e chorou, chorou, chorou, batendo com os pulsos na almofada. Logo atrás, o marido, perturbado, veio no seu encalço.
__ Mas o que é que tu tens? Não te entendo! Francamente, essas mudanças de humor…
__Desculpa, desculpa, não tem a ver contigo! Preciso de desabafar! __ foi dizendo por entre as lágrimas.
__Não percebo por que estás assim! Não vi nada que justifique esse teu estado!
__Mas eu vi. Vi e ouvi. Deixa-me estar, por favor! Se estou assim, é porque lá no restaurante, tive que me conter para não me saírem certas palavras da boca.
__Mas o que aconteceu no restaurante?
__A tua mãe…a tua mãe é má, má, má, má…
__ Olha se eu me puser a dizer o mesmo da tua, gostavas?
__Eu conheço os defeitos da minha mãe, e tenho abertura para lhe dizer o que penso, e, às vezes, no calor da discussão, elevar a voz, e fica tudo bem… Mas à tua, não lhe posso dizer o que sinto…Por isso estou assim. Deixa-me com as minhas coisas, por favor!
__Mas esses alterações de humor…
__Por favor, já não posso chegar à minha casa, ao meu porto de abrigo, e desabafar? Se não o posso fazer aqui, para onde vou? Sinto-me como uma panela de pressão à qual é preciso tirar o vapor, para acalmar…
__Está bem, pronto, mas isso não me parece muito normal, não entendo…
__ Não espero que entendas, são conflitos de mulheres, de noras e sogras, pronto, é isso, coisas de noras e sogras…
Ele saiu do quarto, enquanto ela desabava e se desfazia num mar salgado.
Passados uns minutos ele voltou. Circunspecto, e algo amuado, disse:
__Vou dar uma volta de mota.
Íris não respondeu. Também lhe apetecia. Fazia-lhe bem. Espairecia, e aquela raiva sumia-se. Não! Ia ficar.
Ele trocou de roupa e saiu.
Começou, então, a passar em revista os acontecimentos no restaurante. Tinha tudo corrido normalmente. Até as habituais trocas de palavras pouco cordiais entre ela e o filho.
O Miguel pediu água gelada, quando era habitual pedirem água à temperatura ambiente. Ela olhou para ele, bem nos olhos.
__A avó gosta de água gelada. Ela só bebe água gelada. Em casa também.
Íris não disse nada. Rodeou com as mãos o copo de água, na tentativa de o tornar menos frio. Há já algum tempo que não bebia água gelada, desde que lera sobre os benefícios da água morna,  ou à temperatura ambiente. E sentia-se bem com isso.
Pouco depois, também o marido observou.
__Detesto água gelada. Só gosto de água quente.
__Sais à tua tia Silvaninha _observou D. Ilda com um sorriso.
E o almoço foi correndo e a conversa fluindo. O Miguel muito solícito com a avó, como sempre, servindo-a e mimando-a. A determinada altura falou-se num primo que estava de férias na aldeia, aproveitando também para fazer férias dos pais, que tinham ficado na cidade. Ìris   observou que o rapaz tinha feito algumas cadeiras do curso que retomara após alguns anos, que não sabia se já tinha acabado, e que as férias seriam merecidas.
__Com curso ou sem curso, com aquela idade, muito dificilmente arranjará trabalho, no momento atual!  __comentou o marido
__ Não interessa! Mas aproveita o tempo para fazer alguma coisa proveitosa, e que acho que lhe faz bem à autoestima. __contrapôs ela.
Falou-se que o rapaz andava a fazer limpezas na casa da aldeia, para receber as filhas, enquanto a ex-mulher ia de férias.
Mais uma vez, ela concordou. Era natural o rapaz querer agradar as filhas.
Mas D. Ilda empunhou o seu aguilhão, fez um dos seus trejeitos recorrentes, a boca num arco com os cantos descaídos, desdenhosos:
__Coitado! A mãe não o soube educar, e ele também não sabe educar as filhas!
__Certamente que ela o educou pensando que fazia o melhor. Os pais amam os filhos incondicionalmente, e fazem sempre o que julgam ser o melhor para eles_ ripostou Íris
Foi então que a grande educadora, atirou, dirigindo-se à nora:
__ Então porque é que a menina e o seu filho estão sempre a discutir ?
A cabra não podia ter atingido ponto mais sensível. Essa era uma grande mágoa que ela transportava, agora já sem doer tanto, mas que aquela mulher má o dissesse como se fosse por inépcia sua relativamente à educação do filho, isso não lho admitia, isso não!
Respondeu-lhe que isso era verdade, sim, mas que nunca admitiria que alguém o ofendesse na sua frente, porque o amava incondicionalmente, e era uma leoa a defendê-lo.
Mas não foi além disso. Dona Ilda não iria entender. Era uma ignorante emocional. A conversa prosseguiu, sem a sua participação. Sentiu uma onda de calor subir-lhe ao rosto. Pressentiu que se ia desfazer em lágrimas. Respirou fundo, apertou o nariz, e a sensação passou.
 Ainda bem que lhe não respondeu. Não valia a pena responder a esta mulherzinha má, sacana, cabra, cabra, cabra, que educou os filhos debaixo da pedagogia do terror, humilhação e chicote, que partia para férias deixando-os entregues a si próprios, que foi sempre fria e incapaz de lhes dar carinho.
Gostava de lhe ter dito duas verdades. Mas não disse. Gostava de lhe ter dito que ela, a sogra,  tinha uns filhos de ouro que não mereceu, que, se eles eram extraordinariamente respeitosos para com ela_ coisa que ela não era com eles, a quem estava sempre a desvalorizar, __ era porque eles, felizmente, tinham o bom feitio do bom do seu marido, que nunca lhes tocara e os enchera de mimos. Que ele, o marido e pai dos seus filhos, era também o pai invejado por todos os miúdos do bairro, e ela era uma megera que ninguém gostaria de ter por mãe. Que agora, depois de velha e eles adultos, chantageava os filhos para continuarem a gravitar à volta dela, que acorriam a sua casa mal ela se lamuriava. Que isso acontecia também porque eles tinham mulheres compreensivas, que os deixavam à vontade para continuarem a mimá-la, como sempre fora.
Que ela e o filho discutiam, sim. Que muitas vezes, depois de terem discutido, ela sentia um misto de mágoa e orgulho; mágoa pela incapacidade de ambos manterem uma conversa sem se exaltarem, orgulho por ele ser detentor de uma capacidade de argumentação que ela não tivera a oportunidade de aprender nem desenvolver.
Que ela e o filho discutiam, sim, por vezes demasiado energicamente para o seu gosto, mas porque o educara no sentido de ser uma pessoa sem medo, que podia expressar livremente o que quisesse, e que o podia fazer com ela, sempre, sem que deixasse de o amar por isso, ao contrário da megera, que os educou hipocritamente para não dizerem o que pensam, numa moral do parece mal, regida por princípios caducos em que os mais velhos, principalmente os pais, têm sempre razão, e não se podem defrontar.
Mas que a ela, a dona Ilda, os filhos lhe não respondiam porque os argumentos dela eram falsos, desonestos, e não valia a pena desperdiçar energias encetando uma conversa que nunca seria saudável, batalhando os  argumentos dela com os  apresentados por eles…
Por isso, ainda hoje, são incapazes de a confrontar e calam-se, muito embora não concordem com aquilo que ela diz, nem com aquela moral decrépita Calam-se, para a pouparem à humilhação de terem que desmontar as suas desculpas, os seus argumentos desonestos, falsos, incoerentes, facilmente desarmáveis, e a verem reduzida a uma mentirosa manipuladora. Calam-se, porque, apesar de terem sido educados por ela, a amam, e são intrinsecamente bons, pois foram herdar o carácter ao pai (graças a Deus).
Mas isto nunca lhe dirá. Porque ela, a sogra, nunca o compreenderia. E porque ela, a nora, é muito melhor do que ela.
E porque depois deste desabafo, a raiva já se foi. 

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Nem olhaste para trás...

Esperas-me à entrada da nossa casa
A casa que ambos construímos com alma
A alma da nossa casa habitada em nós
Os nós com que prendemos os sonhos
Que esvoaçavam iluminados pela lua
A mesma lua que desenha as tuas coxas altas
Na camisa de noite transparente
Transparentes os teus olhos
Enquanto no coração se atropelam
Espessos e profundos presságios
Fitas a noite incendiada de desejos
Desejos flamejantes em tropel
Na noite solitária.
Ainda virás à porta da nossa casa
Sete noites a fio
Uma noite a seguir a outra noite
Sondando a escuridão
Os teus pés descalços caminham
Sobre um tapete de vidros
Mas tu nem notaste
Fizeste a mala e partiste nessa noite
A nossa casa ruiu atrás de ti

Nem olhaste para trás.

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Aqui houve faísca

Aqui houve faísca

      Perto das dez da noite partimos, em direção aos bares e restaurantes da zona histórica que haviam sido selecionados. Íamos cheios de entusiasmo, com a adrenalina a injetar-nos a energia de que todos precisávamos, depois de um dia de trabalho intenso. A baixa de última hora da mentora deste projeto, posto que lamentássemos o que a motivou, não logrou refrear-nos o entusiasmo, já que foi compensada por um amigo e companheiro amante do teatro, tal como todos nós. Seguimos, subindo a rua, o ardina lançando o seu pregão, o instrumento musical acariciado pelos lábios da L., que acorda em mim reminiscências da minha infância: o homem dos sete ofícios a trazer com ele as chuvas de outono, ao mesmo tempo que calcorreava as ruas da terra onde nasci, e o som da música a fazer surgir das portas mulheres com os seus guarda-chuvas a precisarem de um fecho ou uma vareta, facas, tesouras, foices e gadanhas a suplicarem por um novo fio, pratos e travessas partidos a aguardarem o abraço que as voltaria a integrar ao uso, farrapos vendidos ao quilo, panelas e tachos a pedirem um pingo de solda que as devolvesse às tarefas para que haviam sido concebidas…
      Logo de seguida, a canção do “ Amor de Perdição”, colhida ao vivo da boca da minha mãe,  ainda  de boa memória, a cortar a noite calma e fria, nas nossas vozes não muito afinadas. Transeuntes ocasionais mimavam-nos com sorrisos, olhares curiosos e divertidos. Ostentávamos orgulhosamente os bonecos que nós próprias confecionáramos, e assumimos as personagens de saltimbancos e titereiros.
     Entrámos no primeiro bar. Receção calorosa, atenta. Correspondemos.
     O 2º local que nos haviam proposto, estava, àquela hora, deserto. Foi-nos sugerida a visita a um outro. Bem sabíamos ser este um restaurante não acessível a todas as bolsas. Enfim…talvez numa ocasião especial. Mas íamos ali para fazer o nosso trabalho.
Instalámo-nos nas nossas posições e demos início à função. Apenas três mesas ocupadas, uma das quais central, grande, redonda. As conversas que detinham, ficaram, por momentos, suspensas. Mas também os seus ocupantes pareceram terem ficado, também, suspensos de viver, sentir, ouvir, rir, olhar. De facto, os ocupantes da mesa que estavam de costas, de costas ficaram, sem se virarem para os atores que tomavam como suas as peripécias das personagens do “ Amor de Perdição”. Saímos, algo desiludidos com a frieza e indiferença. Quando se põe amor, entusiasmo, energia naquilo que se faz, espera-se, ao menos, um olhar.
      Esta indiferença consolidou em nós aquilo que já várias vezes havíamos experienciado: as pérolas são mal empregadas é naqueles que consideram que o seu estatuto lhes permite olhar os outros com sobranceria, nos que passam pela vida ostentando a máscara que nunca abandonam, que se não permitem sonhar, rir, talvez receando dar razão ao aforismo “ muito riso pouco siso”, sem se darem conta de que o rei vai nu…
      Mas foi-nos pedido que voltássemos no dia seguinte, a uma hora em que apanharíamos os clientes a jantar. Voltámos. Desta vez, sala cheia. Em algumas mesas a conversa continuou, como se nada estivesse a acontecer, o que obrigou os atores a um esforço suplementar para se fazerem ouvir.
      Porém, nessa chuvosa e nebulosa ilha de indiferentes, brilhou um arco-íris: uma mesa onde uma criança acompanhada pelos avós carinhosos nos seguia atenta e embevecida e cujo avô nos acompanhou à porta no final, querendo saber mais sobre nós.
Seguimos para os outros dois espaços: ambos cheios como um ovo, com clientes de diversos níveis etários. E aconteceu a partilha: nós atuámos com a nossa entrega e energia e o público correspondeu com a sua escuta ativa, o seu calor, canto, riso, participação, palmas. Aqui houve faísca.

                     

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Meu amor

Sabe, menina, a mim o meu homem nunca me chamou “meu amor”! Não era dado a essas coisas. Ia direito ao assunto, e… pronto!
Ao princípio ainda me queixei…à minha mãe, e ela apressou-se a dizer que ele estava no seu direito, as mulheres tinham que aguentar e sofrer, que era assim desde o princípio do mundo e assim havia de ser …
Ele era um pouco bruto, tinha que ser quando e como ele queria, não sei se me entende, e depois virava-se para o outro lado, e roncava…Eu ficava ali, no escuro, a tentar perceber como é que as raparigas tanto sonhavam com o casamento, no meu tempo sonhavam, menina, acredite, e depois era aquela coisa tão horrível!...
Mas o mudo, sim! Ai, menina, o mudo! Se não fosse ele, nunca eu tinha percebido como “aquilo” afinal podia ser tão bom…Não, não me arrependo!...quer dizer, em tempos, assim uns remorsos, por causa do mudo…Morreu tão cedo…Pobre homem! Tão terno, tão carinhoso…tão…ai! Aquele olhar dele, manso e sereno como as searas, a chamar-me de “ meu amor”!...Dava-me um estremecimento cá por dentro…
Foi por isso que o meu homem…Ficou cego, quando soube. Já andava desconfiado…e eu não tinha como negar…Ele tinha-me por inteiro…O meu homem tinha o meu corpo, tinha direito a ele, mas o meu coração…ai, esse pertencia ao mudo…
Ainda lhe procurei porque me não tinha matado a mim…O mudo não fazia mal a uma mosca…Sabe o que me respondeu? Que eu era precisa para cuidar dos filhos e das terras…
A quem, ao meu homem? Não, menina, nunca o odiei por isso…Ao princípio sentia assim umas ondas de raiva, mas depois passou-me!...E ele não era mau de todo! Era trabalhador, meu amigo e dos filhos, mas não tinha jeito para meiguices, pronto, era tudo à bruta! E eu até lhe queria bem…Não foi só ele que se castigou lá na prisão, olhe que eu também sofri! E tive que criar os filhos sozinha, a minha São ainda não tinha três anos…
Mas o meu mais velho, uma vez, entrou-me em casa, devia ter aí…uns catorze anos, se tanto… olhou para mim cheio de ódio e gritou-me: “ Afinal o pai está na choldra porque vossemecê lhe pôs os chavelhos! “ Oh! Menina, agarrei no cavalo-marinho, e malhei, malhei, malhei, até o diabo dizer “ bonda!”Atão aquele manganão estava a viver debaixo das minhas telhas, e assim me faltava ao respeito? Aquilo era entre mim e o pai dele! E o pai estava na choldra, porque tinha assassinado um homem, pronto! Mas olhe, quer saber? Deu-me uma coisa, atirei com o cavalo-marinho, e desatei a correr pelo campo fora, que nem uma doida! Só parei quando já não tinha forças para dar nem mais um passo…Senti as lágrimas a caírem-me pelos queixos. Depois começou a chover, e fiquei ali a receber aquela água toda, como se precisasse de lavar a alma. E tomei uma resolução: entrei na ribeira, e fui caminhando pelo açude adentro. Já tinha a água pelo pescoço, quando parece que levei uma sacudidela, olhe, há momentos do diabo, mas a gente também os vence…
A menina vai lá botar isto tudo? Mas não prante lá o meu nome, não? Envergonho-me! Atão está bem.
Quando o meu homem saiu da prisão, veio para casa, pois atão! A casa era dele e minha, e eu não sabia o que ele queria fazer. Era o que ele quisesse. Era o meu homem, o pai dos meus filhos, recebi-o na igreja, para o bem e para o mal, até morrer.
Ora, menina, atão, aquilo com o mudo aconteceu, pronto! A gente não pensamos nestas coisas, são tentações, e quando se vai a ver, já está feito! Ai! Mas fui tão feliz com ele! Tinha umas mãos! Ai, ele sabia, ele sabia como se fazem as coisas! Sabe, eu acho que tudo acontece porque tem que acontecer. Não há volta a dar-lhe! Ao princípio revoltei-me muito, mas depois aceitei. Tive tempo para pensar, para pensar muito! O mudo ensinou-me a amar de uma maneira diferente…e vê, depois do meu homem sair da prisão, ainda nasceu o meu Henrique…O meu homem mudou …tornou-se mais atencioso comigo, na cama, quero dizer…Não, nunca me chamou “ meu amor”, mas pronto, tinha um jeito diferente, mais preocupado com o meu sentir, mais desejoso de me fazer a vontade, para eu…enfim…sabe o que eu quero dizer, não sabe?
      A minha mãe, coitada, nunca soube como é uma mulher gozar com um homem! Eu fui feliz com dois…Com o meu homem, só depois de ele sair da prisão…Atão foi assim: quando veio, foi dormir num divã que tínhamos no sótão. Nem nunca falámos do mudo…Eu punha-lhe o comer à frente, tratava da casa, e ele lá ia prás terras, como se nada tivesse acontecido. Não falávamos muito, ele nunca foi de grandes conversas… Andámos nisto à volta de meio ano…Uma tarde, estava eu a pilar umas favas na cozinha, e sinto um olhar em cima de mim. Levantei a cabeça, e lá estava ele na soleira da porta, a olhar para mim muito sério. Eu olhei também para ele, e ficámos a olhar um para o outro uma eternidade. Não dissemos uma palavra! Olhe, não sei como aquilo foi, quando dei por mim, estávamos os dois a rebolar no chão …É como lhe digo! Ai que risada! A partir daí veio prá nossa cama, e olhe, foi até morrer… Nunca me chamou “ meu amor”, mas apanhou-lhe o jeito!

 O mudo entrou na minha vida para eu ser feliz! Nunca o esqueci, nem nunca vou esquecer! Olhe que já lá vão mais de 60 anos! Ai! O que é a vida! Tenho saudades dos dois por igual! E nunca me arrependi de nada! Ó menina, não ponha o meu nome no livro, pelas alminhas! Não quero cá agora problemas com os meus filhos, ainda era o que me havia de faltar! 

domingo, 8 de janeiro de 2017

Com a respiração...

Com a respiração
Entrecortada
De silenciosos temores
Abro-te uma brecha
Na alma parda da noite.
Nunca é demais
Correres ao sabor do vento
Sentes
Dormentes e tensos
Os afagos secretos
Impregnados
De líquidos acenos
Rabiscados no fragor das ondas
Também os violinos me crescem nas mãos
Como saber quando parar
Agora que já nem o sonho
Me espanta nas manhãs

Sonolentas que te remeto. 

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

O Gato



Há algum tempo que me debato entre a vontade de ter um gato, e o medo de, por qualquer motivo, vir a sentir que abri portas a um empecilho de que não me apetece cuidar. Sempre que aparece algum artigo que fala de gatos, leio, com curiosidade, vou-me apercebendo da grande espiritualidade que lhes é atribuída, e vou-me deixando conquistar pela personalidade destes bichanos.  
Mas a decisão tarda a vir. De vez em quando, aparece uma ou outra amiga a oferecer-me um bichano. Tenho respondido que gosto deles pretos. Desta vez, a oferta era irrecusável: um gatinho preto, de olhos verdes, manso (por enquanto), estava pronto a ser por mim adotado.
Cortei-me. Consultei o meu filho, que se mostrou favorável ao acolhimento de um novo membro na família. Consultei a minha filha, que mostrou uma grande abertura, confessando como também ela gostaria de ter um, mas como o marido é alérgico, está fora de questão. Mas também me alertou para o caráter imprevisível de alguns deles, dando-me referências de bichanos que pertenciam a algumas das suas amigas. Uns meigos, outros completamente malucos e agressivos... É preciso certificar-me da índole do animal. Fora isso, são muito independentes, não dão trabalho, ficam sozinhos por períodos curtos…
Mas, pensei: e se adoece? E se se revelar deficiente, com o de uma das suas amigas? Se tiver um gato, tenho que ser responsável por ele, pensar que, nos próximos …vá lá…15 anos, estou de vida atada a um gato…Não quero ter de devolver o bicho…Se tomar essa responsabilidade, tem que ser para o melhor e para o pior, até que a morte nos separe, a dele, ou a minha. Pois…bem sei que estas promessas se podem violar… Mas não quero ter que me divorciar de um gato, pronto! Perguntei ao meu marido. Ficou ligeiramente alterado, enquanto me dizia que, se eu tomasse essa decisão, o gato era exclusivamente meu, não queria saber da existência do animal, eu é que dava comida, cuidava, levava ao veterinário… Sabia muito bem como eram as coisas, o que tinha acontecido com a cadela, que era minha, mas depois ele é que teve de cuidar…
Respondi-lhe que a cadela tinha vindo para casa a conselho do pediatra, por questões terapêuticas…Era benéfico para um desenvolvimento saudável dos miúdos, partilhar a responsabilidade de um animal. A cadela não era minha, era deles. Mas, de facto, quem tratava, era eu. Até ficar farta de estar constantemente a limpar a trampa que ela fazia, pois nunca a consegui educar a fazer as necessidades num sítio certo.
Bom. Decidi, então, que não ia haver gato. A nossa filha quis saber porquê. Eu comecei a explicação: porque o pai…
O meu marido innão gostou.
__Alto lá! Não é porque eu…Se quiseres assumir, assumes, mas o gato, para mim, não existe.
__Então, e nós somos o quê? Eu vivo contigo, ou vivo com o vizinho? Não somos uma família? Eu só traria um gato para casa, se tu aceitasses…
__Pois, com a cadela…
__Mas a cadela foi diferente…Tu não querias, mas eu achei que era importante para os nossos filhos…E tu acabaste por aceitar e gostar dela…
A conversa ficou por aqui, para se não azedar.
Hoje fazemos anos de casados.
O meu marido apareceu em casa com um ar comprometido. Trazia uma caixa com ele. Pousou-a em cima da mesa, e disse-me:
__Nem sabes o que aconteceu! A Dona Ermelinda, aquela minha cliente que mora na aldeia, e nos costuma mandar ovos…
__Sim!...__ respondi com um grande sorriso, adivinhando o que vinha na caixa, enquanto o meu olhar ufano e surpreendido passava da caixa para ele, e dele para a caixa.
__Deu-te um gato!...__ rematei
Ele limitou-se a assentir com a cabeça, lentamente…
Dirigi-me à caixa, levantei a tampa, ansiosamente, e… lá estava um gato: um gato bem lustroso, não preto, como eu sonhara, mas castanho. Castanho dourado. Jazia no fundo da caixa, inerte, sereno, placidamente. Sem uma palavra, tirei o gato da caixa. O gato era de louça.

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

A vingança serve-se fria

Sabia bem o quanto era o alvo da chacota deles todos. Gozavam com a sua fala arrastada, com aquele som que lhe saía como se tivesse o nariz entupido, com as palavras que se lhe enrolavam na língua e que ele não conseguia pronunciar como os outros. Gozavam com a sua falta de jeito, com a lentidão com que fazia as coisas, com os pensamentos que se lhe atropelavam e que não conseguia explicar. Sabia muito bem que quando o convidavam para um copo e uma sardinha na taberna do Ti Zé das merendas, era só para se rirem dele. Deixá-lo! Fazia-se teso, como se aquelas gargalhadas de escárnio se lhe não entranhassem na pele, nos ouvidos, no cérebro, e não lhe ficassem a martelar na cabeça, impedindo-o de dormir logo, como gostava.
Um dia…um dia…havia de se vingar…bem, ele lá se ia vingando à sua maneira, rindo-se com eles das suas próprias incapacidades. Mas, pelo menos, não se deitava com a barriga vazia. Dava-lhes o que eles queriam. E recebia o que lhe fazia falta. Mas eles é que perdiam, sem se aperceberem que até exagerava nas palermices, inventava coisas que não fazia, armava-se num trapalhão ainda maior do que era. E ao arrancar-lhes tantas gargalhadas, que alguns até diziam que se mijavam a rir, tinha a certeza de que o garrafão se ia inclinando generosamente para lhe encher o copo sempre que estava vazio, que podia surripiar à vontade as lascas de bacalhau, as iscas de presunto. E exagerava nos olhos arregalados, na cara de parvo com que Deus o castigara, arrancando gargalhadas daqueles alarves. No fundo, era a sua maneira de sobreviver, tal como fazem os palhaços, no circo, ou os atores no palco.
Ouvia-lhes os comentários nas costas, pensando talvez que os não ouvia, ou não percebia o alcance do que diziam:
__O Tó Tonto é cá um personagem!
Pois bem! Que pagassem pelo tanto que se divertiam.
Um dia convidaram-no para uma jantarada. Tinham caçado um javali. Convidaram-no para ser o bobo que ia diverti-los a todos. Já sabia o que lhe iam perguntar: como tinha morrido o avô.
Ai o avô fazia-lhe tanta falta! Agora já não tinha ninguém! Tinha morrido a única pessoa que o amava, que o conhecia por dentro e por fora, a única pessoa com a qual não precisava se fingir, de se fazer mais tolo do que era. Era tão carinhoso para ele! Mas às vezes, também um tanto impaciente. Dormiam juntos, na mesma cama. No inverno, debaixo dos cobertores puídos, confortavam-se com o calor do corpo um do outro. Durante o último mês, andara a arrastar-se pelos cantos, chorava com uma criança, sem vontade de rir, de comer, de dormir. E eles divertiam-se, quando lhe perguntavam como tinha morrido o avô e ele se perdia em pormenores, contando tintim por tintim a agonia do avô, trazendo até à praça a sua intimidade. Bem via como todos se riam, embora se fingissem muito pesarosos, mas ele não conseguia deixar de falar nos últimos dias da existência daquela alma que tanto o amara…Chamavam-no para ao pé deles, e riam-se nas suas costas com o seu relato. Não sabe como se aguentou. Só bebia, e, ao outro dia, quando acordava, todo vomitado, nem sequer sabia como fora parar à cama.
E agora convidavam-no para se divertirem à sua custa e do avô. Se pensavam que iam levar a melhor, estavam enganados. Esperavam que ele chorasse baba e ranho, que ficasse muito dolorido, enquanto eles enfardavam do javali.
Ouvia-os cochicharem. Houve quem perguntasse que fazia ele ali. Que já eram bocas de mais, que davam bem conta do recado sem aquela boca glutona a roubar-lhes os bocados mais apetitosos. Que não se amofinasse, responderam, que ele ia desatar a choramingar e não ia comer nada. Fingiu-se de tolo, como convinha, papel, aliás, que ia muito bem com ele.
Quando se atirou a um bom naco de javali, bem viu pelo canto do olho as cotoveladas que alguns trocaram, numa chamada de atenção para o porem na ordem. Veio então a pregunta que ele já esperava.
__Então, Tó, conta lá, como é que morreu o teu avô?
E a resposta veio rápida e concisa, tão rápida quanto a sua deficiência na fala lhe permitia:
__ De repente!
E ponto. E, enquanto os seus anfitriões se refaziam da estupefação, enterrou os dentes no javali, e foi emborcando os copos de tinto. E, naquela noite, ninguém mais lhe arrancou uma palavra, enquanto se não sentiu completamente saciado.
Foi a sua vingança.

quinta-feira, 5 de maio de 2016

A mãe...

A mãe tem a dor da tua ausência
A morar com ela…
Tem o eco dos teus passos
A ressoarem nas escadas
Aquele bater da porta
Quando por ela entravas,
O eco da tua voz a chamar por ela.

Tem a dor da tua ausência
Presente em cada gesto,
 Em cada um dos segundos
Da sua vida
Subitamente desabitada de ti…

Na casa instalou-se o vazio.
Eras tu o seu esteio, a sua força,
O seu porto seguro…
Mesmo nos teus gestos mais ríspidos,
Nas tuas palavras mais impacientes,
Estavas tu, inteiro e material.

Acudia ao teu apelo,
Tocava-te, e estavas ali.
Custava-lhe a acreditar
Que o seu homem tão forte
Fosse feito de fraquezas.
E quando te abraçava
Sentia os teus ossos a furarem a pele,
A confusão a turvar-te o discurso sempre fluido,
A bengala mais pesada e titubeante…
Mas ignorava os sinais…

Partiste, e o vazio instalou-se.

Os gestos que ora inaugura
São tímidos, inseguros,
Perdidos do caminho
Que sempre para ela traçaste…

E eu sinto-a frágil, inquieta,
A soerguer-se do pesadelo da tua partida,
Os passos inseguros, o olhar ainda incrédulo…

Mas enquanto profundos suspiros
Lhe sobem do peito,
E a sua alma desliza nas lágrimas
Silenciosas que lhe correm pela face,
Vai lentamente tecendo
Forças nas suas fragilidades
E eu sinto-me submersa de ternura…

Dói-lhe caminhar sem ti.
Dói-me sabê-la sem ti.
Dói-me…dói-me…dói-me.



segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

O EGO


Há pessoas com o ego tão empolado, que acreditam que o mudo gira à volta delas e do seu umbigo.
 Há pessoas que fazem o que podem para sabotar o trabalho dos outros.
Há pessoas que se julgam imprescindíveis para que as coisas rolem. E se as coisas rolam, apesar da sua demissão, hasteiam o discurso de preteridas, porque as suas opiniões iriam estorvar as decisões dos outros.
Há pessoas que esquecem que democracia não é os outros fazerem o que elas desejam.
Há pessoas que às vezes precisam de largar a carga inútil para poderem avançar.

Há pessoas e pessoas.

sábado, 26 de setembro de 2015

O Coelhinho da menina

Era uma vez uma menina que adorava bebés. Quando alguém lhe perguntava:
__  De que é que tu gostas, minha menina?
Ela respondia:
__ De bebés.
Ou:
__ O que é que tu queres?
 __ Ela respondia:
__ Um bebé.
Se lhe perguntavam em que estava a pensar, respondia:
__ Num bebé. Eu queria um bebé!...
Os adultos passavam a vida a fazer-lhe sempre as mesmas perguntas, só para ouvirem as mesmas respostas de sempre. E achavam muita graça à menina e riam-se com as suas tiradas. Mas a menina não percebia onde estava a graça.
Um dia a família foi visitar uns tios da menina, que viviam muito looooonge, lá para os lados da capital. Esse lugar chamava-se Lugar de Murches. A casa dos tios tinha um enorme quintal com uma horta. Nos fins-de semana e depois do trabalho, o tio cultivava tomates, abóboras, uvas, cebolas e outras coisas. Lá havia uma capoeira, um pombal, e até…vejam lá! Coelhos. Em casa da avó da menina também havia capoeira com galinhas, mas a avó da menina não gostava que  brincasse com elas, pois dizia que lhe podiam furar os olhos. E também havia um pombal grande, que o pai tinha construído, com muitos pombos. Coelhos é que a menina nunca tinha visto. E ficou ali, muito espantada, a olhar para eles. O tio percebeu a admiração da menina, e, como gostava muito desta sobrinha, filha da sua irmã mais nova, tirou da coelheira um coelhinho branco que mais parecia uma bola de algodão, e colocou-o no colo da menina. A menina estremeceu de contente. Começou a fazer-lhe festinhas, com toda a delicadeza, a dar-lhe beijinhos, a falar com ele com toda a ternura. O bichinho aninhou-se no colo da menina.
O tio da menina enterneceu-se, e disse:
__ Olha, olha, o coelho gostou de ti.
A menina não respondeu: abraçou-se ao coelho, esfregou o rosto no pelo do animal,  e só o deixou voltar para a coelheira, quando o tio lhe explicou que o bichinho já devia estar com saudades da mãe.
Nos oito dias que ali passaram, a menina só queria estar junto daquele coelhinho, e o tio satisfez-lhe a vontade.
O grande problema foi na hora de voltar para casa. A menina agarrou-se ao bicho, e chorava, chorava, chorava.
__ Eu gosto muito dele! E ele também gosta de mim! Eu não quero ir embora sem o meu Coelhinho!
O tio não conseguiu resistir à tristeza da sobrinha, e declarou:
__Bom, isto foi um caso de amor à primeira vista. Pois o coelho é teu, minha joia!  
Quando a menina ouviu estas palavras, o seu contentamento não teve limites. Abraçou o tio com um bracinho, enquanto com o outro segurava o seu tesouro contra o peito.
O tio arranjou uma caixa de cartão, e fez-lhe uns furos para o coelhinho poder  respirar. A pequena bem queria fazer a viagem com ele ao colo, mas o pai disse que não, que ele ia sujar o carro todo. E quando o pai dizia que não, era mesmo não. E a caixa viajou no porta-bagagens da carrinha. A pequena estava constantemente empoleirada no banco, sem tirar os olhos da caixa, com medo de que ela pudesse desaparecer. Naquele tempo ainda ninguém tinha inventado as cadeiras nem os cintos de segurança nos carros. A viagem era estafante, e ela acabou por adormecer.
Quando chegaram a casa, onde decidiram colocar o coelho? No pombal. A menina ainda sugeriu que o queria a dormir na sua cama, mas o pai disse, meio sério, meio a rir:
__ Tu não sabes o que dizes!
O pombal, além das casinhas para cada casal de pombos, tinha um espaço muito grande, com rede a toda a volta, para eles poderem voar, e, por isso, o coelhinho, ocupou uma das casinhas do rés-do-chão que estava vaga. E ali ficou, em são convívio com os pombos. E a garotinha nunca mais falou em bebés.
Certo dia, a menina ouviu uma conversa que a deixou intrigada. O caseiro dizia ao pai que devia dar milho e água ao coelho, para crescer mais depressa e ficar muito saboroso.
O tio tinha-lhe ensinado que os coelhos gostavam de cenouras, alface, couves, e o Zé da Volta queria dar-lhe milho? Ela sabia muito bem o que queria dizer saboroso, porque o pai, às vezes, quando estava a comer, dizia:
__Ó mulher, isto está muito saboroso!
Mulher era como o pai chamava a mãe. E fazia uma cara de contentamento, por isso, saboroso é uma coisa boa, uma coisa de que se gosta.
A menina achava que o seu Coelhinho já era bastante saboroso, pois ela gostava muito dele, mas, se ainda ia ficar mais saboroso, melhor. Por isso não se espantou, quando o seu Coelhinho começou a ser alimentado com milho e água. Ao princípio, o coelho parecia não gostar muito desta dieta.
__ Olha, Coelhinho, é muito importante! Tens que comer, para cresceres, e ficares muito saborooooso, sim?__ explicava a menina com muita meiguice. E acompanhava as explicações fingindo levar o milho à boca e mastigar.
__Tão saboroso! __dizia.
Parece que ele percebeu, pois acabou por comer e nunca mais recusou este alimento.
Ela continuava a pegar-lhe ao colo, a fazer-lhe festinhas, a dar-lhe miminhos e a conversar com ele. Mas cada vez era lhe era mais difícil pegar nele.  Estava tão pesado!
Um dia a menina foi dar com o irmão a correr atrás do seu Coelhinho, fora do pombal. E disse-lhe:
__Não faças isso! O Coelhinho não gosta! Fica muito cansado!
__Ora! Quando for para a panela, o cansaço passa-lhe.
__Para a panela?! Ele não vai a lado nenhum sem mim!__ respondeu, ainda sem perceber o alcance das palavras do irmão. Mas as gargalhadas que ele soltou  feriram-lhe o coração.
__Também queres ir para a panela?! Em arroz de cabidela?!
 A menina ficou parada, de boca aberta, olhos escancarados, a olhar o irmão. De súbito desatou numa gritaria tão grande, tão grande, que a mãe acudiu.
__O que fizeste à tua irmã?
__Eu? Nada! Só lhe disse a verdade!
A pequena soluçava, sem conseguir falar. A mãe pegou-lhe ao colo, a tentar confortá-la
__Ele diiiiii….sse…que…o coooo…eeeeee…lhinho vai prá paneeeeee…laaaa…não vai, pois, não, mamã?
A mãe lançou um olhar furibundo ao filho mais velho.
E, enquanto lhe afagava os cabelos, dizia-lhe:
__Sabes, filhinha, os coelhos são para comer, como as galinhas…!
__Mas o meu Coelhinho não, pois não, mamã?
__Mas arranjamos outro, sim, meu amor?
__NÃOOOOOOOOOOOOOO! O meu Coelhinho não!
E a menina continuava a soluçar.
__ Pronto, está bem, eu vou falar com o papá, sim?
__Siiiiiiiiim ! O meu Coelhinho não, o meu Coelhinho não.O coelho da menina ficou em paz durante algum tempo. Certa manhã, a garota chegou ao pombal para brincar com o Coelhinho, e ele não estava lá. A mãe então contou-lhe que o Coelhinho adoecera e morrera durante a noite e que o caseiro o levara, para enterrar na quinta. Ela já vira alguns pombos-bebés mortos, e já sabia que a morte apaga a dor das pessoas e dos animais. Por isso chorou, com saudades do Coelhinho. E enquanto as lágrimas iam correndo pela carinha dela, ela dizia para a mãe:  
  __Olha, mamã....eu quero... um bebé, sim...?

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Pensão de luxo

À Marimília foram sempre poupados os duros trabalhos do campo, demasiado pesados para a sua humilde compleição. Mas desde novinha que se mostrou hábil a preparar as refeições, a apurar os guisados, os assados, a escolher as ervas e os temperos capazes de transformarem uma simples refeição em algo delicioso e diferente, numa explosão de sabores irresistível e deliciosa. Das suas mãos saiam os pratos mais apetitosos, aptos a satisfazerem os paladares mais exigentes e apaziguarem os estômagos mais carentes.
Fez-se cozinheira. Era requisitada para festas, casamentos, batizados… Mas era preciso comer todos os dias, não só nos dias de festa. Especializou-se na confeção de enchidos. Dos arredores, e até mesmo de Lisboa, onde os conterrâneos apregoavam os seus dotes, chegavam encomendas das suas maravilhosas chouriças, morcelas, alheiras e farinheiras, que não tinham igual. Em breve era ela a única fonte de rendimento, o homem da casa, já que o seu não conseguia granjear o sustento, sempre doente, com aquela tosse cavernosa a encher as noites de arranques e roncos aflitivos. Marimília cedo percebeu que a única filha, a pequena Alice, nunca herdaria a sua profissão. Por mais que tentasse introduzi-la nos segredos da cozinha, a pequena não mostrava gosto nem jeito. Enjoavam-na os odores dos temperos, deixava esturricar os refogados, os estufados resultavam enxaguados e sensaborões, as sopas ora salgadas ora insonsas…
Nunca conseguiria sustentar-se, se ela não lhe encaminhasse os passos. Que a pequena era bonita, disso não havia qualquer dúvida. E tinha qualquer coisa, que nem ela saberia dizer bem o quê, talvez o olhar ingénuo, num corpo que desabrochava bem provido de atrativos…Se as duas fossem espertas, esses atributos poderiam conquistar-lhe um marido rico e uma boa vida…
Alice foi crescendo. A mãe ia-lhe alimentando a vaidade, e os luxos. A rapariga até se julgaria rica, não fosse a imposição da mãe para ir trabalhar na fábrica de lanifícios da aldeia, pois já tinha bom corpo para isso. Fez o pedido ao sr. Antoninho, o  dono da fábrica. A rapariga aprendia bem, tinha uma letra bonita, e foi contratada para ajudante do guarda-livros. O seu bom feitio, aliado a dois palmos de cara atraentes, depressa conquistaram a atenção do patrão.
Quando o sr. Antoninho enviuvou, Marimília entendeu que o destino estava a jogar a seu favor, e começou a conceber o plano. Foi sondando a sua Alice, enchendo-lhe a cabeça de sonhos, e dando-lhe instruções precisas de atuação. A rapariga insinuava-se cada vez mais, mas o patrão continuava mergulhado na sua mágoa.
__ Tens que ser mais esperta, Alice! __dizia-lhe a mãe __Olha que não hão de faltar por aí lambisgoias prontinhas para lhe deitar a mão!
__ Oh! Minha mãe! O pobre não tem olhos para ninguém, anda tristinho como a noite!
__Pois sim, mas a tristeza não vai durar sempre, e quando acabar, tens que estar lá, e ele perceber que te preocupas …
E Marimília fechava-se nos seus pensamentos, endrominando planos …
Até que um dia…
__Olha, pergunta lá ao teu patrão se gosta de chouriças…
A resposta veio, célere.
__ Adora, minha mãe!
__Pois então, quando vier o tal dia do mês, avisa-me!
__ O tal dia do mês?!
__ Sim, minha parva, as regras!...
Marimília acreditava que o caminho certo para chegar ao coração de um homem era através do estômago, e, se ele se mostrasse renitente, havia sempre outros truques para ajudar. Bastava uma gotinha da “história” de Alice, nem de mais, nem de menos…apenas na conta certa. Resultava sempre.
Num sábado à tarde, Alice apresentou-se no escritório da fábrica, onde tinha a certeza que iria encontrar o patrão. Uma cestinha forrada com um paninho de linho bordado, onde não faltava uma boroa, uma garrafinha de vinho tinto, outra de aguardente para assar a chouriça na pequena assadeira de barro. O decote mais aberto que habitualmente, como que sem dar por isso, a deixar entrever carnaduras virginais…
__ Para o patrão, um miminho só para o ver sorrir outra vez.
Antoninho comoveu-se, e quis partilhar com Alice a iguaria…Mas a rapariga apenas aceitou um cantinho de boroa, para não fazer desfeita, já que comia tantas chouriças, que, por vezes as enjoava…
Ao chegar a casa, a mãe esperava-a como o caçador espreita a sua presa…Alice trazia no rosto um rubor prazenteiro, e um sorriso largo…
__ Então, ele comeu a chouriça?
__ Comeu, minha mãe, até chupou o baraço…
__Está no papo, filha!...O homem é teu, é teu…
E foi. Antoninho teve de vencer a resistência da mãe, da sogra, que com ele cortou relações e exigiu que lhe fossem entregues os três netos.
Do casamento nasceram duas meninas. Mas, apesar da vida desafogada, das  criadas que lhe poupavam o trabalho da casa, Alice, agora Dona Alicinha, não foi feliz. Antoninho adoeceu, com uma doença estranha, incurável, que lhe tomou conta do espírito e lhe chupou o corpo, uma doença que o tornou instável, louco de ciúme, violento. Dona Alicinha ficou viúva. Após uma querela interminável pela posse dos bens, pouco mais lhe restou que a casa onde vivia, e onde Antoninho já vivera com a primeira mulher. Era uma casa enorme, recheada com móveis luxuosos, tapetes orientais, porcelanas, salvas e faqueiros de prata, bragal de linho bordado, colchas de rendas, sedas e cetins. Dona Alicinha viu-se a braços com um casarão que não sabia como manter. Valeu-lhe o espírito empreendedor da mãe, que, mais uma vez, veio em seu auxílio. Instalou-se no casarão, ou melhor dizendo, na cozinha. Em poucos dias a decisão estava tomada, e, após um mês para reorganização dos espaços, a casa da Dona Alicinha abriu-se ao público para receber hóspedes.

Não tardou que a fama das ótimas instalações e comida primorosa da casa da Dona Alicinha chegasse longe. Para isso contribuiu, certamente, a calorosa anfitriã. Nunca ali faltavam os que procuravam repouso, consolo, ou refrigério no colo e nos braços sempre generosos da Dona Alicinha, que a nenhum hóspede negava os seus talentos. 

segunda-feira, 22 de junho de 2015

O Elevador

Um suor frio perlava-lhe a fronte.
Ficara novamente encurralada no elevador. A repetição desta situação provocava-lhe náuseas de revolta. A administradora do condomínio andava a brincar com os moradores! Pois!...Morava no rés-do-chão...
Furiosa, carregava no alarme ininterruptamente. Eis senão quando…
Espanto!...A porta do elevador abriu-se!...
O vizinho do sétimo, um calmeirão gorduroso, barba por fazer, entra no elevador e sussurra:
__Sua marota! Outra vez a avariar o elevador?!
E carrega no botão para a cave.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

O carrocel

Já há algum tempo que eu estava naquele antiquário morrendo de tédio.
Num domingo à tarde, um casal entrou na loja, e foi percorrendo com o olhar as diversas antiguidades, velharias e quinquilharias.
A mulher deteve-se em frente da prateleira onde eu estava exposto. Olhou-me demoradamente, e eu senti um frémito de prazer percorrendo-me o corpo. A atração foi mútua, pensei eu. Mas depressa os seus olhos se desligaram de mim e passearam por outros objetos da loja. Senti-me desiludido.
Algum tempo depois, a mulher voltou. O dono acudiu:
__É uma caixinha de música, sabia?
__ A sério?!
__Sim. Quer ouvir?
O dono pegou-me, e rodou o círculo onde os quatro cavalinhos de madeira estavam implantados. Dentro de mim soltou-se a música de embalar, enchendo o espaço de estrelas e encantamento.
__É isto mesmo que eu quero! Rui, olha, para o Afonso!
__ Mas para quê?
__ Para ele adormecer… para se acalmar, quando…percebes?
Aquelas palavras eivadas de mistério e ansiedade aguçaram a minha curiosidade. Antes de dar ordem para me embrulhar, as mãos da mulher afagaram gentilmente o meu corpo, desde o pináculo, os rebordos, passando pelos cavalinhos, pelo círculo branco que girava e comandava a música, até à base de madeira pintada de vermelho.
Não tardei a perceber. Mal chegaram a casa, a mulher correu a colocar-me num quartinho infantil, numa estante de onde convergiam duas caminhas dispostas em L. Nessa noite eu assisti ao ritual. Duas crianças em pijama entraram no quarto, riram, brincaram, saltaram sobre os colchões. A mãe, a mulher que me comprara, veio, contou-lhes uma história, aconchegou-os. Rodou o manípulo, os cavalos giraram, e a música desprendeu-se. A menina adormeceu quase instantaneamente.
O rapazinho soergueu a cabeça, e disse:
__Que lindo, mamã!
__Vá, dorme! __ cochichou a mãe, assentando um último beijo na testa do menino.
Apagou a luz, e deixou a porta do quarto entreaberta, permitindo que, do corredor, uma ténue faixa de claridade se projetasse no tapete do quarto.
Mas o rapazinho não adormecia. Constantemente chamava a mãe. A mãe chegava, rodava o meu manípulo, e a música soltava-se. O menino acalmava-se durante alguns instantes, a mãe saía, e tudo voltava ao mesmo. Finalmente adormeceu. Tudo ficou em silêncio. Eu também adormeci.
Fui acordado por uns gritos lancinantes a romperem a noite.
O rapaz gritava, aterrorizado, clamando pela mãe. Ela irrompeu pelo quarto, pegou no filho ao colo.
A criança tinha os olhos abertos, mas fixos, parecendo não ver. A mãe abraçava-o, proferindo palavras de conforto que não logravam romper o muro que os separava.
__ Acalma-te, meu filho, acalma-te! A mamã está aqui! A mamã está aqui!
Mas a criança continuava a berrar, encerrado no seu terror, percorrendo, solitário, a escuridão. A mãe chorava, impotente e em pânico.
Logo a seguir entrou no quarto o homem. Envolveu no seu abraço a mulher e o filho, sussurrando:
__Sssssshhhhh! Sssssssshhhhh!
De repente o homem saltou em direção à estante, pegou-me, fez girar o meu mecanismo, e a música fez-se ouvir. Pouco a pouco a criança foi-se acalmando, e acabou por adormecer. Eu ouvia o choro silencioso da mãe e pressentia a sua angústia e desespero. O homem saiu do quarto e a mãe ficou, culpabilizando-se, talvez, por não conseguir que a sua voz chegasse ao interior do seu menino. Quando a música parou, a mulher fê-la voltar ao início. Esta foi a primeira noite em casa desta família. Foi, talvez, a mais dura de todas. Aquela que me fez perceber a esperança que aquela mulher depositou em mim, quando me viu, pela primeira vez, no antiquário. Muitas outras noites se seguiram. Todas as noites eu trabalhava. De vez em quando repetiam-se estes episódios de terror. No dia a seguir a estas ocorrências, o menino acordava cansado, mas não se lembrava de nada. Eu fui percebendo a importância da minha música para aquela criança, mas, sobretudo, para a mãe. O Afonso cresceu. Os terrores noturnos foram reduzindo de frequência e intensidade, até acabarem definitivamente. E eu fui atirado, pelas mãos do rapaz, para o fundo de um caixote, na companhia de alguns peluches, spiderman´s , e tartarugas Ninja.
Durante alguns anos estive adormecido no sótão. Até que…
Um dia a tampa da caixa onde estava guardado levantou-se, e uma réstia de luz acordou-me. Ouvi uma exclamação de espanto. Era ela. Pegou-me com carinho, fez girar o meu manípulo, e a minha música ecoou naquele exíguo espaço.
Desde esse dia, tenho tido lugar de destaque entre as coisas de que ela mais gosta: os seus livros, e outros objetos de estimação. Até já fui estrela numa peça de teatro em que ela entrou, onde fui ovacionado de pé por uma casa cheia. Voltei a sentir-me importante. Todos os dias sou acariciado pelo seu olhar. E continuo, até hoje, a acalmá-la com a minha música, e, às vezes até, a inspirá-la.

Sinto-me amado.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

A aldeia dos sonhos perdidos

Naquela aldeia encaixada nas montanhas, só viviam pessoas idosas, viradas para si mesmas, dentro das suas casas tristes, onde, muitas vezes, nem a luz do sol deixavam entrar. Viviam entregues às saudades da juventude, e, pouco a pouco, foram deixando murchar os sonhos que em tempos moraram dentro delas. Até já se tinham esquecido de quando as varandas estavam repletas de flores, e as melodias que lhes nasciam na alma, irrompiam pelas gargantas e enchiam os campos de sons harmoniosos que ficavam a pairar no ar.
Nesse tempo, quando uma cantiga se escapava por uma porta ou uma janela, logo outra respondia do outro lado da aldeia. E outra do outro canto, e do outro, e do outro…
E quando andavam na labuta nos campos, era a mesma coisa. A atmosfera ficava prenhe da música dos pássaros e das cantigas que os camponeses cantavam ao desafio.
Havia jovens e crianças na aldeia, nesse tempo. Depois da escola as crianças corriam para a ribeira, para pescarem e nadarem. Os mais velhos tomavam conta dos mais novos, e ensinavam-nos a nadar, a escolher o melhor isco para as trutas, as bogas, os achigãs…
Nas longas tardes de verão, sentados ao sereno, sob a luz das estrelas e do luar, ouviam-se histórias acompanhadas com música, que os mais novos escutavam com atenção e religiosidade. No inverno, era ao calor da lareira que os pequeninos adormeciam, embalados pelas histórias dos avós. Assim aprendiam a interpretar os ciclos da vida, a escutar o palpitar da Natureza, a amarem-na, a respeitarem-na. Era uma aldeia feliz…
Mas as crianças cresceram e partiram, levando os seus sonhos na bagagem. A escola fechou, as ervas tomaram conta dos recreios e invadiram as salas de aula. Os campos ficaram ao abandono. Sem alma, muitas casas ameaçavam ruir de solidão e esquecimento. Os pais dessas crianças eram agora os idosos da aldeia. Passavam o dia inteiro lamuriando-se. Já não queriam saber de nada. Viviam dentro das casas, trancados nos seus problemas. Nem mesmo os que ainda podiam caminhar, se atreviam a ir à rua. Arrastavam-se de ombros descaídos, olhos postos no chão. Não ouviam os pássaros,  nem o silêncio da noite, e tinham esquecido o gesto de levantar a cabeça para olhar as estrelas…Muitos tinham emudecido, à força de não usarem as palavras para se expressarem… Estavam a deixar-se morrer. Tinham perdido os sonhos.
Um dia um jovem chegou à aldeia. Trazia estrelas nos olhos e sonhos na voz. E uma concertina. Chegou ao adro da igreja, sentou-se no meio do chão, com as pernas cruzadas e começou a tocar, com alma e entusiasmo. Tocou, tocou, tocou, tocou… Nas janelas, algumas cortinas curiosas levantaram-se cautelosamente, mas ninguém apareceu no adro. Ao fim de uma hora, o jovem partiu, e no ar ficou o eco das músicas que os idosos identificaram, depois de procurarem nos escaninhos da memória.
Naquela noite, muitos adormeceram com uma grande nostalgia no coração. A nostalgia da felicidade.
Eram quase três horas da tarde quando, no dia seguinte, a acalmia foi interrompida pela concertina do jovem. Ele tinha voltado. Agora caminhava por todas as ruas e vielas, tocando a sua concertina. Com um reportório renovado. E, ao fim de uma hora, partiu. Em todas as casas se gerou agora um sobressalto: que fazia ali aquele rapaz? Que queria ele? Tocava tão bem!
Muitos recordavam os dotes musicais que tinham deixado cair no esquecimento. Houve quem tivesse ido procurar os instrumentos que havia tocado em jovem, e experimentado a firmeza dos dedos agora rígidos, ou tivesse levado à boca os instrumentos de sopro…Houve quem tivesse começado a trautear timidamente as cantigas que entoara em tempos…Houve quem pensasse que não estava para cantigas…Houve que sentisse um estremecimento na alma…Houve quem chorasse de emoção…Mas as portas continuaram fechadas.
Porém, em todas elas, a expetativa ia tomando conta dos habitantes: voltaria o jovem no dia seguinte?
Naquela noite, houve quem não conseguisse dormir…
 Perto das 3 horas da tarde, adejavam cortinas impacientes por detrás das janelas das casas que circundavam o adro. Nas outras, colocavam-se os ouvidos de atalaia, e descerravam-se as janelas… Já passavam 10 minutos das 15 horas quando a música da concertina do jovem o fez anunciar, antes da sua figura desembocar no adro. Um suspiro de alívio de que só os próprios se aperceberam, soltou-se em uníssono dos peitos expectantes. De repente, uma porta abriu-se, soltando um dolente queixume. E os passos trémulos do ti Albano encaminharam-se para o meio do terreiro, onde estava o jovem. O ti Albano encostou o violino ao pescoço, rapou do arco, e começou a acompanhar a música que o jovem tocava. Os olhos do bom do velho estavam húmidos. Não foram precisas palavras para os dois se entenderem. Já tocavam há meia hora, quando a velha professora se aproximou timidamente com o seu cavaquinho. E as duas irmãs que moravam no fundo da aldeia, vieram com as suas vozes trémulas, mas ainda bonitas, acompanhar os músicos. E, já mesmo quase na altura do jovem partir, também os velhos da casa amarela se juntaram ao coro. Passou uma hora e o jovem partiu, sem uma palavra, deixando os idosos que se aventuraram a furar a solidão forçada, cheios de perguntas. Envergonhados, regressaram aos seus refúgios.
Naquela aldeia, algo estava a acontecer. Houve janelas que se abriram e deixaram o sol penetrar pelas casas. Houve quem viesse sentar-se na soleira da porta, à noite.
No dia seguinte, quase todas as janelas se abriram, e houve vizinhos que se saudaram. Havia sonhos a irromperem nas almas abandonadas.
À hora habitual todos estavam preparados para receberem a música nos seus corações. Mas o jovem não veio. Nem no outro dia, nem no outro, nem no seguinte. Houve quem chorasse de raiva, de desilusão. Houve quem caísse à cama, sem coragem para se levantar. Houve quem dissesse que já sabia que aquilo ia acontecer. Os aldeões sentiam-se traídos, sem saberem explicar a si mesmos porquê, já que nada lhes fora prometido. Estavam agora mais sós do que nunca.
Mas quando já o desespero  corroía a esperança, eis que soa a música da concertina. Desta vez, como se obedecendo a um sinal combinado, as portas abriram-se, e as pessoas saíram alegres para a rua. Poucas foram as que ficaram em casa. Só mesmo as que não puderam arrastar-se.

Hoje, passados que são dois anos sobre o aparecimento do Xico na aldeia, custa a acreditar que aquela banda de rock da terceira idade que toda a gente conhece, e que já ganhou alguns prémios, seja formada pelos habitantes daquela aldeia que só estavam à espera de morrer. Os milagres acontecem, se não perdermos a capacidade de sonhar.